Dogma 95

1 Capítulo 1


"Olhando para mim agora nesse meu estado de transe eu percebo que nunca em nenhum momento da minha vida relativamente curta eu estive tão no fundo do poço. Ora fundo do poço... EU ESTOU DESTRUÍDA!"

Enquanto eu ando descompassadamente e sem rumo pelas ruas eu posso notar o olhar de repúdio e censura dos pedestres. Olhares, que em outra ocasião, despertariam um forte sentimento de remorso, vergonha e uma vontade desesperadora de me jogar ao chão e implorar para aqueles estranhos me dessem uma chance de provar que eles estavam me julgando errado, que eu podia agradá­-los, que eu tive uma boa educação, que sou comportada, que eu sou uma boa garota... ou costumava ser. "Porque?" Mas agora, nesse exato momento da minha vida eu só tenho uma palavra que define o que eu penso desses olhares que repousam pesadamente sobre mim, que uma garota puritana que sou, nunca havia usado em toda vida, mas apesar disso, essa única palavra define o que eu penso de modo tão perfeito que nem 1000 outras juntas poderiam "FODA-­SE".

Eu não os culpo... falando sério, quem não julgaria uma garota loira usando sapatos imundos de lama, meia­-calça preta horrivelmente rasgada em lugares aleatórios. Um shorts de couro sujo de sangue camuflado no vermelho do shorts. Uma blusa preta que se pendura em seus ombros por finas alças e um volumoso casaco xadrez amarelo e azul, que se segurava de modo desleixado por seus ombros, tudo isso combinado a um olhar distante e um andar também desleixado e sem rumo. Todos eles olham, todos eles julgam, mas nenhum deles ajuda... "Porque você não me ajudou antes? Porque você não me ajuda agora?'

Perdida em meus pensamentos eu percebo que meus ombros não acompanham o ritmo dos meus passos, deve ser porque eu estou cansada, exausta. A cada passo que eu dou eu sei que sinto dor. Tanto dentro de mim quanto por fora, mais especificamente na parte interna de minhas coxas, onde foi machucada à mordidas. Dói, eu sei que dói, mas eu não sinto. A única coisa que sinto agora é vontade de morrer em um lugar bem longe e que nunca me achem, só assim eu poderia permanecer pura aos olhos de minha família. "Eles vão me abandonar também? Digo... você me abandonou?' A essa hora da noite e com essa leve chuva que atinge o chão, não está frio mas mesmo assim eu me sinto gelada. Eu duvido que algum conhecido esteja na rua, e mesmo que estivessem, duvido que algum deles relacionaria a garota boa, limpa e polida que eu sou com essa maldita prostituta estúpida e vulnerável que eu estou vestindo... nunca imaginariam que sou eu. Não apenas vestindo... talvez eu esteja mesmo me tornando ela. Pensar nessa possibilidade faz com que um soluço de choro seja arrancado do fundo de minha garganta. Esse pensamento terrível me faz estremecer. Meu equilíbrio me abandona assim como tantas outras coisas que me abandonaram hoje. "Porque? Meu bom Deus, porque me abandonaste? Agora eu sei que sim, mas porque?" Eu caio de joelhos em cima de pedras que rodeiam uma arvorezinha ao lado da calçada. Meus joelhos começam a sangrar imediatamente. O líquido vermelho escorre numa lenta cascata até as pedras e depois para a grama. Talvez eu não esteja vestindo uma prostituta... talvez eu é que tenha sido vestida por uma a minha vida toda e apenas hoje ela decidiu se despir e abraçar quem ela realmente é. Quem eu, de agora em diante sou. Um último pensamento transcorre minha mente antes de eu cair em um choro intenso e fulminante. Eu percebo que estou sozinha agora, mas pior do que isso, eu estive sozinha minha vida toda. Por isso eu não tenho minha resposta, precisei passar por tudo isso para chegar nessa conclusão simples. "VAI SE FODER SEU MALDITO DEUS! VOCÊ NÃO EXISTE" Eu não achei que ainda tivesse lágrimas para chorar, mas para minha surpresa elas começam a rolar pelo meu rosto de modo intenso. Desenfreado. Misturando seu salgado com a fina chuva que cai junto. "De agora em diante terão muito mais. Muito mais salgadas e muito mais sofridas, todas carregadas de ódio e cada uma delas vai ter um porque, você vai ver, você vai ver" O choro tira todo o ar dos meus pulmões, sinto ele rasgar minha garganta. Sinto ele apertar meu coração, sinto ele sair de minha boca e ecoar pela noite, indo embora com tudo que me faz ser eu. Tudo de bom, tudo de aconchegante, tudo de reconfortante da minha vida... nada disso vem à minha mente, a única coisa que vem é a cena daqueles malditos prendendo meus braços, me amarrando, me machucando e penetrando em mim... penetrando onde ninguém jamais esteve, rindo enquanto eu chorava, fumando enquanto eu lutava para que o ar adentrasse o meu pulmão... "Fumando" O cheiro de cigarro vem a minha mente e me deixa enjoada, me deixa com ódio daquele fino bastão branco carregado de toxinas. Pensar e lembrar do cheiro faz meu estômago se revirar e eu vomito enquanto uso uma mão para me apoiar na árvore a minha frente. Vomito e choro, choro e vomito... não sei quanto tempo exatamente fiquei ali, eu estava fora de mim. Só voltei a ter consciência do que estava ao meu redor quando sinto uma mão pousar sobre meu ombro.

