Doce Vingança
3 Atração
Notas iniciais

Atlas Technology — 13 de maio, 8h05
Localizada no coração de Manhattan, a Atlas Technology ocupava o prestigiado Edifício Seagram, uma joia da arquitetura moderna com fachada minimalista de bronze escuro e vidro âmbar refletindo a cidade como um espelho luxuoso. Logo na entrada, uma marquise com detalhes em aço escovado exibe, de forma sutil porém marcante, o elegante logotipo prateado da Atlas Technology – moderno, geométrico e luminoso sob a luz do sol da manhã.
Os seguranças uniformizados e discretos abriam as portas giratórias de cristal com moldura dourada para os executivos que entravam e saiam constantemente, todos em trajes elegantes e passos decididos. Em frente ao prédio, carros de luxo alinhavam-se na calçada, entre eles um SUV Toyota preto blindado com motorista particular — o veículo pessoal dos Everdeen.
— Obrigada, Dalton — agradeceu Katniss.
Ao entrar no hall de entrada, ela foi envolvida por uma atmosfera de requinte e inovação. O lobby amplo, com pé-direito duplo e paredes revestidas em mármore italiano branco, contrastando com detalhes em madeira escura e painéis de LED que exibem notícias financeiras, lançamentos de tecnologia e imagens da própria Atlas em ação.
Um lustre escultural flutuante feito de vidro fumê e luzes internas em tons quentes descia do teto, como uma constelação digital, enquanto o piso de pedra polida espelha os sapatos de salto e os passos rápidos de quem transitava por ali. À esquerda, uma recepção minimalista com bancada em quartzo preto recebia visitantes com discrição e profissionalismo.
À direita, elevadores inteligentes com portas de aço aguardavam para levar executivos aos andares superiores — entre eles, o último andar reservado à presidência, onde trabalhava Peeta Mellark, o CEO da empresa.
E enquanto Katniss caminhava, segurando sua bolsa Chanel com os óculos Dior repousando no rosto, a movimentação no lobby naturalmente diminui. Seus passos ecoaram com elegância sobre o piso liso e sua silhueta era refletida nas superfícies envidraçadas. Ela não precisava dizer nada — a mulher que um dia foi apenas um nome sussurrado pelos corredores do colegial, agora caminhava como senhora de seu destino.
Funcionários desviavam olhares discretamente. A Atlas podia ser uma potência em tecnologia, mas ela, Katniss, era o lembrete vivo de que o verdadeiro poder — é pessoal.
✦✦✦
A sala de reuniões da Atlas Technology era ampla e moderna, refletindo o poder e a influência da empresa. Janelas do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica de Mahattan, mas Peeta mal as notava. Seus olhos estavam fixos no homem, sentado do outro lado da mesa de vidro. O ar estava em total movimento, uma mistura de expectativa e tensão.
Burdock Everdeen, sóbrio em um terno azul-escuro bem cortado, tinha a postura serena de quem estava acostumado a comandar. Seus gestos eram comedidos e cada palavra escolhida com a precisão de quem já fizera centenas de negociações como aquela. À sua frente, repousava uma pilha de documentos — o contrato preliminar da fusão entre a EverdeenTech e a Atlas Technology.
Ao lado de Peeta, estavam dois membros da equipe jurídica da Atlas — Darius Cresswell, advogado corporativo de confiança e Romulus Thread, especialista em fusões e aquisições. Ambos acompanhavam a reunião com atenção silenciosa, marcando trechos nos documentos e anotando observações.
— O Synapse, como você sabe, é o coração da EverdeenTech — disse Burdock, apontando para um diagrama técnico impresso, que destacava a arquitetura do software. Sua voz era firme, didática. — Desenvolvemos esse sistema com base em algoritmos preditivos de alta performance. Ele é capaz de analisar grandes volumes de dados em tempo real e fornecer diagnósticos com aplicações que vão da gestão de risco ao comportamento de mercado.
Peeta examinou o documento com atenção, embora já o conhecesse de cor. Estava claro que o Synapse era um divisor de águas. Johanna, mesmo à distância — viajando para um evento de tecnologia em Londres — havia analisado os arquivos enviados por Peeta e ficado impressionada. Ainda assim, ele precisava ouvir Burdock, homem que era mais do que um fundador — era um estrategista experiente.
