Doce Vingança
16 Vingança
Notas iniciais


Dia do Baile de Máscaras da Atlas Technology, 2 de setembro. Cobertura de Peeta – 08h17
Katniss estava sozinha no closet de Peeta, enquanto ele resolvia alguns assuntos pendentes na empresa. A luz do sol da manhã atravessava as grandes janelas da suíte, deixando a seda bordô do vestido pendurado em destaque contra o branco das paredes. O ar estava silencioso. Ela envolveu o próprio corpo no roupão de cetim e se aproximou devagar do cabide dourado.
Seus dedos deslizaram com delicadeza sobre o tecido leve e nobre, a costura invisível, o caimento perfeito desenhado exclusivamente para ela por Cinna Laurent, um dos estilistas franceses mais aclamados da temporada de alta-costura. O vestido era um poema em forma de roupa.
A cor vinho escuro parecia feita para combinar com os segredos que ela carregava no coração.
Com cuidado, Katniss tocou o drapeado delicado das alças que cairiam sutilmente sobre seus ombros e depois seus olhos pousaram sobre a máscara dourada rendada, que usaria naquela noite. Tão sofisticada quanto simbólica. Afinal, ela precisaria esconder quem realmente era.
Mas a máscara não seria a única forma de enganar.
Na prateleira ao lado, repousava a partitura que ela mesma havia impresso no dia anterior.
Senza Fine.
Canção italiana que ela sabia que arrancaria lágrimas dos olhos de Peeta. Ele não sabia, mas Katniss havia ensaiado a canção durante semanas. Seria um presente... um último gesto antes da queda.
Um presente para as raízes dele.
Um aceno para tudo que ele havia perdido…
E talvez, também, para o que ela própria jamais teria.
Katniss respirou fundo.
A noite traria luzes, aplausos, máscaras, charme — mas também verdades.
E, até lá, havia muito a organizar.
Salão Histórico “The Whitestone Conservatory”, ao norte de Manhattan, 16h43.
O local estava deslumbrante.
Candelabros de cristal refletiam o dourado das luzes do fim da tarde. Colunas centenárias envolviam o salão principal como guardiãs de uma noite inesquecível. Equipes corriam discretamente com bandejas, ajustes de som, floreiras e tecidos. O aroma das primeiras fornadas do buffet já se espalhava, misturando tempero e sofisticação.
Katniss andava de um lado para o outro, com um tablet nas mãos e um rádio preso discretamente ao vestido preto simples que usava durante os bastidores. Seus olhos atentos não perdiam um detalhe: arranjos florais posicionados milimetricamente, iluminação teatral alinhada com o DJ, tapete estendido, e o palco sendo finalizado com o microfone estilo vintage central.
Foi quando ela ouviu uma voz familiar:
— Ela é um furacão silencioso — disse Burdock, cruzando os braços enquanto a observava de longe.
Asterid, ao lado, sorriu com um brilho orgulhoso no olhar.
— Nunca duvidei de que ela era capaz — respondeu a mãe, segurando delicadamente a taça de prosecco.
Burdock se aproximou da filha e, com um toque leve em seu ombro, disse:
— Katniss... o trabalho que você fez aqui é impecável. Essa noite será lembrada por anos. Mas mais do que a estética… o propósito é o que mais me orgulha. Você usou o poder da Atlas pra devolver algo ao mundo. Essa ideia de beneficiar alunos de escolas públicas com bolsas foi sua. Você deu a essa noite algo que vai além do brilho. Você deu causa.
Katniss engoliu seco. Sorriu.
—Vocês estão deslumbrantes. Prometo vê-los no salão mais tarde, ainda tenho que checar alguns detalhes. E, pai é só o começo...
E era mesmo.
Um começo que, naquela noite, seria disfarçado de final.
O final de uma era.
Porque a vingança…
...já caminhava de salto alto pelos salões dourados.
Katniss se afastou com um aceno, quando seu celular vibrou na bolsa.
O toque Holding Out for a Hero preencheu o pequeno lounge dos bastidores e na tela surgiu a selfie de Peeta, piscando, com a legenda:
“Se atrasa, mas com estilo.”
Ela sorriu antes mesmo de atender.
— Estou pronta, senhor impaciência.
— Você está atrasada, amor. É o baile do século. Pretende chegar depois do meu discurso?
— Ui. Ameaças? Isso é baixo, Mellark. Mas não se preocupe… Gale está aqui. Vai me levar até a cobertura pra eu me trocar.
Do outro lado da linha, silêncio. Depois:
— Gale?
— Isso mesmo. Motorista eficiente e de confiança. Não se preocupe, ele dirige melhor que você.
Peeta riu.
— Tá bom…
— Você está insuportável hoje, sabia?
— Você me deixa assim.
Ela desligou ainda sorrindo e logo o som dos seus saltos ecoaram pelo ambiente.
Gale a esperava do lado de fora do salão, com o carro.
Assim que Katniss entrou no banco de trás, ele deu partida.
— Está preparada, Catnip?
Ela olhou para frente pelo retrovisor.
— Isso é retórico?
— Não — respondeu ele, sem tirar os olhos da estrada. — Ainda dá tempo. Tem certeza de que quer fazer isso com o Mellark?
Ela engoliu em seco. Aquelas palavras a atingiam de modo incômodo, porque doíam de verdade.
— Você o ama — completou ele, com serenidade. — Não precisa dizer. Eu enxergo.
