Dogmas das Sombras
1 Capítulo 1
Santa Bárbara, 13 de junho de 1983.
A chuva caia em gotas finíssimas, porém, geladas. Mirella olhava pela janela embaçada, assim esquadrinhando cada centímetro que seus olhos pudessem alcançar, na busca fracassada de encontrar algum pedaço da rua, jardim, calçada ou apenas uma folha no chão que tivesse cor, pois, tudo parecia de forma cinzenta e sem brilho, pelo menos para ela era assim. Era sete e meia da manhã e ela preparava-se para tomar banho, pois, iria a igreja. Ainda de pijama ela caminhou até seu guarda-roupa e sem pensar muito escolheu a mesma roupa de sempre, pegou uma toalha ainda úmida que havia deixado sobre o tapete no dia anterior e caminhou em direção ao banheiro. Pelo corredor andou em linha reta, entrou no banheiro e tirou o pijama, ligou o chuveiro e ficou alguns minutos olhando para o espelho buscando entender o pesadelo que tivera durante a noite, pesadelo este que a tem atormentado por muitas noites consecutivas. Mirella passou a mão no espelho embaçado pelo vapor da agua quente e nesse momento das paredes começaram a escorrer sangue, assim, como da torneira e do chuveiro também, o vaso sanitário jorrava sangue a altura do teto fazendo com que ele caísse sobre ela, parecendo a cascata de uma cachoeira, ela tentava desviar-se, porém, o sangue já estava na altura de suas pernas, ela tentava gritar por sua mãe, mas sua voz não saia, o desespero tomou conta de seu coração, ela tentava abrir a porta e as janelas, mas estas estavam trancadas, foi quando observou sua mãe e seu irmão brincando no jardim e golpeou os vidros da janela com toda a força utilizando suas mãos fechadas na intenção de chamar a atenção dos mesmos, porém, sem êxito.
Completamente desesperada Mirella escorregou e caiu no chão, ficando submersa no lago de sangue que se transformara seu banheiro, ao tentar levantar-se notou que suas mãos tocaram em uma camada espessa e tenaz, como se o sangue acima de sua cabeça tivesse se condensado criando repentinamente uma tampa, como um lago congelado por cima e de forma liquida em baixo impedindo-a de ficar de pé, fazendo-a se afogar, a agonia era cruel, foi quando quase morrendo ela conseguira levantar, ao ficar de pé ela passa a mão sobre o rosto e nota um ser emergir por detrás dela, refletindo no espelho, era uma criatura aterradora com pele necrosada, olhos amarelados sendo que um estava pendurado por uma veia escura, o cabelo encharcado de sangue e grudado no rosto, os dentes eram completamente podres, e seu corpo parecia estar nu. A criatura agarrou-a pelos cabelos e por um dos braços, fazendo forças para bater com sua cabeça contra o espelho, a criatura proferia longas gargalhadas macabras, Mirella lutava com toda garra tentando evitar o impacto, porém, perdeu as forças permitindo que o demônio tacasse sua cabeça com toda violência, o impacto fora tão forte que ela podia sentir pedaços de vidro penetrarem sua carne, dilacerando seu rosto por completo.
“Mirella acorde, ira chegar atrasada na igreja, sabes que tem de banhar-se e tomar seu café da manhã “. Disse sua mãe ao acariciar sua cabeça e beija-la na testa.
“Não!” gritou Mirella ao acordar no susto.
“O que houve minha filha? está encharcada de suor.”
“Foi apenas um sonho” disse Mirella em voz alta.
“O que estava sonhando minha filha?”
Mirella pensou por alguns segundos antes de responder;
“Nada de importante mamãe, foi apenas uma bobagem que aconteceu comigo na escola”
Sua expressão era espantosa e difícil de esconder, ela ficou alguns momentos pensativa olhando para suas mãos, parecia muito real aquele pesadelo mesmo que não fora o que estava acostumada todas as noites. Sua mãe saiu pela porta pedindo que ela não demorasse a descer. Mirella levantou e como no sonho caminhou até seu guarda roupa para pegar suas vestimentas, um detalhe importante e que a toalha estava exatamente no lugar que aparecera em seu sonho, entre outros detalhes, era muito real, parecia que estava acontecendo tudo novamente. Ela caminhou em direção ao banheiro e passando pelo quarto de seu irmão pode velo dormindo todo bagunçado e enrolado em um cobertor de tema vampiro. Ela entrou no banheiro fechou a porta, mas não a trancou, começou a despir-se quando reparou que o espelho estava quebrado, ela passou a mão de forma lenta sobre as fissuras, não conseguia compreender o que estava acontecendo, no momento em que abriu as cortinas para entrar debaixo do chuveiro, ela viu o demônio deitado no chão, ela olhou pra trás e ao olhar novamente para o chão, num piscar de olhos ele sumiu.