— A integração será um processo técnico delicado — ponderou Peeta, cruzando os braços. — Vamos precisar de uma fase de testes, avaliar a escalabilidade dentro da nossa arquitetura. E mais que isso, precisamos pensar a longo prazo. Essa fusão não é só sobre software, Burdock. É sobre cultura corporativa, estratégia e, sobretudo, controle.
Burdock assentiu, o olhar afiado pousando em Peeta com respeito. Seu sorriso foi breve, contido.
— Compreensível. E, francamente, esperado vindo de você. — Ele cruzou os dedos sobre a mesa. — Mas acredito, com convicção, que a união entre a EverdeenTech e a Atlas pode criar um ecossistema inédito em inovação. O Synapse é a ponta do iceberg. Imagine a Atlas com um motor de previsão capaz de detectar falhas antes mesmo de surgirem. Ou prever tendências comportamentais com meses de antecedência.
Peeta não respondeu de imediato. Sua atenção foi interrompida momentaneamente por Romulus, que deslizou um papel com uma observação escrita a lápis: Cláusula de não concorrência — revisão sugerida no item 4.2. Ele deu um leve aceno de cabeça e voltou a olhar Burdock.
Do outro lado da mesa, o executivo mais velho também mergulhava em seus próprios pensamentos. Apesar da calma que demonstrava, ele sabia exatamente quem havia plantado a ideia dessa fusão meses antes, sua filha, Katniss.
Foi ela quem mencionou a Atlas. Disse que enxergava um potencial único na estrutura da empresa... e no próprio Mellark.
“A Atlas não é só tecnologia, pai. É influência. E se tem algo que o Synapse precisa, é de projeção estratégica”, ela havia dito.
A lembrança aqueceu o peito de Burdock com um misto de orgulho e antecipação. Katniss era inteligente, ousada. Teria um papel crucial nesse novo capítulo.
Peeta quebrou o silêncio, com um tom direto.
— E o que me garante, Burdock, além da tecnologia?
O homem se inclinou levemente para frente, apoiando os antebraços na mesa. Sua voz soou mais firme:
— Eu lhe garanto meu comprometimento total. Não apenas como CEO da EverdeenTech, mas como pai de alguém que, um dia, herdará esse legado. Katniss será meu braço direito nesse processo. É parte da nova geração que vai sustentar essa ponte entre o que somos e o que podemos ser.
Peeta considerou por um instante. Havia pragmatismo nas palavras de Burdock, mas também havia sinceridade. Ele se levantou, acompanhando o movimento de Darius e Thread, e estendeu a mão.
— Pois bem, Sr. Everdeen. O departamento jurídico dará andamento à formalização. Assim que minha sócia retornar, marcamos um jantar para celebrarmos esse novo passo.
Burdock se levantou, apertando a mão de Peeta com firmeza, e sorriu com mais leveza agora.
— Fico no aguardo. E transmita à Stra. Mason minhas congratulações. Essa parceria, Peeta, vai mudar muita coisa.
Peeta assentiu, mas em seu olhar havia algo mais. Uma faísca que nem mesmo Burdock conseguiu decifrar de imediato.
✦✦✦
Após o almoço, Lucy, a secretária de Peeta, apareceu à porta de seu escritório com a mesma eficiência de sempre.
— Sr. Mellark, sua próxima reunião é com a equipe de marketing. Reunião de alinhamento estratégico para o segundo semestre.
Peeta assentiu sem levantar os olhos dos papéis à sua frente. Sabia que essa era uma pauta essencial. O mercado estava se movendo rápido e a Atlas precisava reafirmar sua imagem diante dos investidores e do público. O que ele não esperava era a reviravolta que essa reunião traria.
Ao entrar na sala de reuniões, seu olhar percorreu o espaço ocupado por líderes de marketing, branding e comunicação institucional. Notou rostos conhecidos, alguns recém-contratados, estagiários — e então… a viu.
Katniss Everdeen.
