Dois Bicudos
18 Fases
Notas iniciais
P.O.V. Adam
Sinceramente, não há dúvidas de que eu enlouqueci. Há semanas a Babi não sai da minha cabeça. Bom, isso já aconteceu antes. Quando estávamos no ensino fundamental e eu gastava horas pensando em novos apelidos e formas diferentes de irritá-la. Pois é, eu era uma peste. Se ela lesse meus pensamentos agora diria: "Você nunca deixou de ser uma peste, só evoluiu para um tipo pior da espécie". E aqui está a Babi, ocupando os meus pensamentos mais uma vez. Nunca pensei que essa elfa minúscula me faria um estrago desses.
– Merda! Mas que merda! — Falei um pouco mais alto do que pretendia e Rick, que estava na cadeira da frente, se virou me oferecendo uma bala.
– O que foi, cara? — Perguntou.
– Nada não.
– Certeza?
– Claro.
– É verdade? Sabe... Aquilo que o Greg disse?
– O que ele disse?
Ele olhou em volta, se aproximou e sussurrou:
– Você está a fim da Babi?
Engasguei com a bala que Rick me dera e comecei a tossir. Tossi tanto e por tanto tempo que mesmo depois de ter conseguido engolir a maldita bala, alguém precisou me trazer um copo d'água, que não ajudou em nada, só me fez tossir ainda mais. Então o professor de Geografia mandou Rick me acompanhar até a enfermaria.
No caminho eu parei e respirei, assim, aos poucos a tosse foi passando.
– Você está bem? — Rick perguntou.
– Estou, não preciso ir até a enfermaria.
– Ok, então vamos para o pátio, não quero voltar para a aula. Esse professor me da sono.
– Agora aquele copo d'água cairia bem — Falei.
Chegamos no pátio e nos sentamos na grama. Ao longe vi duas ruivas conversando e cutuquei Rick.
– Ei, aquelas não são Julie e Alice?
– Sim — Ele disse, tenso — São elas.
Estranhei não ver Babi com as amigas. Não a tinha visto a manhã inteira, para dizer a verdade, e não gostei nada disso. Mas desviei os pensamentos e decidi irritar o meu amigo.
– Ainda está a fim da Rangel, não é?
– O quê? Não, não... Eu,ah, cara, você sabe né... Acho que sim.
– Você admitiu?! — Rick nunca admitira estar gostando de uma garota antes — Ta doente cara? Não é possível! Gripe, febre amarela, ebola? O que você tem?
– Para Adam — Ele falava sério, porém calmo — Eu só acho que sim. Mas porque não me apaixonar por ela? Olha só aquele cabelo, os olhos, o jeito como ela não se importa com o que pensam dela, a confiança em si própria... Ela é irmã da Mackena, mas não se parece em nada com ela.
– Eu acho... Não. Corrigindo: Eu tenho certeza que você já se apaixonou.
– Eu não paro de pensar nessa garota.
– Eu entendo.
Rick me encarou por alguns segundos e seu rosto formou uma expressão de entendimento.
– Mas é claro! — Disse.
– O que foi?
– É verdade! Greg estava certo. Adam, qual é, você pode me contar as coisas e aliás, já está totalmente na cara.
– Não tenho nada para contar.
– E eu não sou bonito — Ironizou — Ok, vai dizer que não sentiu falta da Babi com as garotas?
– Eu nem percebi que ela não estava ali até você comentar.
– Adam, eu te conheço mais que você mesmo. Sei que está rolando algo com você, e a Babi tem mais que uma parcela de culpa.
Bufei. Rick sempre sabia quando eu escondia algo, era uma coisa sobrenatural.
– Ok... Eu vou te contar, mas se você abrir a boca eu juro que acabo com a sua vida social.
– Uhhhh, que medo, senhorita Kate Purch.
Rolei os olhos e contei tudo à ele. Falei sobre a conversa no corredor, a sala do zelador e até mesmo sobre a noite da festa e Hillary. Afinal, ele merecia saber.
– Você só pode estar de sacanagem! — Me olhou incrédulo.
– Pois é...
– E por quê nunca contou nada?
– É a Babi, Rick. É a esquisitinha do primário que eu costumava infernizar, não é algo fácil de lidar.
– Passado, você não é mais aquele garoto e ela também cresceu. Não muito, mas cresceu.
Nós rimos e ele continuou:
– Acho que deveríamos ir até lá — Referiu-se a onde Alice e Julie estavam.
