Doctor Who - Primeira Temporada (2025)

2 Episódio 1 - A Noite das Mil Faces ( Parte 2 de 5)


O caminho até o local da morte de Kíyáani parecia mais longo sob o manto da noite.



O grupo avançava em silêncio, os passos abafados pelo pó fino que cobria a trilha como uma mortalha invisível. A luz trêmula das lanternas de óleo projetava sombras alongadas e distorcidas nas pedras, nos arbustos retorcidos e nas copas dos pinheiros imóveis. Cada estalo de galho, cada folha agitada por um vento inexistente, fazia os mais jovens estremecerem. Até os anciãos, calejados pelas décadas de vida nas terras de Dinétah, caminhavam com os olhos baixos e os dedos tensos nas alças de armas improvisadas.



A Doutora seguia com o braço apoiado em Tahu. O mundo parecia inclinar-se sob seus pés a cada passo, mas ela se forçava a continuar. Seus olhos varriam o entorno — o chão, o céu estrelado, as árvores paradas demais para o gosto de quem já enfrentara horrores escondidos nas dobras da realidade. O instinto de sobrevivência, aliado à experiência de quem percorre o tempo e o espaço, a mantinha alerta.



Quando chegaram ao círculo de pedras onde Kíyáani fora encontrado, o ar pareceu mudar. Ficou mais denso. Carregado de uma eletricidade invisível, como se uma tempestade rondasse ali, contida entre camadas de tempo e espaço.



O solo ainda guardava a mancha escura onde o sangue havia escorrido. A terra, que deveria estar seca, parecia ter engolido tudo com uma pressa inquietante, como se tentasse esconder os vestígios do que acontecera ali.



A Doutora ajoelhou-se com esforço, os músculos tremendo sob o peso do esforço acumulado. Passou os dedos pela poeira, levou-os ao nariz, inspirando fundo. O gosto metálico preencheu sua boca antes mesmo de ela dizer qualquer palavra.



— "ionização anormal... traços de carbono queimado... e isso... — murmurou, esfregando a terra entre os dedos. — Partículas de obsidiana... bem mais do que o natural para essa região.





Ela ergueu o olhar, os olhos brilhando com uma inquietação elétrica.



— O corte... foi feito exatamente aqui. O sangue... o arranjo do corpo... Tudo montado. Não foi apenas um ataque. Isso foi medo...



Tóbee cruzou os braços, ainda com a descrença estampada no rosto.



— "Medo? Ele era calmo, nunca fez coisas ruins a ninguém."



A Doutora assentiu, como se reconhecesse a dureza do comentário.



— Não é apenas os humanos que são agressivos com o que não entendem.



Tahu, que até então observava em silêncio, se aproximou com a voz baixa.



— Mas qual a intenção dele? Fala coisas estranhas demais para nós, forasteira.



Ela respirou fundo antes de responder, os olhos fixos nas pedras ao redor.



— Pra abrir um caminho. Entre mundos. É eu sei que parece, as coisas mais maravilhosas são.



O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que o ar parado. Até o vento hesitou, deixando os pinheiros imóveis, como testemunhas mudas.



Com mãos trêmulas, a Doutora retirou de dentro da jaqueta rasgada um pequeno cilindro metálico, de aspecto estranho, com fileiras de luzes azuis pulsantes ao longo das laterais. Pressionou um botão e um feixe de energia percorreu o chão, provocando um leve zumbido. As folhas próximas vibraram. As pedras saltaram como se repelidas por um campo invisível.



Pequenos hologramas projetaram-se no ar acima do aparelho, linhas de dados girando em uma dança caótica.



— Fraturas dimensionais... pequenas ainda... mas já suficientes para... ótimo... isso só complica.



Tahu, que até então observava com desconfiança, deu um passo à frente.



— "O que você tá vendo?"



— Deslocamento temporal. Uma assinatura residual... fraca, mas inegável. — Ela girou o aparelho nas mãos, analisando os resultados. — Alguém está forçando a realidade a abrir pequenas fendas... E parece estar usando as mortes como catalisador.