Ela olhou pela janela, o céu já começava a escurecer. Luzes amarelas dos postes riscavam a lateral do carro.
— Amar não me impede de querer justiça. Você sabe o que fizeram comigo.
Gale não respondeu. O silêncio entre eles disse tudo.
✦✦✦
Katniss entrou na cobertura sem anunciar. A porta já era praticamente um convite permanente. Os saltos ecoaram brevemente sobre o piso de madeira, até ela deixá-los de lado junto com a bolsa. Caminhou até o quarto tirando peça por peça — o vestido preto justo, o sutiã rendado, a calcinha fina. Tudo foi deixado em silêncio, com movimentos lentos e decididos.
O som de água vindo do banheiro foi interrompido. Peeta surgiu à porta com uma toalha na cintura, o cabelo ainda seco, os olhos iluminados de desejo.
— Estava te esperando — admitiu ele, sorrindo ao vê-la nua diante dele.
— Não podia me arrumar em outro lugar — respondeu Katniss, pegando o celular e abrindo a Apple music. A música começou com os primeiros acordes arrastados de “I Put A Spell On You” na voz rouca e intensa de Annie Lennox.
Peeta se aproximou devagar, os olhos dançando sobre o corpo dela com devoção.
— Você sabe... — sussurrou ele, ao seu ouvido. — Essa música diz que você me enfeitiçou.
Katniss mordeu o lábio, o rosto próximo ao dele.
— E você se sente enfeitiçado?
— Você lançou um feitiço em mim, porque eu sou seu... — Continuou, a voz dele saiu baixa, carregada de intensidade.
Ela apenas roçou os lábios nos dele antes de questionar:
— Você se considera meu?
Peeta assentiu, os olhos fixos nos dela.
— Completamente.
Antes que o próximo verso da música começasse, Peeta a ergueu com firmeza e a carregou até o chuveiro. As gotas quentes caíram sobre os dois, misturando pele, vapor e desejo. Ele tirou a própria toalha com uma só mão e pressionou o corpo no dela, prendendo-a contra o azulejo úmido.
Katniss entrelaçou as pernas em torno da cintura dele, as mãos nos cabelos loiros encharcados, a respiração entrecortada. Ali, sob a água escaldante e o feitiço da canção, eles se amaram com urgência e devoção.
— Mia strega… la mia rovina... ma anche la mia salvezza — sussurrou ele, em italiano ao pé de seu ouvido.
Trad-[Meu feitiço… minha ruína… mas também minha salvação]
Katniss gemeu alto, o corpo arqueando quando o prazer a consumiu. Foi um momento de entrega total. Como se aquela fosse a última dança, o último beijo, a última vez em que seriam um só.
Quando a água começou a esfriar, ela ainda estava nos braços dele, a cabeça apoiada no ombro de Peeta, os olhos fechados tentando prender aquele instante na memória e permitiu que algumas lágrimas escorressem de seus olhos.
Mesmo sem dizer, ela sabia, estava se despedindo.
O vapor do banho ainda pairava no ar quando Katniss abriu o zíper da nécessaire e retirou a lingerie escolhida para aquela noite — um conjunto tomara que caia bordô com delicadas rendas que imitavam arabescos, uma cinta-liga da mesma tonalidade e meias finas que se ajustavam às pernas como seda líquida.
Sentou-se calmamente na poltrona do closet para vestir cada peça, os gestos suaves, mas internos, travados por um redemoinho de emoções. Quando terminou, levantou-se e encarou seu reflexo no grande espelho.
Bela. Letal. Inconfundível.
Ela pegou o vestido coberto ainda pela capa de proteção. Peeta surgiu silenciosamente atrás dela, vestindo uma camisa branca e ainda abotoando as mangas. Seus olhos varreram o corpo dela com reverência e ele se aproximou, pegando o zíper do vestido nas mãos.
— Vira pra mim — pediu, com a voz baixa, rouca de desejo contido.
Katniss obedeceu, sentindo as mãos firmes de Peeta fecharem lentamente o zíper do longo vestido bordô. Quando o tecido se ajustou à sua cintura, ele abaixou a cabeça e pousou os lábios sobre os ombros nus dela. Beijos leves, demorados, um de cada lado, como se quisesse eternizar o momento.
— Ti amo — sussurrou ele, em italiano.
A frase caiu sobre Katniss como um raio. Ela travou.
Engoliu seco. As palavras pareciam ecoar dentro de seu peito, fazendo vibrar tudo o que ela havia enterrado sob o manto da vingança.
Ela apertou os olhos, forçando as lágrimas para dentro, não para fora.
— Se continuar a falar em italiano... — disse ela, com a voz embargada, virando-se parcialmente para ele. — Eu não vou conseguir sair desse closet sem montar você.
Mordeu os próprios lábios para conter o turbilhão.
Peeta riu baixinho, colando a testa na dela.
— Não me tente, Everdeen. Ainda temos um baile inteiro pra encantar Manhattan.
Katniss segurou o rosto dele com ambas as mãos, respirou fundo e selou os lábios dele com um beijo lento, demorado — um que dizia “eu também te amo”, mesmo sem palavras.
Ela se afastou com relutância, foi até o espelho e retocou os lábios com o batom vermelho cereja. Peeta pousou sua mão direita sobre o ombro dela. Ambos se entreolhavam pelo reflexo do espelho.
— Santo inferno… — murmurou, com o arrastado italiano, colando-se nela por trás. — É você que está tentando me matar de tesão antes mesmo da sua entrada triunfal?