Após o banho ela voltara para seu quarto, novamente observou seu irmão dormindo na mesma posição de antes, arrumou sua cama, penteou seu cabelo fazendo-lhe duas tranças, abriu a primeira gaveta de sua penteadeira e pegou sua velha bíblia, caminhou próximo a janela e percebeu as mesmas cores cinzentas de seu pesadelo.
Ao chegar perto das escadas que davam acesso as outras dependências de sua casa, ela escuta seu irmão lhe chamar no quarto ela por sua vez vai atende-lo e ao aproximar-se, a porta se fecha de forma violenta fazendo com que um quadro de Jesus Cristo caia e quebre os vidros, ela se abaixa na intenção de limpar o chão, mas, percebendo que estava ligeiramente atrasada decide fazer isso quando voltar.
Passando pela sala ela escuta sua mãe sussurrando com alguém e imagina ser alguma vizinha, porém, ao chegar a cozinha ela deixa sua bíblia cair no chão ao ver seu irmão sentado à mesa devorando um enorme sanduíche.
“Oi mana, quer um pedaço?” falou George com a boca cheia ao ponto de salpicar migalhas sobre a mesa.
“Sente-se filha, tome seu café eu fiz seus ovos com a gema durinha como você gosta”
Sua mãe apesar de seus trinta e oito anos, apresentava um semblante cansado e sofrido, típico de mãe solteira, pois, Eliza após a morte do marido, perdera completamente sua autoestima, vaidade ou qualquer outra forma de capricho em relação a si própria, mas, contudo, em relação ao seus filhos era zelosa ao extremo, mesmo lecionando literatura durante o dia e atuando como faxineira de meio período, muitas das vezes nas casas de suas outras colegas professoras, ela sempre tinha um tempinho para ajudar George com a lição de casa e ouvir suas travessuras, com Mirella era um pouco diferente, pois sua filha vivia isolada em seu quarto, Eliza entendia que a menina era muito ligada ao pai e desde sua morte ela nunca mais fora a mesma.
“Obrigada mãe” disse Mirella.
George continuava devorando sem pausa o enorme sanduíche, Eliza servira de forma sutil sua filha, colocando na mesa um prato com dois ovos fritos, uma garrafa de café, um bule com leite quente entre outra guloseimas como bolo, torrada e biscoitos amanteigados que George tanto adorava. Mirella remexeu os ovos no prato com um garfo de prata, mas, nada descia por sua garganta, sua mãe contava sobre seu dia ou falava sobre assuntos diversos, mas, Mirella parecia estar em outro mundo não conseguia parar de pensar em todas as coisa que estavam acontecendo, as vezes achava que estava ficando louca e tudo era fruto de sua imaginação, não sabia explicar o fato do espelho estar quebrado ou das vozes que ouvia a todo tempo muito menos os pesadelos que sempre tinha e por algum motivo agravaram-se após o suicídio de seu pai. Ela permanecia paralisada apoiando um dos cotovelos na mesa e o queixo apoiado a mão, em sua mão direita ela continuava com seu garfo esfarelando os ovos de seu prato de um lado para o outro, seu olhar estava tão distante.
Repentinamente ela desperta do seu transe ao ou vir o barulho proveniente de um talher que George imperativo do jeito que era, deixara cair no chão, sua mãe se abaixa para pegar enquanto seu irmão sai correndo em direção a sala.
“O que você achou da minha ideia para amanhã? “
Mirella sem saber sobre qual assunto sua mãe estava se referindo, respondeu que sim balançando a cabeça.
Eliza era uma mulher devota, uma católica fervorosa, mas, após a morte de Pedro adotou o habito de rezar em sua própria casa ao invés de ir à igreja.
Assim, que sua mãe levantou-se após pegar a faca que seu irmão deixara cair e deu-lhe as costas, um copo cheio de suco virou-se no meio da mesa, uma das portas do armário se abriu sozinha e um copo de vidro caiu de cima da pia.
“Mirella tenha mais cuidado filha, deixe que eu limpo, vai logo para a igreja que você já está atrasada”
Eliza não atentou em relação a porta do armário, mas, Mirella percebeu o que tinha acontecido.
“Sim mamãe, já estou indo” disse com o olhar fixo no armário.
