Capítulo 2

O meu celular despertou às seis horas da manhã, acordando-me de um modo nem um pouco suave. Fui para o banheiro tomar um banho para me livrar do sono e, quando saí, enquanto vestia meu short jeans, o meu telefone começou a tocar a música do Bruno Mars e imediatamente, atendi.

— Fala Taylor.

— Estou quase chegando, mas não vou subir. Vou te esperar aqui em baixo na portaria, maninha.

— Está bem. Já estou acabando até logo.

— Tchau!

Desliguei o telefone para terminar de me vestir. Coloquei uma blusa preta e calcei meus chinelos. Pus a mochila nas costas com meus documentos e, claro, não me esqueci de colocar a Rose no berço com cuidado para não acordá-la.

— Bom dia, Pérola.

— Bom dia – respondi para o porteiro.

Já no estacionamento do condomínio, vi o meu irmão com aquele charme de sempre em sua linda moto. Ele vestia uma calça jeans com uma camisa apertada e jaqueta de couro. Seu cabelo estava bagunçado e suas covinhas apareciam quando sorria. Saí correndo a seu encontro.

— Taylor! – Abracei-o.

— Maninha, como senti a sua falta! — ele sussurrou.

— Tem duas semanas que não aparece. Você sabe que eu entro em desespero. as vezes me pergunto se você é maluco... Nunca mais faça isso, caso contrário, eu vou desaparecer quatro meses só para você provar do próprio veneno – falei num tom mortal.

— Sim, tudo bem – ele falou beijando minha testa, as minhas bochechas, e me soltando em seguida.

— Te amo muito, me desculpa – ele sussurrou.

— Eu também te amo – respondi.

— Vamos?

Eu montei na moto e ele acelerou muito rápido, cortando todos os carros do jeito que eu gosto, já que é uma pura sensação de adrenalina. Hoje o tempo estava nublado, o que é estranho, porque esta sempre quente.

Fomos em direção à escola de paraquedismo. O transito estava calmo, as estradas estavam com menos buracos, Os pedestres transitavam na faixa. O nosso percurso até a escola de paraquedismo foi rápido.

Eu olhei para baixo e senti um frio na barriga, pois o avião estava muito alto.

— O avião já atingi cerca de 12 mil pés de altitude, ou seja, 3 600 metros – disse o instrutor. Nas costas, o saltador carregava a mochila do paraquedas. — Já esta pronta Pérola? – Perguntou o instrutor me avaliando com os olhos.

— Sim! – respondi rapidamente. Estou ansiosa, mas estou com um pouco de medo.

A porta foi aberta o instrutor começou a me guiar até a porta.

— Não olhe para baixo agora – Murmurou o instrutor.

O vento está muito forte, o ar entrava e saí rapidamente pelos os meus pulmões. Em questão de segundo o instrutor saltou do avião me fazendo gritar, por um momento pensei que eu iria morrer. Eu conseguia escutar os meus batimentos cardíacos acelerados, a minha respiração descontrolada, eu sentia um grande aperto no meu coração misturado com pavor e adrenalina, é uma sensação gostosa. A vista é deslumbrante, tudo lá embaixo parecia ser pequeno – eu fecho os olhos e esqueço tudo que existe, me permito viver aquele momento, aquela sensação, o instrutor move os nossos corpos fazendo vários movimentos incríveis. Sorrio como uma criança, Quando me dou conta Taylor já esta ao nosso lado, ele parecia dança sobre o ar, um belo sorriso brotava em seus lábios. Esse momento está tão mágico nunca vou esquecê-lo, sorrio para ele com uma enorme gratidão por ele ter me trazido.

Quando a queda livre começou, o nosso corpo foi aumentando progressivamente de velocidade do jeito que o instrutor me explicou. Eu gritava de alegria, a adrenalina aumentava de tal forma que o meu coração parecia que ia parar. Ainda me lembro de quantos exames fiz para poder pular, e todos valeram a pena!

— Chegou a hora – gritou o instrutor, me avisando que já estava na hora de abrir o paraquedas. Em questão de segundos foi aberto o paraquedas que parecia uma coisa monstruosa por ser tão grande. Após alguns segundos de queda livre, pelo o que eu li em uma revista, alguns saltadores mais experientes ainda ganham alguns segundos extras ao acionar o equipamento a três mil pés do solo (900 metros), mas era muito perigoso para o primeiro pulo, mesmo estando com o instrutor.

