Doce Vingança
12 Florescer
Notas iniciais

Bloomingdale’s – Tarde de sábado
— Você não pode estar falando sério… — Katniss arqueou uma sobrancelha, segurando um garfo dourado nas mãos. — Um conjunto de talheres de três mil dólares?
— É o mínimo que Johanna merece — disse Peeta, com aquele sorrisinho presunçoso. — Afinal, ela sobreviveu a mim no MIT, lidera a Atlas e ainda vai casar com uma atriz incrível. A coroa vem com estresse incluso.
— E você quer dar a ela uma bandeja de prata que custa o mesmo que uma entrada para o Coachella em primeira classe?
— Exatamente! — Peeta piscou. — Com direito a trilha sonora da Beyoncé.
Katniss revirou os olhos, tentando não rir. Estavam no andar de casa da Bloomingdale’s, com um scanner na mão e uma funcionária deslumbrada os seguindo como se fossem uma celebridade do E! News. Eles já tinham discutido sobre pratos de porcelana, velas com aroma de verbena tailandesa e uma adega portátil que Katniss jurava ser uma torradeira de luxo.
— Ótimo, já temos os talheres de ouro e os copos de cristal — disse Katniss, lendo a lista. — Agora falta só… tudo o resto.
Peeta pegou o scanner e começou a apontar como se fosse um revólver em uma guerra de presentes.
— Isso aqui! Um decantador de vinho em formato de cisne. Scaneado. Isso aqui! Um conjunto de travesseiros com tecnologia sueca. Scaneado. E ISSO AQUI! — apontou ele com entusiasmo para um abajur de mármore branco com cúpula dourada. — O santuário do bom gosto. Scaneadíssimo.
— Peeta! Eles vão achar que a gente está querendo redecorar a cobertura!
— E quem disse que essa lista é só pra elas? — sussurrou ele, no ouvido de Katniss. — A gente pode fazer uma dessas depois… quando for nossa vez…
Ela arqueou a sobrancelha, com um sorriso cínico.
— Cuidado, Mellark. Estou hormonal, apaixonada e à beira de uma crise existencial. Vai que eu aceito.
Eles riram juntos.
— Tá, sua vez — disse Peeta, entregando o scanner pra Katniss. — Mas nada de coisas sem graça. Nada de toalhas bege, ou sabonetes que cheiram a floresta úmida da Escandinávia.
Katniss andou até uma prateleira e, com a maior seriedade do mundo, apontou para um jogo de sousplats com estampa de flamingos de óculos escuros.
— Isso aqui. É essencial.
— Katniss...
— Flamingos, Peeta. De óculos. Você acha mesmo que Delly vai resistir?
— Se ela não te escolher pra ser madrinha duas vezes, depois dessa, é loucura.
Eles estavam rindo tanto que a funcionária ao lado deles — de salto, blazer e com um sorriso travado há vinte minutos — soltou um suspiro quase sonoro.
— Vocês querem ajuda para escolher a porcelana importada? — perguntou com a paciência de quem já viu muito casal indeciso na vida.
Katniss e Peeta se entreolharam, tentando manter a compostura, mas o riso explodiu outra vez. Peeta passou o braço por cima dos ombros dela, ainda rindo.
— Senhorita, essa lista vai demorar. Pode trazer dois expressos e talvez um bom advogado. A gente vai se apaixonar de novo no corredor das louças.
Katniss o beijou no queixo e completou:
— E se sobrar tempo… um scanner novo. Acho que esse aqui vai quebrar de tanto amor.
Depois de uma tarde escandalosamente divertida na seção de casa e decoração, Katniss recebeu uma mensagem no celular. Era Delly.
[18:15] D — Kaaaat, me faz um favorzão? Já que você está aí... escolhe umas lingeries pra minha lua de mel. Quero algo bem ousado. Ah! E uma fantasia. Pode abusar. Confio em você, madrinha! 😈🔥
Katniss mordeu o lábio e riu.
— O que foi? — perguntou Peeta, tomando um gole do frappuccino que havia comprado no andar inferior.
— Delly me deu uma missão de honra — disse Katniss, levantando o celular para ele ver. — Lingeries. Ousadas. E uma fantasia.
— Hmm… Missão nobre, ousada e altamente perigosa. Você vai precisar de reforços.
— Ou só de um acompanhante com bom gosto.
— Sou seu homem.
