Notas iniciais
Boa noite amores, passando pra postar mais um doce capítulo que se aproxima cada vez mais do significado do título desse enredo rsrs... bora curtir um pouquinho mais desses dois.


A semana após o casamento foi uma tempestade de trabalho. Com Johanna em Paris em lua de mel com Delly, Peeta assumiu sozinho as responsabilidades da presidência. Pilhas de relatórios, reuniões intermináveis, acionistas impacientes... e nenhuma pausa.

Katniss entrou na sala executiva sem bater, como já era de costume, os saltos estalando firmes no chão de madeira enquanto carregava um café especial na mão. O que ela viu fez seu coração apertar — Peeta, jogado na poltrona, os cabelos bagunçados, os olhos fundos, o paletó largado no encosto da cadeira e o colarinho meio desabotoado. Um homem à beira da exaustão.

— Meu Deus, você parece um CEO pós-apocalíptico — comentou ela, se aproximando e pousando o café na mesa. — Quando foi a última vez que você dormiu?

— Não lembro — respondeu ele, com a voz rouca, massageando as têmporas. — Acho que fiquei velho depois do casamento da Jo. O mundo entrou em modo turbo.

Katniss parou diante dele e segurou o rosto de Peeta entre as mãos, fazendo-o encará-la.

— Como posso ajudá-lo, amor?

Peeta piscou, encantado com a delicadeza no tom dela. Aquilo soou como uma carícia no caos que estava vivendo.

— Me sequestra — disse ele. — Vamos pro shopping. Você faz um desfile exclusivo pra mim com lingerie. Várias. Não quero mais gráficos. Quero renda, cetim e você dizendo meu nome.

Katniss deu uma gargalhada.

— Você é de verdade mesmo? É o único homem que conheço que chama a namorada pra ir ao shopping tão desesperado assim.

— Você acha que é piada, mas eu já abri o app da Victoria’s Secret aqui. Olha esse conjunto verde... — Ele virou o notebook pra ela. — Isso num provador... você dançando Earned It do The Weeknd... eu desmaio.

— Você tá completamente surtado.

— Exausto, surtado e com níveis hormonais perigosamente elevados. Me leva, Everdeen. Ou vou me jogar daqui e despencar vinte e cinco andares abaixo — suplicou ele, Katniss não resistiu o olhar pidão e desesperado.

— Tá bom, Romeu. Vamos pro shopping — disse ela, pegando a bolsa e o puxando pela gravata.


Victoria’s Secret – Shopping Hudson Yards – 19h30


A loja estava quase vazia, e com um sorrisinho cúmplice, Katniss foi para os provadores com seis conjuntos de tirar o fôlego. Peeta aguardava sentado em uma poltrona vermelha, como se estivesse prestes a assistir ao maior espetáculo de sua vida. O segurança da loja olhou estranho, mas uma piscadela de Katniss o deixou quieto.

— Preparado? — disse ela lá de dentro.

— Sempre.

Ela surgiu com um conjunto preto de renda e tule, a saia rendada aberta na frente. Peeta engasgou com o próprio ar.

— Isso não é legal... — afirmou ele. — Isso é tortura.

— Próximo — falou ela, girando e sumindo novamente.

Veio usando um conjunto vinho com cinta-liga. Depois um azul-bebê com transparência. Um branco que deixava tudo à mostra. E, por fim, um conjunto verde-esmeralda com detalhes dourados que fez Peeta se levantar da cadeira com a mão no coração.

— Casa comigo agora. Eu cancelo todas as reuniões e fujo com você pra Ibiza.

— Não seja tão ansioso, Mellark — respondeu ela em tom brincalhão, piscando e voltando para o provador.

Peeta soltou um suspiro teatral, bagunçando os cabelos. Ele a amava. Mesmo sem entender por que às vezes ela parecia tão longe, mesmo quando estava ali tão perto.

Quando ela saiu de novo vestida normalmente com um sorrisinho travesso, ele puxou-a pela cintura.

— Agora vamos embora antes que eu desrespeite todas as regras da loja e da decência pública.

— Vai ter que esperar até chegarmos em casa — disse ela com um sorriso malicioso.