Fui a primeira aterrissar e depois veio o meu irmão com um sorriso estampado no rosto, de tanta alegria. Em terra, fiquei uns 2 minutos no chão por causa da adrenalina. Estou com as pernas bambas.

— Você está bem? – perguntou o meu irmão.

— Mais do que bem – falei e dei um pulo para sair do gramado. Onde várias pessoas já tinham pousado.

— Foi incrível! Eu adorei, devemos fazer isso de novo e de novo.

— Eu sei, e a nossa próxima aventura vai ser pular de Bugee Jumping.

— Eba! — falei dando pulos de alegria.

— Vai ser muito irado, imagina pular de uma ponte! — falou todo empolgado.

— Não tenho palavras. Te adoro mano! – Eu gritei dando um beijo no seu rosto.

Taylor me deixou em casa, e me disse que ia resolver alguns problemas e que por volta das três da tarde já estaria aqui novamente.

Assim que cheguei notei que tocava uma musica indiferente para mim, uma musica que eu nunca tinha ouvido. Ao entrar, Natali estava varrendo a casa e o Ryan brincava com Rose, ao vê-los juntos pensei no quanto ele era um bom pai.

Pensei também em como todos ajudaram Natali depois da gravidez. Eu a ajudei a se erguer e lutar pela criança, pois Paulo a usou e depois a jogou fora como ela fosse um brinquedo, e ainda grávida. Eu a levei ao médico, dei o meu apoio, o meu amor e toda minha força para que nunca desistisse do bebê. Mesmo que os pais dela não fossem presentes eles ajudaram muito também compraram esse apartamento, um carro e nunca deixaram faltar nada para a gente. Visitaram-na com sete meses de gravidez e depois de dar à luz voltaram dos Estados Unidos para ficar mais um mês, o que foi bom para Natali, ter a mãe nesse momento tão especial da vida.

Fui direto para cozinha, botei a minha comida no prato e depois de comer, fui direto tomar um banho demorado e gelado, pois o clima tinha mudado desde as nove horas da manhã, o sol ficou muito forte.

Depois do banho vesti o meu baby doll. Liguei o ar-condicionado e fechei as portas da varanda para um sono mais tranquilo e refrescante, pulei na cama e apaguei.

Às duas horas da tarde despertei do sono, me dirigi até a sala e deitei no sofá menor enquanto o maior era ocupado por Rose e Ryan. Natali veio até mim, levantei a minha cabeça para deitá-la em seu colo e ela começou a mexer no meu cabelo.

— Como foi hoje? — Indagou Natali.

— Muito bom, mana! Você ia adorar se você fosse – falei cheia de alegria.

— Fez o kit com fotos e vídeos? – perguntou-me.

— Taylor quem cuidou dessa parte – respondi.

— Você nem adivinha o que Rose fez hoje. — Ela falou.

— O quê?

— Rabiscou quatro fotos minhas.

Caí numa gargalhada alta o suficiente para acordar Ryan.

— Qual é a graça, Pérola? – perguntou-me Ryan, meio sonolento, e se sentando com cuidado para não acorda Rose.

— A minha flor rabiscou quatro fotos de Natali – respondi.

Todos nós caímos na gargalhada, eu cheguei a chorar e soluçar ficando cada vez mais ruborizada, mas baixo para não acordar Rose.

— Como você está se sentindo Natali? Pois acabou de perder quatro fotos – perguntei, sorrindo da expressão do rosto de Natali.

— Me deixa Pérola, aquelas fotos eram importantes para mim – retrucou Natali. — Ah! Pérola passou lá para comprar ou negociar o que eu queria?

— Fui lá sim, mas não tinha a prancha que você queria.

— Puta merda! – murmurou Natali, passando as mãos pelos cabelos. A televisão anunciava uma propaganda de uma escola de paraquedismo, me fazendo-me lembra do meu salto de hoje.

— Ryan, pulei de paraquedas! – falei cheia de orgulho.

— O quê? – Perguntou indignado, com os olhos arregalados.