Mirella sentia medo de que algo pudesse acontecer a sua mãe ou ao seu irmão, mesmo não sabendo o que estava acontecendo ela sentia que em algum momento poderia acontecer algo ruim a eles, não conseguiria viver com tal perda, já que, não superara nem a morte de seu pai, e de alguma forma ela se culpava por tal morte, talvez essas assombrações, espíritos, fantasmas, demônios ou qualquer outra forma de aberração da noite estaria por algum motivo desconhecido tentando comunicar-se, passar alguma mensagem ou simplesmente ceifar sua vida, porém , nada importava desde que nada acontecesse a sua família. Tudo eram apenas suposições, na verdade ela não tinha compreensão do que estava acontecendo em sua vida, com tantas pessoas no mundo, tantas crianças, idosos, homens, mulheres e muitas pessoas ruins de natureza malévola, justamente a ela de um coração tão gentil que sempre rezava durante o dia e noite e não faltava a uma missa aos domingos, estaria acontecendo estas coisas.
Ao sair pela porta ela sente uma lufada repentina chamar sua atenção para a porta que acabara de fechar, ao olhar nota que o número de identificação de sua casa que antes era 294, agora virara 264, porem, concluiu que o parafuso que prendia a parte superior do número nove deveria ter se rompido transformando-o em um seis, ao ficar pendurado de ponta cabeça, deu alguns passos avançando por um caminho vertical feito de pedras retangulares, assim, evitando pisar no gramado e sujar suas sapatilhas, que , em dias quentes normalmente não sujariam, mas, o chuvisco que se arrastara desde a madrugada, deixara a terra úmida e fofa com uma lama pastosa e grudenta. Ela aproximou-se do portão branco de madeira nobre, estendeu seu braço até a fechadura, segurou no trinco enquanto abria a caixinha de correspondência, assim, notando que não havia nenhuma carta fechou a tampa e voltou sua atenção para a fechadura, uma borboleta de cor azulada passou sobre seus olhos, Mirella acompanhou-a inclinado sua cabeça e elevando sua visão para o céu franzindo sua testa para melhor enxergar até que a pequena azulada desapareceu do seu campo de visão, foi quando ela fitou um pequeno pedaço de cinza descer lentamente e pousar sobre sua mão e em segundos milhares de cinzas começaram a cair como neve, pode sentir um calor insuportável surgir por suas costas, ela virou-se e viu sua casa completamente tomada pelas chamas, de imediato não conseguira se mover, muito menos gritar por socorro, ficou imóvel assistindo sua mãe e seu irmão arrastarem-se para fora, seus corpos estavam tomados por chamas sua carne retorcida e com múltiplas bolhas que pareciam ferver, deixavam um rastro de pele grudadas ao chão e seus olhos não possuíam mais a íris, estavam completamente brancos, eles gritavam desesperadamente por seu nome, porém, ela nada conseguia fazer, estava paralisada assistindo de pé aquele macabro espetáculo.
“Me arruma um trocado ai garotinha “ disse um mendigo aparentemente embriagado, não era jovem, tão pouco velho aparentava ter uns trinta anos, usava uma calça jeans rasgada nos joelhos e nos bolsos e suja de tal maneira que parecia que ele não a trocava há muito tempo, usava também uma blusa dos Beatles surrada e desbotada e com múltiplos furos feitos com a ponta de um cigarro, seu rosto de traços grossos esboçava uma falsa alegria como alguém que vivera chafurdando no lixo a base de drogas para fugir da cruel realidade de ser a escória da sociedade, sua barba era enorme e com cinzas de um cigarro feito de um pedaço de guardanapo e alguns farelos de fumo encontrado nos filtros usados por outros fumantes que ele catara no chão, sobre seu pescoço repleto de placas de sujeira ele carregava um cordão feito de um cadarço de tênis e amarrado a ele um pingente com o símbolo do movimento hippie, seus cabelos eram dreads e se escondiam por debaixo de um lenço preto com caveiras estampadas, em uma das mãos ele segurava uma garrava de chivas regal royal salute contendo menos de um gole e na outra o cigarro improvisado, além de tudo ele estava descalço expondo seus pés encardidos com unhas grandes e podres de tanta sujeira, seu cheiro era insuportável, uma mistura de álcool, tabaco e odores proveniente de sua falta de higiene, porém, ele fizera com que ela volta-se a realidade percebendo que a casa estava em perfeito estado, tudo foi uma ilusão, premonição, pesadelo ou como queira chamar. Ela enfiou a mão em um dos bolsos de seu casaco, mesmo não olhando diretamente nos olhos do homem ela retirou alguns trocados oferecendo a ele como sua educação religiosa ensinara, como ela estava abalada nem sequer percebeu a quantia que entregara ao mendigo, ela apenas olhava para baixo sua respiração estava ofegante e seu coração agitado, ela pensava não acreditar no que acabara de acontecer, as visões estavam ficando cada vez mais frequentes e reais. Ele tomou o dinheiro, uniu os dedos para tragar o cigarro, inclinou o pescoço soltando a fumaça para o alto, sorveu o ultimo gole do chivas e agradeceu, assim, partiu soluçando e repetindo: “boa menina, boa menina “.