E ele respondeu, encostando os lábios no pescoço dela.

— A conta emocional de hoje eu pago com juros... no quarto.


✦✦✦


O apartamento estava aquecido, aromatizado com velas de baunilha e jasmim, a cidade piscando além dos vidros como uma constelação particular. Peeta saiu do banho com uma toalha em volta da cintura, os cabelos ainda molhados, e encontrou Katniss já esperando por ele.

O conjunto verde-esmeralda agora vestia o corpo dela como uma obra de arte. Renda fina, detalhes dourados, tiras que delineavam cada curva com perfeição e um robe transparente da mesma cor por cima com elegância. Mas o que mais chamava atenção era a expressão que Katniss trazia: inocente, provocadora e encantadoramente fatal.

— Eu disse que esse era o meu preferido — enfatizou Peeta, hipnotizado.

Katniss apenas sorriu, aproximando-se em passos lentos e silenciosos, como uma felina prestes a capturar sua presa. Pegou a mão dele e o guiou até a cama.

— Deita de bruços — disse ela com uma voz aveludada. — Você está tenso. Vai me deixar cuidar de você um pouco?

Peeta não discutiu. Deitou-se com um suspiro profundo e logo sentiu o toque quente do óleo essencial deslizar por suas costas. Katniss massageava com firmeza, mas com carinho, sentindo cada músculo rígido começar a ceder sob seus dedos.

Ela explorava as costas dele com calma, em silêncio, enquanto a respiração de Peeta ia desacelerando. O óleo tinha notas de lavanda e sândalo, mas o que a fazia estremecer era o calor do corpo dele sob o toque dela... e o que ele representava.

Antes que pudesse dizer algo, percebeu que Peeta havia adormecido.

Katniss sorriu de leve, sentando-se ao lado dele na cama. Observou os cílios dourados descansando sobre as maçãs do rosto, o contorno da mandíbula relaxado. Havia algo infantil e sereno naquele sono pesado. Ela afastou delicadamente algumas mechas de cabelo da testa dele.

Seu peito apertou.

Seu coração... falhou por um segundo.

Os olhos arderam. Uma ardência que vinha do fundo da alma.

Ela queria fazer aquele homem sangrar. Queria vê-lo ajoelhado diante dela, esmagado sob o peso da humilhação, como ela um dia esteve.

Mas... também queria cuidar de cada ferida. Queria ser o abrigo. A cura.

Droga, pensou, pressionando os lábios para conter a emoção. Estou apaixonada por esse homem.

Katniss deitou-se ao lado dele, enrolada no cobertor e no silêncio. Encostou-se às costas dele, encaixando seu corpo ao dele com delicadeza, como se ele fosse quebrar.

Na escuridão do quarto, em meio ao cheiro de óleo e ao calor de dois corpos, ela percebeu — cada momento que passava ao lado dele era único. Uma lembrança nova. Uma rachadura a mais no seu plano. Um amor que ela nunca imaginou viver.

E o pior?

Ela estava começando a esquecer... que era tudo uma vingança.

O aroma de café fresco e pão levemente tostado invadia o quarto como um convite celestial. Katniss se remexeu entre os lençóis de algodão, o corpo ainda envolto na lingerie verde-esmeralda da noite anterior, cabelos bagunçados e um leve sorriso nos lábios.

A porta se abriu com suavidade.

Peeta entrou equilibrando uma bandeja de madeira com café da manhã digno de hotel cinco estrelas (suco de laranja, panquecas com frutas vermelhas, ovos mexidos, duas canecas com cappuccino e, claro, uma taça de morangos frescos no gelo). O avental cinza que ele usava por cima da boxer preta dava ares de chef sensual matinal.

— Bom dia, Gataniss, deusa da luxúria e do caos organizado — citou ele, com um sorriso torto.

Katniss riu preguiçosamente.

— Está tentando me seduzir com comida?

— Sim. Está funcionando?

— Não precisa se esforçar tanto, Mellark.

Antes que ele pudesse reagir, ela o puxou pela camiseta com um movimento ágil e o fez sentar-se à beira da cama, tomando o cuidado de não derrubar a bandeja. Em seguida, montou sobre ele, as pernas abraçando sua cintura.