Sentada na outra extremidade da mesa, postura elegante, olhos atentos e um leve sorriso que parecia saber mais do que dizia. Os cabelos soltos sobre os ombros, a expressão segura, quase desafiadora. O coração de Peeta deu um leve tropeço. A lembrança do encontro casual na academia — e do flerte na piscina — ainda fresca na mente. Mas agora, ela estava ali. Integrante da sua equipe.
Com um leve movimento, Peeta desabotoou o paletó do terno Armani e ocupou seu lugar à cabeceira da mesa, sem perder a compostura. Porém, o impacto era real. Ela era real.
A reunião começou com uma apresentação sobre o reposicionamento da Atlas frente à concorrência, com foco em inovação tecnológica e construção de marca. As análises incluíam métricas de performance de campanhas anteriores, novos caminhos para reposicionamento de produto, fortalecimento da imagem institucional junto a investidores e uma abordagem mais ousada para o mercado europeu.
Katniss participou com argumentos agudos, propondo ajustes finos na comunicação visual da próxima campanha de tecnologia de ponta. Sugestões ousadas, que contrastavam com a abordagem tradicional da Atlas, mas que demonstravam domínio de análise e narrativa de marca. Ela sabia como atrair atenção sem perder sofisticação.
Peeta, observando tudo com atenção silenciosa, sentia-se dividido. Entre a admiração profissional e a lembrança do sorriso travesso à beira da piscina. Ela era brilhante. E perigosamente cativante.
Quando a reunião foi encerrada, os profissionais começaram a sair. Alguns ainda trocavam cumprimentos e comentários sobre as próximas entregas. Logo, restaram apenas ele… e Katniss.
Um silêncio confortável — e carregado — tomou a sala. Peeta permaneceu sentado, curvado sobre uma pilha de documentos que precisava assinar, o som ritmado da caneta preenchendo o espaço.
Então, sem que dissesse nada, Katniss se aproximou. Sentou-se casualmente à ponta da mesa, cruzando as pernas com naturalidade. Uma delas encostou levemente na dele. Seu perfume era discreto e envolvente. Ela puxou suavemente a ponta da gravata de Peeta entre os dedos, com um gesto que parecia tanto brincadeira quanto afirmação.
— Surpreso em me ver, Sr. Mellark? — perguntou, com um meio sorriso, a voz baixa, quase um sussurro.
Peeta ergueu os olhos, estudando o rosto dela.
— Considerando o último lugar onde te vi, definitivamente. — Ele manteve o tom sério, mas o brilho no olhar o traía.
Ela sorriu com diversão.
— Digamos que o home office deixou de ser suficiente. Meu pai achou que era hora de eu começar a participar presencialmente de algumas decisões... — Ela girou a gravata entre os dedos, sem pressa. — E, com a fusão em negociação, achei que conhecer sua equipe e você, seria uma prioridade estratégica.
Peeta inclinou-se levemente para a frente, os olhos presos aos dela.
— Estratégia, é? Tem certeza de que não é só provocação bem ensaiada?
— Eu não ensaio — respondeu Katniss, com um sorrisinho afiado. — E estou aqui para trabalhar. Mas, se te desconcertar for um efeito colateral, acho que consigo conviver com isso.
— Pensei que estava me seguindo — murmurou Peeta, ladeando os lábios em um sorriso discreto, a voz com um toque de provocação.
Katniss arqueou uma sobrancelha, fingindo surpresa, o rosto composto em uma máscara de desdém elegante.
— Eu? Seguir você? Que egocentrismo, Sr. Mellark — retrucou, embora a faísca em seus olhos denunciasse que ela estava se divertindo com o jogo.
— É, eu sei — respondeu ele, com um leve encolher de ombros. — Mas vamos ser honestos… é uma coincidência e tanto. E eu não pude deixar de notar que você está se esforçando para me impressionar.
Ela deu um passo leve para trás, cruzando os braços diante do corpo com um sorriso travesso.
— Quem disse que estou tentando te impressionar? Talvez eu esteja apenas aqui para trabalhar.
