Dois Lados

2 Capítulo 1


– Filha, você pode levar a Alice para o colégio? Tenho entrevista de emprego hoje, na Pensilvânia! – gritou minha mãe da cozinha.

– Pensilvânia? Você vai trabalhar na Pensilvânia? – amarrava meus sapatos no sofá, enquanto minha mãe colocava as últimas torradas na mesa.

Me levantei e sentei na cadeira onde sempre costumava sentar. Na frente de Alice, e do lado da minha mãe.

– Bom, nesta cidade não tem muitos empregos, preferi arranjar um pela Filadélfia.

Dei de ombros e peguei a torrada mais quentinha e coloquei no prato. Eu sabia que minha mãe se lembrou. Ninguém poderia esquecer. Mas, acho que ela não quis tocar no assunto na frente de Alice. Me lembro muito bem daquela noite, Alice agarrada nas pernas da minha mãe, com seu casaco roxo com um unicórnio estampado atrás, chorando desesperadamente.

Minha mãe pegou a sua bolsa, deu um beijo nas nossas cabeças e saiu.

– Vic, você vai me levar pra escola? – perguntou Alice, ainda agarrada com sua ovelhinha de pelúcia que costumava dormir com ela.

– Vou... – Eu olhei para a mesa de centro. Minha mãe havia levado o carro. – Espera!

Eu me levantei, puxei o celular da bolsa e disquei o número.

– Kate?

– Victoria!!!

Kate, era a minha melhor amiga, não nos conhecíamos há muito tempo, na verdade, ela foi a primeira que falou comigo quando cheguei na cidade, ano passado.

– Adivinha quem ganhou um carro novo?!

– Ai meu Deus! Você ganhou um carro novo?!

– Sim!– ela gritou.

– Então... Posso ser sua primeira carona?

– Com prazer, senhorita Miller. – nós rimos.

E ali estava, a escola, do mesmo jeito que deixamos antes das férias de verão. Do mesmo jeito que estava quando eu cheguei pela primeira vez. Vou tentar fazer diferente. Vou tentar ser “diferente”. Diferente do “diferente” que as pessoas pensavam... Ou pensam que eu sou. Eu era a garota que o pai morreu, eu era a pobre garota que não tinha uma família. Eu era a garota que não se encaixava. Mas hoje, pretendo mudar isto. E vou.

Kate respirou fundo e foi direto falar com as suas amigas líderes de torcida. Eu fui até o meu armário e coloquei meus livros e algumas coisas lá.

– Ei, você está bem? Me desculpa não ter perguntado antes, é que eu não me lembrei, me desculpa mesmo! – disse Kate voltando.

– Eu estou bem, não precisa se desculpar. – Kate era extrovertida, alegre, e “popular”... Bom, ela conhecia quase todos dali, era presidente da Organização das festas da escola, e era a principal líder de torcida do time, ela pode parecer fútil, ou mimada, mas uma coisa que ela é boa é em ser amiga, mesmo fazendo pouco tempo que eu a conheço, ela já me fez muito melhor. Talvez, se ela nunca tivesse falado comigo, eu pudesse não ter ninguém agora.

Ela me abraçou e olhou para os lados.

– Já falou com todo mundo? – perguntei.

– Ah, engraçadinha! E sim, já falei! – ela riu. – Ei, você vai para a Welcome Party este ano?

–Hm... Não sei... Não estou muito afim. – respondi, enquanto andávamos até a secretaria.

A Welcome Party, era uma festa que a escola dava no primeiro dia de aula, para receber os novatos na escola. Mas, bom... Quase nenhum novato se enturma logo no primeiro dia, então só quem frequenta essas festas são os veteranos. Já se tornou um ritual!

– Ah, Vic, qual é?! Ano passado você não foi!

– É! Por dois motivos... Você sabe. – eu baixei a cabeça.

Kate não falou nada e apenas me abraçou. Avistei a porta da secretaria aberta, estava praticamente vazia! O que não é comum, porque os alunos estariam pegando seus horários de aula agora.

Quando entramos naquela sala com cinco cadeiras de espera, um balcão, onde a secretária falava ao telefone desesperada, vimos dois garotos brigando.

– Eu te vi lá, cara! Eu sei que foi você! – ele gritava. Este era Walt. Um loiro, de olhos verdes escuros, jogador de futebol, de quem eu era amiga desde pequena. Walt, empurrava um garoto um pouco menor do que ele, magro de cabelos castanhos e pálido, que tinha na testa uma grande mancha de sangue.

– Ei! Walt! Para! – Kate separou os dois, e empurrou Walt de leve. Neste momento, a secretária mal colocou o telefone no gancho e saiu correndo desesperada como se não tivesse visto nada que tinha acabado de acontecer. – O que aconteceu?

Walt tentava segurar as lágrimas, ele não sabia se eram de raiva ou de tristeza. Seu rosto estava um pouco machucado, ele limpou o sangue que saia da boca e olhou para mim. Eu, um pouco assustada com o que tinha visto, retribuí o olhar.

Ele fez sinal com a cabeça para que pudéssemos acompanhá-lo até a saída da escola.

Havia carros de polícia, de bombeiros, ambulâncias e todo mundo da escola. Todos estavam lá. O barulho das sirenes era ensurdecedor, como eu e Kate não ouvimos nada disso?

Andamos até o beco entre os dois prédios da escola e vimos aquilo. Eu não podia acreditar. Lá estava ela. Mary Anderson. Ela estava jogada no chão, parecia um pedaço de papel amassado. Tive a sensação que tudo nela estava fora de lugar, ela estava retorcida de uma maneira que nenhum ser humano vivo poderia fazer.

Não pude gritar, não pude chorar. Aquela não era uma imagem que via todos os dias. Mary estava jogada no asfalto úmido, com sua saia rosa clara perfeita e uma camiseta azul clara que combinava perfeitamente com o conjunto de pulseiras que ela usava no pulso. Seus cabelos loiros claros, não brilhavam como costumava, tinham algumas manchas de sangue que pareciam secas à luz daquele céu nublado.