— Sexo pela manhã é ótimo pro humor... e pro metabolismo — sussurrou ela, com um brilho safado nos olhos.

Peeta riu, segurando firme na cintura dela.

— Medicina Everdeen? Aprovada com louvor.

O beijo veio quente, faminto, misturado à risada abafada dos dois. O café esfriava, mas eles aqueciam cada centímetro um do outro com toques que variavam entre carinho e pura luxúria. O quarto se encheu de gemidos abafados, lençóis revirados e declarações sussurradas que eles talvez nunca tivessem coragem de dizer em voz alta na luz do dia.

Após o clímax, Katniss ainda ofegante caiu sobre o peito de Peeta, rindo com a testa encostada à dele.

— Você devia ser proibido de ser tão gostoso antes das nove da manhã — brincou ela.

— Estou apenas tentando manter minha namorada bem alimentada... de todas as formas possíveis.

Ela ergueu o olhar com um arquejo fingido de choque.

— Isso foi cafona... e sexy. Droga.

Peeta pegou um morango da bandeja, o mergulhou discretamente no mel e o levou até os lábios dela.

— Abre a boca, amor.

Ela obedeceu, mordiscando metade do morango. No mesmo instante, ele a beijou, capturando o sabor da fruta e o dela, tudo ao mesmo tempo.

— Hmm... morango, mel e Katniss. Café da manhã dos campeões — murmurou ele contra os lábios dela.

Katniss riu, jogando a cabeça para trás.

— Você é ridículo, sabia?

— Totalmente. E agora vem — disse ele, levantando-se com ela no colo e a arrastando para o banheiro. — Temos um dia cheio pela frente. Mas hoje, Everdeen, me sinto revigorado.

— Claro que está — rebateu ela, gargalhando. — Acabei de usar meu protocolo terapêutico exclusivo em você.

Peeta a colocou sob a água morna do chuveiro e beijou sua testa.

— Deus me ajude, Katniss Everdeen... você vai me matar de amor. E de exaustão física.


Atlas Technology – 09h45 da manhã

Sala de Reuniões Leste – 24º andar


O ambiente era composto majoritariamente por homens grisalhos, engravatados até a alma, com olhares fixos em gráficos holográficos projetados no centro da mesa.

Peeta, de terno perfeitamente ajustado, sorriso educado e olhos cansados, fazia malabarismos verbais para manter a paz e convencer o comitê de investidores internacionais de que o novo projeto de expansão para o mercado asiático estava sob controle.

— Senhores, com todo respeito, ajustes em cronogramas são naturais. Estamos falando de inovação e inovação não se encaixa em planilhas quadradas — disse ele, erguendo levemente as sobrancelhas, com aquele charme diplomático de CEO experiente.

Um dos velhotes murmurou algo em alemão — provavelmente um xingamento. Outro, francês, bufou com teatralidade. Peeta manteve a calma. Controle emocional: on.

Já do lado de fora da sala, Katniss andava pelos corredores como se estivesse atravessando um campo minado, equilibrando-se num salto fino demais para uma quarta-feira — especialmente depois de uma noite com pouco sono (e muito sexo). A saia lápis preta de couro, colada ao corpo, insistia em subir mais a cada passo.

— Droga... — resmungou ela, tentando puxar discretamente a barra para baixo sem perder a compostura.

Foi quando Peeta saiu da reunião, soltando um suspiro e afrouxando a gravata. Ao vê-la andando com dificuldade, arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Que isso, Everdeen? Nunca te vi andar de salto como uma recém-nascida de flamingo.

Katniss revirou os olhos.

— Esse negócio de dormir com você no meio da semana sem aviso prévio me faz ter que vir de tanguinha pro trabalho. Minhas calcinhas confortáveis repousam tranquilamente na minha gaveta em casa.

Peeta soltou uma gargalhada baixa e se aproximou, sussurrando ao pé do ouvido:

— Não me provoca, Gataniss... Ou vou ter que arrancá-la de você. E ainda nem estamos no meio do expediente.