Mirella não atentou contra o mendigo, fechou o portão e ficou parada por um momento observando sua casa, dava para enxergar sua mãe passar pela janela, naquele momento ela respirou fundo e saiu rumo a igreja, andou uns metros e ouviu seu irmão lhe chamar: “Mirella! Mirella! Espere! “
George correu até ela e entregou-lhe sua boneca de pano, esta que ela levava para todos os lados, porém, na presa esquecera, tomou-a e foi embora.
Era um domingo bem triste e sombrio, as pessoas caminhavam cabisbaixas, não havia um automóvel sequer pelas ruas, as casas em sua maioria mantinham suas janelas fechadas, alguns pássaros cruzavam o céu escuro, indo em direções aleatórias e alguns voavam em círculos. Ao longe se podia notar uma menina andar em passos curtos e lentos, seus olhos eram negros como a noite e permaneciam quase que fechados, sempre olhando para baixo ao caminhar, sua silhueta era delgada, possuía um rosto pálido de tal maneira que suas tênues veias subiam como trepadeiras sobre sua face cadavérica e entrelaçavam-se visivelmente sobre sua testa, o nariz era afilado e pequeno, a boca de lábios minguados fora castigada com o exagero de um batom preto e sem brilho e por dentro escondia-se fileiras de dentes perfeitamente alinhados e brancos. O cabelo liso como seda e negro como seus olhos desciam livre sobre as costas como uma fina cascata que se alongava a te sua cintura, sobre sua frente duas tranças balançavam em movimentos repetitivos e sincronizados para ambos os lados como o pendulo de um relógio antigo. Trajava uma blusa preta de manga longa e botões amadeirados verticalmente alinhados, por debaixo um par de seios macios e pequenos eram comprimidos por um sutiã de renda com bojo e alça reforçada, ocultando qualquer forma saliente e volumosa, deixando-a totalmente ereta, vestia também um casaco de lã preta e tricotado de forma artesanal, usava uma saia de cor amarronzada e fosca, que desciam por suas pernas e terminavam a baixo do joelho, calçava meias curtas e brancas e uma sapatilha preta de fivela metálica.
Seus braços exprimiam sobre o peito uma bíblia de capa marrom e desgastada, tinha as páginas amareladas e com anotações feitas a caneta e lápis, supostamente feitas por seus avos ou por seus pais, pois, a bíblia estava na família há gerações, assim como uma velha boneca de pano e rosto inexpressivo que também carregara rumo a igreja. Não usava brinco, anel, pulseira ou qualquer outro tipo de adorno comum as meninas de sua idade, levava sobre o pescoço apenas um colar com um pequeno pingente de são Cristóvão.
Assim caminhava Mirella, uma andarilha perambulando pelas ruas de uma cidade fantasma, serpenteando entre as vielas de Santa Barbara, repetindo o mesmo trajeto de todos os domingos, desde que se mudara de sua cidade antiga.
Por um instante ela refletia sobre o acontecido em sua casa e por outro não conseguia parar de pensar no dia em que seu pai Pedro cometera suicídio se atirando do alto de um penhasco próximo a sua casa antiga, isso quando ela tinha apenas oito anos de idade e sua mãe esperava por seu irmão George que nasceria dois meses após a morte do pai. Desde então, ela mergulhara em uma profunda tristeza, tornando-se o oposto de quando levava consigo um espontâneo e belo sorriso. Mirella nunca foi uma menina de muitos amigos justamente após a morte do pai, na escola era uma criança de hábitos solitários, na hora do almoço ela sempre se sentava sozinha e no recreio mantinha distância das outras crianças, passando a maior parte sentada em um balanço enferrujado bem afastado do pátio central, na sala de aula não era diferente, tanto que, as vezes era motivo de chacota pelos outros colegas de classe, mas nunca deu importância para as piadas que eram ditas. Hoje aos quinze anos de idade ela mantém os mesmos hábitos que tinha quando criança em sua escola antiga, continua sozinha pelos cantos, ainda sofre gozações por parte dos outros alunos, porém, mantém ainda a posição de melhor aluna da sua classe ou até mesmo da escola.
