Dois Lados

8 Capítulo 7


- Mãe? — fechei a porta, tirei meu casaco e o cachecol e pus na poltrona.

Vi que a luz do quarto da minha mãe estava acesa, então resolvi ir até lá. Então, me deparei com ela chorando e com um papel na mão.

- Filha... – ela olhou para mim.

- Mãe, o que você queria me falar? – eu sentei na cama ao lado dela. Ela não falou nada, só me deu o papel.

Diagnosticada com câncer de fígado.

Eu não podia acreditar. Não podia. Por que nada estava dando certo? Por que aquilo tinha que acontecer? Naquela hora? Com a minha mãe? Por quê? Eu não pude evitar, eu a abracei e chorei com ela.

- Eu vou atender. – ela me soltou e se levantou, ao ouvir uma batida na porta.

- Mãe... Desde quando você sabia disso? – eu insisti.

- Desde suas férias. Mas, eu não queria te contar, para não estragar seus últimos dias de férias de verão, e já tinha o dia da morte de seu pai... – ela se sentou novamente.

- Estragar? Mãe, isso é mais do que importante, você está doente! E daí, que eu estava de férias? Você tinha que me contar!

- Desculpe, eu não queria lhe estressar. Principalmente agora... Depois do que aconteceu. – ela passou a mão nos meus cabelos. Eu assenti com a cabeça. – Há uma semana que venho fazendo tratamento.

- É por isso, que não temos mais dinheiro?

- Claro que ainda temos dinheiro, mas as coisas estão ficando mais difíceis.

- Então, foi por isso que a assinatura da revista foi cancelada. – afirmei.

Ela enxugou meu rosto e se levantou para atender a pessoa que batia repetidamente na porta.

- Em que posso ajudá-lo? – era o Detetive Williams.

- A Srta. Victoria Miller está?

- Sim, o que deseja?

- Bem, ela já deve saber que a vítima, Mary Anderson, foi jogada do 3º andar do prédio da escola. Investigamos a sala, e parece que havia mais de uma pessoa naquele local, no horário do acidente. Segundo uma testemunha anônima, inclusive estudante da escola, sua filha, Victoria se encontrava naquela sala. Com Kate Trumman e um garoto que ainda não foi identificado.

- Minha filha? Mas, ela não fez nada! Quem lhe contou isto? – minha mãe começou a aumentar o tom de voz.

- Senhora, não estamos acusando sua filha de nada, apenas estamos pedindo permissão para interrogá-la. Tenho certeza de que, se não foi ela, nada irá acontecer.

- Mas é claro que não foi!

- Por favor, é para o andamento do caso. – ele estendeu a prancheta para que minha mãe pudesse assinar a permissão. E ela o fez. –Segunda-feira, na delegacia, às 8h. Obrigado. – e saiu.

- Quem era mãe? – estava atrás dela.

- Era o Detetive. Ele disse que alguém lhe viu na sala em que a Mary foi jogada. – ela colocou o papel da permissão na mesa e apagou a luz da sala.

- Me viu? Mas eu tava na secretaria com a Kate, para pegar o horário das aulas! Eu nem sequer subi! Afinal, minhas aulas são embaixo! O terceiro andar é praticamente inútil! Ninguém vai lá! Só o grupo de música, mas só às terças-feiras! – como alguém poderia me incriminar? Eu não fiz nada!

- Eu sei, querida. Mas, é só você dizer o que viu e pronto!

- Mas, eu não vi nada! – eu a acompanhei até o quarto.

- Então fale! Eu sei que você nunca seria capaz de fazer isso, seja lá quem foi que te denunciou, é uma pessoa de muito mau caráter! – ela deu um beijo na minha cabeça e olhou Alice pela porta entre aberta e continuo. – Vá dormir. É o melhor por agora. Descanse. Amanhã será... Um novo dia.

Como eu podia dormir sabendo que eu estou prestes a ser interrogada pela polícia, por algo que eu não fiz, minha mãe tem uma doença mortal, e minha amiga de infância acabou de morrer e a visita ao túmulo do meu pai seria daqui à cinco dias?

E então, enquanto caía nos meus devaneios, eu dormi.