— Então contenha seus impulsos, Mellark — rebateu ela, dando-lhe um olhar provocante. — Já basta estar com a saia colando no corpo e sem dignidade circulatória. Não me faça virar manchete nos bastidores da Atlas.

Peeta segurou a risada.

— “Executiva sexy sofre ataque do próprio CEO no elevador executivo.” Sim, daria boas curtidas no LinkedIn.

— Engraçadinho — falou ela, tentando conter o sorriso.

Chegaram ao elevador. Sozinhos. E o silêncio entre eles era cheio de possibilidades.

Peeta encostou-se ao espelho, os braços cruzados, olhando para ela com um sorriso enviesado.

— Se quiser, a gente passa na sua casa no almoço pra buscar uma calcinha confortável. Ou não. Pode ficar sem mesmo...

Katniss se aproximou e apertou levemente o botão de parada de emergência do elevador, apenas para assustá-lo. Uma força do hábito que já virara rotina.

— Mellark...

— Sim?

— Se eu perder o horário da minha reunião por sua causa, vou fazer você apresentar de tanga. Entendido?

Peeta soltou uma gargalhada alta, apertando o botão novamente.

— Gataniss, você é o meu caos favorito.

A tela exibia a prévia do novo software de interface neural, o NeuroBridge, uma proposta conjunta da Atlas com a EverdeenTech, desenhada para conectar estímulos visuais e respostas comportamentais em ambientes de realidade aumentada. A sala estava aromatizada com café, madeira polida e o leve perfume amadeirado de Burdock Everdeen, que revisava os tópicos com atenção.

— Os sensores de retina estão prontos para os testes beta? — perguntou ele, alternando o olhar entre Peeta e Katniss.

— Quase — disse Peeta. — Estamos ajustando os níveis de latência, mas até o final do mês, teremos resultados sólidos.

Katniss tentava se concentrar, mas o tecido fino da calcinha rendada e o elástico pressionando um ponto irritante em sua pele a faziam querer sumir.

Ela cruzou as pernas com certo incômodo e mordeu o lábio para não bufar. Claro que Peeta notou.

Ele se inclinou discretamente para mais perto e sussurrou no ouvido dela, com a voz mais grave do que o necessário:

— Se quiser, posso ajudar a resolver esse problema de vestuário com as mãos, rapidinho, Srta. Everdeen.

Katniss fechou os olhos por um segundo. “Respira”, disse mentalmente.

Burdock os observava com o canto dos olhos, mas preferiu manter-se alheio ao jogo subterrâneo. Estava satisfeito com o avanço do projeto. Ao final da reunião, os três apertaram as mãos e Burdock se despediu com um sorriso paternal para Katniss:

— Te vejo no jantar de sexta, filha.

— Estarei lá — confirmou ela, sorrindo com profissionalismo, mesmo que por dentro estivesse pegando fogo.

A empresa já se acalmava com o final do expediente. As luzes automáticas começavam a reduzir sua intensidade e a equipe da limpeza ainda nem tinha chegado ao andar executivo. O silêncio era cúmplice.

Katniss entrou determinada, os cabelos e desalinhado, os olhos como brasas vivas. Peeta nem teve tempo de dizer qualquer coisa.

— Tranca a porta — ordenou ela, o puxando pela gravata.

Ele obedeceu, já sorrindo.

Katniss então se sentou sobre a mesa com firmeza, as pastas e papéis deslizando para o chão. Ela abriu lentamente as pernas, com alguma dificuldade por causa da saia apertada e olhou para ele com um brilho selvagem.

— Vamos lá, Mellark. Arranque isso de mim.

Peeta puxou a gravata para trás do pescoço, jogou o paletó no sofá e se aproximou com o peito subindo e descendo em pura excitação.

— Você não sabe o quanto eu esperei por esse momento hoje — disse ele, segurando a cintura dela e colando o corpo ao dela.

Os beijos eram famintos, as mãos urgentes e os suspiros abafados contra a pele exposta.

Katniss gemeu alto — alto demais.

— Shhh... — murmurou Peeta contra seu pescoço, ofegante. — O pessoal da limpeza vai te escutar...

