Dogma
18 Epílogo
Notas iniciais
Três anos depois.
Fazia muito calor para um dia de primavera. Era incomum as temperaturas irem tão altas para aquela época do ano, principalmente, na cidade de Ruão localizada na região histórica da Normandia, no noroeste da França. A estufa do orquidário estava climatizada, mas não impedia da necessidade das flores serem pulverizadas com água para resistirem às temperaturas baixas. Haviam investido alto naquela qualidade de flores para ampliar as vendas e não podiam deixar que as mudas se perdessem.
Sakura observava de longe Camille — uma estudante que trabalhava meio período na floricultura — ou melhor na Boutique de Flores, já que Ino havia a convencido a expandir o negócio no ano passado e deixou dias no inferno até aceitar que deveriam mudar a “categoria” do lugar. Como as duas não conseguiam dar conta da parte administrativa e das vendas, foram obrigadas a contratar a menina para uma ajuda quando Temari ou Hinata não podiam ficar ali e Karin estava ocupada demais com a barriga enorme pela gravidez dos gêmeos.
Mudaram-se para Ruão pouco antes de Sarada completar seis meses, além de ser uma cidade a qual Sasuke já conhecia bastante e mantinha alguns contatos, todos haviam decidido criar raízes por lá. Era uma cidade bonita, tranquila e bom para os negócios, a boutique estava indo bem, o escritório dos garotos estava lucrando. Naruto, Shikamaru e Sasuke haviam criado uma sociedade para a criação de um escritório de engenharia, onde o Uchiha cuidava da parte contratual já que havia, de fato, concluído a faculdade de direito, onde lhe fora oferecido uma parte, mas optou pela tranquilidade — de certa forma — já que Ino ainda lhe causava dores de cabeça. E também… Havia aquela pequena coisinha de cabelos pretos e vestidinho vermelho que logo seria pega pelo pai na creche muito próxima do trabalho dos dois inclusive.
Encarou o relógio de pulso, ainda faltavam alguns minutos para a chegada dos dois. Oh por deus, quem queria enganar? Estava morrendo de saudades de sua gatinha! Sarada era um pedaço seu que fazia falta quando estava longe, mesmo quando deixavam a pequena com algum dos “tios ou tias” para que ela e Sasuke tivessem um momento a sós, logo, em seguida, eles estavam indo buscar a filha.
Quando segurou sua menina pela primeira vez, não negou que sentiu medo. Medo de não ser boa o suficiente, de ser difícil, não conseguir ser uma boa mãe e falhar como os seus próprios pais de sangue haviam feito. Mas Sarada fora tão fácil, do segundo em que nasceu ela já não imaginava sua vida e a dele sem a pequena Uchiha, parecia que sempre o que faltava estava ali, os completando e ensinando-os cada dia algo novo. Ser os pais de Sarada definitivamente cobrava uma energia maior que o comum, mas sendo filha de quem era… O que poderiam esperar?
A boutique ficava a frente de uma praça, onde do outro lado, ficava a nova academia de Gaara e onde, atualmente, o carro de Ino estava estacionado enquanto a loira caminhava atravessando a rua até ela. Aqueles dois haviam finalmente se acertado e Gaara, finalmente, havia pedido a Yamanaka em casamento — situação ao qual ela fazia questão de mostrar com o diamante que encontrava-se em sua mão direita. O casamento seria em poucas semanas e Ino não poderia estar nada menos do que insuportável.
Ela e Sasuke haviam realizado uma cerimônia pequena, a pedido dela mesma, com apenas os amigos e a família de Sasuke que veio até a França para o casamento. Sakura entrou na igreja com Sarada nos braços ao invés de buquê e ali a pequena permaneceu durante toda a celebração. Na hora das alianças, Sasuke além de colocar a aliança em si, também colocou uma delicada pulseira de ouro no pulso da filha e para a felicidade do fotográfo, Sakura chorou daquele momento até o final da cerimônia.
Não poderia reclamar nada da nova vida. Sempre perguntou-se como seria ao se aposentar da antiga atividade ou o quão tediosa seria uma rotina sem toda aquela realidade. Mas podia dizer que estava muito satisfeita. Estava viva, havia formado uma família com o homem mais incrível do mundo, tinha um gato que era tão temperamental quanto Sasuke, amigos que eram uma extensão da sua família e… Ela não cansava de pensar como era bom acordar todos os dias ao lado dele.