– Ficou louco?
– Eu vou lá, falo com a Alice e você pergunta sobre a Babi.
– Para de viajar!
– Está com medo?
– Medo? De garotas? — Ri falsamente, estava sentindo um puta medo.
– Então vamos.
Rick se levantou e eu o segui ainda não acreditando no que estávamos a ponto de fazer. Cruzamos o gramado até estarmos cara a cara com as ruivas.
– Oi meninos! — Disse Julie receptiva. Me fez lembrar o quão contrárias ela e Babi são nesse ponto.
– O que vocês querem? — Disse Alice.
– Estávamos andando por aí e não deu pra não notar duas ruivas no meio do pátio — Falei.
– Não respondeu a minha pergunta.
– Ignorem a Alice, ela está de mal humor hoje. Sentem aí.
Só hoje? Nos sentamos ao lado delas na grama.
– Então — Rick começou — Vocês gostaram de ir ao Pub aquela noite? — Ele disse "vocês", mas olhou diretamente para a ruiva rabugenta enquanto falava.
Ela sorriu torto e o encarando de volta, disse:
– Eu me diverti bastante, não que tenha sido a melhor noite de todas- Fez pouco caso, eu entendia bem o joguinho dela — Mas eu curti.
Rick pareceu satisfeito.
– Foi muito legal — Foi a vez de Julie falar — Deveríamos fazer isso mais vezes. Eu e Babi dançamos a noite toda.
O assunto surgiu. Não seria estranho se eu perguntasse sobre a tampinha bem agora e eu fazia uma festa interna por isso.
– Falando na Babi... Adam, é bem improvável, mas você a viu hoje? — Perguntou Alice.
Soltei fogos na minha festinha interna ao ver que o assunto não só surgiu, mas também se formou sem a minha ajuda. Sorte? Talvez.
– Eu? Não... O que é estranho por que fazemos geografia juntos.
Ok. Eu não tinha parado para pensar nisso. Minha cabeça estava tão cheia de Babi que não me deu tempo para perceber que não tê-la visto a amanhã inteira era algo realmente estranho, que piorava quando as suas próprias amigas também não o haviam feito e agora me perguntavam dela. Logo eu, a pessoa menos provável a se falar sobre Babi. Não parecia bom.
– Estou começando a ficar preocupada — Disse Julie.
– Eu também. Ela não atende as minhas ligações desde ontem, agora ninguém a viu... Não pode ser bom.
– Devíamos ligar para o Steve, vai que ela passou a noite com ele. Eu dormi na sua casa, Alice. Não poderia saber se ele a levou para lá.
– Ela não está com esse cara! — Senti o sangue ferver e acabei falando por impulso, fazendo com que os três me olhassem.
– Como você pode saber? — Indagou a rabugenta (novo apelido para a querida Rangel) com uma das sobrancelhas arqueadas.
– Eu posso ser um pouco responsável por ela não atender as suas ligações, ou de qualquer outra pessoa. Babi esqueceu o celular comigo e só o devolvi à noite.
– Espera aí... Como é que é? — Perguntou Julie, claramente confusa.
– Como ela esqueceu o celular com você?
Olhei para Rick buscando ajuda. Eu não poderia contar nada a elas.
– Meninas, isso não importa — Disse o meu salvador — O que nós precisamos agora é saber como e onde ela está.
– Na verdade — Manifestou-se Alice — Vocês não precisam saber absolutamente nada, agora nos dêem licença, eu vou arrumar um jeito de falar com a Babi.
– Mas Alice, talvez um pouco mais de ajuda seria bom...
– Julie, você não pode estar falando sério. Esses dois não se importam nem um pouco com a Babi.
– Ei, nós ainda estamos aqui — Disse Rick.
– E para o seu governo, senhorita rabugenta, nos importamos sim.
–Não sei se acho graça desse seu insulto de criança do primário, se dou um soco nessa sua bela carinha ou se acho ainda mais graça do seu comentário.
– Podem parar, por favor? — Julie se levantou, o rosto vermelho como o seu cabelo — Não sei vocês, mas eu estou preocupada e não vou ficar no meio dessa discussão idiota!
– Eu também estou preocupada!
– Então vamos dar um jeito de achar a Babi e ajuda a mais é sempre bom — Julie disse e piscou um dos olhos — Ainda mais quando um deles tem um carro e nos poupa de pegar um ônibus.