Com esforço, a Doutora se pôs de pé, respirando fundo. O peito ardia com a dor constante que não a abandonava desde a última regeneração.



— Se não impedirmos o próximo ataque... o que aconteceu aqui vai ser só o começo.



Tóbee bufou alto, com o ceticismo habitual.



— "E como você pretende fazer isso? Mal consegue ficar de pé."



Ela se virou para ele, o olhar cortante, os olhos carregados de uma determinação quase ancestral.



— Já passei por piores... bem piores. Só preciso de algumas horas. Um pouco de café... ou chá de junípero serve... e talvez uma chave de fenda... ou uma pedra bem polida... posso improvisar com o que tiver.



A tentativa de humor morreu no ar. As expressões ao redor continuavam fechadas, os ombros tensos. Mas Tahu, em meio à tensão, permitiu-se um meio sorriso.



— "Chá... podemos providenciar."



Antes que qualquer outro som humano pudesse preencher o espaço, um estalo rompeu o silêncio. Seco. Cortante. Como madeira se partindo sob pressão.



O grupo virou-se ao mesmo tempo, os olhos fixos na escuridão ao sul.



Algo se movia entre as árvores. Passos pesados. Deliberados. Sem pressa. Sem intenção de se esconder.



A Doutora apertou tentava tomar mais a frente, diante do primeiro contato com o ser.



— Fiquem juntos. Ninguém se separa. Seja lá o que for... está nos cercando.



Tóbee ergueu a lança com ambas as mãos, os olhos arregalados.



— "Do sul... e tá vindo rápido."



O cheiro de terra revolvida chegou antes. Um aroma denso, com notas de umidade e algo... metálico.



E então, das sombras entre os pinheiros, a coisa se revelou.



Alta.



Magra.



Com a pele deformada, como se tivesse sido mal costurada sobre um corpo que não lhe pertencia. As juntas pareciam deslocadas, os movimentos erráticos. Cada passo parecia exigir um esforço grotesco.



Os olhos... não eram humanos.



E ao encará-los, a Doutora apenas sussurrou, com um fio de voz, como se a palavra lhe queimasse a garganta.



— "Não... Não façam nada."



O grupo recuou instintivamente, formando um círculo ao redor dela.



A criatura inclinou a cabeça para o lado, num gesto curioso, quase infantil.



E então... avançou.



Sua pele, fina e esticada como um véu mal costurado sobre músculos e ossos alongados, deixava entrever pulsos de luz avermelhada sob a superfície, como se algo mais... algo que não pertencia a este mundo... vibrasse por baixo daquela carcaça. Os olhos, de um amarelo cortante, queimavam com uma luz ancestral e selvagem. Não eram olhos de um predador comum. Eram olhos de algo que tinha caminhado entre os vivos e os mortos… e que agora os encarava com fome.



As mandíbulas se abriram com um estalo grotesco, expondo fileiras de dentes finos, longos, afiados… projetados não apenas para rasgar carne, mas para dilacerar o próprio tecido do tempo, como se devorassem realidades.



O grupo congelou por um segundo.



Foi Tóbee quem quebrou o transe.



Num impulso de coragem e desespero, avançou com a lança, o braço cortando o ar numa investida veloz. Seu grito de guerra rompeu o silêncio como um trovão rasgando o céu. A ponta improvisada da arma cortou o flanco da criatura, abrindo um sulco profundo e escuro. Um som agudo, mais lamento do que dor, ecoou das entranhas da besta.



Ao mesmo tempo, Tahu ergueu a tocha com ambas as mãos, girando-a e desferindo um golpe ardente contra o ombro da criatura. As chamas lamberam a pele translúcida, provocando uma reação imediata. A criatura recuou, arqueando-se como um animal ferido, o corpo tremendo num espasmo quase antinatural. Por um instante, a floresta pareceu prender a respiração.



Então, como se fosse feita de fumaça e sombra, a coisa desapareceu entre os troncos com um assobio abafado, deixando para trás apenas o cheiro de terra queimada e sangue metálico no ar.



O silêncio voltou, denso e opressivo. Nem mesmo os grilos ousavam cantar.