— Uma flor por seus pensamentos.
— Não quero uma flor, quero os documentos que você me deve prontos. — Sakura respondeu a amiga que colocou a mão no peito fingindo-se de ofendida. — Sai para transar no meio do expediente, sua suja.
— Bom, pelo menos eu nunca usei a estufa. — Ino a respondeu sorrindo. — Que péssima sócia você.
— Qual a graça de ter um próprio negócio e não poder nem aproveitar isso? — Sakura deu de ombros. — Principalmente quando você tem uma criança que tem um sensor.
— Oh Deus, como assim?
— Sarada parece que sente quando achamos que ela dormiu e vamos poder aproveitar… A menina bate na porta do quarto. — Sakura suspirou. — Aprendemos a trancar a porta da pior forma possível, Sasuke quase pulou a janela.
A risada de Ino ecoou na loja, chamando a atenção de Camille que sorriu para as duas. Sakura rolou os olhos só Deus sabia a tensão que ela e o marido se encontravam nos últimos dias. Encarou Ino que abanava-se em uma tentativa de não borrar a maquiagem.
— Ino… Sarada vai passar o final de semana com você. — Avisou dirigindo-se para de trás do balcão. — Seja a madrinha que ela merece e leve-a para passear que eu, a mãe, preciso colocar uns assuntos em dia.
— Se isso vai te deixar com um humor melhor.
Virou-se para xingar a Yamanaka, mas o sino da porta soou, indicando a entrada de uma nova pessoa no local e pelo silêncio não era Sasuke e Sarada. Ao fundo da loja, a mulher olhava os buquês de flores do campo montados por Ino naquela manhã, parecia entretida o bastante para não notar a presença das duas ali.
— Posso ajudá-la? — Ino perguntou simpática e solícita. A loira sempre tivera uma relação com os clientes, já que Sakura preferia cuidar das finanças.
Mudava-se o ramo, mas não o jeito de trabalhar afinal.
Não podia-se ver muito da mulher, utilizava um chapéu para o forte sol e óculos escuros. Achou a figura bem peculiar, mas podia julgar que era quase como se ela não quisesse ser vista, sempre fugindo do olhar direto de Ino.
— Procurando algumas flores, minha querida. — Sorriu. — Suas flores são belas. Estas flores do campo lembram muito de minha filha.
— Oh, foram montadas hoje! Sua filha certamente irá adorar! É alguma data especial?
A senhora encarou Ino, mesmo com os óculos escuros podia ver que ela observava Ino em cada detalhe.
— Tudo bem? — Ino perguntou após o silêncio se instalar no lugar.
— Perdão. — respondeu. — Não tenho mais minhas filhas comigo, há muito já partiram… A mais nova que enchia a casa com essas flores. A mais velha detestava, reclamava que tinha alergia, mas na verdade era apenas para implicar.
— Nossa… Eu que peço perdão por ser inconveniente. — Ino desculpou-se constrangida.
— Não peça, menina, as duas estão tão bem agora… Isso conforta qualquer saudade.
Sakura debruçou-se no balcão do caixa, entretida na conversa das duas. Podia ver que a mulher tinha dificuldades na fala, certamente um problema pulmonar e o francês não era muito bom, provavelmente viera há pouco tempo para a França. Chegou a se preocupar, por mais que nunca tiveram algum problema com o “passado” seus instintos nunca sumiram, ainda mais por Ruão não ser uma cidade turística.
Ouviu o som do freio de carro do lado de fora, o esportivo negro estacionou na vaga própria e Sakura voltou-se sua atenção ali. Que mordesse a língua para o dia que duvidou que Sasuke não poderia ficar ainda mais bonito. Ele manteve os cabelos compridos, quase nos ombros já, vestido de roupas negras como o habitual só que sem o terno e sim com uma jaqueta de couro esportiva e jurou ter visto algumas mulheres o cuidando no outro lado da rua.
Saiu da loja, indo em direção ao carro enquanto o marido abria a porta traseira, soltando o cinto de Sarada que conversava com o pai sobre alguma atividade feita na escola, este que desempenhava um papel de ótimo ator, encorajando a pequena a contar mais e mais.
Cruzou os braços e aguardou que os dois se aproximassem, Sasuke sorriu para si enquanto caminhava em sua direção com Sarada em um braço enquanto levava a mochila da pequena na outra.