— Algum problema? – pergunto erguendo a sobrancelha.

— Você pulou de paraquedas e só me conta agora? – ele rosnou com tanta raiva que me assustei.

— Você está bem? Não entendi a sua raiva, não devo nada a você.

— Calma, Ryan! Ela não é a sua mulher nem uma pedra valiosa – falou Natali de cara feia para o Ryan.

Na mesma hora Ryan ficou pálido. Era como se tivesse falado algo que ele não queria ouvir. Era como se ele estivesse guardando um segredo a sete chaves.

— Vocês têm razão, porque eu fui pego de surpresa – Ryan respondeu gaguejando, passou a mão pelos seus cabelos negros.

Logo mudamos de assunto. Natali foi até a cozinha para pegar algo para comer.

Ryan se levanta e vai para varanda e a sua expressão é de muito chateado. Incomodada por velo chateado levanto-me e vou atrás dele

— Por que você está tão calado? Está zangado por eu ter pulado? – murmurei, olhando para as crianças que brincava na rua.

— Pérola, Posso te pedir uma coisa? – perguntou tenso.

— Hum, claro – falei enquanto olhava para os seus olhos fechados.

— Na próxima vez que você planejar fazer qualquer coisa radical, me fale na mesma hora – ele praticamente suplicou.

— Está bem, eu te falo – Sussurrei. — Agora está melhor? – perguntei brincando e ele balançou a cabeça positivamente.

— E como foi o salto? – perguntou Ryan, abrindo os seus olhos violetas sorrindo para mim.

— Muito bom, nem sei como descrever essa emoção que eu senti. Foi simplesmente incrível. Quando eu cheguei em terra firme mal consegui ficar de pé e... – Sou interrompida quando a campainha toca.

— Espera um pouco, vou lá atender — disse Ryan. Escuto duas vozes masculinas. Volto para sala.

Rose acorda docemente, e vou até ela, a pego no colo e beijo o seu rostinho todo vermelho por causa sofá.

— Rose, olha o que eu trouxe para você – falou o meu irmão com um embrulho na mão.

— Presente! – gritou Rose, se remexendo no meu colo para descer. Eu a coloquei no chão e ela saiu correndo cambaleando um pouco

— Mentira, Rose, fui eu – respondi.

Ela parou imediatamente pondo as suas mãos gordinhas na sua cintura e olhou para mim.

— É Mentira dela – Respondeu Taylor em um tom de brincadeira.

Dei um belo sorriso amarelo para o Taylor enquanto Rose saía correndo para o meu irmão com os bracinhos abertos. Taylor a carregou no colo até sofá e colocou Rose sentada em seu colo para ajudá-la a abrir o grande embrulho. Dentro do embrulho tinha um grande ursinho branco com um coração vermelho dizendo “Te amo”

Rose deixou um beijinho molhado no rosto dele e olhando para Natali sorriu.

— Mas que lindo, minha filha – falou Natali, pegando o ursinho e Rose no colo.

— Não é lindo Pérola? – perguntou Natali toda animada.

— É muito lindo — fiz uma carinha de alegre. Rose logo agarrou o urso com força, em uma forma de protegê-lo.

— Ryan, Pérola e Natali, olhem o que eu fiz – falou Taylor todo ansioso.

Nessa hora voltamos o olhar para Taylor que começou a tirar a jaqueta e a camisa ficando de costas para nós quatro. Percebi algo novo, era uma grande tatuagem Tribal. Fui a primeira a falar:

— Lindo! Estou sem palavras — falei me sentando e com entusiasmo.

— Ficou irado cara! – respondeu Ryan.

— Como você teve coragem? Tem quase dois meses que estou querendo fazer uma pequena, mas não tenho – falou Natali.

— Não doeu tanto não... – ele respondeu com orgulho. — Essa outra doeu um pouco mais – ele falou.

Ele virou de frente para mim e notei algo escrito em seu peito “Pérola”

Os meus olhos encheram de lágrimas, me levantei e fui até ele par poder abraçá-lo.

— Não precisava fazer isso só porque eu briguei com você. Foi porque eu te amo – Sussurrei em seu ouvido.

— Mas quem disse que eu fiz isso só porque você brigou comigo? – Ele falou num tom de coitadinho.

