Dois Lados

25 Capítulo 24


– Vic? Vic... – eu ouvia a voz de Josh distante. Eu me sentia entre um sonho e a vida real. E então algo me puxou para a realidade.

– Ah! – eu gritei, levantando rapidamente.

– Vic, está tudo bem, eu estou aqui. – disse Josh me abraçando.

Por alguns segundos havia esquecido tudo. E então tudo veio à tona com uma rapidez indescritível, quase fez minha cabeça explodir. E então desabei em lágrimas e me segurei em Josh.

– Onde está... – minha voz falhava. – Emma e... Kate. – sussurrei.

– Emma está bem. Walt a ajudou a entrar, ela acordou pouco tempo depois. – ele apontou para uma figura no balcão. – Ela não falou nada a não ser “eu me viro” desde o acontecido. – ele me lançou um olhar solidário como se tivesse tendo cuidado com cada palavra.

Minha visão estava focada apenas em Josh, me virei para observar Emma que estava de costas olhando pra janela, provavelmente cuidando de seus ferimentos por si só. Minha visão demorou a se acostumar com a luz. E quando consegui vê-la, ela estava tentando conjurar alguns “primeiros-socorros”, mas pelo visto estava dando errado. Todas as vezes que ela tentava criar um vidro de álcool, ele se quebrava ao tocar a mão dela, ou se dissipava em uma fumaça cinzenta.

Eu me levantei com cuidado, senti meu corpo todo doer como se tivesse sido espancada a noite toda.

– Emma... – toquei seu ombro. Ela tremia. De longe não parecia, mas ao tocá-la senti uma energia tão sombria que poderia voltar pra descansar novamente.

– Foi tudo culpa minha. – ela sussurrou. Ela respirou fundo e tentou conjurar mais alguma coisa que não pude identificar o que era, pois se dissipou assim que surgiu.

– Não, Emma, nada foi sua culpa. Você... tentou. – eu tentei parecer o mais confiante possível, mas o que eu queria era voltar para o meu lugar e chorar o dia inteiro.

Então, Walt saiu do quarto devagar, fechando a porta atrás dele. Seus olhos estavam vermelhos, seu rosto estava molhado. Pelo visto havia chorado muito.

– Walt... – disse antes de correr para abraçá-lo.

Ele me abraçou como no dia em que Mary morreu. Eu senti seu abraço tão confortável. Algo que eu realmente precisava naquele momento. E então a dor passou.

– Eu sou um idiota, inútil... – ele olhou pra mim tentando conter as lágrimas. – eu poderia... eu não sei, deveria ter tentado mais.

– Walt, você não é nada disso. Você não tinha o que fazer! Eles tinham poderes e... – minhas lembranças voltavam em flashes, tão rápidos que faziam minha cabeça doer. Então tentei dispersar as memórias, e continuei. – Parem com isso, ok? – falei mais alto. – Não foi culpa de nenhum de vocês! Parem de se culpar!

Os três me olharam como se eu fosse uma estranha que tivesse acabado de entrar ali. E então vi que Walt apontava para o quarto. E entrei.

Kate não sangrava mais. Já era noite. Provavelmente passaram o dia todo tentando estancar o sangramento. Senti uma ponta de culpa por ter desmaiado naquele momento tão difícil.

O pescoço dela estava enrolado por uma gaze grossa, e no canto do quarto haviam dois sacos cheios de outras gazes sujas, provavelmente as que usaram para parar o sangramento.

Ela estava pálida, havia perdido muito sangue. Sentei ao seu lado e peguei sua mão. Ela estava gelada, tão gelada, quanto à do garoto do sonho que eu tive. Mas não importava, queria senti-la pela última vez.

– Eu sei que... – olhei para a porta para ver se ninguém entrava, porque não queria que ninguém me visse falando com uma pessoa que... nem estava lá. – Sei que passamos apenas um ano e meio juntas, mas você foi a única pessoa que não se tornou minha amiga por pena. No começo eu pensei que você seria uma daquelas pessoas com quem eu nunca falaria. Líder de torcida, organizadora dos eventos e bailes da escola, conhecia metade da escola e totalmente dentro da moda. – eu sorri para ela. – Mas, você era totalmente o oposto do que eu pensava. Eu me lembro do primeiro dia que você veio falar comigo, minha mãe tinha me obrigado a vestir um vestido tão... não eu. – eu ri. – e ai, você veio falar comigo. Era engraçado quando lançava alguma roupa ou bolsa nova e você saia correndo pra me contar, como se eu me importasse com essas coisas, mas o que eu realmente gostei em você foi o fato de você se importar por causa da morte do meu pai. – segurei sua mão mais forte. – Sabe, Mary me disse que...

