Quando terminei de ajudar Aiden com a lição de casa, já estava de noite, deviam ser umas seis e meia da tarde, realmente ele tinha muita dificuldade com qualquer matéria envolvendo cálculos. Não que eu fosse especialista, mas também sabia um pouco.

-Obrigado pela ajuda — sorriu ele.

-Tá conseguindo entender agora? — sorri.

-Sim, eu só preciso escrever esses detalhes e estudar mais e aí eu consigo decorar.

-Só estudar mais que você consegue...

-Sei que não é desculpa, mas... Acho que minha cabeça ainda não tá tão boa depois do ocorrido, mas eu estou me esforçando pra melhorar.

-Eu sei, qualquer outro jovem estaria se entregando à tristeza, mas você tá aqui, se dedicando...

Ele logo sorriu de forma tímida, parecia querer dizer algo que escondia há um tempo.

-Bem... Você é o que me dá força para continuar — confessou ele.

-Por ter te ajudado quando você mais precisou?

-Claro que sim.

-Achei que estaria com raiva de mim por ter te usado.

-Eu sei, mas minha professora de português me viu triste na escola durante o recreio e me perguntou se meu pai tinha contratado outra babá para mim. E como ela é uma pessoa que eu confio muito, contei à ela o que aconteceu e sabe o que ela me disse?

Neguei com a cabeça.

-Ela me disse para não ficar com raiva de você, porque a culpa maior disso tudo é do meu pai, por demitir você sem motivo decente. Se ele não tivesse feito isso, você nunca teria feito o que fez.

Apesar de irritada por ele ter contado à professora dele algo tão sério que deveria ser segredo apenas nosso, percebi que ele tinha razão, se o Sr. Clifford não tivesse me demitido, certamente eu não teria tido a ideia de vingança, mas mesmo assim, as consequências foram bem ruins pra ele.

-Fico feliz que a sua professora tenha feito você perceber isso... — sorri sincera.

-Sim. Eu também fiquei, então não se preocupe comigo. Não vou entrar em depressão ou fazer qualquer loucura.

-Por favor, não faça mesmo.

-Não vou fazer.

-Que ótimo!

Então ele me deu um selinho rápido e eu retribuí. Logo terminamos a lição dele e fui fazer o jantar.

Depois de comermos, lavamos tudo e ficamos no quarto vendo televisão. Em seguida, nos preparamos para dormir, o que não demorou muito.

No dia seguinte, acordei um pouco antes dele e me levantei lentamente para ele não acordar. Fui no banheiro, tomei banho, fiz minha higiene matinal e fui pra cozinha fazer o café da manhã. Quando comecei a servir a mesa, vi ele entrando na cozinha já arrumado.

-Bom dia — ele disse, sorrindo.

-Bom dia, dormiu bem? — perguntei.

-Dormi sim. Isso parece bom.

-Espero que sim.

Nos sentamos e então comemos. Quando terminamos, lavamos a louça toda.

-Tá pronto pra ir? — perguntei.

-Tô sim — respondeu ele.

-Ok, deixa só eu me arrumar, é rapidinho.

-Tenho tempo.

Sorri e fui pro quarto, vesti um moletom cinza, uma calça jeans azul clara e botas. Uma escovada no cabelo e eu estava pronta, retornando à cozinha.

-Uau, está linda — elogiou ele.

-Obrigada. Vamos indo? — sorri.

-Vamos.

Fomos para o carro e em alguns minutos, chegamos na escola dele. Estacionei bem na frente da porta.

-Se precisar ficar de babá durante algum horário em que eu estiver na escola, me avisa que eu volto à pé mesmo. É perto e eu sei o caminho — pediu ele.

-Te aviso sim, pode deixar — assenti.

Então ele me deu um selinho rápido e saiu do carro caminhando em direção à porta de entrada.