— Você ama muito tua irmã e isso é bonito... Achei show todas as suas tatuagens também. – Disse Ryan.

— Eu também – Falou Natali com os olhos cheios de lágrimas, vindo em nossa direção com os braços abertos. Nós três nos abraçamos.

— Pode vir também Ryan, com a Rose, agora você faz parte da família. – Falei alegre.

— Já estava ficando triste. – Falou Ryan num tom de brincadeira, pegando a Rose no colo.

Eles dois se juntaram a nós três e depois Taylor se despediu, porque no dia seguinte ele tinha que estar no quartel cedo.

Fui para cozinha preparar a comida para nós quatro, sentamo-nos à mesa e começamos a comer. Natali auxiliava Rose enquanto comia, Ryan e eu conversávamos sobre os filmes que iam passar no cinema. Depois de comer, Ryan lavou a louça e Natali as enxugou.

Já eu e Rose tomamos banho juntas. Saí do chuveiro e me enrolei na toalha. Fui à gaveta do banheiro e peguei outra para Rose, que estava sentada numa pequena cadeira debaixo da água quente. Voltando em direção ao Box para pegar a Rose, me veio à mente como o apartamento era lindo, o meu banheiro era lindo, cada cantinho daquele lugar era lindo... Peguei Rose no colo, fui para o quarto e coloquei a minha roupa de dormir, o meu baby doll, vesti e depois que terminei de pentear seu cabelo, botei-a no colo e fui para sala aonde Natali e Ryan se beijavam apaixonadamente.

— Chamando marte, chamando marte – falei, Ryan parou o beijo e olhou para mim, sorrindo.

— Pode se sentar e esperar a sua vez, Pérola — falou Ryan em um tom de brincadeira.

— Ah, babaca! – eu respondi brincando. Ele começou a rir, eu peguei a almofada e taquei nele.

— Na próxima semana tenho que voltar para a faculdade, graças aos feriados que acabaram, nem acredito que falta apenas um mês para a minha formatura – Falei mordendo os lábios, para disfarçar a emoção.

— Essa foi a melhor atitude que você tomou em toda sua vida, quere fazer uma faculdade – respondeu Ryan com uma voz seria.

— Nossa você não tem noção de como eu estou feliz por isso – respondeu Natali com um brilho nos olhos de felicidade.

— Obrigada por acreditarem mim – falei docilmente.

— Estou indo dormir – disse bocejando.

— Hoje o meu bebezinho vai dormir comigo – cantarolei para Natali.

— Amanhã é comigo – Natali respondeu, abrindo um pequeno sorriso.

— Minha linda, durma com Deus. – Ele falou.

— Vocês também – murmurei indo para o quarto, com Rose no colo.

Fui direto para cama, pois no dia seguinte eu tinha que acordar cedo para uma entrevista de estágio. Em pouco tempo eu apaguei.

Fui acordada pelo chorinho de Rose. Ela dormia em um colchão, para dar a Natali tempo para escolher o seu novo berço, pois Rose já conseguia pular do antigo. Imagina, dali, sete dias ela estaria fazendo dois anos de idade! Como estará com três anos de idade? Abri os olhos e ela estava com o rostinho todo vermelho, sentada. Rapidamente, levantei da cama com um pulo, até me desequilibrei. Ela estava chorando muito e isso era estranho. Peguei-a no colo e logo percebi que ela estava muito quente e me direcionei para o quarto dela. Fui direto à cômoda, mas primeiro mudei a Rose de braço, pois já começava a doer por colocar tanto peso um braço só. Estava desorientada, comecei a procurar os documentos e depois uma roupa para a Rose vestir. Olhei para o relógio do quarto dela, que marcava cinco para as sete da manhã, o que me dizia que eu iria perder a entrevista de emprego. Peguei Rose no colo e fui para o quarto de Natali. Comecei a bater na porta do quarto dela.

— Vamos acordar aí, pessoal! – Gritei com a cabecinha de Rose deitada no meu ombro. Eu já começava a ficar nervosa e desorientada. Ryan abriu a porta com os cabelos bagunçados e de cueca Box preta.