Ele deslizou os dedos pela lateral de sua cintura, apertando de leve.
— Esquece o que eu disse antes sobre encantarmos Manhattan... Se eu arrancar isso com os dentes, a gente perde só alguns minutos…
Katniss riu baixo e virou o rosto de leve.
— Não podemos nos atrasar, querido.
— Essa frase ainda vai me destruir.
Ela pegou a máscara dourada de renda e a clássica preta de Peeta. Os dois colocariam sobre o rosto assim que chegassem no estacionamento do salão Whitestone.
A mulher que saiu dali não era só Katniss Everdeen. Era também o fantasma do passado, a promessa do acerto de contas e, ao mesmo tempo, a mulher que amava profundamente o homem que acreditava tê-la conquistado por completo.
Mas mal sabia ele...
A noite ainda estava apenas começando.
Salão The Whitestone Conservatory, 20h07
Um baile de máscaras beneficente. Uma festa de gala que prometia ser inesquecível. O tema, cuidadosamente escolhido, era carregado de simbolismo.
Afinal, o que há de mais fascinante em um baile de máscaras senão o momento em que elas caem e a verdade é revelada a todos.
Ao chegarem, o brilho das luzes do salão histórico cortava a escuridão da noite. Peeta, com um gesto cavalheiresco, deu a volta na Lamborghini para abrir a porta para Katniss. A noite estava fresca, mas o ar carregava uma eletricidade palpável. Com um movimento rápido, Katniss colocou a máscara, sobre seu rosto. O toque era um lembrete do papel que ela estava prestes a desempenhar — o de uma amante apaixonada, enquanto, por trás da máscara, a vingança se preparava para descer sobre sua presa. Ela ajudou Peeta a colocar a sua máscara, observando-o de perto, registrando cada detalhe de sua expressão confiante e despreocupada. A inocência dele era quase palpável, uma inocência que logo seria quebrada.
Peeta entregou as chaves ao manobrista com um gesto automático, sua atenção totalmente voltada para Katniss. Ela, por sua vez, deslizou o braço pelo dele, um gesto casual que escondia a firmeza de sua mão, a prontidão para agir. A proximidade física era uma máscara, tão convincente quanto a que cobria seu rosto.
Convidados começavam a chegar. Um homem alto, robusto e elegante os recebia com um sorriso cerimonial, confirmando nomes com uma prancheta dourada.
— Jacqueline Fox Delancy.
— Clove Fuhrman.
— Marvel Quaid.
— Glimmer Smith.
— Thresh Davis.
Cada nome confirmado era um lembrete silencioso do verdadeiro motivo daquela noite.
E ninguém, absolutamente ninguém… suspeitava.
A música “Guess Who” de Nekta ecoava através das colunas sonoras embutidas nas molduras douradas do salão. O chão de mármore refletia as luzes quentes dos lustres de cristal, que tremeluziam sobre as máscaras luxuosas dos convidados.
As portas se abriram como se a realeza estivesse fazendo a entrada triunfal.
Peeta Mellark, impecável no smoking sob medida preto com máscara combinando, deu o braço a Katniss Everdeen.
Ela em seu deslumbrante vestido bordô, o tecido fluía como vinho derramado sob luz de velas. A máscara dourada rendada ocultava parcialmente seu rosto, mas seus olhos cinzentos cintilavam com uma força hipnótica. Com um passo confiante, ela adentrou o salão como se já fosse dona dele.
Os olhares se voltaram para o casal. A fotógrafa da Vanity Fair, posicionada ao lado de uma das colunas, clicava sem parar. A jornalista anotava, empolgada, possíveis legendas para a matéria:
”Katniss Everdeen, a estrela do baile beneficente que parou Manhattan.”
Peeta conduziu Katniss entre os convidados com naturalidade, cumprimentando investidores, representantes da Atlas, magnatas do setor bancário e até alguns rostos da política. Wall Street estava ali — mascarada, perfumada e encantada.
Katniss ainda sentia o flash da câmera piscando mesmo depois de entrar completamente no salão. O burburinho dos convidados ecoava entre as colunas douradas, e o som da orquestra se misturava ao tilintar de taças e risadas contidas.
— Eu juro que nunca vi tanta gente tentando disfarçar inveja com champanhe — murmurou Johanna, aproximando-se com uma taça na mão e um sorriso debochado. — Vocês dois acabaram de dar crash no feed da Vanity Fair.
Delly apareceu logo atrás dela, radiante, usando um vestido azul-marinho, transparente nos ombros e decote, sobre o qual o bordado dourado se estendia.
— E o pior é que vocês nem tentaram! — disse ela, animada. — Kat, sua foto já tá rodando no Twitter com a legenda “a mulher que faz, Peeta Mellark sorrir de verdade”.
Katniss arregalou os olhos.
— Estão brincando.
— Infelizmente não — respondeu Johanna, rindo. — E o melhor? A foto é tão boa que até eu shippei vocês por um segundo.
Peeta ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Só por um segundo? Estou ofendido.
— Ok, dois segundos — retrucou Johanna, tomando um gole de champanhe. — Depois lembrei que vocês são o casal que faz o resto de nós parecer emocionalmente disfuncional.
Delly segurou o riso e cutucou Katniss.
— Johanna só diz isso porque ela e eu passamos a tarde tentando adivinhar se o vestido bordô era ousado demais. Spoiler, era perfeito.
Katniss deu um sorriso torto, ajeitando discretamente a máscara.
