Dois Lados
34 Capítulo 33
Notas iniciais
A coisa mais difícil foi ter me despedido de Josh. Não queria ter que perdê-lo. Mas tinha que ser forte mais uma vez, porque se eu desistisse, nós dois morreríamos.
Andamos por uma hora, e não encontramos nenhuma saída, ou sinal que nos levasse a algum lugar. O corredor era reto e vazio, nenhuma curva. Nada.
– Vamos descansar. – disse Michael dobrando o mapa. Pela primeira vez ele pensara em descansar. – Emma você poderia...
Antes que ele terminasse Emma já havia feito aparecer sanduíches para todo mundo e garrafas de água. Havíamos perdido quase tudo. Comemos ali mesmo, sentados no chão.
– Para onde estamos indo? – perguntou Walt quebrando o silêncio.
– Para a entrada da Cidade. – respondeu Michael incerto.
– Você tem certeza de para onde está nos levando? – interrompeu Emma. – Estamos andando há uma hora, e não encontramos nada.
– Está mais perto do que longe, acredite. – disse ele com um sorriso cansado.
Eu não prestei atenção no que acontecera depois daquilo. Só fiquei pensando em Josh, preso do outro lado, sozinho. Minha tia com Alice e minha mãe em Garwood. Nos feiticeiros que poderiam estar perto demais.
Enquanto eles conversavam, acabei pegando no sono.
– Victoria! Victoria! – ouvi a voz de Mary. – Graças a Deus, consegui falar com você! Tenho pouco tempo, por isso você deve prestar bastante atenção! – disse ela me sacudindo.
– Mary? – abri os olhos devagar, uma luz branca e forte envolvia Mary e o lugar onde estávamos. – O que...
– Shhh! Não diga nada, apenas escute. – ela se endireitou. – Outros feiticeiros lhe aguardam na fronteira da Cidade. Eles lhe descobriram e estão vindo atrás de você. Precisa ser mais rápida! Acorde agora e leve os outros. Vocês estão há apenas alguns metros da passagem. – ela tirou uma chave do bolso. – Tome. Assim que chegar, fure seu dedo, derrame um pingo do seu sangue na chave e pode abrir.
– An? Mas por que eu tenho que furar meu dedo? – perguntei confusa.
– Só faça isso! Caso contrário... haverão efeitos colaterais. – ela se levantou. – Precisa ir agora!
– Mas Mary, espere...
Antes que eu pudesse protestar, ela me “empurrou” para fora do meu sonho.
Acordei num pulo. E me sentei.
– Está tudo bem? – perguntou Walt.
– Ahn... Sim. Eu só tive um sonho... – demorei um pouco para organizar meus pensamentos, e tentar lembrar do que era real ou não.
Olhei para a minha mão e vi a chave. Era de bronze antigo e tinha as iniciais AZ.
– Anis e Zyah? – perguntou Walt olhando a chave.
– Sim. – respondi esfregando os olhos. – Mary me deu...
– Mary? Mas como... – ele estava sentado do meu lado, e recostou a cabeça na parede de pedra.
– Ela costuma se comunicar comigo em sonhos... Ou pelo menos costumava. – Era estranho ela estar com toda aquela pressa. Ela aparecia para mim como fantasma quase todos os dias, e só quando muito urgente entrava nos meus sonhos. Mas havia dias que ela não se comunicava.
– Eu não entendo. – falou Walt sério, senti o peso em sua voz. Ele balançou a cabeça. – Por que ela só fala com você? Digo, sei que você tem todas essas coisas e ela tenta te ajudar... Mas ela nem está viva... Será que não tem um tempinho pra falar comigo? – ele abaixou a cabeça.
– Walt... acredite, ela tem muito o que fazer. Tenho certeza de que se fosse viável, ela falaria com você. Se fosse fácil... Digo, não é num estalar de dedos que ela consegue se comunicar. Os feiticeiros não permitem que eles se comuniquem. Por isso, ela precisa de uma cobertura pra poder falar comigo. – eu segurei a mão dele.
– Eu não sei... Eu só sinto falta dela.
– Ela sente sua falta também. Tenho certeza de que quando tudo isso acabar ela virá falar com você. – dei um sorriso solidário e ele retribuiu.
Todos ainda estavam dormindo, quando ouvimos um barulho de passos vindo do corredor à frente.
– O que foi isso? – falou Walt se levantando e pegando a lanterna que Emma lhe dera.
– Alguém está vindo. – dessa vez foi Emma. Ela não soava aflita ou nada. Sua voz pesava mais do que a tensão do ar. Ela olhava fixamente para onde minha mão estava. “Será que ela viu minha mão com a de Walt?”, pensei. Mas não era hora pra isso.
– Michael! – chamei.
Todos nos preparamos em defesa, prontos para o que estava por vir. Os passos foram diminuindo cada vez mais.
– Quem está ai? – perguntou Emma dando dois passos a frente.
A pessoa começara a arfar e seus passos começaram a ficar mais pesados.