— Você tá bem colega?

Nunca em minha vida tinham feito uma piada tão cruel quanto aquela. Nunca me senti tão impotente, tão humilhada e acima de tudo, nunca tinha presenciado tamanha irônia. Em minha frente se encontrava nada menos que uma prostituta, ela segura uma bolsa rosa na mão esquerda enquanto apoiava a direita em meu ombro. Ela não é velha e se não fosse tão maquiada até poderia se passar por bonita para meus padrões. Ela parece ser poucos anos mais velha que eu e ela veste roupas não muito diferentes das minhas, o único diferencial é um colar preto que mais parecia uma coleira.

— Me deixa... em... paz! – eu digo com voz fraca para aquela prostituta nojenta, entre uma onda de vômito e outra.

— Calma colega, posso ver que não teve uma noite muito boa. O que houve? Seu cliente te bateu? Sexta-­feira é o pior dia para trabalhar, eles trabalham feito escravos a semana toda e na sexta eles bebem para aliviar o stress, só que eles erram na dose, acabam contratando uma de nós e... bom... acaba acontecendo isso que aconteceu com você.

— Não aconteceu nada comigo – Eu digo limpando resquícios de vômito do canto da boca e tentando ficar de pé, só que, como esperado, eu perco o equilíbrio e teria caído feio se a vadia não tivesse me segurado.

— Calma, eu te ajudo amiga...

— Eu não sou sua amiga! E não toque em mim! – eu empurro ela e acabo caindo de costas na grama molhada.

Enquanto eu encaro aquele céu escuro e denso e sinto as gotas de chuva fervilharem em meu rosto, eu decido que é isso. Aquele é o fim para mim. Eu já não tenho mais para onde ir. Eu não posso fugir disso porque eu sempre vou carregar comigo. Não importa o que eu faça,eu sempre vou carregar nas minhas lembranças do dia em que eu destrui o resto da minha vida. Enquanto eu encaro esse céu cujas estrelas se fazem ausentes eu decido que eu desisto... que eu me entrego... que eu não quero mais viver... que eu vou...

— Levanta – Ordena a prostituta, após acertar meu rosto com um tapa.

— O que você pensa que está fazendo? Você é louca? – eu digo enquanto esfrego meu rosto

— Eu mandei levantar – respode ela sem demonstrar que me ouviu

— Eu não vou te obedecer sua... – outro tapa, mais forte.

— Levanta – ela se ajoelha em cima de mim e segura no meu casaco e começa a me chacoalhar.
— Por favor, me deixa, já me machucaram o bastante, eu não tenho nada para você, eu só quero... – ela me acerta mais uma vez.

— Só quer o que? Morrer? Eu já vi aquele olhar, eu conheço ele, eu não vou permitir que você se entregue... então por isso garota, se levante, por que eu posso fazer isso a noite toda.

— Você não sabe nada de mim sua imunda, sai de cima de mim! – dessa vez são dois, um em cada lado do rosto.

— Eu não preciso... só sei que nenhuma garota nessa situação merece morrer.

Com essa resposta eu deixo as emoções tomarem conta de mim, do meu corpo e da minha voz, acabo descobrindo que tenho raiva daquela mulher

— VOCÊ NÃO PODE CHEGAR SE INTROMETENDO NA VIDA DOS OUTROS E JULGAR QUE ELES NÃO PODEM TOMAR CERTAS DECISÕES... – ela tenta me acertar de novo mas eu seguro o pulso dela no ar – ME ESCUTA SUA MALDITA, OLHA O QUE ELES FIZERAM COMIGO! ELES ME USARAM COMO QUERIAM, ME MALTRATARAM, ME BATERAM E TORTURARAM... ME ESTUPRARAM...ELES ME DESTRUIRAM!

E com isso eu me deixo cair nas lágrimas novamente, já ignorando a presença daquela mulher despresível. Nós ficamos em silêncio por um tempo mas então ela começa a falar.

— E então o que? Você vai terminar o serviço para eles?

Isso faz com que eu levante o olhar. Pela primeira vez eu a encaro diretamente nos olhos. Ela me encara com o mesmo olhar que fazemos quando encontramos algum animal machucado. É intimidante porque me faz lembrar da criança que ainda sou e como uma mulher vivida que ela com certeza é deve me achar uma criança idiota.

— Eu só... lutei muito... estou cansada de lutar.

Ela segura meu rosto entre suas duas mãos
— Ah minha querida, nós somos mulheres, lutar é tudo o que fazemos.

Eu me deixo chorar no colo da prostituta enquanto a chuva para e por entre as nuvens surge a primeira estrela daquela noite que eu nunca vou esquecer, porque foi a noite que eu conheci Joselyn.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.