– Interesseira — Acusei.
– Nada disso, só estou apontando fatos.
– Sendo assim, eu concordo — Disse Alice.
– Mas pra quê vocês precisam de carro? — Indagou Rick.
– Tenho uma ideia de onde a Babi possa estar e não é perto.
Alice se levantou e abraçou Julie pelos ombros.
– Ela só pode estar lá, é o lugar onde ela consegue pensar.
– Vocês tem certeza? — Perguntei, o tom um tanto preocupado, não consegui evitar.
As duas me encararam um pouco e meio receosas, responderam:
– Sim.
***
Uma hora depois de nos encontrarmos no portão do colégio após a saída eu, Greg, Rick, Julie e Alice estávamos no meu carro há poucos kilometros da praia de Chicago. Eu não entendia o motivo de Babi ter ido até a praia, o céu estava nublado, o inverno estava a caminho e o clima já estava ficando frio. Mas resolvemos ir mesmo assim, já que mesmo depois do horário da saída Babi não havia dado notícias. As ondas deveriam estar gigantes e o vento trazido pelo mar, congelante. Chegamos na orla e eu estacionei o carro próximo a areia, todos desceram e como sempre, a Rabugentalice Rangel começou a dar ordens.
– Julie, você vem comigo, vamos até o píer ver se ela está em algum dos quiosques. E vocês três — Disse ao se virar para mim, Greg e Rick — Se virem e sejam úteis.
Então puxou Julie pela mão e nós deixou para trás.
– Sim, senhora capitã — Rick respondeu, hipnotizado pela ruiva chata.
– Capitão, né? — Brincou Greg, que levou um soquinho do nosso amigo idiota apaixonado — Ok,o que nós fazemos agora?
– Procuramos, ué.
– Não diga, Sir Óbvio.
– Então por quê perguntou, bostão?
– Eu quis dizer que-
– Será que da pras duas mocinhas pararem com o chilique?- Interrompi a discussão ridícula de Greg e Rick — Eu vou ser útil.
Aqueles dois eram piores que eu, começaram a jogar areia um no outro e resolvi me distanciar. Tirei os tênis, as meias e molhei os pés na água, meu corpo se arrepiou inteiro. A água estava muito gelada mesmo. Então pensei: Se eu fosse uma garota complexada que não quer falar com ninguém e resolve sumir, em que lugar da praia eu estaria? Descobri que não consigo pensar como uma garota complexada.
Resolvi pensar no quanto eu conheço a tampinha, talvez me desse uma luz. Ok, ela é antissocial, sempre está com o nariz enfiado em algum livro, não larga o skate, pelo o que eu vi desde o fundamental todas as suas calças são rasgadas, e é ela quem faz os rasgos, a aula que ela mais gosta é literatura e eu sempre gostei de vê-la declamando os poemas que a professora indica, ela gosta de usar batons escuros e eu pretendo borrá-los sempre que puder... Acho que acabei perdendo o foco e nada de saber onde procurar.
Fui andando na beira da água pra cada vez mais longe dos meus amigos, me aproximando de uma parte da praia onde havia muitas pedras, algumas tão grandes que as pessoas aproveitavam para pular quando o mar não estava revolto. Talvez aquele fosse um bom lugar para pensar.
Era como um grande muro de pedras grandes e pequenas empilhadas umas nas outras. Eu poderia dar a volta pela areia, mas o pequeno espaço na areia entre a pedra e a água estava mais perto. Não me arrepiei ao tocar a água pois já havia me acostumado à temperatura, também não pensei em reclamar quando a barra da minha calça acabou molhando por que já havia chegado ao outro lado e quando a vi sentada ali as palavras me escaparam.
O seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo, os óculos escuros com armação redonda me empediam de ver seus olhos, mas sabia que ela ainda não havia me notado. O livro da vez era Pulp de Charles Bukowski e a toalha no chão tinha o rosto de Jhonny Depp como estampa. Babi estava sentada sobre a toalha, as pernas cruzadas, os rasgos na calça jeans mostrando partes da sua pele e o par de coturnos abandonados na areia. Abaixou o livro e eu pude ver sua boca pintada de vermelho, lembrando-me do desejo de borrá-lo imediatamente. Quando resolveu dobrar as mangas de seu suéter verde listrado — que, aliás, era bem maior que ela — acabou me vendo ali, levantando os óculos e me mostrando sua expressão incrédula, mas também seus olhos.