— Claro, claro... — disse Peeta, rindo suavemente, inclinando-se um pouco mais na direção dela. — Mas se esse é o caso… está fazendo um excelente trabalho. A gravata, por exemplo, combina perfeitamente com seus olhos. — Seu olhar percorreu o rosto dela, agora mais suave, quase reverente. — Não que você precise de ajuda para impressionar.
Katniss sentiu o calor subir pelas bochechas, mas não desviou os olhos. Ela sustentou o olhar dele com firmeza, o sorriso intacto nos lábios.
Foi então que Peeta estendeu a mão, mantendo os olhos presos aos dela.
— Bem-vinda à Atlas Technology, Srta. Everdeen.
Ela apertou a mão dele com firmeza, um brilho de desafio nos olhos.
— Te vejo nas trincheiras, Sr. Mellark.
Ele soltou uma risada baixa, a voz rouca. Não sabia o que ela queria, exatamente — mas sabia que essa história estava longe de ser apenas profissional.
✦✦✦
No fim do expediente, Peeta estava sozinho em sua sala envidraçada, finalizando a assinatura de contratos que exigiam sua atenção pessoal. O relógio marcava quase 19h quando uma batida leve na porta interrompeu o silêncio.
Ele ergueu os olhos — e lá estava Katniss.
Seus olhos brilharam sob a luz âmbar da luminária da sala. Usava um sobretudo preto por cima da mesma blusa acetinada champagne e a saia preta justa de fenda que a acompanhara durante todo o dia, mas havia algo em sua postura agora, no final do dia, que tornava sua presença ainda mais magnética.
— Esqueci minha caneta na sala de reunião… mas, ao passar pelo corredor, vi a luz da sua sala acesa — disse ela, o sorriso leve, mas cuidadosamente ensaiado. — Achei que ainda estivesse aqui.
Peeta deixou a caneta sobre a mesa, recostando-se na cadeira com um sorriso nos lábios.
— Estou encerrando agora. Só finalizando esses papéis do conselho — respondeu, fechando uma pasta de couro escuro com o logo da Atlas em relevo.
Ele se levantou, ajustando o paletó grafite e vestindo seu sobretudo. A gravata com listras finas continuava impecavelmente alinhada. Katniss observou o gesto com sutileza, aproximando-se um passo.
No elevador, os dois ficaram lado a lado, a tensão entre eles flutuando no ar como eletricidade estática. Ao chegarem no térreo, o saguão da Atlas estava quase vazio, exceto por seguranças e recepcionistas discretos. O enorme lustre refletia a luz dourada em seus cabelos, e Peeta se virou para ela com um tom casual, mas direto.
— Posso te dar uma carona?
Katniss fingiu ponderar por um instante, antes de dar um passo mais próximo. Seu olhar encontrou o dele enquanto os dedos finos deslizaram pela gravata listrada, puxando-a levemente em um gesto que se tornava, aos poucos, familiar entre eles.
— Seria ótimo — disse ela, com um sorriso que escondia mais do que revelava.
Do lado de fora, o motorista de Peeta, Gale Hawthorne — sempre atento, sempre pontual — já os aguardava ao lado do BMW Série 7 preto. Abriu a porta traseira com um aceno breve. Katniss entrou primeiro, o salto fino de seus sapatos ecoando no piso de mármore antes de desaparecer no interior luxuoso do carro. Peeta entrou em seguida, e a porta foi fechada com um clique suave.
Enquanto o veículo se afastava do prédio da Atlas, a cidade desfilava pelas janelas como um cenário mágico. Eles retomaram a conversa sobre campanhas de lançamento, mas o tom agora era mais íntimo, quase conspiratório. A atmosfera era carregada, não de tensão profissional, mas de algo mais denso, mais pessoal — um desejo contido, latente, perigoso.
No silêncio entre uma frase e outra, os olhares se cruzavam, prolongavam-se mais do que o necessário. E naquela viagem curta, em meio à música baixa e ao perfume amadeirado que preenchia o carro, uma promessa silenciosa se formava entre eles.
✦✦✦
Peeta digitou a senha no painel digital na entrada de seu apartamento com um gesto automático. O dia havia sido longo, exaustivo, repleto de reuniões e decisões estratégicas. Mesmo com o corpo reclamando por descanso, sua mente estava em outro lugar — ou melhor, em outra pessoa.