Ao caminhar ela sente como se algo a observasse, ela passa em frente ao jornaleiro e dá uma olhada de canto de olho para dentro da banca, ela percebe assustada um senhor obeso por detrás do balcão trajando um casaco branco e um colete xadrez de cores opacas por cima, ele usava um chapéu com protetor de orelha verde escuro e um óculos fundo de garrafa e ao lado dele um outro homem, porém, este era magricelo e bem alto com calça social cor de vinho e uma blusa branca de manga longa, ela repara em seus rostos e nota uma aparência satânica como se em frações de segundos eles mudassem por várias vezes assumindo vários rostos aterradores diferentes, aquela cena apavorante se agrava quando ela vê o homem magricelo expelir sangue pela boca, olhos, nariz e ouvidos. Ela fecha os olhos, aperta ainda mais a bíblia e a boneca contra o peito e acelera o passo até chegar a esquina, chegando no cruzamento aproximadamente uns dez metros da banca ela olha para trás e observa o homem magricelo a alguns passos de distância, ela fica paralisada fitando o homem com desespero no olhar, ele passa ao seu lado normalmente com o jornal em baixo do braço e um cachimbo no canto da boca, ela o segue com os olhos até que ele atravessasse a rua e entrasse em uma mercearia logo de esquina. Mirella vê que o semáforo está marcando a favor dos automóveis, porém, ao olhar para ambos os lados não vê nenhum carro, ônibus, motocicleta ou mesmo bicicleta pela rua e decide atravessar e quando chega ao meio da pista ela ouve uma voz feminina gritar: “Mia!”.
Ao olhar para o lado buscando quem a chamara, um automóvel freia bruscamente a menos de um metro de distância em relação a ela, o motorista de dentro do carro começa a reclamar furioso: “sua maluca, presta atenção sua louca!”.
Ela chega ao outro lado ela e vê Helena correndo em sua direção, ela era a única amiga que Mirella tinha, desde que ela começara a estudar em sua nova escola foi a única menina que se aproximou, mesmo quando a própria Mirella mantinha uma certa resistência em aceitar uma aproximação direta ela sempre insistiu em construir uma amizade entre as duas, até que um dia Mirella caíra em um trote feito pelo grupinho das” Mademoiselle” formado pelas garotas mais bonitas e esnobes da escola tanto do primeiro ao último ano do segundo grau clássico. Franchesca uma menina de corpo atraente apesar de ter apenas dezesseis anos, loura de olhos esverdeados que chamara atenção de todos os meninos da escola e até mesmo dos professores, era a líder do grupinho malvado, praticamente todas as meninas que formavam a irmandade Mademoiselle eram lindas, porém, não muito inteligentes ou na verdade eram preguiçosas ou oportunistas, pois, usavam de sua beleza para fazer com que outras pessoas fizessem seus trabalhos e pesquisas escolares, geralmente eram os meninos que eram encantados e enganados por tal beleza.
Elas desprezavam Mirella por seu jeito de se vestir, por se manter sempre quieta e sozinha, e por sua fama de ser a mais inteligente, foi quando a loura esnobe e perversa teve uma ideia, ela percorreu por todo o pátio da escola procurando por Bruno que era o garoto mais cobiçado entre as meninas ele tinha o corpo atlético, cor morena, os olhos castanhos claro e cabelo preto liso, Franchesca descobre que Bruno está na biblioteca e vai até lá, quando observa que ele está sentado nos fundos da sala e de cabeça baixa lendo um livro qualquer, ela se aproxima jogando todo seu infalível charme pedindo que ele escreva uma carta dizendo que estava apaixonado por Mirella e quando todos estivessem em sala de aula ela encontrasse com ele na sala que ficava nos fundos da escola onde guardavam os matérias esportivos como bola, rede, uniformes entre outros, ele não topa de cara falando que não seria uma boa ideia e ainda sugeriu deixar Mirella em paz, mais, ela maldosa do jeito que era sentou sobre a mesa de frente para Bruno e levantou uma das pernas apoiando o pé sobre a mesa, assim, deixando-as abertas e os olhos de Bruno subirem por sua meia branca a altura dos joelhos e descerem por sua coxa torneada até chegar a sua finíssima lingerie preta, ela provoca ainda mais prometendo que se ele a ajudasse ela iria fazer o que ele quisesse e por quanto tempo desejasse, Bruno tenta resistir, mas, não aguenta quando ela se aproxima e lhe dá um beijo de língua bem lento e morde seus lábios ao terminar. Ele seduzido por Franchesca escreve a maldita carta e a entrega pessoalmente a