Bastiin, o lider militar da tribo, avançou pelo grupo, os ombros largos, a expressão endurecida pela raiva e pela preocupação. O rosto, marcado por cicatrizes que contavam suas próprias histórias de sobrevivência, parecia mais austero à luz das tochas tremeluzentes.



— “Vocês a feriram!” — sua voz ecoou com peso, como uma pedra atirada em águas profundas. — “Não sabem o que fizeram.”



Tóbee ainda respirava com dificuldade, o sangue fervendo de adrenalina. A Doutora, ajoelhada ao lado de Tahu, ergueu os olhos, tentando compreender a gravidade daquelas palavras.



— “Ferimos? Tentamos nos defender! Ela veio pra cima de nós como... como um monstro!” — Tóbee argumentou, a voz ainda vibrando com a tensão do combate.



Mas o chefe apenas balançou a cabeça, com um olhar carregado de fúria contida.



— “Este não é um monstro comum.” — Ele deu um passo à frente, os olhos fixos na Doutora. — “É um espírito sagrado. Um guardião da terra.”



A Doutora sentiu um calafrio subir pela espinha. As peças, ainda dispersas em sua mente, começaram a buscar conexões.



— Espírito? — ela sussurrou, mais para si mesma do que para os outros.



O velho guerreiro respirou fundo antes de falar novamente, como quem repete uma verdade muitas vezes contada em vigílias silenciosas.



— “Nas histórias do povo Diné, há o chįįh nidaa’á. A sombra que veste pele humana. Um ser que caminha entre os mundos. Entre os vivos e os mortos.”



Ele fez uma pausa, olhando ao redor, como se esperasse que a própria floresta o contradissesse.



— “Não é para ser combatido. É para ser respeitado.”



A Doutora engoliu em seco.



— Mas... ele nos atacou. Atacou vocês. Tentamos proteger todos daqui. Não é a prioridade?



— “E, ao fazer isso… desequilibraram o que já estava frágil.” — Bastiin rebateu. — “Ferir um espírito... é como ferir a própria terra. O preço vem... sempre vem.”



O peso cultural daquelas palavras caiu sobre ela com força. A Doutora, sempre tentando equilibrar a ciência com o respeito pelos mitos locais, sentiu-se entre dois mundos — como se ela mesma fosse parte daquela fratura entre o racional e o místico.



— Se essa criatura é mais que lenda… então talvez ela esteja presa aqui. Ou foi forçada a despertar. Algo... ou alguém... está manipulando as camadas da realidade. — Sua voz soava mais sombria agora, como se cada palavra nascesse de uma preocupação que ia muito além daquela noite.



O guerreiro indígena estreitou os olhos, como se estivesse decidindo se confiava nela ou não. Por fim, assentiu, resignado.



— “Vou levá-la até a mais anciã da aldeia.” — Ele virou-se, fazendo um gesto para que os outros o seguissem. — “Ela guarda as histórias que você precisa ouvir. Talvez... entenda o que despertaram.”





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A cabana da anciã era um espaço pequeno, mas carregado de significado.



As paredes de madeira, cobertas com peles e símbolos esculpidos, respiravam o peso de gerações. No centro, uma fogueira baixa lançava sombras vivas, projetando formas abstratas que dançavam como espíritos silenciosos. Ramos de zimbro queimavam lentamente, espalhando uma fumaça aromática que se elevava em espirais suaves pelo teto.



A anciã, encolhida num canto, parecia mais um elemento da própria terra do que uma pessoa. A pele enrugada, os cabelos como neve, e os olhos... olhos que já tinham visto nascer e morrer mais estações do que qualquer um ali.



Ela não perguntou nomes. Não pediu explicações. Apenas começou a falar, como se soubesse o que eles carregavam.



— “Há muitos ciclos, a terra gemeu. As estrelas… mudaram de lugar. E nos dias em que o céu parecia desabar, o chįįh nidaa’á apareceu.” — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra parecia ecoar dentro do peito da Doutora. — “Ele não vem para matar… mas para avisar. Quando caminha entre nós… é porque o equilíbrio foi quebrado.”