— O que foi meu sol? – Perguntou com uma voz de cansaço.

l — É Rose! Ela está queimando em febre – falei rapidamente por causa do nervosismo que começava cada vez mais tomar conta de mim, os meus olhos já ardiam, mas eu me recusava a chorar. O Ryan começou se mover, foi direto para a cabeceira da cama, onde vestiu uma calça e uma blusa e foi ao armário e calçou um sapato, passou por mim indo em direção à cozinha, onde pegou a chave do carro.

— Vamos, sol! – Gritou Ryan.

— Cadê a Natali? – Perguntei indo em direção à porta. — Ela teve que sair cedo para ir à Resende porque ela tinha uma reunião. – Ele me respondeu.

— Ah, então vamos. – Falei.

Ele abriu a porta para que eu pudesse colocar Rose na cadeirinha. Acomodei-me no banco, ele entrou rapidamente e colocou o cinto e saiu do condomínio.

— Ela vai voltar hoje? – perguntei, Deixando uma lágrima escapar do meu olho.

— Sim, é só uma reunião – ele respondeu baixinho.

Depois disso seguimos em silêncio para o hospital. Às quinze para as nove Rose já estava sendo medicada, ela tomou duas injeções e depois soro na veia. Deitada numa cama imensa, Rose dormia. Ela estava em quarto separado, as paredes eram pintadas de branco e tinha uma televisão LCD de vinte cinco polegadas, um frigobar, um sofá para dois de couro e um armário branco, um ar- condicionado, uma grande janela, muitos aparelhos perto da cama, e um banheiro.

Eu nunca gostei de hospital e até hoje ainda não gosto, não sei dizer se é o cheiro que me incomoda ou se são as agulhas que me dão medo; só em pensar que estão costurando alguém ou que vão cortar alguém, já me sobem vários arrepios na coluna. Saí de fininho do quarto deixando-a com o Ryan, e fui procurar o médico para saber sobre os resultados, mas antes fui à lanchonete do hospital e comprei alguns salgados e dois refrigerantes. Antes de pegar o elevador, liguei para Natali.

— Oi... Pérola, o que foi? – perguntou Natali do outro lado da linha.

— É que Rose passou mal, e estou aqui no hospital. – eu falo um pouco cansada.

— O que? Ela está bem? – perguntou com a voz frustrada e preocupada.

— Eu tenho certeza que ela já está bem, porque Deus está cuidando dela, mas daqui a pouco vou falar com o médico para saber dos exames. – respondi.

— Tomara que não seja nada sério.

— Se Deus quiser, não. – falei nervosa.

— Você perdeu a sua entrevista de emprego? – falou com um tom de meio culpado.

— Nada, foi o nosso trato quando ela nasceu, Rose em primeiro lugar, lembra? – murmurei.

— E como eu ia me esquecer disso? – ela falou com mais ânimo.

— Era como se fosse ontem, você em pé na cozinha parecia que estava fazendo xixi nas calças, mas na verdade era sua bolsa que estourava. Comecei a pegar a sua bolsa, a de Rose e os documentos enquanto você se trocava e já dentro do carro começou a sentir contrações e eu a falar muitos palavrões. Quando entrei no hospital, comecei a surtar. Você iniciou o trabalho de parto, tive que entrar com você na sala, e quando eles te colocaram naquela posição, comecei a passar mal, o meu estômago embrulhou ao ver você tendo Rose no parto normal. Eu doida para que o parto acabasse e parecia que demorava mais, e quando você começou a aperta o meu braço desejei nunca ter entrado naquela sala, só valeu à pena quando vi aquele rostinho cheio de sangue.

— O quê, Pérola? – perguntou Natali, com uma surpresa na voz.

— É mentira... Só estou brincado.

— Acho bom mesmo, porque o pior eu fiz, que foi parir. – disse brincando.

— Aquela cara que você fez foi inacreditável. – Falei rindo.

— Claro, estava morrendo de dor! Mas, no final valeu apena ter a minha filha.

— O quê?

— Desculpa, a nossa filha. – Natali tratou de consertar o erro rápido.

— Agora falou certo, maninha. – Falei com orgulho.

— Então, vai logo falar com o médico, Pérola.

— Com certeza.

— Te amo, Pérola. E cuide bem da nossa linda filhinha. – Sussurrou.