Assim que entrou, jogou a pasta de documentos no sofá e começou a afrouxar a gravata. A imagem de Katniss invadiu seus pensamentos com a mesma força de quando a viu pela última vez naquele dia. A maneira como ela segurou sua gravata entre os dedos, o tom provocador da voz, o brilho nos olhos e… a saia com aquela fenda indecente.
Tentou afastar a lembrança com um banho quente e longo. O vapor aliviou o cansaço, mas não foi páreo para o efeito que Katniss Everdeen causava. Ao sair do chuveiro, vestiu apenas uma calça de moletom, secou o cabelo com rapidez e se jogou na cama, ainda inquieto.
Foi quando o celular vibrou ao lado do travesseiro.
Número desconhecido.
[20:17] — Antes que surte e diga que estou te perseguindo, peguei seu número com a Lucy. Acabei de enviar minha proposta de marketing para seu e-mail, Sr. Mellark.
Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Era Katniss. Em resposta, ele digitou.
[20:19] P — Ah, Katniss, sem essa de "Sr. Mellark".
[20:20] K —Algum problema, Sr. Mellark? 😏
[20:22] P — Nenhum problema, srta. Everdeen. Apenas acho que já passamos dessa formalidade.
[20:23] K —Talvez. Mas adoro ver você corar. 😉
[20:24] P — Corar? Eu não coro.
[20:26] K — Aham, sei... Mas voltando ao trabalho… o que achou da proposta?
[20:28] P — Ainda não tive tempo de ler. Estava ocupado demais pensando em gravatas e saias lápis.
[20:30] K — Peeta! 😳
[20:33] P — Estou brincando! Mas vou ler agora mesmo. Prometo.
[20:35] K — É bom mesmo.
Prepare-se para ter sua mente explodida. 🤯
[20:37] P — Estou ansioso.
Mas confesso que minha mente já foi explodida hoje.
[20:39] K — Em bom ou mau sentido? 🤔
[20:41] P — Definitivamente em bom sentido.
Muito bom. 😉
[20:43] K — Ótimo.
Agora vá ler a proposta.
E pare de me distrair. 😈
[20:45] P — Sim, senhora!
Mas antes… que tal um café amanhã para discutir os detalhes?
[20:47] K — Hmm… talvez.
Me convença de que vale a pena. 😏
[20:49] P — Eu sei um lugar que serve o melhor café da cidade.
E a companhia é ainda melhor. 😉
[20:51] K — Vou pensar no seu caso.
Boa noite, Peeta.
[20:52] P — Boa noite, Katniss.
E até amanhã! 😉
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Café Mente & Sabor — 8h00
O sol da manhã banhava as ruas de Nova York com uma luz dourada e suave, refletindo nos vidros altos dos prédios, tornando cada movimento nas calçadas uma coreografia apressada e ritmada. Peeta, impecavelmente vestido com um terno marrom escuro e camisa branca de listras finas, esperava do lado de fora da cafeteria. A gravata impecavelmente ajustada ao colarinho e o ar ligeiramente inquieto denunciavam que ele estava ansioso.
Katniss o observou à distância antes de se aproximar. “Pontual e nervoso”, pensou, contendo um sorriso. Ela usava um vestido tubinho cor creme que delineava suas curvas com elegância, equilibrado por um sobretudo claro que lhe dava um ar sofisticado. O cabelo preso em um rabo de cavalo bem arrumado deixava seu pescoço exposto de propósito — uma distração calculada. Cada elemento da sua aparência havia sido escolhido com intenção.
Ela queria ser inesquecível.
— Bom dia — disse Peeta, seus olhos percorrendo o corpo dela, como ela esperava.
— Bom dia — respondeu Katniss, controlando o tom da voz para parecer casual, mas levemente insinuante. Sutil. Envolvente. Um convite camuflado de simplicidade.
Ao entrarem na cafeteria, ela deixou que ele abrisse a porta e puxasse a cadeira. “Perfeito”, observou. “Educado, atencioso, pronto para ser manipulado.”