— Eu só queria parecer alguém que não tropeça em tapetes caros.
— Amor, se você tropeçar, o salão inteiro vai aplaudir — disse Peeta, baixinho, com um tom que fez Johanna revirar os olhos.
— Por favor, Mellark — interrompeu Johanna. — Se vai flertar, espera eu terminar minha taça, pra não me engasgar com o açúcar da vergonha alheia.
Peeta inclinou a cabeça.
— Engraçado, vindo de quem abraçou cordialmente demais o CEO da concorrente no último evento beneficente.
— Foi diplomacia! — defendeu-se Johanna. — E, pra sua informação, ele doou cem mil dólares depois.
Delly gargalhou.
— Claro que doou, depois daquele abraço seguido do aperto na bunda, ele faria até financiamento da Atlas. Sorte sua que não fiquei com ciúmes, pois sabia que era estratégia.
Katniss não conteve a risada.
— Essa noite promete.
— Promete mesmo — disse Johanna, olhando para o salão. — Agora aproveitem o estrelato antes que a Vanity publique a próxima matéria: “O casal Mellark e a sócia debochada que bebe champanhe demais.”
— Isso seria o título perfeito — comentou Peeta.
Johanna piscou.
— Já deixei meu contato com a repórter. Nunca se sabe quando o deboche vira branding.
Delly, ainda rindo, segurou a mão de Katniss.
— Sério, vocês estão lindos. Dá até vontade de chorar.
— Não chora, Delly — disse Johanna. — Vai borrar o rímel e eu não vou te emprestar o meu delineador outra vez.
Peeta olhou para Katniss, os olhos brilhando atrás da máscara.
— Pronta pra dançar, Sra. Mellark?
Ela sorriu, fingindo avaliar a situação.
— Só se você prometer não roubar mais a atenção de todo o salão.
— Impossível — sussurrou ele, aproximando-se. — Quando você está aqui, ninguém mais existe.
Johanna suspirou teatralmente.
— E foi assim que eu decidi pedir outra garrafa de champanhe.
Delly gargalhou.
— Melhor decisão da noite.
Enquanto o casal seguia para a pista, Johanna e Delly ficaram observando.
— Eles são insuportavelmente perfeitos — disse Johanna, balançando a cabeça.
— E ainda por cima são bons dançarinos — completou Delly.
— Tô dizendo, Delly — suspirou Johanna. — A gente devia começar a cobrar taxa por testemunhar tanto romance em 4K.
O casal dançava no compasso do suave jazz enquanto alguns olhares curiosos os observavam.
— Você nasceu para isso, sabia? — enalteceu Peeta ao pé do ouvido dela.
— Não, amor. Eu planejei isso — respondeu ela com um sorriso enigmático, antes de dar um beijo rápido na bochecha dele. — Me dá licença por um segundo?
Peeta assentiu, observando-a sumir entre as plumas e convidados mascarados.
Katniss se esgueirou entre as mesas até chegar à lateral do palco. O DJ, vestido num terno branco minimalista, a cumprimentou com um aceno. Ela se aproximou, segurando discretamente a barra do vestido.
— Posso mudar um pouco a vibe? — sussurrou.
— O baile é seu, senhorita Everdeen — respondeu ele, ajeitando o microfone vintage de haste dourada que se encontrava sobre o palco.
Katniss respirou fundo quando subiu no palco e por um instante, o salão pareceu pausar. Alguns convidados olharam curiosos, reconhecendo a anfitriã. Outros apenas admiravam a imagem divina da mulher iluminada pelo foco suave do palco.
Ela se posicionou, segurando a haste do microfone com delicadeza. Fechou os olhos.
E então começou. Os acordes iniciarem suavemente.
Com uma voz rouca, suave, mas afinada, ela murmurou em italiano...
“Senza fine, tu trascini la nostra vita, senza um attimo di respiro, per sognare, per potere ricordare...”
Trad-[Sem fim, arrastas a nossa vida, sem um momento de trégua, para sonhar, para poder recordar...]
A melodia suave cortou o burburinho como navalha de seda.
Peeta congelou.
A taça que acabara de pegar quase escorregou da mão. O som daquela música… aquele timbre… o italiano perfeito…
O estômago dele se revirou.
Otho.
Quantas manhãs de domingo Peeta entrara na biblioteca da antiga casa e encontrara Otho — o homem que chamava de pai — escutando essa música, de olhos fechados, com um copo de vinho na mão e o mundo distante. Era a canção favorita dele. Era o símbolo de um passado que Peeta tentava preservar. Um elo que guardava no mais profundo de seu coração.
E ali estava Katniss, cantando “Senza Fine” como se tivesse mergulhado na alma de sua história.
Peeta sentiu o coração falhar algumas batidas. Os olhos se encheram de umidade, mas ele piscou firme.
Katniss abriu os olhos lentamente enquanto murmurava os últimos versos.
“Non m'importa della luna, non m'importa delle stelle, tu per me sei luna e stelle, tu per me sei sole e cielo, tu per me sei tutto quanto, tutto quanto io voglio avere...”
Trad-[Eu não me importo da lua, eu não me importo das estrelas, está-me a lua e as estrelas, está para mim o sol e o céu, você é tudo para mim porque, tudo o que eu quero ter.]
Ela o viu.
“Senza fine, la, la, la, la... senza fine... hmm”
Trad-[Interminável, la, la, la, la... interminável... hmm]
E por um segundo, tudo dentro dela tremeu.