Andar de Moda Íntima
Na loja mais exclusiva do setor de lingerie do shopping, Katniss estava em seu elemento. Tecidos finos, rendas francesas, sedas com brilhos sutis — tudo ultra sensual e ultracaro. Peeta, por sua vez, parecia um adolescente em excursão proibida.
— Esse é só pra Delly, tá? — disse Katniss, desfilando do provador com um conjunto vinho com transparência estratégica.
Peeta ficou paralisado com o copo de frappuccino a meio caminho da boca.
— O… quê? Como é mesmo? É pra quem?
Katniss deu uma voltinha provocante, rindo.
— Delly. Lua de mel. Lembra?
— Isso é tortura. Você tem noção disso? Não dá pra desfilar desse jeito e depois me dizer que é “pra outra pessoa”. Inaceitável.
No provador seguinte, Katniss surgiu com um conjunto preto rendado com recortes ousados e tiras finíssimas.
— Tá sexy, mas elegante, né?
Peeta soltou um grunhido quase primitivo.
— Isso aí não é elegante, Katniss. Isso é uma arma de destruição em massa. Não tem defesa contra isso. Aliás, me dá dois minutos e eu faço um Pix pra essa loja com o meu CPF inteiro.
Katniss gargalhou e pegou outra peça.
— Relaxa, esse não é pra Delly. Esse é pra você.
— Desfila mais uma vez — sussurrou ele, completamente hipnotizado. — Só mais uma. E depois eu quero esse no meu sofá, no meu tapete, na minha cama, na minha vida.
Na terceira troca, ela saiu com uma fantasia de gata: um macacão de couro preto de manga longa com zíper, meias arrastão, cinta-liga, botas longas de salto fino e as orelhas pretas no topo da cabeça.
— Ah não… — Peeta levou a mão ao peito, encenando um infarto. — Isso é um ataque pessoal. Um ataque direto ao meu autocontrole.
— Então, aprova? — perguntou Katniss, com um sorriso felino.
— Aprovar? — Ele riu, incrédulo. — Eu te dou bônus vitalício, aumento, plano de carreira e até uma baunilha do Dunkin’ Donuts… se você me prometer usar isso hoje à noite.
— Vou levar essa então. — Piscou ela, divertida. — E mais umas pra Delly. Mas essa… essa é sua.
Peeta se aproximou, os olhos brilhando em adoração e beijou o ombro dela.
— Definitivamente o melhor investimento da minha vida.
Katniss arqueou uma sobrancelha, provocante.
— Espere até ver o retorno.
Ele deu uma risada baixa, colando os lábios ao ouvido dela.
— Retorno? Gataniss, você acabou de me transformar em seu sócio vitalício
✦✦✦
O jantar tinha sido leve — massa, vinho e risadas sobre as trapalhadas no shopping. Peeta ainda não conseguia tirar da cabeça o último conjunto que Katniss experimentou. Mas nada o prepararia para o que viria depois.
Quando Katniss saiu do banheiro da suíte, a luz baixa refletia suavemente sobre sua pele. Ela usava o macacão preto justo de couro, com zíper, meias arrastão, cinta-liga, botas de salto e as orelhas de gata que ela havia comprado.
Peeta, que estava deitado na cama lendo um relatório no tablet, ergueu os olhos. Sua expressão mudou instantaneamente. O mundo pareceu desacelerar.
Katniss soltou o cabelo com um movimento lento, como quem sabe o poder que tem nas mãos. O zíper do macacão estava aberto até a metade, revelando a pele nua por baixo.
— Você se lembra do que me prometeu naquela loja? — perguntou ela, um sorrisinho felino brincando nos lábios.
— Eu me lembro de ter oferecido casa, comida, roupa lavada e um contrato vitalício — brincou ele, já largando o tablet.
— Pois bem. Estou pronta pra renegociar… — disse ela, puxando o zíper com a lentidão de uma feiticeira.
Peeta sentou-se na beira da cama, os olhos devorando cada centímetro dela.
— Você vai acabar comigo, Gataniss.
— Essa é a ideia, Mellark.
Ela caminhou até ele como uma caçadora, lenta e calculada, sentando-se em seu colo com firmeza. O couro do macacão estalou levemente com o movimento. Katniss levou os lábios até a orelha dele, e então, em um gesto felino, passou a língua devagar pela borda da orelha, até mordiscar a ponta, como se fosse a Mulher-Gato em carne e osso.
Peeta soltou um gemido rouco e prendeu a respiração.
— Gataniss... — disse, mordendo o lábio. — Acho que acabei de encontrar minha nova religião.