— Então, o melhor café da cidade — comentou ela, fingindo estar interessada no ambiente aconchegante. Na verdade, não ligava. O cenário era irrelevante. O que importava era o jogo.
— É o que dizem — respondeu ele, sorrindo. — Mas acho que a companhia pode torná-lo ainda melhor.
Ela riu, inclinando levemente a cabeça, como se tivesse sido pega de surpresa pelo comentário. Mas tudo era parte do papel.
— Você é muito confiante, não é?
— Apenas otimista — disse Peeta. — E confiante em meu paladar para cafés. O que vai pedir?
— Cappuccino e pães de queijo. — Ela sorriu, olhando o cardápio. Não precisava provar que conhecia o cardápio. Estava ali para marcar presença, não para comer. Ainda assim, tinha que admitir, amava pão de queijo.
Enquanto esperavam os pedidos, ela conduziu a conversa para assuntos leves, mesclando provocações com charme. Não queria parecer interessada demais, apenas o suficiente para instigar. Ela sabia como jogar. Cada palavra tinha peso. Cada gesto, função.
— Então, sobre a proposta… — Peeta começou.
— Deixe a proposta para depois — cortou ela, com um sorriso. Seu olhar encontrando o dele. — Quero saber mais sobre você, Peeta Mellark. Fora do ambiente corporativo.
Ela o viu se inclinar para frente, mais à vontade, menos CEO, mais homem. Exatamente o que queria.
— Ah, sim... E o que você quer saber?
Katniss aproximou-se discretamente, criando uma falsa intimidade. Seu olhar era um convite silencioso, mas sua mente estava afiada, calculando a reação dele em milésimos de segundos.
— Quero saber o que faz um homem como você, tão impecavelmente vestido, esperar por uma mulher como eu, em uma cafeteria qualquer, em uma manhã corriqueira.
A pergunta soava sedutora, mas era uma armadilha. Peeta riu, cativado.
— É simples, Katniss. Eu gosto de café. E aprecio sua companhia.
— Aprecia, é? — Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo surpresa. Sabia que ele estava fisgado. — Vamos ver se o café é tão bom quanto você diz.
Enquanto bebiam, ela manteve a conversa leve. Deixava escapar pequenas pistas sobre si, algumas verdadeiras, outras nem tanto. Era um equilíbrio entre mistério e acessibilidade. A tensão entre eles aumentava a cada minuto. O jogo avançava.
Ao final, com o cappuccino quase frio, ela tirou os ingressos da bolsa.
— Ah, quase ia me esquecendo — disse, mostrando os dois convites para Hamlet. — Ganhei ingressos para a peça. Estava pensando… você gostaria de ir comigo?
O olhar dele brilhou. Katniss notou. E sorriu internamente. “Mais um passo.”
— Hamlet? — hesitou Peeta, encenando uma dúvida. Ela percebeu o entusiasmo contido.
— Não precisa ser especialista em Shakespeare. — Ela sorriu. — A peça é ótima. E a companhia… bem, talvez ainda melhor que o café da manhã.
A frase atingiu o alvo. Peeta riu, encantado com a ousadia.
— Você é bem direta, dona Katniss.
— Gosto de deixar as coisas claras — respondeu, controlando o tom para soar espontânea. — Sábado à noite?
— Perfeito.
O olhar dele era uma promessa. Mas Katniss sabia melhor. A promessa, quem fazia, era ela — e o fim não era um romance.
Ao saírem, o silêncio entre eles era carregado de tensão. Peeta abriu a porta e ela passou com um sorriso nos lábios, fingindo inocência. O caminhar até a sede da Atlas Technology foi lento, confortável — ele estava distraído com ela, exatamente como planejava.
Ela sabia que estava ganhando espaço na mente dele, pouco a pouco. Cada riso, cada flerte, cada olhar era mais um passo. Ele não percebia, mas já estava no tabuleiro.
E Katniss Everdeen estava jogando para vencer.