Ela parou, pegando um punhado de areia negra de um recipiente próximo e deixando-a escorrer lentamente entre os dedos, como se mostrasse a fragilidade do tempo.



— “Aquele que fere o espírito… fere a si mesmo. E à sua terra.”



A Doutora, ajoelhada à sua frente, fechou os olhos por um instante. As memórias de outras vidas, de outras guerras, de outros mundos… tudo parecia pesar sobre ela naquele momento.



— E se esse espírito não veio por vontade própria? — perguntou, abrindo os olhos. — Se alguém... ou algo... o trouxe? Se está preso entre mundos, puxado para cá por uma ruptura... uma fenda entre as realidades?



A anciã ergueu o olhar, fitando-a de um modo que fez a pele da Doutora arrepiar.



— Então o mal que enfrentam... é mais antigo do que vocês imaginam. — Ela se inclinou um pouco mais perto, a voz reduzida a quase um lamento. — A escuridão caminha junto com o vento. E as raízes da terra... já começaram a tremerr.



A Doutora respirou fundo, sentindo que aquela investigação não seria apenas sobre salvar uma aldeia... mas sobre impedir algo muito maior de despertar.



— Vou procurar cada sinal… cada vestígio. — Sua voz ganhou um novo tom de determinação. — Se esse espírito está aprisionado, vamos libertá-lo. Se está

sendo usado... vamos descobrir quem está por trás. Mas antes de tudo… precisamos impedir


a próxima morte. Isso é o importante.



Bastiin, parado à porta da cabana, cruzou os braços, os olhos agora um pouco menos duros.



— “Que a Terra nos proteja, viajante. E a você.”



O sol mal arranhava as copas retorcidas das árvores, lançando uma luz pálida e fria sobre o solo coberto de agulhas de pinho. A Doutora já caminhava pela floresta, os olhos atentos a cada pegada, cada ramo partido, cada marca que o tempo ou a criatura pudessem ter deixado.



O ar ainda carregava o cheiro denso de terra molhada e madeira antiga. A chave de fenda sônica, presa ao cinto, parecia tão exausta quanto ela — faíscas curtas, energia mínima, como se o próprio ambiente drenasse sua capacidade.



Ela suspirou, frustrada, e continuou seguindo os rastros.



Foi quando ouviu passos correndo em sua direção.



— Doutora! — a voz de Nayeli, um jovem que secretamente seguiu a viajante, cortou o silêncio, arfada, ansiosa.



Ela se virou e o viu se aproximar, o rosto suado, os olhos queimando de preocupação e vontade.



— Você não deveria ficar na aldeia? — ela questionou, erguendo uma sobrancelha, o tom de comando firme.



— Eu sei. — Nayeli parou, ofegante, com as mãos apoiadas nos joelhos. — Mas… eu não posso ficar lá. Não agora.



A Doutora cruzou os braços.



— Não é seguro. Isso aqui está ficando cada vez pior. Você viu o que aconteceu ontem à noite.



— Justamente por isso! — retrucou ele, erguendo a voz, antes de respirar fundo e tentar conter a explosão de palavras. — Escuta... os anciãos podem não acreditar em você... podem até não acreditar em mim... mas eu acredito. Eu sempre acreditei nas histórias. Nos sinais. No que a floresta diz... e no que você diz.



A Doutora o encarou por um instante. Reconhecia aquele olhar. O olhar de alguém que não aceitaria um "não" como resposta.



— Sabe o que você me lembra? — disse ela, com um meio sorriso cansado. — Eu. Com uns... bom... uns poucos séculos a menos, isso não vai acabaram bem...



Nayeli sorriu de canto, mas manteve a postura firme.



— Eu conheço cada trilha dessa floresta. Cada atalho. Se você vai entrar na caverna, vai precisar de mim.



Ela o analisou em silêncio. O jeito que ele mantinha o queixo erguido, os punhos cerrados de determinação, e a raiva mal contida contra a própria impotência.



— E o que os outros diriam? — perguntou ela, testando. — Que o filho mais novo de uma das famílias guardiãs largou tudo pra seguir uma forasteira?



— Que eu sou teimoso demais pro meu próprio bem. — Ele deu de ombros. — Como sempre disseram.