— Papa! Je peux écrire mon nom! — A pequena Uchiha dizia, podia sentir o mesmo orgulho que tinha nela, também em Sasuke com cada pequena vitória da filha. Sarada já treinava há dias para escrever seu nome corretamente.
— Isso é ótimo, mon petit. — Sasuke respondeu entusiasmado, um babão. — Logo vai poder ajudar o papai no escritório, non?
— E na loja da mama!
— Certo, diga olá para ela então… — Sasuke parou na frente da esposa, Sarada virou-se animada para a mãe que a recebeu nos braços. — Hey, chère. — beijou-a nos lábios, rapidamente,ouvindo a risada da filha.
— Oi, querido. — respondeu abraçando a filha. — Olá, ma petite fleur. Você está tão animada hoje! Sinto que vai querer me contar todas as novidades!
— Ganhei uma estrelinha da professora por escrever meu nome certo! Está na agenda, ela deixou trazermos para mostrar! — Apontou para a mochila na mão de Sasuke.
— Mas que menina mais linda!
O casal Uchiha virou-se para a senhora que saía da loja com Ino ao seu lado e um buquê de flores nas mãos. Sakura apertou a filha em seus braços instintivamente, por mais que soubesse que ela não faria mal algum.
— Sarada, diga olá e agradeça. — Sakura disse sentindo o braço de Sasuke em sua volta como um gavião que coloca sua família debaixo das asas.
— Olá… Muito obrigada, senhora.
— Oh você é igualzinha aos seus pais! Tem os olhos da sua mãe, por mais que sejam tão escuros quanto de seu pai… Meu parabéns, a filha de vocês é bela.
— Obrigada. — Sakura ajeitou a filha nos braços. — Ela dá algum trabalho, mas vale a pena, né querida?
— Crianças são apenas crianças, principalmente para nós pais… Não importa o quão independente suas filhas estejam ou já com suas próprias famílias ainda são suas meninas no final. — a senhora sorriu para a pequena tirando uma flor lilás do buquê e entregando a criança. — Os antigos diziam que a flor do campo é uma benção de Deus. Acredito que a filha de vocês seja uma benção para vocês também.
Sarada pegou a flor nas mãos e sorriu para a senhora que acenou.
— Bom, preciso ir…
— Volte sempre! Estaremos vendendo orquídeas em breve! — Ino disse segurando as mãos no peito.
— Estou de partida, querida, mas tenho certeza que suas flores serão as mais belas… Minhas felicitações pelo casamento, serão um dia lindo. — A mulher apoiou-se na bengala, que Sakura não havia notado, ela andava debilitada até um carro estacionado logo atrás de Sasuke. — Você se tornou uma mãe maravilhosa, Sakura.
E assim ela partiu, entrando no carro onde o motorista a aguardava dando partida logo em seguida.
— Tsunade…
— Nós vamos deixar… Ela partir? Assim?! — Ino perguntou baixo, a Yamanaka ainda estava em choque, o perfume da tia jamais seria confundido. — Deus… Ela está tão debilitada!
— Eu não sei, Ino…
— Quem era, mama? — Sarada perguntou curiosa.
Sasuke e Sakura trocaram olhares, o Uchiha preocupado com a mulher que ainda digeria tudo aquilo. Tsunade era uma velha raposa, escondeu-se por todos esses anos… Ninguém conseguiria sair daquela explosão, mas lá estava ela, mostrando o quão espetacular aquela mulher era. Afinal, não era filha de qualquer uma.
— Sakura? Tudo bem? — Sasuke apertou-a contra si. — Quer que eu investigue?
— Não… Deus, não. — Sakura sorriu. — Ela está bem, deixe-a. Não podemos atrapalhar isso.
— O que está havendo? — Sarada perguntou impaciente.
— Apenas uma amiga, meu amor. — Sasuke respondeu abalada. — Uma pessoa que sua mãe e a tia Ino gostam muito. Guarde essa flor. Foi um presente especial para você.
— Tudo bem!
— Vamos para casa… Ino, mande Camille fechar a loja. — Encarou sua irmã de coração. — Vamos para casa, sim?
— Eu preciso de uma taça de vinho. — Ino sorriu em meio a lágrimas. — Aquela velha! Ela é… Inacreditável.
oOo
Ajeitou o edredom lilás sob o pequeno corpo da Uchiha que já tinha os olhos pequeninos pelo sono. Ao lado da cama, no criado mudo, a flor repousava no vaso de vidro onde normalmente eram colocadas flores que o pai trazia para a filha eventualmente.