Assim que ele entrou, comecei a dirigir de volta pra casa. No entanto, assim que estava perto, ao parar em um semáforo vermelho, instintivamente olhei para o painel de combustível e vi que ele estava bem baixo, quase na reserva. Putz, com tudo isso que aconteceu, acabei esquecendo de abastecer o carro. Não podia deixar passar mais um dia, então fui até o posto de gasolina mais próximo e pedi para o frentista que enchesse o tanque. Após alguns minutos, o tanque encheu novamente e paguei, rapidamente saindo dali.

Porém, quando estava dobrando a esquina de casa, um susto: uma viatura estava parada em frente à minha porta e dois policiais de pé, parados em frente à ela.

Não, não me diga que o Sr. Clifford realmente fez uma denúncia. Ele realmente ia levar aquele assunto aos tribunais? Inacreditável.

O que fazer então? Eu poderia me aproximar devagar e conversar, talvez os policiais só queiram que eu vá lá pedir a minha versão dos fatos ao invés de simplesmente me darem voz de prisão. Eu também podia dar meia-volta e procurar ajuda. De quem? Da minha mãe, de repente ela podia me ajudar a contornar aquela situação.

As opções eram poucas, mas os resultados pareciam inalteráveis. Qualquer que fosse a minha decisão, eu iria ser cobrada pela polícia de qualquer maneira. Mas, colocando a mão na consciência, acho que eu realmente merecia aquele destino, afinal, eu fiz uma coisa bem errada só para me vingar de um homem babaca que me demitiu por levar um fora meu.

É, acho que eu mereço ir para a cadeia. Mas... E o Aiden? O pai dele o expulsou de casa e o fato de ter me denunciado mostra que ele ainda não superou o ocorrido e não irá deixá-lo voltar pra casa. A mãe dele, por mais que tenha se recuperado, nunca mais deu as caras, faz dias que não tenho notícias dela, não sei se ela já saiu da clínica, então não tem como saber se ela poderá abrigá-lo.

Ok, então acho que não tenho outra escolha a não ser dar meia volta e me esconder da polícia por um tempo. Pelo Aiden.

Assim que dei meia volta, pra minha sorte, a polícia não chegou a ver meu carro, então pude seguir o rumo normalmente. Pensei em voltar pra escola do Aiden e ficar ali, o esperando voltar para buscá-lo na hora da saída e a gente fugir dali, mas ainda restavam muitas horas e eu precisava de um tempo antes de tomar qualquer decisão.

Foi então que parei o carro no semáforo e liguei pra minha mãe. Ela atendeu no segundo toque:

-Oi filha!

-Mãe, vou te contar uma coisa, mas não me fale: "bem que eu te avisei"!

-Já sei, a polícia apareceu na sua porta!

-Exatamente, deixei o Aiden na escola, fui abastecer o carro e quando cheguei na rua de casa, tinha uma viatura parada na frente da porta.

-Viu só? O Sr. Clifford realmente é um cara de palavra! E agora filha?

-Ok, eu já consegui dar meia-volta e sair da rua sem que me vissem, mas a senhora prometeu correr atrás de um bom advogado, conseguiu encontrar? — perguntei, esperançosa.

-Sim, o advogado da empresa que eu trabalho se comprometeu a ajudar, mas ele disse que vai precisar de uns dias até conseguir reunir provas que possam melhorar sua situação! — explicou ela.

-Se eu mostrar as conversas com Aiden no meu celular, será que vale? — sugeri.

-Acho que sim, se provarem que realmente não foi à força e sim, com o consentimento do garoto, acho que vai ser uma ótima jogada!

-Então eu vou até aí, tem como a senhora chamá-lo para uma reunião pra que eu mostre isso para ele?

-Vou ligar pra ele, enquanto isso, venha pra cá, mas tome cuidado!

-Vou tomar sim, pode deixar.

Então, desliguei o celular e comecei a dirigir em direção à casa da minha mãe, esperançosa que ela conseguisse me ajudar a sair dessa.