pobre menina. Mirella não acredita de imediato que um rapaz como Bruno estaria de fato apaixonado por ela, já que no colégio havia tantas meninas muito mais bonitas que ela, mas, seu coração ingênuo cai como um patinho em uma armadilha, no momento em que todos estão em suas salas ela pede permissão para ir ao banheiro, desce as escadas e vai em direção a sala dos fundos, chegando lá ela procura e chama por Bruno, porém, este não está, seus olhos percorrem por toda a sala e nesse momento quatro meninas cobertas por um tecido de cor azul provavelmente usado como decoração em alguma celebração realizada na escola, aparecem e jogam em Mirella baldes de agua deixando-a completamente molhada, após o ato covarde elas saem correndo, Mirella fica sem saber o que fazer, nisso Franchesca aparece se oferecendo para ajudá-la, pedindo-a que tire suas roupas molhadas enquanto ela busca roupas secas para substitui-las, Mirella confia na palavra amiga da loura e tira toda a roupa de seu corpo ficando apenas em trajes íntimos, Franchesca pega as roupas molhadas e vai embora abandonando a pobre menina sozinha e sem roupa, praticamente nua levando em consideração que naquela época a exposição do corpo ainda mais de uma menina, não era algo comum ou aceitável principalmente em uma escola tradicionalmente católica.
Helena observa pela janela Franchesca e outras meninas correrem com roupas nas mãos e acha aquilo muito estranho conhecendo a fama das mademoiselle, assim, decidindo ir até lá pra ver o que estava acontecendo, chegando próximo a porta da sala dos fundos ela escuta um choro bem baixinho, ao entrar vê Mirella abaixada em um canto seminua, ela se aproxima retira o casaco da escola que está vestindo e oferece em um ato de solidariedade, procura e encontra algumas roupas de um desfile realizado semanas atrás ajudando Mirella a vestir-se, deste então elas se tornariam melhores amigas e Helena despertaria ódio entre as mademoiselle.
“Oi Mia, como está?” Disse Helena toda afobada ao aproxima-se, ela trajava um vestido esverdeado estampado com desenhos abstratos, por cima um casaco branco e um chapéu pequeno também esverdeado, porém, sem estampa, ela vivia com um sorriso contagiante estampado no rosto e sinceramente Mirella não entendia porque. Seu cabelo era claro, descia sobre a face em formas encaracoladas terminado em seu ombro, com uma franjinha caindo sobre a testa ela tinha uma certa semelhança com a boneca amiguinha da estrela muito popular entre os ano 60,70 e 80 outra característica bem peculiar eram as covinhas de seu rosto.
“Estou bem, tirando o fato de quase ter sido atropelada agora, mas, estou bem” disse Mirella em tom gentil e um meio sorriso canto de boca que era raro de acontecer.
“Mia”, assim, que Helena apelidara Mirella, talvez fosse a única pessoa no mundo a chama-la dessa forma: “Iremos sozinhas a igreja hoje, minha mãe está gripada e eu não poderia perder a missa, mas, estou feliz de ir com você” envolveu-a com um de seus braços pelo pescoço puxou-a de forma afetuosa fazendo com que as bochechas se encontrassem e dizendo: “Minha doce Mia!”.
Elas caminharam pela calçada passando por diversas lojas e casas, Helena como sempre tagarelando um monte de besteiras e Mirella de cabeça baixa pensando nos últimos acontecimentos estranhos e por mais que tivesse dando ouvidos para Helena, ela não estava escutando nada, por mais ou menos quarenta minutos elas caminharam, até que, algo chamou atenção de Mirella, ela escuta um homem em um ponto de ônibus dizer: Boa menina! Boa menina!
A voz era semelhante e soava em seus ouvidos de forma mais enrolada do que da última vez típico de alguém embriagado, seu raciocínio estava certo era o bêbado que lhe pedira esmola mais cedo enfrente sua casa, ele estava caído no chão com duas garrafas, porém, desta vez ele caíra de nível trocando chivas por cachaça da pior qualidade, ele estava alucinado e parecia ser incapaz de ficar de pé sozinho, ela o fitou com certa pena e remorso pois ele comprara aquelas garrafas provavelmente com o dinheiro que ela o dera. Helena não atentou contra o mendigo, na verdade não parava de falar um minuto se quer, ela contava sobre o que comera no jantar, no café da manhã, falava sobre a escola e entre outros assuntos que Mirella não estava afim de discutir, mas, por ser gentil e gostar de Helena não dissera nada apenas concordava balançando a cabeça. Elas apertaram o passo, pois, o chuvisco ficara um pouco mais forte.