Ela sorriu maliciosa, puxando o cabelo dele com força.

— Que escutem. Que saibam que o CEO da Atlas não resiste à diretora de marketing.

— Presunçosa. — Ele riu baixo. — Minha Gataniss insuportável.

— E sua favorita.

E então não houve mais palavras. Apenas os sons abafados do desejo, a mesa rangendo levemente e a promessa silenciosa de que, entre os dois, nenhuma reunião era mais importante do que a próxima vez.


✦✦✦


Brooklyn Heights – Restaurante La Cueva


Johanna Mason e Delly Cartwright haviam acabado de voltar de Paris. Bronzeadas, felizes, ainda com aquele brilho de recém-casadas. Katniss e Peeta as encontraram no restaurante mexicano favorito das duas — o mesmo onde costumavam fazer noites de “tacos & tequila” antes da correria de casamento.

— Ai, gente... — disse Delly, rindo enquanto lambia o sal da mão antes de virar mais um shot de tequila. — Paris foi um sonho. Jantar sob a Torre Eiffel, o Louvre só pra nós duas, a suíte no Le Meurice... eu ainda acho que vou acordar.

— E eu ainda acho que vamos ser presas por fazer aquilo na sacada do hotel — completou Johanna, dando um tapa na perna de Delly. — Mas, se for pra ser condenada, que seja por um orgasmo no décimo andar com vista pro Sena!

Todos caíram na risada, menos Peeta, que ergueu o copo de cerveja e disse, num tom teatral:

— Enquanto vocês estavam vivendo um filme francês, eu estava num thriller empresarial. Johanna, você me deixou com uma pilha de acionistas, contratos, e um cara do setor jurídico soltando fogo pela boca. A única recompensa? — Ele olhou para Katniss com ternura. — Essa mulher maravilhosa, que basicamente me manteve de pé e salvou a Atlas de um colapso emocional.

— Ah, então Katniss virou sua heroína de salto alto? — Johanna cutucou, sorrindo.

— De salto e... outras coisas mais perigosas — brincou Peeta, piscando para Katniss, que apenas levantou o shot com um sorriso cúmplice.

Mais tarde... já em sua casa, Katniss retirou os sapatos e se acomodou na cadeira acolchoada frente sua penteadeira, tirando do fundo da gaveta um envelope de papel especial da pasta de couro. Ela ajeitou os cabelos, prendeu-os de maneira elegante e se debruçou sobre a mesa. A luz quente refletia nos detalhes dourados do convite.

Diante dela, uma pequena pilha de envelopes nobres, com forro interno em tons de marfim, acompanhava a caligrafia impecável que Katniss desenhava com uma caneta-tinteiro preta com ponta fina em forma de pena.

Ela sorriu levemente. A máscara começava a se ajustar com perfeição.

Um a um, ela escreveu com elegância e precisão:

— Jacqueline Fox Delancy

— Clove Fuhrman

— Glimmer Smith

— Marvel Quaid

— Thresh Davis

Cada nome um capítulo de sua dor. Cada envelope, um prenúncio do ajuste de contas.

Ao lado, repousava o convite principal:




Baile de Máscaras Beneficente

Atlas Technology

Junte-se a nós para uma noite inesquecível.

Código de vestimenta: Black Tie com máscara.

Doações serão aceitas no local.

Atlas Technology – Inovando para um futuro melhor.


📍The Whitestone Conservatory,

1880 Spyten Duyvil Parkway

Riverdale, NY 10471

🕗 2 de setembro de 2024

🕗às 20:00


RSVP: [https://www.atlastechnologygala.com]



O local escolhido, um salão histórico “The Whitestone Conservatory”, ao norte de Manhattan, luxuoso, discreto, perfeito para esconder escândalos por trás de máscaras.

Ninguém suspeitava de nada. Nenhum dos convidados imaginava que o baile beneficente seria, na verdade, o palco de revelações que manchariam nomes, alianças e reputações.

Katniss fechou os envelopes e selou cada um com cera preta e o brasão da Atlas Technology. Quando terminou, encostou-se na cadeira e sussurrou para si...

— Que comece o jogo.