Era tão estranho estar conversando com alguém que não estava ali. Pela primeira vez eu falei e ela não respondeu.

– Kate... por favor, responda... por favor, não nos deixe agora. – eu a abracei forte.

– Ela vai sobreviver. Ela tem uma alma forte. – disse uma voz atrás de mim. Era Mary.

Tentei enxugar as lágrimas rápido. E me virei para ela.

– Como você sabe? Ela está aí? – perguntei pausadamente.

– Não. Como eu disse, ela vai para um lugar diferente. Pessoas que são sacrificadas são mandadas para uma outra... “dimensão”.

– Outra dimensão?

– É um pouco mais difícil a sobrevivência lá, mas as almas fortes conseguem se safar dos Fryns. – Mary sentou do meu lado. – São espíritos malignos, enviados pelos feiticeiros. Na verdade, não são bem eles que enviam. A cada vez que um feiticeiro é corrompido, ou seja, descobre seus poderes, um Fryn é mandado para aquela dimensão com o intuito de perturbar e tentar matar as almas dos sacrifícios. Isso, é claro, é invenção de Anis e Zyah.

– Mas... qual o objetivo disso tudo? Sacrificar almas, perturbá-las. “Matá-las”. E para onde eles vão quando morrem?

– Bem... para o inferno. – ela parou e olhou para mim de olhos arregalados como se tivesse com medo do que ela mesma falava. – Diz a lenda que, Anis e Zyah, sempre quiseram viver a imortalidade. Por isso nenhum feiticeiro nunca conseguiu nem um pouco de poder. Digo, quando eles lhe matarem... quer dizer, se conseguirem, — ela parou e aquilo definitivamente me fez estremecer. Era como se ela visse que eu ia reagir, ou soubesse o que eu ia dizer ou fazer... ou até mesmo sentir. Não sei o que era mais estranho.

– Sim... Se me matarem, irão conseguir o Poder, mas e a pedra?

– Vic, há muitas coisas que você ainda precisa entender. Sobre os feiticeiros e sobre as maldições. – ela se levantou. – Como eu disse, se lhe matarem, eles, na visão deles, conseguirão ser poderosos do jeito que sempre quiseram. Mas, isso aconteceria com todos, inclusive com Anis e Zyah, ou seja, se eles estiverem vivos, com os descendentes mortos ou vivos, nada irá acontecer.

– Você quer dizer que, esse tempo todo eles mataram tantas pessoas, para nada? Digo, se Anis e Zyah estão vivos, nenhuma morte “valeu a pena”?

Ela assentiu.

Eu não podia continuar a ouvir aquilo. Eu estava com raiva. Não podia perder pra isto. Para uma suposta mentira.

– Victoria. As almas da outra dimensão, são uma espécie de alimento para Anis e Zyah. – Você não pode deixar outro sacrifício ser realizado.

– Ah, você fala como se fosse fácil! Eles podem estar em qualquer lugar do mundo agora, prontos pra sacrificar alguém, e eu nunca irei saber! Como você espera que eu impeça isto? – perguntei.

– Tome isto. – ela estendeu a mão e um papel surgiu em suas mãos. Era um papel velho e amarelado, parecia ter sido guardado por anos. – Com isto, você saberá onde serão os próximos sacrifícios.

– E você espera que eu impeça os sacrifícios, roube a pedra, pegue o Poder, salve todas as almas, volte para Garwood, salve minha mãe, tudo de uma vez? – comecei a ficar indignada, como ela podia pedir mais coisas pra mim? Ela sabia mais que qualquer um o que eu estava pensando e sentindo.

– Eu sei que é muito. E não, não quero que você faça tudo de uma vez. Você saberá o que fazer, Tori. – ela sorriu para mim e sumiu.