A Doutora respirou fundo, lutando contra o impulso de protegê-lo daquilo que estava por vir. Mas sabia que, se o afastasse agora, ele voltaria por conta própria... talvez em circunstâncias ainda mais perigosas.



— Tá bom... — cedeu ela, com um sorriso resignado. — Mas a partir de agora, você segue minhas ordens. Sem heróis solitários, sem correr na frente, sem decisões impulsivas.



— Feito. — Nayeli assentiu com rapidez.



— E se eu mandar você correr… você corre.



Ele hesitou por um segundo, mas depois concordou.



— Eu corro.



— Ótimo. — Ela ajeitou a jaqueta, lançando um último olhar para o céu avermelhado do amanhecer. — Então vamos trabalhar.





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Juntos, avançaram pela trilha coberta de musgo, o som de um rio ao longe e o canto dos pássaros tentando, em vão, quebrar a tensão que os envolvia. Nayeli guiava com passos rápidos, mas sempre lançando olhares por cima do ombro para garantir que a Doutora o seguia.



Chegaram à entrada da caverna, um arco natural de pedras coberto de líquen e sombras. Nayeli fez um gesto reverente antes de apontar para os símbolos riscados nas pedras.



— Esses são os sinais dos guardiões — explicou ele, a voz mais baixa, quase um sussurro. — Um aviso... ou uma prece. Ninguém entra aqui sem deixar algo pra trás.



— Nós dois estamos deixando muita coisa pra trás — murmurou a Doutora, passando os dedos pelos desenhos. — Medo... segurança... talvez até bom senso.



Ela puxou a chave de fenda sônica, tentou ativá-la. Estalo. Faíscas. Um gemido eletrônico moribundo.



— Claro... claro que você também me abandona agora... — ela murmurou, dando um leve tapa no aparelho antes de guardá-lo de novo.



Foi quando Nayeli se adiantou, colocando uma das mãos no ombro dela.



— Doutora... seja lá o que a gente encontrar lá dentro... eu não vou voltar atrás.



Ela o olhou de lado, o peso da preocupação estampado nos olhos.



— Sei disso. E é justamente isso que me preocupa.



Sem dizer mais nada, eles respiraram fundo e entraram juntos na escuridão fria da caverna.



— Há uma caverna antiga, ao norte daqui. Um lugar proibido. Um santuário... ou uma prisão, dependendo de quem conta a história.



Juntos, avançaram pela trilha coberta de musgo. O canto dos pássaros soava distante, como se ecoasse de outro mundo. A cada passo, a tensão se acumulava, densa como névoa.



Quando chegaram à entrada da caverna, Nayeli fez um gesto de respeito, tocando a testa e o peito.



— Estes símbolos... — disse ele, apontando para as marcas nas pedras — ...são os sinais dos guardiões. Nossos protetores espirituais. Este é o Ventre da Terra Que Sangra. Dizem que é aqui onde o mundo dos vivos toca o dos mortos.



A Doutora examinou os símbolos, passando os dedos pelas ranhuras profundas nas pedras. Um frio percorreu sua espinha.



— Então é aqui que o véu entre os mundos é mais fino... — murmurou.



Ao adentrar a caverna, o ar mudou. Tornou-se espesso, úmido, carregado com um odor metálico, como sangue oxidado nas paredes. As pedras respiravam uma umidade ancestral, e os pictogramas nas rochas contavam histórias de transformação, sacrifício... e de algo que se recusava a morrer.



— Isso é mais do que mito... — disse a Doutora, com um olhar sombrio. — Isso é memória fossilizada. Um aviso.



Nayeli manteve-se calado, mas o terror em seus olhos era evidente.



E foi então que veio o som.



Um zumbido grave, vibrante, crescente... como um trovão preso sob a terra. O chão estremeceu levemente sob os pés deles.



A Doutora girou nos calcanhares, saindo correndo da caverna em direção à clareira.



E ali... entre as árvores retorcidas, ela viu.



A TARDIS.



De volta.



Materializando-se em meio a um turbilhão de poeira e folhas. Seu som... aquele velho e familiar lamento mecânico... parecia forçado, como se a própria estrutura do tempo a estivesse cuspindo de volta para aquele lugar.