– Adam? O que... faz aqui? — Seu tom era quase um sussurro.
Não respondi. Não sabia o que dizer.
– Como me achou?
– É... Alice. Alice e Julie, na verdade. Elas estão aqui. Não aqui, mas aqui na praia. No píer, mais precisamente. Procurando por você.
Merda. Eu estava nervoso. Me crucifiquem, eu confessei. Merda.
Babi percebeu meu nervosismo e as palavras enroladas, levantou uma das sobrancelhas e um pequeno sorriso de lado nasceu em seus lábios.
– E você estava me procurando por que..?
– Porque...
O que estava acontecendo? Eu sou Adam Keyni. Eu não fico nervoso. Voltei a mim, finalmente saí de onde eu estava petrificado e sentei ao lado de Babi na toalha.
– Qual o motivo de não ter ido à aula hoje?
– Você responde primeiro.
Ela apoiou as costas na pedra e olhou em meus olhos. Eu já havia percebido isso, conversar com Babi deixa qualquer um vulnerável, ela sempre olha nos olhos das pessoas, seja quem for.
– Sabe, eu tenho um calendário de perturbações a cumprir e se você não aparece, eu preciso dar um jeito de te achar para pôr tudo em dia... Ou eu me preocupei, mas a primeira opção é a mais provável.
Ela sorriu. Eu ouvi o som da risada dela e, cara, eu poderia ouvir aquele som para sempre. Sério, eu devo ter sofrido algum distúrbio mental.
– Agora responde a minha pergunta.
– Okay... — Desviou o olhar para o mar — Talvez eu quisesse colocar as coisas no lugar aqui dentro — Voltou a prender meu olhar no seu — já que algum idiota faz questão de bagunçar tudo.
– Assim... Idiota? No singular?
Eu não precisava dizer nomes, ela sabia a o que eu me referia, a quem eu me referia.
– Sim.
Por alguns momentos só era possível ouvir o som do mar, até que ela mordeu os lábios e minha atenção se voltou completa e inteiramente para a sua boca.
– Você tem que parar de fazer isso.
– Hein? — Perguntou claramente confusa.
– Usar esse batom. Eu só consigo pensar em como borrá-lo.
Nós dois nos encaramos e eu pude ouvir a sua respiração pesada. Babi fechou os olhos rapidamente e após abrí-los encontrou meus, para logo depois descer o olhar até minha boca. Abriu a boca algumas vezes, como se fosse dizer algo que o medo a impedia, então sua voz chegou aos meus ouvidos, mais doce e convidativa que nunca.
– E por que não borra?
– Não precisa perguntar duas vezes.
Subitamente meus lábios estavam nos seus, minhas mãos enlaçavam a sua cintura e seus braços me abraçavam o pescoço. Já não havia vento frio, os arrepios em minha pele se davam pelo calor dela, pelo toque de suas unhas e a sua boca na minha. Babi mordeu meu lábio inferior, por impulso tirei as mãos da sua cintura e adentrei seu suéter, acariciando as suas costas e puxando-a para mais perto. Ao sentir minha pele em contato direto com a sua senti o seu corpo estremecer, o que a fez perder a concentração e parar o beijo para respirar.
– Isso vai ser sempre assim?
– O quê?
– Eu e você. Nos vemos e acabamos nos pegando.
– Está reclamando?
– Talvez — Sorriu de lado.
– E o que isso significa?
– Nada, só é bom que nós tenhamos passado daquela fase idiota.
– Eu estou muito satisfeito com essa nova fase — Beijei o pescoço de Babi e ela se arrepiou novamente.
– É melhor nós irmos encontrar os outros.
Babi se levantou e eu também.
– Mas antes é melhor limpar a boca. O batom e tal.
– Isso serve para você também, eu não borrei sozinha.
Ela estava encabulada, mas não se deixava intimidar e me respondia a altura, como sempre. Babi mordeu os lábios e olhou para o chão. Deus, como eu pude ter sido um idiota com ela durante tanto tempo?
– Ei — Ela olhou para mim — O que você acha de nós tentarmos esquecer a fase antiga?
– É uma boa ideia, Adam. Talvez a primeira boa ideia que você teve, devíamos comemorar.
– Concordo — A beijei novamente, mas então ouvimos alguém limpando a garganta.
Nos viramos e ouvi Babi xingar baixinho. Alice e Julie estavam ali.
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