Logo mais à frente encontrava-se a Matriz de Santa Bárbara
que fora construída nos anos de 1724 mantendo desde então sua fachada típica de sua época, ela possuía três janelões alinhados na forma horizontal e com fileiras de balaústres e cimalha trabalhada, no centro possuía uma grande porta em madeira com um detalhe em forma de concha no centro e adornos em formas espirais sobre as ombreiras laterais, sobre bases de pedra descansavam-se suas pilastras e cunhais, nas laterais haviam dois óculos distintos, o teto se encontrava em forma triangular com uma cruz ao cume, no meio encontrava-se um óculo envidraçado e cruciforme, suas torres possuíam cúpula em quatro aguas com telhas e dois sinos que marcavam as horas.
Mirella e Helena educadas como eram, esperaram primeiro umas senhoras fecharem e guardarem suas sombrinhas para poderem entrar, adentrando a igreja Helena pega Mirella pela mão e a puxa:” Vamos sentar na primeira fileira e ficar perto do padre”, disse eufórica como sempre.
Mirella sem muita opção segue sua amiga e faz sua vontade, elas duas sentam bem próximo ao altar, Helena como sempre falava sobre as pinturas no teto que passavam a ilusão de estarem vivas.
“Ataíde realmente era um gênio “disse Helena ao contemplar sua obra.
Pinturas e ornamentos decoravam seu interior, no alto do retábulo haviam imagens de anjos, acima do trono estava a imagem de Santo Antônio e atrás do sacrário uma pintura de cristo carregando a cruz. Lindas figuras de anjos dava um ar encantado as paredes do camarim, os baldaquinos ostentavam belos cortinados. As laterais da capela levavam outras imagens angelicais e em sua parte superior colunas sustentavam tribunas com arcos dourados, afiladas na parte inferior e largas na base do capitel, entre as tribunas também haviam pinturas e estas se alongavam pela nave até o átrio, uma cornija semelhante a mármore contornava toda a nave. Na interseção entre o transepto e a nave estava no centro do arco cruzeiro um medalhão com a imagem de Santo Antônio com um menino. Nas laterais ao longo da nave encontravam-se altares.
As duas meninas ficaram esperando a missa começar, Mirella observava as imagens sacras iluminadas pelo clerestorio e sentia uma ligeira paz interior ela acreditava estar segura ali e seja o que fosse que a atormentasse não teria poder sobre solo sagrado.
“Mia, ouvi dizer que hoje não será o padre João que celebrará a missa, não sei o que aconteceu, mas, hoje será um tal de padre Thomas, nunca ouvi falar nesse Thomas “.
“Eu também não o conheço e nem sabia que o padre João não estaria aqui hoje, mas, seja como for ele e padre também”.
“Sim, mas, eu prefiro o nosso João de sempre, sei lá acho estranho a nossa igreja ser guiada por um padre de outra cidade”, Helena olhou ao seu redor e terminou: “acho que essas velhinhas quase cegas nem vão notar o padre diferente” tapou a boca com a mão para gargalhar.
“Você acha graça em tudo, acho que nada nessa vida e capaz de deixar você triste”, Disse Mirella.
Helena se levanta e diz que precisa ir ao banheiro, saindo e deixando sua amiga só. Mirella observa algumas sombras deslizarem pelas paredes e entrarem na capela batismal, algo a incomoda e ela resolve ir até lá, chegando ela se aproxima da pia batismal e decide tocar a agua com seus dedos, ela observa um altar ao lado com ramagens e dosséis forrados de damasco, ela estudava o lugar com detalhes procurando pelas tais sombras.
“A arquitetura eclesiástica e realmente fascinante, eu adoro esse estilo barroco com algumas semelhanças ao estilo gótico, e uma obra realmente admirável” disse um jovem que estava sentado em um banco de madeira com espaldares confortáveis, o jovem aparentava ter uns dezoito anos no máximo, trajava calça jeans clara, jaqueta de couro preta e aberta deixando à mostra uma camisa azul, usava tênis rasteirinho, tinha um rosto bonito, olhos pretos, lábios carnudos e uma cabelo liso e castanho que ia um pouco a baixo do queixo.
Mirella olhou um pouco assustada sem dizer uma palavra, ele aproximou-se e lhe mostrou um bloco de folhas com um desenho feito a carvão que ele acabara de fazer: “Às vezes eu gosto de vim aqui e desenhar o que eu vejo, a propósito me desculpe, meu nome e Franklin” estendeu a mão em um ato cortês, ela observou por um instante e com uma certa timidez apertou a mão dele: “Meu nome e Mirella” Disse em tom tímido.