✦✦✦


A manhã na sede da Atlas Technology estava surpreendentemente calma. Do alto do 24º andar, Katniss observava a cidade por trás das amplas janelas envidraçadas da sala de reuniões. O sol espalhava uma luz suave sobre Manhattan, dourando os arranha-céus como se abençoasse silenciosamente tudo o que estava por vir.

A sala ainda estava vazia, mas ela já posicionava os dossiês sobre a mesa de vidro. O projeto das bolsas para escolas públicas tinha avançado mais rápido do que ela imaginava e aquela reunião com os diretores de instituições parceiras seria decisiva.

— Trouxe os gráficos, chefe — disse Stuart Campbell, adentrando com passos ansiosos, equilibrando o notebook em uma mão e um copo de café na outra.

Katniss sorriu ao ver o estagiário — cabelo castanho escuro desalinhado, olhos verdes brilhando com empolgação, e a covinha que aparecia sempre que ele se achava mais atrapalhado do que realmente era. Parecia que tinha fugido da escola de tão jovem, mesmo em seus vinte e um anos.

— Você já não precisa mais me chamar de “chefe”, Stuart. Estamos no mesmo time — brincou ela.

— É força do hábito, mas tudo bem, Katniss — respondeu ele, tentando parecer natural, mas quase derrubando o café ao se sentar.

Ela riu, e com um gesto de cabeça indicou que ele relaxasse.

— Olha, você fez um trabalho incrível nos cruzamentos de dados com a equipe de TI. Acho que posso confiar a você uma missão.

— Missão? — Ele quase se engasgou com o café.

— Sim. Você vai no baile beneficente.

— O baile beneficente? Aquele com dress code formal e presença da elite de Manhattan? O que vai ter a cobertura da Vanity Fair?

— Esse mesmo — confirmou Katniss, divertida com a expressão alarmada do rapaz. — Você faz parte desse projeto tanto quanto qualquer executivo da Atlas. E eu quero todos que fizeram parte disso presentes. Inclusive você.

Stuart ficou em silêncio por um segundo, os olhos arregalados.

— Mas... eu não tenho uma máscara.

— Então trate de arrumar uma. E um smoking decente. — Ela piscou. — E tente não tropeçar no tapete vermelho, por favor.

— Ok, missão aceita — disse ele, empolgadíssimo, e com a covinha bem marcada. — Só me promete que você vai me salvar se eu for cercado por investidores famintos.

Katniss riu e deu um tapinha de leve no ombro dele.

— Se alguém te cercar, manda procurar a diretora de marketing. Estarei de salto e armada com ironia.

Stuart a olhou com admiração sincera.

— Você é mesmo muito diferente do que eu imaginava.

— É bom ou ruim?

— É ótimo. Dá até vontade de... sei lá... virar CEO um dia.

— Primeiro tenta não derramar o café no tapete da sala do CEO. Depois a gente fala sobre dominar o mundo.

Ambos riram e a reunião começou a encher com outros membros da equipe. Mas Katniss, por um breve instante, sentiu uma pontada de orgulho. O projeto beneficente era mais que uma jogada de marketing. Era um legado.

E mal sabiam todos que, por trás daquele baile prestes a acontecer... uma verdade explosiva estava por vir.

Mais tarde, quando o sol tingia os prédios de Manhattan com tons dourados e alaranjados, espalhando sombras longas sobre a cobertura envidraçada da Atlas, Katniss ajeitava alguns papéis na sua bolsa quando sentiu os braços de Peeta envolverem sua cintura por trás. Ele a beijou no pescoço com carinho e sussurrou:

— Que tal fazermos algo só nosso hoje? Um jantar? Cinema? Um passeio no Pier?

Ela riu baixinho, virando o rosto para encará-lo.

— Na verdade... sou eu quem tem um convite pra te fazer.

Peeta arqueou a sobrancelha, interessado.

— Estou ouvindo.

— Preciso ir a um lugar — disse ela, com os olhos fixos nos dele. — Mas não quero ir sozinha. E não é um restaurante, nem um lugar luxuoso. É simples... Mas importante pra mim.

Ele assentiu de imediato, sem sequer pedir mais explicações.