Katniss riu, empurrando-o de leve para trás até ele cair deitado na cama.
— Religião? Sério?
— Claro! — Peeta abriu os braços, dramático. — Quem precisa de missa no domingo quando pode ter a deusa Gataniss no sábado à noite?
Ela revirou os olhos, mas não conteve o sorriso.
— Você é um caso perdido.
— Perdido e feliz. — Ele puxou-a para o colo, segurando firme pela cintura. — Olha só esse uniforme… totalmente proibido para ambientes de trabalho.
— Ainda bem que não estamos no escritório, Sr. Mellark — falou ela, aproximando o rosto ao dele.
— Sorte minha — sussurrou ele, no ouvido dela, com um sorriso malicioso. — Porque se dependesse de mim, o dress code oficial da Atlas seria: "colarinho branco para mim… e couro preto para você."
Katniss riu alto, apertando o rosto dele entre as mãos.
— Você é impossível.
— Impossível? — Peeta beijou sua boca com fome. — Só se for resistir à Gataniss.
Ela puxou o zíper lentamente, deixando o silêncio cheio de expectativa.
— Então, vamos ver se você tem mesmo esse autocontrole todo que anda prometendo…
— Controle? — Peeta riu contra os lábios dela. — Eu já assinei a falência dele desde que você entrou por aquela porta. Tem noção do quanto você é linda?
Katniss o beijou devagar, intensamente, arrastando o momento como se quisesse que ele durasse para sempre.
— Hoje à noite é sua, Peeta.
— Não, amor — sussurrou ele, colando a boca no pescoço dela. — A noite é nossa.
E ali, entre lençóis amarrotados e respirações entrecortadas, Katniss e Peeta viveram mais um capítulo intenso de uma história que, mesmo entre tramas de vingança e paixão, era antes de tudo — sobre amor.
Katniss estava deitada sobre o peito de Peeta, as orelhinhas de gata ainda presas ao cabelo, os dedos passeando distraidamente pelas linhas da tatuagem no pulso dele. O quarto cheirava a vinho tinto, velas apagadas misturado ao calor da pele. A fantasia estava largada no chão como uma bandeira de vitória.
— Acho que essa foi a melhor negociação da história — disse Peeta com a voz grave, traçando círculos nas costas dela com os dedos.
— Eu diria que foi um contrato de impacto imediato — Katniss riu, se aninhando ainda mais.
Mas o clima foi interrompido por um plim do celular de Katniss. A tela acendeu na mesinha de cabeceira.
— Ignora — murmurou Peeta, beijando o topo da cabeça dela.
— Pode ser importante... — disse ela, esticando o braço e pegando o celular. Uma mensagem de Delly piscava com entusiasmo no grupo “Casamento Luxo & Lingerie”.
[21:37] DELLOUCA💍:
“Status da missão sedução: SUCESSO? Já teve desfile, dança, queda de queixo, combustão espontânea? Manda um sinal de vida, Kat! 🔥💋👙”
Katniss não conteve a gargalhada e mostrou a mensagem pra Peeta.
— Ela está de plantão — comentou ele, rindo. — Ela quer relatório detalhado?
— Se eu mandar até a cor da lingerie ela imprime e faz um dossiê.
— Manda só isso, ó... — Peeta pegou o celular dela e digitou rapidinho.
[21:39] KATNISS (por Peeta):
“Operação Gataniss concluída com sucesso. Risco de desmaio, falência múltipla do autocontrole e perda total de fôlego. Recomenda-se ventilador ligado. 😵🔥✅”
[21:40] DELLOUCA💍:
“EU SABIAAAA!! Johanna tá aqui do lado dizendo que o Peeta merece um troféu por aguentar você provocando tanto sem infartar. PS: tragam detalhes amanhã.”
Katniss respondeu apenas com emojis — 👀💃🖤 — e jogou o celular de volta na mesinha.
— Você acabou de virar assunto oficial do grupo da noiva, parabéns — disse ela, voltando a deitar-se no peito de Peeta.
— Ah, ótimo. Johanna vai me zoar por um mês.
— Ou por uma vida inteira. Mas ei… — ela subiu um pouco e colou os lábios nos dele. — Pelo menos você se divertiu.
— Ainda estou me divertindo, Gataniss — murmurou ele, puxando-a de volta para um beijo lento e preguiçoso.
E assim a noite seguiu: com risos, provocações e um amor cada vez mais difícil de esconder — até mesmo deles mesmos.