Mas o sorriso em seus lábios permaneceu. Enigmático. Profundo. Doloroso.
A plateia que dançava ao compasso suave da canção aplaudiu. O salão inteiro vibrou.
Mas nada, absolutamente nada, foi mais ensurdecedor que o silêncio entre ela e Peeta, naquele breve instante em que seus olhares se encontraram.
Ela sabia.
Ele… ainda não.
Mas ambos sentiam.
Aquela noite ainda guardava muitas surpresas.
— Nossa, fiquei excitado agora. Que gostosa!
A voz rouca e grosseira cortou o silêncio que se seguiu à música. Peeta se virou, a taça de champanhe quase se estilhaçando pelo aperto em sua mão. O comentário, vulgar e desrespeitoso, partira de um homem de cabelos bronzeados, acompanhado por uma mulher loira. O desprezo de Peeta foi instantâneo — uma mistura de nojo e incredulidade.
— Ficou louco, Marvel? Não tem nenhum respeito por mim mesmo, não é? — A voz de Glimmer carregava uma frieza cortante.
Peeta encarou o casal com descrença. O que aqueles dois estavam fazendo ali? Em meio àquela elegância, sofisticação, a presença deles era a audácia sem limite. Era como se uma porta para um mundo diferente tivesse se aberto — um mundo de vulgaridade e falta de respeito — que contrastava brutalmente com a aura refinada do evento. Só podia ser uma piada mal contada.
Peeta não conseguia acreditar no que via. Marvel e Glimmer, dois indivíduos que ele considerava insignificantes, estavam ali, em um evento de sua empresa. A incredulidade o atingiu como um golpe físico. Como eles haviam conseguido entrar? Foram realmente convidados? A raiva ferveu em suas veias, misturada a um frio pressentimento.
— Mais respeito com minha mulher — interrompeu Peeta, sua voz cortando a pequena discussão entre o casal. A máscara de cordialidade havia caído.
— Oh, perdão, senhor...? — Marvel pareceu genuinamente confuso, seus olhos estreitando-se em um olhar avaliativo. A arrogância habitual havia sido substituída por uma incerteza desconcertante.
— Sou eu, Marvel. — Peeta retirou a máscara por um instante, revelando seu rosto. O efeito foi imediato. Os dois ficaram boquiabertos, a surpresa estampada em seus rostos.
— Recebemos o convite, amorzinho. Daí pensei ‘meu Peetinha nos perdoou’ e aqui estamos, neste evento bombástico. Ouvi dizer que a Vanity Fair está aqui cobrindo o baile. Eu não podia perder — disse Glimmer, um sorriso falso pintando seus lábios. O cinismo era quase cômico.
— Não perdoei nenhum dos dois — frisou Peeta, a voz fria e implacável. — Vou ter que conversar com o responsável por ter enviado o convite a vocês.
— Me perdoe por falar da ‘sua mulher’, não sabia que havia se casado — argumentou Marvel, um sorriso zombeteiro contorcendo os lábios. — Mas você se superou, amigo. Primeiro Jacqueline, depois Glimmer e agora... essa deusa? Ohhh... Conquistador! Parece que precisa me ensinar alguns truques.
— Eu não tenho que te ensinar nada, seu merda! — vociferou Peeta, a raiva finalmente explodindo quase em um belo soco. Katniss surgiu ao seu lado como um fantasma, sua presença sublime acalmando a situação antes que escalasse.
— Querido, precisamos cumprimentar o senador Crane. — A voz de Katniss, baixa e controlada, sibilou como uma sentença. A máscara de amante apaixonada e condescendente estava em ação.
— E não vai nos apresentar sua mulher? — provocou Marvel, passando a mão pelos cabelos.
— E quem seriam? — indagou Katniss, fingindo uma indiferença que não sentia. Seus olhos, por trás da máscara, brilhavam com um plano calculado.
— Sou Marvel Quaid — disse ele, apressando-se em se apresentar, estendendo a mão e beijando as costas da dela. O toque foi rápido, calculado.
— Muito prazer, Sr. Quaid. Sou Katniss Everdeen. Quaid... Você faz parte do conglomerado King Plazza, não é mesmo? — ele assentiu. — É um imenso prazer tê-lo aqui — disse ela com a voz sedosa, carregada de uma cordialidade que beirava a ironia.
— Ora, gentileza de vocês por terem se lembrado de mim. — Marvel sorriu, sentindo-se o centro das atenções. — Eu estava elogiando você para seu ‘marido’ e ele se irritou um pouco. Mas, devo admitir; a música, sua voz... foi como se o céu tivesse descido até aqui.
— Bobagem. Só quis agradar ao homem que tanto amo e admiro — Katniss, abraçada a Peeta, aproximou os lábios aos dele em um beijo longo e apaixonado. — Apenas corrigindo; não somos casados, mas quem sabe um dia...
O sorriso da morena era vitorioso enquanto encarava Glimmer.
— Amor, espero fazer o pedido muito em breve. — Peeta alargou o sorriso, como se estivesse segurando um troféu.
— A propósito, sou Glimmer Smith — indagou a loira, com a voz carregada de ressentimento.
— Muito prazer, Glimmer. Admiro o trabalho de caridade que seus pais fazem em Angola. É incrível saber que existem pessoas com status que se importam com os desafortunados — disse Katniss, abraçando Glimmer num gesto frio e calculista. — Você está exuberante nesse vestido. É do Cinna, não é?
— Sim... — respondeu Glimmer, surpresa e desconfiada.