— Se for importante pra você, então eu quero estar lá.

Katniss sorriu com doçura. Pegou a bolsa, as chaves e caminhou com ele até o elevador.

Minutos depois, o carro deslizava pelas avenidas com suavidade. O rádio ligado em volume baixo tocava uma versão instrumental de “Fly Me to the Moon”, e o silêncio entre os dois era confortável.

Peeta a observava dirigir com tranquilidade, o rosto iluminado pelos últimos raios de sol.

— Não vai me dizer pra onde estamos indo? — perguntou com um meio sorriso.

— Vai entender quando chegarmos — respondeu ela, concentrada. — Mas... promete não julgar?

— Katniss — falou ele, com ternura —, eu te amo. Julgar é a última coisa que me passa pela cabeça.

Ela apenas assentiu. O carro virou na 9ª Avenida, e Katniss estacionou discretamente ao lado da Church of the Holy Apostles. Ela desligou o motor e saltou do carro em silêncio, caminhando até o porta-malas com passos decididos.

Peeta a seguiu, curioso — e intrigado.

Quando ela abriu a tampa, ele ficou surpreso ao ver diversas caixas empilhadas com cuidado: alimentos enlatados, produtos de higiene, cobertores e roupas dobradas.

— Uau — murmurou ele. — Você preparou tudo isso?

— Eu e meus pais. A gente faz isso há anos — respondeu Katniss, já erguendo uma das caixas. — Antes do inverno, sempre trazemos mantimentos pra cá. Essa igreja tem um trabalho importante com a comunidade de rua. E... sei lá, isso sempre me manteve conectada ao que realmente importa.

Peeta ficou em silêncio por um instante, observando-a. Não com admiração silenciosa — mas com um respeito genuíno. E talvez até um leve sentimento de vergonha por não conhecer aquele lado dela mais cedo.

Ele estendeu os braços e pegou outra caixa.

— Vamos?

Katniss sorriu com gratidão. E juntos, caminharam em direção à entrada lateral da igreja onde, uma senhora negra, de rosto enrugado e olhos calorosos, os aguardava com um sorriso gentil. Usava um avental surrado e estava com as mãos apoiadas nos quadris.

— Katniss Everdeen! — exclamou ela. — Olha só quem apareceu com o fim do verão. Quase achei que você tinha nos esquecido, menina.

Katniss se aproximou e a abraçou com carinho genuíno.

— Nunca esqueceria, dona Greasy Sae. Só precisei de um tempo pra reorganizar a vida.

— E trouxe reforço? — A senhora perguntou, lançando um olhar curioso a Peeta.

— Esse é o Peeta — disse Katniss, apresentando com um gesto. — Ele quis vir comigo hoje.

— Hmmm... bonito e silencioso — comentou Sae com uma piscadela divertida. — Presta atenção, moço. Essa aqui tem o coração mais valente que já vi.

Peeta sorriu, levemente desconcertado, mas encantado com a forma como Katniss se movia ali — com naturalidade, empatia, pertencimento.

— E como está sua neta? — Quis saber Katniss, pegando outra caixa.

O semblante de Greasy Sae suavizou com ternura.

— A Bonnie? Tá bem, graças a Deus. Não desgruda daquela boneca Susi que você deu no último natal. Tá crescendo rápido demais, igual mato depois da chuva. Vai começar o segundo ano agora. Ainda sonha em ser bailarina, acredita?

Katniss sorriu.

— Acredito sim. E quando isso acontecer, vamos estar na primeira fila, não é, Peeta?

Ele assentiu, tocado pela cena.

— Com certeza.

Sae segurou as mãos de Katniss por um instante.

— E seus pais? Asterid e Burdock ainda prometem vir me visitar, ou era só conversa de gente fina?

— Eles virão. Em breve. Minha mãe separou uns suéteres de lã lindos para trazer.

— Vou cobrar, hein — disse Sae, guiando os dois até o salão para que deixassem as caixas.

Enquanto descarregavam tudo, Peeta ficava mais impressionado. A Katniss que ele amava estava ali diante dele — forte, discreta, generosa. Não aquela que aparecia nas salas de reuniões da Atlas com salto alto e expressão calculada — mas a mulher real.