✦✦✦
A noite na Broadway estava encantadora. As luzes refletiam nos prédios e no asfalto úmido, enquanto um vento fresco passeava pelas ruas, completando o clima perfeito. Katniss aguardava diante do teatro, envolta em uma aura de elegância e mistério. Seu vestido preto, justo e elegante, abraçava cada curva com perfeição, e o casaqueto em paetê bronze cintilava sob os holofotes da entrada.
Ela sabia que estava deslumbrante e aquilo era intencional.
Peeta chegou alguns minutos depois e ela o percebeu antes mesmo de ele a notar. A camisa verde floresta realçava seus cabelos e a jaqueta de couro marrom dava-lhe um ar de sofisticação casual. Quando seus olhares se encontraram, Katniss já havia decidido como aquela noite terminaria — não literalmente, mas na mente dele.
— Você está linda — disse ele, a voz firme, mas levemente rouca.
Ela sorriu, devagar, como quem sabe exatamente o efeito que causa.
— Obrigada — respondeu, com um olhar sugestivo. — Você também está... surpreendentemente elegante, mesmo sem terno.
Enquanto esperavam o início da peça, sentaram-se lado a lado, os braços quase se tocando, Katniss conduzia a conversa como uma dança bem ensaiada. Comentários sutis, perguntas com segundas intenções, toques leves no braço, tudo cuidadosamente medido.
Durante a apresentação, quando Ophelia entrou no palco, Peeta inclinou-se para ela e murmurou algo.
— Eu conheço a atriz…
Katniss sorriu, fingindo surpresa. Na verdade, ela sabia exatamente quem estava no palco. Delly Cartwright, sua amiga dos tempos de colégio interno. Uma amiga verdadeira, sim, mas também uma peça cuidadosamente posicionada no tabuleiro.
A peça terminou em aplausos entusiasmados e Katniss, com um sorriso cheio de segredos, virou-se para Peeta.
— Peeta, você se importaria de me acompanhar até os bastidores? Eu preciso ver uma velha amiga.
Ele assentiu, curioso.
Nos bastidores, Delly os recebeu com entusiasmo, seu sorriso iluminando o ambiente.
— Peeta! Que surpresa boa! — exclamou, puxando-o para um abraço.
— Eu… tinha esquecido que você estava em turnê — disse ele, um pouco sem graça. — Não sabia que conhecia a Katniss.
— Desde o colégio interno — disse Delly, lançando um olhar cúmplice para Katniss. — Um dia te conto nossas histórias.
Antes que pudessem continuar, Johanna surgiu no corredor, tão marcante como sempre, com sua camisa mostarda e botas de cano baixo.
— Finalmente, em solo americano — brincou, abraçando Peeta e depois Katniss. — Você sumiu, sua pirua.
Katniss riu.
— Eu precisava… me reinventar. — E o olhar que lançou a Peeta depois disso foi direto, carregado de ironia e promessas veladas.
A proposta de Delly veio como um convite irresistível.
— Vamos comer e tomar uns drinks? Conheço um lugar ótimo aqui perto. Preciso pôr o papo em dia com vocês.
Katniss assentiu com leveza. O timing era perfeito.
O restaurante era acolhedor e animado, os quatro logo rindo e conversando como velhos amigos. Katniss manteve sua atuação — encantadora, acessível, divertida. Mas cada palavra, cada gesto, era calculado. Ela sabia que Peeta estava se envolvendo. Sabia que a imagem que ele criava dela naquela noite era exatamente a que ela queria projetar.
Em dado momento, Delly lançou a pergunta inevitável.
— Como vocês dois se conheceram?
Peeta contou a história com bom humor e Katniss interveio nos momentos certos, rindo nos trechos embaraçosos e oferecendo seu próprio ponto de vista, sempre com charme. Tudo isso fazia parte do jogo. Ela estava construindo a imagem da mulher inesquecível, envolvente, que ele não conseguiria tirar da cabeça, nem mesmo quando estivesse sozinho.
Quando o celular tocou, Katniss viu a oportunidade perfeita.
— Com licença — disse, levantando-se com elegância.
Ela se afastou, ciente de todos os olhares, especialmente o dele, a seguindo. Encostou-se na parede frente a um balcão, fingindo se concentrar na ligação.