– Me ajudem... – era uma garota. – Por favor...
Walt correu na frente para procurar a garota, antes que Emma pudesse impedi-lo. E então o seguimos.
– Está tudo bem. Você está salva. – falou ele segurando-a.
– Eles estão atrás de mim. – falou com a voz falhando.
– Quem? – perguntei.
– Os feiticeiros.
A luz era fraca, mas pude ver o rosto da garota. Ela tinha cabelos ruivos, pele branca quase pálida, e olhos verde-escuro. Ela usava uma camisa de manga comprida azul, calça jeans e uma bota até o tornozelo. Ela estava meio suja e no seu braço tinha um ferimento do qual jorrava sangue sem parar.
– O que? Mas... – fiquei sem reação. Eu era a última descendente, por que eles estariam atrás dela?
Emma logo se postou na frente da garota ajudando a sentar, juntamente com Walt. Michael deu-lhe uma garrafinha de água que sobrara, e sentou-se na frente dela.
– Ok, o que aconteceu com você? – perguntou Emma cautelosamente segurando o braço dela.
– Eu estava na Cidade, — começou ela ainda ofegando. – onde sempre estive por todos esses anos, estava na loja do Sr. Kepner, e o céu começou a escurecer... Eles vieram de todas as partes. Havia seis anos desde que eles não vinham para cá... E então começaram a me perseguir... Eu não... – ela parou e tomou mais um gole de água.
Eu estava tão confusa quanto todos dali, queríamos entender o que acontecera desde o começo, a cada palavra que ela dizia, mais perguntas se formavam em minha cabeça.
Emma estendeu a mão sobre o braço da garota e fez um movimento que fez com que letamente a ferida da menina cicatrizasse.
– Ah! – ela gritou. – Você... Você é uma deles! Me solte! – seus olhos se arregalaram. Ela olhava com terror para Emma, tentava se soltar dela. Ela passou a vista por todos nós com o mesmo olhar.
– Calma... – tentou Emma. Mas ela parecia tão nervosa quanto à garota ruiva.
– Não! Me solta! Vocês me enganaram! Vocês são iguais a eles! Socorro! – ela gritou o eco fez com que meus ouvidos doessem. Ela rapidamente se levantou e soltou-se da mão trêmula de Emma e começou a correr.
– Espere! Não! – gritou Walt tentando ir atrás dela.
P.O.V – Walt
– Ei! Espere por favor! – gritei mais uma vez.
Corri mais rápido para alcançá-la. Ela era realmente rápida. Ou talvez eu tivesse perdido o costume dos treinos.
Alguns minutos depois consegui alcançá-la e a segurei contra a parede.
– Hey... – tentei. – Ela não é... uma feiticeira... qualquer... ela é boa. – estava respirando com dificuldade. – Ela é boa. Ok?
– Não... – disse a menina com lágrimas em seus olhos que começaram a escorrer rapidamente pelo seu rosto pálido e sujo. – Não...
– Sim. Me escute, apenas me escute. Ela é sim uma deles. Mas ela está aqui para nos ajudar. Ela não concorda com tudo isso que os feiticeiros fazem, ou pretendem fazer... Toda essas besteiras... ela é contra! Ela não quer que nada disso aconteça, e por isso ela está lutando com a gente. Pode confiar. – eu soltei ela devagar.
– Como sabe disso? Como eu posso saber disso? – ela perguntou enxugando as lágrimas. – Você acabou de me atacar aqui...
– Eu não te ataquei, eu apenas te parei, para que você pudesse escutar. – passei as mãos na cabeça. – Eu sei que é difícil acreditar, não é a coisa mais simples do mundo começar a confiar em alguém assim, principalmente quando se está com medo. Acredite eu sei... Mas, só queremos te ajudar.
Meu cérebro sempre funcionara melhor depois que eu saía dos treinos de futebol, e agora essa sensação voltara. Comecei e me perguntar, se ela seria igual a Vic, se ela estava ali pelos mesmos motivos. Mas talvez estivesse sozinha.
– Por que vocês querem me ajudar? – perguntou ela um pouco menos desconfiada.
– Porque... sabe aquela garota que estava do seu lado? A de cabelos castanhos? Ela é igual a você. – tentei fazer com que ela entendesse, e se ela fosse realmente outra Descendente, ela assentiria.
– Como eu? Como você sabe quem eu sou?
– Eu não sei. Só supus. Digo, ela tem passado por isso também. Então sei mais ou menos como é... Você bem que podia colaborar, não é?
– Ela é uma Descendente? – perguntou pondo uma mecha atrás da orelha.
– Sim. E você também. Por isso queremos te ajudar. – tentei soar calmo, mas tudo aquilo me agitava demais. Vic precisava saber.
A garota parou por uns segundos como se estivesse formulando uma pergunta difícil na sua cabeça.
– Qual o seu nome? – perguntei para quebrar o silêncio.
– Charlotte. – respondeu a garota. – Charlotte Murray.
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