— Você voltou... — sussurrou a Doutora, com um misto de alívio e confusão. — Mas por quê?



Ela correu até a porta, bateu três vezes.



Silêncio.



Passou o cartão-chave... trancada.



Lá dentro, luzes âmbar e vermelhas pulsavam, respirando num ritmo de reparo profundo.



— Tudo bem... — disse ela, encostando a testa na madeira azul. — Respira, minha velha amiga... eu também tô tentando me recompor. Eu ja volto...



Mas antes que pudesse recuperar o fôlego, uma serie de gritos ecoou da clareira. Ela virou-se a tempo de ver os homens da aldeia surgindo entre as árvores, liderados por Hashké, o chefe da guarda, da tribo, que retornava de uma batalha. Seu porte imponente e a expressão endurecida deixavam claro que ele não estava ali para conversar.



Homens armados formavam um semicírculo, as lanças erguidas com precisão, como se cada um deles fosse uma extensão da vontade de Hashké.



No centro, parado... a criatura.



Mas agora... com um rosto humano.



Kíyáani.



Ou... algo que usava a pele dele como um traje mal ajustado.



Sua pele estava pálida, salpicada de sangue seco. Os olhos, de um amarelo doentio, giravam nas órbitas como se lutassem para focar. Seus movimentos eram trêmulos, descoordenados... uma paródia grotesca da vida.



— Isso é uma afronta! — gritou Hastiin, o mais impulsivo entre os guerreiros, avançando com a lança em punho. — Usar a pele de um irmão morto!



Os outros homens o seguiram, prontos para atacar.



Mas Hashké foi mais rápido.



— Ninguém se move! — sua voz foi um trovão, cortando o ar com autoridade.



O silêncio caiu pesado. Nem as folhas ousaram balançar.



A Doutora correu, posicionando-se entre os guerreiros e a criatura.



— Esperem! — gritou ela, as mãos erguidas. — Por favor... me deixem tentar!



O olhar de Hashké cravou-se nela, frio, impaciente. mas ele assentiu com um breve movimento de cabeça.



— Você tem certeza, forasteira. Se ele se mexer errado... eu mesmo lanço a primeira lança.



A Doutora engoliu seco e respirou fundo, caminhando até a criatura.



— Olá... — disse, com voz baixa e controlada. — Eu sei que você está machucado. E sei... que essa pele... esse rosto... não é realmente seu.



O ser inclinou levemente a cabeça, como se ponderasse suas palavras.



— Eu entendo... — continuou ela, ajoelhando-se com cuidado, evitando movimentos bruscos. — Talvez essa transformação seja sua forma de sobreviver... ou de pedir ajuda.



Por um instante, as feições da criatura vacilaram. Os ombros tremularam, os olhos ficaram turvos... quase humanos.



E então... veio a voz.



Grave. Arrastada. Uma mistura grotesca de homem e fera.



— Fome... medo... caçadores... sempre caçadores... nunca paz...



Aquela voz reverberava como um trovão subterrâneo. Não era apenas som... era uma vibração que tocava o osso.



Hastiin apertou a lança com mais força, mas Hashké o conteve com um gesto rígido. O Jovem se escondia atrás de uma pedra para não sofrer represálias de Hashké.



A Doutora, sem tirar os olhos da criatura, além de fazer sinais para Nayeli não tentar nada e prosseguiu com a conversa.



— Por que agora? Por que tantos desaparecimentos? Por que Kíyáani?



A criatura começou a tremer. As unhas cresceram. A pele pareceu rasgar-se por dentro.



— Não... seguro... aqui... — sussurrou com dificuldade. — Algo... acorda... dentro... da... terra... Eles... Violentos...



E então... como se guiado por um impulso de puro instinto, o ser deu um urro extremamente alto e um salto desumano para trás e desapareceu em direção da caverna, deixando atrás de si apenas a respiração pesada dos que ficaram.



A Doutora permaneceu ajoelhada, os olhos fixos no vazio onde ele estivera segundos antes.