— Eu sempre reconheço o trabalho dele. É simplesmente perfeito! — Katniss finalizou com um sorriso cortês, mas seus olhos brilhavam com um plano ainda não revelado. — Agora, se nos deem licença, precisamos cumprimentar alguns convidados.
Katniss e Peeta caminharam pela multidão, um mar de rostos parcialmente ocultos por máscaras, até alcançarem o senador Seneca Crane. Ele, com sua habitual cortesia impecável, agradeceu o convite, sua voz contrastando com a magia que pairava no ar.
— Nós que agradecemos a sua ilustre presença, senador — gracejou Peeta, a voz polida, mas seus olhos fixos em Katniss até o senador se afastar. A pergunta que se seguiu veio com um tom acusatório sutil.
— Por que não me contou que Glimmer e Marvel estariam aqui?
— Jura que não te contei? — retrucou Katniss, dissimulando perfeitamente. — Amor, só achei que seria bom para o projeto, a presença deles.
A mentira fluiu de seus lábios com a naturalidade de quem ensaiou cada vírgula.
— Bem, depois do que te contei sobre o que os dois fizeram... — Peeta soltou um longo suspiro, a frustração evidente na voz.
— Meu bem, esquece o que fizeram. É passado... Agora você tem a mim. — Katniss passou as mãos delicadamente ao redor do pescoço dele, os dedos traçando a linha da mandíbula. O toque era suave, mas a mensagem era clara. O passado não importava mais. Ela era tudo que ele precisava.
— Sim, eu tenho. Não preciso de mais ninguém ao meu lado além de você. A propósito, não sabia que era cantora — refletiu Peeta, um brilho de admiração nos olhos.
— Não sou cantora, apenas quis te fazer uma surpresa. Uma homenagem à sua família e um agradecimento por sempre recitar italiano com tanta devoção e luxuria. Aliás, sua família, ainda não os vi. — Katniss vagou seus olhos entre os convidados. Ela já tinha sim, visto Alma acompanhada de Cato, Finnick, Annie, Presley e Jason.
— Não sei, preciso procurá-los. — Peeta selou os lábios aos de Katniss em um beijo rápido e apaixonado. Ele se afastou, deixando-a sozinha em meio à multidão, sua máscara de cordialidade impecavelmente ajustada, enquanto seus olhos acinzentados planejavam os próximos passos de seu plano. A busca pela família Mellark era apenas uma desculpa, uma distração necessária para o próximo ato.
Peeta, após encontrar sua família e se certificar de que estavam bem acomodados, se dirigiu ao palco. O silêncio desceu sobre a multidão, um silêncio expectante que antecipava o discurso. Ele com o microfone sem fio na mão, sorriu para a multidão, um sorriso que irradiava gratidão e esperança.
— Boa noite a todos! — Começou Peeta, sua voz forte e clara, ecoando pelo salão. — É com imenso prazer e gratidão que me dirijo a vocês nesta noite especial, celebrada em um dia tão significativo: o Dia do Trabalho. Um dia que homenageia a força e a dedicação de cada um de vocês.
A atenção de todos estava voltada ao CEO que tecia elogios e gratidão a alta sociedade.
— Esta noite não é apenas uma celebração, mas também um marco de esperança para o futuro. Graças à generosidade de todos vocês, conseguimos arrecadar uma quantia significativa de doações que irão transformar a vida de muitos jovens. — Peeta era muito bom com as palavras e não tinha uma pessoa que não prendesse a atenção nele. — Como muitos sabem, a Atlas tem um compromisso profundo com a inclusão digital. Acreditamos que o acesso à tecnologia é fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional. E, é por isso que estamos investindo fortemente em programas que capacitem os jovens a ingressar no mundo digital.
“As doações arrecadadas esta noite serão destinadas a esses programas, garantindo que mais jovens tenham acesso a cursos, workshops e mentorias que os prepararão para as oportunidades do mercado de trabalho. Serão oferecidas bolsas de estudo, equipamentos e suporte técnico para aqueles que mais precisam. Cada doação, representa um investimento no futuro. Investimento em jovens talentosos, cheios de sonhos e potencial. Em um futuro mais justo e inclusivo, onde a tecnologia seja uma ponte para o sucesso e não uma barreira. Em nome da Atlas, e em nome de todos os jovens que serão beneficiados por sua generosidade, quero expressar minha mais profunda gratidão. Vocês não apenas doaram cifrões, mas também doaram esperança e isso é algo inestimável. Obrigado a cada um de vocês por estar aqui esta noite, por sua presença e por sua crença em um futuro melhor. Que esta noite seja um lembrete do poder da solidariedade e da importância de investir no potencial dos jovens. E, não posso deixar de agradecer, a minha inestimada equipe que deu vida ao projeto e fez essa noite acontecer. Obrigado!”
Peeta concluiu o discurso com um sorriso caloroso, sua voz carregada de emoção genuína. A multidão aplaudiu com entusiasmo, muitos com lágrimas nos olhos, movidos pela mensagem inspiradora e pela demonstração de cordialidade.
Após o impecável discurso, Peeta tirou algumas fotos com Katniss para a Vanity Fair, o flash das câmeras ofuscando por um instante a atmosfera carregada de emoções. Os sorrisos de Katniss eram forçados, mas as fotos, para o mundo exterior, transmitiriam a imagem perfeita de um casal apaixonado e bem-sucedido.