✦Domingo de sol – Brunch no terraço de Johanna e Delly | Manhattan✦
Katniss chegou usando um vestido floral leve, óculos escuros e um leve rubor nas bochechas. Delly já estava sentada à mesa, toda plena em um conjunto branco de linho, esbanjando carisma. Johanna estava de pernas cruzadas, de óculos escuros estilo retrô e uma taça de mimosa na mão.
— Olha quem chegou com o brilho pós-apocalipse hormonal — comentou Johanna, erguendo a taça. — Está com cara de quem teve uma noite inteira de glúteo trabalhando.
— Johanna! — Delly quase cuspiu a mimosa. — Deixa ela entrar pelo menos! Meu Deus...
Katniss riu, tirando os óculos.
— Se eu soubesse que vinha prestar contas pro comitê da ONU do sexo, teria vindo preparada com gráficos.
— Infográficos, por favor — Johanna rebateu. — Eu quero tempo médio de duração, trilha sonora, fantasia, cor da lingerie e o momento exato em que o Peeta ficou desorientado. Aposto que foi quando você fez aquela pose nova que aprendeu no Pilates.
Delly abanou o rosto rindo.
— Eu perguntei sobre detalhes, não um dossiê confidencial da CIA.
Katniss sentou-se e pegou a taça que Delly havia preparado para ela.
— Bom, posso confirmar que a missão “Sedução – Lingerie edição” foi concluída com sucesso absoluto. Temos um homem completamente viciado, apaixonado e, segundo ele, mentalmente devastado depois de ontem.
— Eu te avisei que aquela fantasia de Mulher-Gato era quase criminosa — Delly piscou.
Katniss arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Fiz jus ao título que ele me apelidou, Gataniss. Disse que foi o colapso final do autocontrole.
Johanna gargalhou tão alto que quase derrubou a mimosa.
— Gataniss?! Essa eu vou tatuar no braço. O CEO caiu feito um estagiário numa Comic Con. E o desfile na loja? — Johanna continuou, já se servindo de frutas. — O Peeta parecia um adolescente em choque hormonal? Ou estava mais pra um CEO domado por renda e salto agulha?
Katniss deu uma risadinha cúmplice.
— Ele pediu pra eu levar um dos conjuntos “pra uso exclusivo em casa”. Acho que isso responde.
— Estou genuinamente feliz por vocês — Delly sorriu, segurando a mão de Katniss. — E também muito grata por ter você comigo nessa fase, amiga. A melhor madrinha do mundo.
Katniss retribuiu o sorriso.
— Você merece o melhor, Delly. De verdade.
— Falando nisso... — Johanna ergueu uma sobrancelha. — Você e o Mellark vão nos dar o prazer de um anúncio em breve? Alguma novidade, anel, aliança, herdeiro secreto?
— Calma, Jo — Katniss revirou os olhos. — Um desastre por vez.
— Desastre delicioso, diga-se de passagem — murmurou Johanna, brindando sozinha.
Elas caíram na risada.
O brunch seguiu com leveza, piadas internas, provocações e afeto. Entre confidências e taças tilintando, Katniss não pôde deixar de notar que, mesmo em meio às ironias, ali havia uma rede de apoio que ela nunca esperava encontrar. E isso — essa amizade intensa, verdadeira e barulhenta — era mais precioso do que podia imaginar.
✦✦✦
Contagem Regressiva para o “Sim” 12 de agosto — Faltam 5 dias para o casamento
O clima era de euforia na cobertura de Delly e Johanna. Caixas de arranjos florais chegavam a cada hora, a equipe de cerimonialistas ajustava protocolos e os correios quase declararam a cobertura zona de risco pela quantidade de caixas de entrega. Entre vestidos, listas e taças de champanhe, o cenário era um caos organizado — e deliciosamente animado.
Katniss, Delly e Johanna estavam sentadas em frente ao closet, fazendo ajustes de última hora.
— Esse decote aqui vai deixar metade dos convidados em dúvida se a noiva é você ou eu — disse Johanna, provando seu smoking perolado feito sob medida, com ombreiras elegantes e abotoamento duplo em madrepérola.
— Você vai ofuscar metade da plateia, e eu estou bem com isso — acentuou Delly, suspirando ao ver Johanna no espelho. — Sério. Você parece um editorial da Vogue versão “case comigo agora”.