Aproveitando a oportunidade, Johanna cutucou Peeta discretamente, seu olhar penetrante e sugestivo.
— Escuta, Peeta — disse, baixando a voz. — Cara, ela é incrível. Se você não fizer nada, outro vai.
Antes que Peeta pudesse responder, Delly se inclinou para frente, como se estivesse prestes a revelar um segredo valioso.
— Johanna tem razão e por favor, não volte a se envolver com aquelas mulheres vazias que só querem a sua conta bancária e te exibir como se fosse um troféu.
Peeta virou o pescoço para espiar Katniss, que parecia concentrada em sua ligação, logo sentiu seu corpo entrar em combustão. A imagem de Katniss ao celular, encostada na parede um pouco afastada, fez sua mente jogar um jogo perigoso. Ele se imaginou beijando seus lábios carnudos, sentindo o calor de sua pele, a fragilidade e a intensidade de sua entrega. A ideia o deixou excitado, mas também o fez sentir uma onda de responsabilidade.
Então, tentou manter a compostura diante do conselho de suas amigas. Ele precisava processar aquela repentina onda de desejo e a melhor forma que encontrou para lidar com ela foi pedir mais um shot de tequila. O álcool, ele esperava, o ajudaria a manter a calma e a racionalidade.
Quando voltou à mesa, o clima já havia mudado. Os olhares de Peeta estavam mais intensos, a tensão mais palpável.
O resto da noite transcorreu entre tacos, risos e olhares longos. E quando Katniss anunciou que precisava ir, Peeta se apressou.
— Eu te levo.
— Todos vamos de táxi, ninguém tem condições de dirigir, loiro — protestou Johanna, rindo alto.
— Claro, sei disso… — respondeu ele, um pouco distraído, sua mente ainda presa na imagem de Katniss. O álcool já começava a afetar seu raciocínio.
Do lado de fora, Katniss se despediu com gentileza das amigas, que se afastaram um pouco, dando privacidade ao casal. Peeta estendeu a mão, chamando um táxi.
— Vou com você — disse ele, quase impulsivamente.
Katniss riu, um som baixo e provocador.
— Acho melhor não, Sr. Mellark. Mas posso te enviar uma mensagem quando chegar… se isso acalmar seu coração.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela inclinou-se e beijou de leve o canto dos lábios dele — um toque suave, suficiente para deixá-lo sedento.
Dentro do táxi Katniss sentia um misto de sentimentos entre, a determinação de sua vingança e agarrar aquele homem que, exalava seu inebriante perfume e beijar seus lábios convidativos. Ela sacudiu a cabeça espantando qualquer pensamento inapropriado sobre o loiro. A bebida, mesmo sem exagero, a deixou fora de si.
[23:58] K — Cheguei em casa em segurança. Obrigada pela preocupação, Sr. Mellark. 😉
A resposta veio rápido.
[00:02] P — Que bom que chegou bem, Katniss. Dormir sozinho depois daquele beijo vai ser difícil. 🔥 Boa noite… ou melhor, boa madrugada. 😉
Ela riu sozinha, digitando devagar, com o polegar.
[00:05] K — Deixe-me adivinhar… a tequila não ajudou muito na sua “compostura”? 😏 Boa madrugada pra você também, Sr. Mellark. Até segunda 😉
[00:08] P — A tequila ajudou a manter a calma, mas não a apagar o que aconteceu depois. Espero que você sonhe comigo… 😴
[00:10] K — Sonhar com você? Sem essa... 😜
[00:12] P — Olha os modos, mocinha… Fuuuui… 🫢
Katniss sorriu com malícia, apoiando o celular no criado-mudo. Retirou o vestido, sentindo o tecido deslizar pela pele aquecida. O perfume de Peeta ainda pairava, provocando seus sentidos.
Ela deitou-se, os olhos fixos no teto, o sorriso crescendo.
Peeta Mellark estava caindo. E rápido. O eco da mensagem dele – Espero que você sonhe comigo… – reverberava em sua mente, misturando-se ao calor que ainda persistia em sua pele. Um sorriso lento se espalhou por seus lábios.
O jogo estava apenas começando.
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