— Dentro da terra... — murmurou. — O que... está acordando? Ei!



O silêncio ainda pairava denso sobre a clareira. A poeira levantada pela fuga do ser começava a baixar, mas a tensão permanecia suspensa no ar como uma ameaça invisível.



A Doutora permanecia de pé, olhando para o ponto na floresta onde a criatura desaparecera. Sentia o peso de todos os olhares sobre ela... especialmente o de Hashké.



O líder militar da tribo mais uma vez — com seu porte imponente, rosto talhado pelo tempo e por batalhas antigas, olhos como lâminas de obsidiana — aproximou-se com passos firmes.



— Eu te dou até o entardecer — disse ele, sem margem para negociação. — Depois disso... vamos caçar isso como se caçam os piores demônios. Com fogo... e sem misericórdia, pessoas da minha aldeia morreram demais nessas luas.



A Doutora apenas assentiu, sem tentar discutir. Sabia que as palavras dele eram uma sentença... e um ultimato.



Os homens da aldeia começaram a se dispersar, recolhendo as lanças e os amuletos protetores. A floresta ao redor da caverna foi retomando o silêncio, aos poucos. .



— Que meleca...



A Doutora permaneceu ali por mais um instante... até sentir um leve movimento entre as pedras ao lado da clareira.



Ela virou-se devagar.



— Pode sair, Nayeli. — Sua voz foi baixa, mas carregada de uma ironia cansada.



Do meio das sombras, atrás de uma formação de rochas coberta de musgo, o jovem apareceu, com a cabeça baixa e os ombros encolhidos.



— Eu... eu achei melhor não me meter — disse ele, saindo devagar, ainda atento para não chamar atenção dos outros.



— Ah, imagina. — A Doutora deu um sorriso enviesado, meio divertida, meio exasperada. — Uma multidão com lanças, um Skinwalker quase assumindo a forma completa... um campo de pura tensão homicida. Lugar ótimo pra se esconder atrás de uma pedra.



Nayeli abriu um sorriso amarelo.



— Eu ia ajudar... se as coisas dessem muito errado. Mas você chamou de Skinwalker aquela coisa, você já viu?



Ela riu baixinho, cruzando os braços.



— Ops! Spoilers. — fez uma careta de quem disse algo que não deveria. — E o que seria "muito errado" na sua definição? Alguém decapitado? Fogo cruzado? O chão se abrindo?



Ele apenas deu de ombros, corando um pouco.



— Eu só queria... ver como você ia lidar com eles. E com... aquilo.



A Doutora se aproximou, colocando a mão no ombro dele.



— Olha, Nayeli... por mais que eu queira te dar um sermão agora... eu tô começando a perceber que, se eu mandar você voltar pra aldeia... você vai me seguir de qualquer jeito, não vai?



O garoto abriu um sorriso tímido, mas determinado.



— Não mesmo.



Ela suspirou, teatralmente.



— Teimosia deve ser universal... Tá bem, vamos lá



Ele riu de leve.



— Você sabe... — disse ele, olhando para o chão, depois voltando os olhos para ela. — Aqui... na tribo... eu sempre fui o "que acredita demais". Nas histórias antigas. Nos sinais. Nos espíritos. E agora... tem você. Uma forasteira de um lugar que ninguém consegue entender... falando de coisas que só eu sempre acreditei. — Ele respirou fundo. — Eu só... não quero ficar de fora. Se tem uma chance de ajudar... de entender o que tá acontecendo com a minha terra... eu quero estar junto.



A Doutora olhou pra ele com uma mistura de orgulho e preocupação. O sorriso dela, dessa vez, foi mais verdadeiro.



— Então vamos, "o que acredita demais"... antes que o entardecer chegue e o Hashké venha atrás de mim c

om tochas e facas.



— Ele faria isso? — Nayeli perguntou, assustado.



— Não quero pagar pra ver. — Ela já caminhava em direção à trilha que levava de volta à caverna. — Mas é por isso que a gente precisa descobrir o que diabos está acordando dentro da terra... e rápido.



Nayeli correu para acompanhá-la, e juntos, mais uma vez, sumiram na sombra da floresta.