Enquanto um requintado buffet era servido entre taças de espumante e sorrisos acalorados, um garçom se aproximou com uma bandeja de prata, discretamente oferecendo um envelope vermelho lacrado. Peeta o abriu, revelando um cartão simples com uma mensagem enigmática: “Dirigir-se à sala VIP, ala oeste”.
— O que isso quer dizer? — perguntou Peeta, sua voz baixa, carregada de apreensão.
— Não sei, vamos até lá para descobrir — respondeu Katniss, sua voz calma, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade incomum. A aparente calma escondia a expectativa que a consumia. Ela sabia o que estava por vir.
Eles caminharam por um extenso corredor, o silêncio quebrado apenas pelo som de seus passos e o eco distante da música que vinha do salão principal. No fim do corredor, uma ampla porta dupla, com uma discreta plaquinha dourada: SALA VIP.
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Um segurança havia recebido ordens para permitir a entrada apenas de sete nomes.
Lá dentro, o ambiente era elegante e reservado — poltronas de veludo, champanhe em taças altas, música ambiente baixa. Marvel, Glimmer, Clove, Jacqueline, Thresh estavam sentados ou em pé, conversando, intrigados com o convite misterioso.
A porta se abriu e ela entrou acompanhada de Peeta com a descrença estampada em seu rosto escondido atrás da máscara.
Katniss em seu deslumbrante vestido e postura firme caminhou até o centro da sala, com os olhos queimando sob a máscara, o coração em guerra, mas o plano intacto.
— Boa noite — disse, com a voz serena. — Que bom que vieram. Tenho um jogo para propor. Um jogo de memória.
O grupo se entreolhou, confuso. Marvel riu, debochado.
— É algum tipo de performance artística?
Katniss ergueu o queixo.
— Algo assim. Mas antes de começarmos, deixem-me lembrar quem são vocês...
Ela tirou uma pequena ficha do busto do vestido. E começou a leitura.
— Marvel Quaid. O herdeiro que foi pego desviando fundos de obras de caridade para alimentar vícios de apostas. Os contratos falsos, os cheques em nome de terceiros. Seu pai comprou o silêncio. Mas sabe quem não comprou? O Ministério Público. As provas estão sendo entregues enquanto conversamos.
Marvel empalideceu.
— O que pensa que tá fazendo?
Katniss seguiu, ignorando.
— Glimmer Smith. Modelo e “influencer”, mas com contas offshores em paraísos fiscais e compras ilegais de votos em concursos de prestígio. E o mais interessante: tráfico de medicamentos para uso estético proibido. Imagens comprometedoras no seu celular. Ah, sim… já vazaram.
Glimmer recuou um passo, branca como sua pele.
— Você é louca.
— Clove... Agressão a uma funcionária doméstica. Três costelas quebradas e a subornou para o silêncio. E ainda teve a audácia de processá-la por roubo de joias falsas que você mesma plantou. Fora a agressão no estacionamento, não é mesmo? Câmeras de segurança não mentem. Sem contar que usou seu marido como bode expiatório e ainda por cima o está acusando de agredi-la, sério isso?
Clove arregalou os olhos.
— Isso… isso é ilegal!
— Thresh. O campeão do discurso ético, mas o juiz responsável pelo processo da sua empresa por trabalho análogo à escravidão em Bangladesh, já tem as imagens da fábrica. Essa é sua ideia de empreendedorismo?
Silêncio. Só a respiração pesada de quem sabe que foi exposto.
Katniss virou-se então para Jacqueline, que já tremia.
— Jackie... Jackie... A esposa troféu do milionário Conrad Delancy. Mas também amante de dois sócios dele. E tentando aplicar um golpe com ajuda de um deles. E a gravidez, querida… de qual dos três é?
Jacqueline tapou a boca com a mão… e vomitou na própria clutch. Glimmer gritou. Thresh se afastou com nojo.
Peeta, até então em silêncio, deu um passo à frente. Afinal, ele tinha se afastado daquele seu antigo grupo há muito tempo.
— O que está acontecendo?
Katniss virou-se devagar. Tirou a máscara.
O silêncio foi cortado pelo som do passado.
— Sou a garota que vocês humilharam no colegial há oito anos. Aquela que fingia ser bolsista. Que não tinha aparência digna de vocês. A que fizeram se sentir lixo e vadia. A garota que saiu do refeitório com lágrimas nos olhos, porque achou que nunca seria amada ou sequer respeitada.
Ela olhou diretamente para Peeta.
— E você... Você fingiu gostar de mim. Me atraiu, me iludiu… e riu junto com eles. E agora está aqui. Apaixonado por mim. Que ironia do destino, não?
Peeta ficou imóvel. Um músculo em sua mandíbula tremia. Ele ia dizer algo, mas Katniss o interrompeu.
— Ah, tem mais uma coisa...
Ela apontou discretamente para o suporte da escultura central.
Uma câmera escondida, instalada por Gale, piscava uma pequena luz infravermelho.
— Sorriam... estão ao vivo, no Instagram. Para mais de 500 mil pessoas.
Glimmer correu até a porta.
Trancada.
Jacqueline desmaiou. Marvel socou a parede. Clove gritava por um advogado.
Peeta, em choque, apenas encarava Katniss.
Ela virou-se de costas, com elegância.
— O jogo acabou. A verdade venceu
E saiu da sala, abandonando um rastro de escândalo, caos… e um homem quebrado pelo peso de seus erros — e do próprio coração.