"Peguei no flagra!” Disse Helena.
Mirella um pouco sem jeito despedisse de Franklin: “A missa irá começar logo, mas, foi um prazer conhece-lo e desculpe pela piadinha de minha amiga”
Ela então volta para o banco em frente ao altar e se junta a Helena.
“Você realmente não sabe a hora de falar sério, sempre faz piada de tudo, eu estava apenas falando com o rapaz não precisava a piadinha de mal gosto” disse Mirella.
Helena ficou olhando para amiga com vontade de rir como sempre, porém, não continuou a falar, pois, o tal padre Thomas acabara de entrar sobre o altar.
Dois coroinhas o acompanhavam, ele fitou as pessoas, a igreja estava cheia como sempre “que a graça de Deus esteja com todos os irmãos presentes”, Disse Thomas de braços abertos, porém, Mirella ouviu as seguintes palavras “Deus não está aqui hoje.”
Ela olhou fixamente a face do padre e percebeu traços diabólicos, olhou para o lado, mas, Helena estava de olhos fechados voltadas para sua reza. Mirella agarra sua bíblia com força e fecha os olhos começando a chorar, “senhor Jesus cristo ajude-me!” pensou a pobre menina, ela abriu os olhos e viu uma sombra em forma de demônio subir por traz do altar, os coroinhas possuíam rostos macabros e olhavam para ela o tempo todo. O padre Thomas retira do altar um punhal afiado e caminha em direção a Mirella, ninguém percebe nada, pois, todos estão extremamente envolvidos em suas rezas e mantem seus olhos fechados, Mirella permanece imóvel, o padre caminha lentamente com um olhar sombrio e falando” você não trará vida, meu senhor ficara satisfeito”.
E antes que ele pudesse ataca-la um homem entra na igreja gritando: “boa menina! Boa menina!”, todos olham inclusive Mirella, o bêbado de sempre trocando as pernas ao andar. Thomas o olha com raiva e diz: seu animal imundo, você está do lado dos rebeldes, você deve morrer!”.
O mendigo caminha até o padre, as pessoas observam atentamente sem terem a ideia do que estava acontecendo, sem entender a reação hostil do padre Thomas, Helena segura na mão de Mirella: “Mia, estou com medo”.
As duas se abraçam, o padre então resolve ataca-las, porém, o mendigo joga suas garrafas de cachaça sobre o altar fazendo com que o liquido caia nas roupas do padre, Thomas desvia o ataque para o mendigo, e este o empurra contra o altar fazendo uma velha cair sobre a roupa molhada de álcool. As vestimentas do padre começam a queimar e em questão de segundos ele todo e consumido pelas chamas, os coroinhas desmaiam, as pessoas começam a correr tropeçando umas nas outras. Mirella e Helena correram também, mas, Helena torcera um de seu pés e ao cair bate a cabeça em um dos bancos, assim, desmaiando. Mirella tenta levanta-la, o fogo se alastra até as cortinas e começa a pegar fogo por todos os lados, Franklin aparece e ajuda a levantar e carregar Helena para fora da igreja.
Ao sair eles repousam Helena sobre o gramado, Mirella diz que esqueceu sua bíblia e sua boneca dentro da igreja e resolve voltar para pega-la, mas, quando ela se aproxima da porta, ela se fecha e um grande grito se escuta, como se fosse a voz de um dragão. Alguém toca em seu ombro, era o mendigo e ele lhe entrega a bíblia e a boneca de pano, ela não consegue dizer nenhuma palavra apenas o encara nos olhos. Algumas pessoas não conseguiram sair da igreja e ninguém conseguia abrir nenhuma de suas portas, os gritos das pessoas queimando chamaram a atenção de Mirella que se distraiu e ao olhar novamente para frente viu que o mendigo havia desaparecido.
Helena acorda e chama pela a amiga, Franklin está de joelhos entre as duas, Mirella caminha rapidamente em direção de sua amiga, ela se ajoelha e repousa a cabeça de Helena sobre seu joelho, ela está bem com apenas um pequeno corte em sua testa devido ao impacto da cabeça sobre o banco, Franklin se aproxima e os três observam a igreja queimar por completa.
“Meu Deus! Isso parece um pesadelo”. Diz Helena não acreditando no que estava vendo.
Mirella desejava que aquilo fosse de fato um pesadelo como suas visões, porém, ela senti um aperto no peito em saber que tudo era realidade.
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