— Pronta para dormir? — Sakura perguntou acariciando as bochechinhas vermelhas.
Sentia-se exausta com aquele dia, agradeceu a Sasuke que pediu um jantar pronto pois precisava tomar um banho longo e quente assim que chegara em casa. O marido e ela conversaram sobre Tsunade enquanto Sarada estava distraída com seus desenhos, mas a verdade é que nem ela sabia o que dizer e ao mesmo tempo simplesmente sabia que aquilo era a cara da Senju. Aceitou a ideia de Ino e deixou-se levar por algumas taças de vinho, talvez o álcool a ajuda-se com sua mente abarrotada de pensamentos.
— Sim, mama. Quantos dias faltam para as férias? — A menina perguntou baixinho. — Papai prometeu que vamos viajar até a praia.
— Praia hn? Bom… Ainda falta um pouco, mas o que acha de passar o sábado a noite com a tia Ino e Gaara. hn?
— Seria bom, Shikadai vai estar lá?
Shikadai estava completando oito anos de idade nos próximos dias, os dois haviam sido criados próximos — principalmente por Shikamaru e Temari morarem no mesmo condomínio em que os Uchihas — e Sarada adorava o pequeno Nara, este que havia demorado para se acostumar com a presença de uma nova criança na “família”, mas atualmente os dois andavam unha em carne, a filha e o afilhado haviam se tornado bons amigos afinal.
— Vou falar com a Temari. Agora durma sim? — Sakura beijou sua testa. — Papai deu banho em você?
— Sim!
— Que animação… — Sakura balançou a cabeça, sabia como Sarada fazia a maior zona quando era Sasuke a dar banho nela. — Até amanhã, durma bem e qualquer coisa-
— Vocês vão estar aqui do ladinho…. — A pequena sorriu e bocejou. — Hoje dormirei em meu quarto, mama.
— Oh claro que sim. — A mãe sorriu a abraçando. Todos os dias a menina aparecia em sua cama no meio da noite. — Amo você.
— Te amo mamãe. — respondeu, sorrindo para detrás da mãe. — Boa noite, papa.
— Bons sonhos, petit.
Sasuke escorou-se na porta, observando Sakura ajustar a filha na cama e ligar o pequeno abajur para evitar que o quarto ficasse em plena escuridão. Abriu a porta dando espaço para a Uchiha, que mandou um beijo para Sarada, passar e fechou a porta.
Sentou-se na cama de casal, sentindo Sasuke atrás de si e gemeu ao sentir as mãos do homem em seus ombros a massageando. Por deus, como aquilo era bom, Sasuke sabia o que fazia ali.
— Você está tensa, chère… — intercalou a massagem com beijos sob a pele dela. — Posso fazer algo por você?
— Depois de tanto vinho estou topando qualquer coisa, querido.
— Isso quer dizer que precisa de vinho agora? Achei que não a enjoaria. — Murmurou em seu ouvido, abraçando-a contra seu corpo. — Acho que preciso me empenhar um pouco mais.
— Não foi isso que quis dizer, se vai ajudar em seu ego. Você continua ótimo — Sakura sorriu, fechando os olhos e entregando-se às carícias quentes. — Mas acho que podemos averiguar isso hoje.
— Hmm. — Sentia-o beijar e mordiscar o lóbulo da orelha, enquanto as mãos a apertavam e a traziam mais e mais até ele, até que não houvesse nenhum espaço. — Acredito que você não sairá decepcionada, chère, e tudo estará resolvido antes de nossa pequena aparecer.
— Oh sobre isso… — Sakura observava a camisola de seda ser aberta. — Sarada vai para Ino no final de semana.
Escutou a risada baixa dele em resposta e sentiu-se arrepiar. Seu corpo foi virado de frente para ele, os olhos negros tão intensos quanto anos atrás quando se conheceram, queimavam contra os seus, agora sem a competição ou inimizade, apenas aquele sentimento que sempre esteve ali e a cada dia mais forte.
Emaranhou seus dedos nos cabelos negros dele e o beijou, sentindo suas línguas naquela velha briga por controle e o sabor um do outro que deixava aquele toque tão particular e único. No silêncio do quarto e na troca de olhares as palavras eram ditas pelos dois.
— Então me deixe te mostrar o que a espera, chère.
Fim.
Fale com o autor