Katniss saiu da sala VIP com passos firmes, mas o peito em chamas. Lá dentro, gritos, súplicas e caos tomavam conta. Ela não olhou para trás. Não queria ver o estrago, ainda não.
Andou pelos corredores dourados do salão, ignorando os convidados mascarados, que dançavam e brindavam, alheios ao escândalo que explodia ao vivo no Instagram.
Ela seguiu por uma porta lateral e desceu uma escada de serviço, entrando num corredor de funcionários até encontrar o armário onde estavam guardados baldes, vassouras, rodos e produtos de limpeza. Pegou o que tinha deixado escondido mais cedo – um galão de vinte litros repleto de gasolina.
Saiu pelos fundos. Lá fora, o ar estava gelado, o vento leve balançava seu vestido, mas nada a impedia.
A Lamborghini preta com o número de série exclusivo, estava estacionada sob as luzes discretas, onde o manobrista havia estacionado, a seu pedido. Isolada. Exibida.
O carro favorito de Peeta. A Lamborghini de uma série limitada. O presente que ele mesmo havia customizado. Até mesmo a Forbes fez uma matéria com ele encostado ao carro. Katniss lembrava como se fosse ontem, a raiva e atração que sentiu ao vê-lo estampado e o seguinte título “PEETA MELLARK, ALÉM DOS NEGÓCIOS. A PAIXÃO DE UM VISIONÁRIO” na vitrine de uma livraria em que passava para comprar um presente para sua amiga. A representação do sucesso, da vaidade, do passado que a esmagou.
Ela abriu o galão e começou a despejar o líquido inflamável sobre o capô, as rodas, o teto. Depois, encharcou o chão ao redor do carro com movimentos lentos, quase cerimoniais.
Puxou do bolso interno e discreto do corpete rendado da ousada lingerie o pequeno isqueiro Zippo metálico, herdado de Burdock, e o segurou por um instante entre os dedos. O som da tampa se abrindo soou como um sino final.
Então, ela o lançou contra o veículo que, por sua vez se acendeu. As chamas se erguendo com voracidade.
O cheiro de gasolina pairava no ar. A fumaça subia em espirais densas da Lamborghini preta, iluminando o rosto de Katniss com tons alaranjados e rubros. Era como se o inferno tivesse sido convocado para encerrar seu espetáculo final de vingança.
Passos se aproximaram, firmes sobre o cascalho. Peeta surgiu atrás dela, a sombra da sua figura contornada pelas chamas que devoravam o que, até minutos atrás, era seu bem mais precioso. Mas ele não olhou para o fogo.
Seus olhos estavam cravados nela.
Sempre estiveram.
— Eu sei que mereci isso.
A voz rouca, baixa, quase contida.
Ele estava parado a poucos metros, as mãos nos bolsos da calça. O olhar dele não era de raiva — era devastado, confuso… humano.
Ela permanecia imóvel, o isqueiro Zippo ainda quente sobre o capô em combustão. As mãos trêmulas. O vestido bordô, elegante, deixava à mostra seus ombros e colo, a pele suada pela tensão e pela culpa. Seus olhos marejados contrastavam com a frieza da decisão tomada.
— Peraí... — Começou ele, a voz partida. — Deixa eu tentar entender. Tudo o que você sentiu por mim nos últimos meses... Todo tempo que passamos juntos... tudo isso foi em função de uma vingança contra mim?
Katniss não respondeu. Ficou de costas por alguns segundos, tentando respirar. Tentando não ceder. O tecido do vestido se amarrotava entre seus dedos, apertado contra o ventre, como se pudesse conter as emoções prestes a transbordar.
— Nem tudo... — murmurou, baixo, a voz quase falhando.
Peeta avançou alguns passos. A dor em seu rosto era tão nítida quanto as chamas ao redor.
— Então o que foi verdadeiro e o que não foi? — perguntou, com amargura.
Katniss queria dizer que tinha se perdido no próprio jogo. Que cada toque, cada beijo, cada entrega havia deixado marcas reais. Que o plano de vingança virou amor em algum ponto, mas não soube quando.
Queria correr alguns passos até ele. Implorar por uma chance. Mas seus pés estavam presos, como se as chamas a tivessem enraizado ali, entre o antes e o depois.
A única resposta foi o silêncio. E o estalar contínuo das chamas devorando o que restava do carro.
Peeta esperou.
Mesmo após todo o estrago, ele ainda esperava por uma explicação. Por algo que lhe devolvesse o chão. Mas nada veio.
— Quer saber? Esquece — suspirou, rindo sem humor. — Aposto que a verdadeira questão é: O que vai restar depois dessa noite? Se algum dia tiver alguma explicação, me avisa.
Ele assentiu levemente com a cabeça, em resignação.
E então, virou-se de costas, os olhos vidrados no nada. O homem que havia se despido de tudo por ela, agora era só sombra — destroço, como seu carro que já havia sucumbido em uma explosão.
Katniss ficou imóvel. Entretanto, queria correr até ele e gritar que não foi só um jogo. Queria dizer o quanto já sentia sua falta, mesmo sem tê-lo deixado por completo.
Mas isso não seria justo.
Ela tinha partido o coração do único homem que a amou e se entregou de corpo e alma a ela.
O frenesi que sentia não era mais adrenalina. Agora era arrependimento.
Embora fosse tarde demais para voltar.
A vingança tinha cobrado o preço final.
E Katniss começava, pela primeira vez, a entender o valor do que perdeu.
“Quando você ateia fogo ao mundo, não pode escolher o que vira cinzas.”
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