— Eu também te amo, e sempre cuido direito da nossa filha.

Depois de desligar o celular, peguei o elevador, o qual eu nunca gostei de andar porque não suportava a ideia de ficar presa por horas e horas. Logo as portas se abriram, e em dois grandes passos eu saí do elevador, indo à recepção.

— Bom dia!

— Bom dia! Em que posso te ajudar, senhorita?– Perguntou a recepcionista de mais ou menos de vinte e cinco anos, de pele morena, olhos azuis, de cabelos lisos e com uma educação impecável.

— Gostaria de saber, onde posso encontrar o doutor Marcos Souza?

— Ele acabou de ir para a sala dele para ver alguns resultados que acabaram de chegar do laboratório. Você é a responsável pela Rose Stanley? — Perguntou olhado para um papel na sua mão.

— Sim, como você sabia? – Perguntei surpresa.

— É porque ele só está atendendo a senhorita no momento antes de ir embora. – Falou com um grande sorriso. — Voltando ao assunto, ele acabou de me dar os resultados que serão entregues à senhorita por volta das onze horas da manhã. – Falou com um grande sorriso.

— Ah, claro. Então obrigada. – Falei sorrindo agradecida.

Eu me afastei da recepção, ainda com os lanches. Passei pelo segurança e como sempre tive que mostrar o meu cartão de acompanhante, e ele imediatamente me deu um grande sorriso e eu o retribui. Voltei de novo para o elevador e subi mais dois andares, as portas abriram e saí procurando o número 224 do quarto de Rose. Assim que entrei no quarto, olhei diretamente para cama de Rose e percebi que ela ainda dormia profundamente, e percebi que o Ryan estava me olhado de cara feia.

— Oi, já voltei.

— Já percebi, Pérola – Respondeu Ryan baixo e frustrado.

— O que foi, por que está com essa cara de quem comeu e não gostou?

— Por que você saiu sem falar nada comigo! Custa tanto me contar Pérola? – Ele parecia um pouco aborrecido.

— Mas fui comprar comida, e aposto que você deve estar também com fome, porque eu estou quase caindo dura de fome. – Falei sorrindo.

— Mas isso não justifica que você saia a qualquer momento sem falar com ninguém. – Falou bem zangado.

— Pensando bem, você trouxe na hora certa os lanches... — Antes de Ryan terminar a frase, fui até onde ele estava sentado para me sentar também. Tirei das sacolas os salgados e o refrigerante, e enquanto eu desenrolava os salgados, Ryan enchia os copos de plásticos com refrigerante. Cada um pegou o seu salgado e o seu copo de refrigerante e começamos a comer.

— O que você vai fazer quando Natali chegar? – Perguntou Ryan.

— Estava pensando em nós quatro sairmos juntos hoje à noite, claro, se Rose já estiver melhor.

— Boa ideia! E para onde a gente vai?

— O meu irmão conseguiu quatro ingressos para uma festa, dos anos 70 a 2000.

— Mas que maneiro! Quando você falou com Taylor?

— Ele me ligou e falou que foi dispensado por duas semanas. Era mais ou menos uma hora da manhã, mas nem durou um minuto a ligação, porque eu estava bêbada de sono.

— Hum, agora eu entendi.

— Mas a festa é a caráter então tem que ir vestido com roupas dos anos 70, 80, 90 ou 2000.

— Qual é o horário? – Falou mastigando.

— Ele falou que cinco para as oito horas, em ponto, vai estar na portaria.

— Se os exames da Rose não derem em nada, vou ligar para Fernanda para perguntar se ela vai poder ficar com Rose.

— O que seria da gente sem Fernanda na nossa vida? – Perguntei.

— Concordo.

— Ela é única que eu confio, porque levar a Rose para alguém maltratá-la... eu surtaria. E a babaca que fizesse isso estaria ferrada na minha mão.

— E na minha. Pérola, eu amo a Rose como fosse a minha filha, ela é o ar que eu respiro e cada batida do meu coração pertence àquela criança que eu amo e vai pertencer a uma mulher que vou amar. Gosto muito Rose.

— Posso fazer uma pergunta? – Eu como sempre não deixo passar nada, quando ele disse que o seu coração vai pertencer a uma mulher algum dia, logo caiu a ficha que Ryan não amava Natali.