Na volta para o carro, com as mãos ainda cheirando a sabão e farinha de sopa, Katniss olhou para ele.

— Agora entende por que eu nunca contei a ninguém? Sobre esse lugar?

— Entendo — respondeu ele. — Porque isso aqui... é o que há de mais verdadeiro em você.

Katniss desviou o olhar, como se não estivesse pronta para escutar elogios. Mas Peeta se aproximou e segurou seu rosto com delicadeza.

— E é por isso que eu me apaixono por você todos os dias. Mesmo quando não sei de tudo... sinto tudo.

Katniss sorriu. Não respondeu. Só deixou que ele entrelaçasse os dedos aos dela enquanto o céu começava a escurecer.

O céu já estava bordado de estrelas quando Katniss e Peeta deixaram a Church of the Holy Apostles. As luzes da cidade começavam a piscar com mais intensidade, como se compensassem o escuro que tomava o horizonte. Katniss dirigia com mais leveza agora, como se parte do peso silencioso que carregava tivesse ficado ali, entre caixas, sopa quente e um abraço da dona Greasy Sae.

No carro, os dois seguiam em silêncio. Um silêncio bom.

Peeta a observava pelo canto dos olhos, fascinado com aquele lado dela — o lado da garota que não precisava de saltos altos, o lado que simplesmente ajudava sem esperar aplausos.

— Você está calado demais — comentou Katniss, com um sorriso de canto.

— É que... você me desarma, Everdeen.

Ela desviou rapidamente o olhar da estrada para ele.

— Isso é ruim?

— Pelo contrário. Você me mostra o que realmente importa.

Katniss sentiu um nó se formar em sua garganta. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras sumiam antes de nascerem. Estacionou o carro na frente da cobertura dele e desligou o motor.

Peeta não se mexeu.

— Fica comigo hoje — pediu ele, num sussurro quase implorativo.

— Só se você preparar aquele seu chocolate quente que parece feitiço — brincou ela, tentando aliviar a carga do momento.

Ele sorriu, com aquele sorriso bobo que ela tanto gostava. Subiram juntos.

Na cobertura, Peeta cumpriu a promessa. Enquanto ela tomava banho rápido, ele preparava o chocolate quente com raspas de noz-moscada e chantilly. Colocou tudo em canecas de cerâmica no centro da sala, e quando Katniss voltou — vestindo uma de suas camisetas largas e os cabelos soltos, ainda úmidos — ele sentiu o coração desacelerar num misto de paz e desejo.

Sentaram-se lado a lado no sofá. As pernas entrelaçadas, a TV ligada num filme qualquer da Netflix só para fazer companhia.

— Peeta?

— Hm?

— Obrigada por hoje.

Ele encostou a testa na dela, fechando os olhos.

— Obrigado você... por me deixar ver isso. Por me mostrar onde você guarda o coração.

Ela queria dizer “esse coração já é seu”, mas apenas se encostou no ombro dele, e eles ficaram ali, no sofá, com os sons do mundo abafados e o calor da caneca entre as mãos.

Alguns minutos depois, Peeta dormiu com a cabeça no colo dela. A respiração lenta e o semblante relaxado.

Katniss passou os dedos suavemente pelos fios dourados de seu cabelo, encarando o teto sem ver. Parte de si gritava que aquele homem era tudo. Que aquele era o tipo de vida que ela sonhara em silêncio durante anos.

Mas a outra parte, àquela adolescente ferida, a que tinha sede de justiça, ardia como brasa em seu peito.

Ela beijou a testa dele e sussurrou:

— Só mais alguns dias... e depois disso, ou você me odeia... ou me entende.

Do sofá, o celular dela vibrou silenciosamente. Era uma mensagem de Gale.

[20:47] Hawk – Tudo certo com a câmera. A sala VIP vai ser o palco. E vai estar tudo gravando às 21h.

Katniss apagou a tela.

E olhou mais uma vez para Peeta, ainda adormecido, sereno.

Como ela queria que tudo pudesse ser diferente.

Mas era tarde demais para voltar atrás.