— Sempre, Pérola. – Falou Ryan com um grande sorriso.

— Você não ama a Natali? Porque da forma que você falou me fez perceber isso – Sussurrei. Ele meio que pareceu abalado pelo que disse.

— Pérola posso confiar em você sempre, você é a minha amiga, não é? – Falou sério.

— Sim. – Gaguejei.

— Eu não amo a Natali, mas sim você – Ele sussurrou olhando nos meus olhos.

Nesse momento o ar ficou tenso, eu fiquei envergonhada e as minhas bochechas queimavam como fogo. A minha garganta estava doendo.

— Calma, só estou brincando Pérola! – murmurou, bebendo o refrigerante.

— Seu filho de puta! – falei rosnado com muita raiva, o empurrando brutalmente. As minhas mãos tremiam. Respirei fundo.

— Desculpa, só estava brincando – diz com um grande sorriso, mas parecendo um pouco aliviado.

— Não faça mais isso, seu maluco. – Rosnei novamente.

— Se eu soubesse que isso te afetaria, não teria brincado.

— Pare de fugir da conversa e fale logo – Rosnei, bufando de raiva.

— Quem está fugindo da conversa aqui é você, mas a resposta é não. – rosnou entre dentes. Nossa, e agora, o que eu faço? Acabei de cutucar a onça com vara curta.

— Então porque você está com ela, Ryan? – Sussurrei.

— Você perguntou se eu amo, mas não. Entenda, eu gosto dela demais, mas não a amo, pois considero o amor algo muito especial.

Ao mesmo tempo foi um choque saber que o Ryan não amava a Natali. Mas só em saber que ele considera o amor algo especial, a minha alma ficou em paz. .

— Então por que você está com ela, se você não a ama?

— Pérola, como eu posso te explicar? Sim, eu sinto algo pela Natali, algo especial, mas não chega ao ponto de dizer que estou apaixonado – Ele sussurrou.

— Então, você não ama a Natali. Enquanto eu e Rose, você considera como lixo. – Falei com uma voz de tristeza. Antes que os meus olhos percebessem, Ryan estava me abraçando e eu imediatamente retribuindo o abraço.

— Claro que não, é impossível não amar você e Rose. Vocês duas são muito importantes para mim, só eu sei o quanto. Vou te contar outro segredo, mas você não pode dizer isso a ninguém. Promete que não vai contar a ninguém? – Ele sussurrou no meu ouvido e os seus dedos brincavam no meu cabelo, me provocando arrepios.

— Eu prometo. – Falei concordando com a cabeça.

— Desde o dia em que eu vi o seu rosto, soube que eu tinha encontrado o meu lugar, eu me preocupei e soube que eu ia te amar desde o inicio. Então o grande segredo é que eu amo você e Rose.

— Eu também te amo, Ryan, como que fosse o meu segundo irmão. – Sussurrei.

— Eu sei. Eu sempre soube – Falou secamente as palavras. Como se quisesse me disse outra coisa.

— O que você quis dizer com isso?

— Você tem um jeito muito especial de demonstrar os seus sentimentos a quem você ama. Você não expressa com muitas palavras, mas sim com seu carinho, com a sua alegria, com o seu jeito de viver, de fazer tudo que vem à sua cabeça sem se preocupar com o que as pessoas vão dizer. Você é você mesma, se alguém te julga pelo seu caráter você finge que nem ouviu, e continua a viver sua vida. Você para um minuto para falar com as pessoas e elas se encantam imediatamente, com o seu jeito de conversar, de fazer com que elas se sintam bem, alegres, faz relembrar a elas que a vida não acabou, mas sim acabou de começar. Então é impossível não te amar, sol.

— Me pergunto o que seria de mim sem você, sem meu irmão, sem a minha irmã, sem Rose. – Falei desabando num choro.

— Então, essa é a minha resposta: é impossível não amar você, sol. Você é a minha estrela. Quando você fica vendo o céu noturno, os seus olhos brilham de felicidade. Você ficar mais viva como uma criança. – Ele sussurrou.

— Como você sabe que eu gosto de ficar vendo o céu noturno? – Falei espantada entre as lágrimas que desciam dos meus olhos.

— É porque uma vez você estava terminando de se arrumar enquanto eu e Taylor conversávamos sobre você, e numa hora ele revelou que você fica encantada vendo as estrelas e a lua. Ele disse que você, por algumas horas, encontrava paz para a sua alma.

— Você não sabe o quanto que eu lutei para ter uma família. Onde não existisse raiva, ódio, preconceito, sangue e morte, mas sim amor, carinho, alegria, felicidade. Nunca deixe que ninguém destrua os seus sonhos. Ou fale para desistir ou esquecer porque eles acham que é muito difícil de conseguir. É pura mentira, pois essas pessoas não querem ver você vencer na vida ou crescer, mas sim afundar. Pois essas pessoas que te dizem para não lutar pela a sua família, não lutam pelos os seus sonhos... Se afaste dessas pessoas porque nada é impossível para Deus. Então eu digo lute com unhas e dentes e nunca desista, Deus está aqui para te erguer, para ter ajuda a tentar. – Sussurrei chorando no ombro do Ryan e senti cada vez os seus braços me apertando mais.

— Pérola, o que eu disse sobre não amar a Natali morre aqui, tudo bem? Porque eu não a quero perder e espero a amá-la um dia.

— Vou me sentir culpada por não dizer a verdade a ela como sempre fiz.

— Se você não quiser acabar com a minha relação com ela não conte – Ele falou seriamente.

— Por favor, sol. – Ele implorou.

— Tudo bem – Falei choramingando, não muito satisfeita.

— Te amo, sol! – Ele falou beijando a minha bochecha, já cheio de energia.

— Eu também te amo. Também amo Natali, Rose, Taylor e os meus amigos e, claro, Deus que sempre me ajudou a nunca desistir.

E, nesse momento, alguém bateu na porta. Eu rapidamente pulei do sofá e fui abrir a porta, limpando as últimas lagrimas do meu rosto.

— Bom dia, Doutor Marcos! – Respondi.

O doutor Marcos é o meu médico há quase dois anos e agora é também de Rose. Ele é muito simpático, educado. Tem mais ou menos 30 anos é loiro e muito bonito, tem um metro e oitenta, tem um belo sorriso, um corpo exemplar de médico com muita saúde e os seus olhos são caramelos claros iguais aos meus olhos.

— Bom dia, Pérola! – Marcos respondeu. E logo fui apresentando os dois.

— Marcos, esse é o Ryan. – E os dois se cumprimentaram com um aperto de mão. Comecei a perguntar sobre os resultados dos exames porque já não aguentava mais sentir aquele frio na barriga insuportável.

— O que deu, Marcos? – Perguntei, com um pouco de ansiedade.

— Não deu praticamente nada. Ela tomou vacina esses dias? – Perguntou Marcos.

— Não que eu sabia. – Falei espantada.

— Sim, há sete dias. Acho que foi até a nova vacina, que ser tornou obrigatória para crianças de cinco meses a três anos de vida – Respondeu Ryan num tom bem sério, o que me mostrava que aquele Ryan brincalhão tinha evaporado. — Então foi isso, foi uma reação da nova vacina – Respondeu cautelosamente.

— Então está tudo bem com Rose, Marcos? – Perguntei suspirando, pois agora eu estava mais tranquila.

— Sim, Pérola. – Respondeu Marcos com um belo sorriso no rosto. — Vocês dois se conhecem? – Perguntou Ryan nem um pouco contente, com uma cara poucos amigos, mas que motivo ele teria para não gostar de Marcos! Ele é um ótimo médico, e é muito simpático.

— Sim, a senhorita Pérola é a minha paciente há quase dois anos. E para você conseguir fazer esta senhorita tomar uma injeção tem que ser amigo dela, ou então ela prefere ficar passando mal ao invés de ser medicada, entende o que quero dizer? Como eu sou chato e não admito que os meus pacientes fiquem passando mal, resolvi ser amigo deles. Então, ela é a primeira paciente que é minha amiga, é por isso que nos tratamos de forma diferente, e não apenas como médico e paciente. – respondeu Marcos meio constrangido.

— Muito obrigada, Marcos! – agradeço abraçando-o.

— Tá, chega de papo e vamos embora. – Falei indo na direção da Rose para acordá-la.