— E você parece uma estrela da Broadway — comentou Katniss com carinho, segurando o vestido de noiva de Delly: clássico estilo sereia, ajustado ao corpo e abrindo levemente a partir dos joelhos. O tecido era liso, minimalista, transmitindo sofisticação. Decote arredondado, com pequenas mangas delicadas em renda ou aplicações discretas. Perfeito para ela.
Na sala de estar, Peeta chegou trazendo uma bandeja com cafés gelados e mini croissants — um gesto carinhoso após ser convocado “para ajudar com opiniões masculinas e colocar fitas nas lembrancinhas”.
— Esse é o lugar mais perfumado que já pisei — comentou ele, olhando o trio de mulheres cercadas de tecidos, sapatos e cartões de agradecimento.
— Bem-vindo ao caos — anunciou Katniss, pegando seu café.
Johanna girou com o smoking e deu uma piscada para Peeta.
— E aí, Mellark, aprova minha alfaiataria estilo James Bond noiva edition?
— Você vai ser a noiva mais desafiadoramente estilosa da história.
Delly se levantou, deu um giro no próprio vestido e se encostou ao noivo da amiga, sorrindo.
— Eu ainda não acredito que isso está acontecendo...
Foi então que Johanna, emocionada (ou fingindo), disse com a voz mais debochadamente séria possível...
— E pensar que se não fosse por essa criatura aqui — apontou para Katniss. — A senhorita Cartwright e eu estaríamos solteiras até hoje. Ou pior, em relacionamentos hétero.
Peeta franziu a testa, curioso.
— Como assim? O que a Katniss fez?
Delly riu alto e se jogou no sofá.
— Ai meu Deus, você não sabe dessa história? Vou contar.
Katniss levou a mão ao rosto.
— Lá vem...
Delly continuou:
— Uma noite qualquer de sexta-feira, eu e Kat estávamos naquele karaokê bar no Lower East Side. Ela tinha acabado de cantar uma versão bêbada de “You Oughta Know”, da Alanis Morissette...
— Eu estava bêbada — justificou Katniss, rindo.
— E no balcão do bar, estava Johanna, sozinha, linda, com cara de quem arrancava fígado de homens no jantar.
— Eu estava tomando um bourbon em paz — completou Johanna. — Até que chega a Everdeen, estilo espiã sexy, com um drink na mão e diz: “Aquela loirinha pediu pra eu te entregar isso”. E some.
— E adivinha quem era a loirinha? — Delly riu. — Moi.
— Quando percebi, a tal loira estava me encarando de longe, e foi irresistível. Me aproximei. Disse “oi”. E foi isso. Jantar, vinho, beijo... semanas depois estávamos apaixonadas.
— Cupido Everdeen — falou Peeta, encarando Katniss com um sorriso orgulhoso. — Quem diria.
Katniss riu, mas por dentro seu estômago se contorceu.
Sim, ela foi o cupido. Mas havia uma segunda intenção. Naquela época, sua aproximação com Johanna era parte do jogo. Uma maneira de se infiltrar no mundo de Peeta, de se vingar. Só que... agora? Agora tudo era diferente.
— Eu só queria que a Delly fosse feliz. — Katniss deu de ombros, olhando para as duas com sinceridade. — E deu certo.
Delly a abraçou por trás.
— Você não só me deu uma madrinha maravilhosa. Me deu a mulher da minha vida.
Peeta observava em silêncio. Aquilo aquecia seu coração, mesmo que parte da história ficasse submersa.
Enquanto Johanna ria de algo escandaloso que disse sobre a primeira noite com Delly, Katniss se afastou um pouco, olhando o vestido da noiva, o smoking da outra e Peeta ajudando a montar os envelopes de convite de última hora.
Uma festa estava por vir. Mas algo dentro dela começava a estremecer.
Afinal, se o amor era capaz de unir dois mundos diferentes...
Seria ele capaz de redimir até mesmo uma vingança?
✦Manhattan Athletic Club, 10h42✦
A academia já se encontrava cheia. O som rítmico das passadas nas esteiras, o baque dos pesos caindo e as músicas pulsando nos fones criavam a trilha sonora fitness de Katniss e Peeta.
Ela corria na esteira com fones no ouvido, usando um conjunto justo vinho de top e legging com detalhes transparentes nas laterais. O cabelo preso num rabo de cavalo alto balançava com o ritmo e, de vez em quando, ela mordia o lábio, concentrada no visor.
Peeta estava no canto de musculação, levantando peso, mas não tirava os olhos dela. Não tinha como.
Especialmente quando um certo alguém se aproximou.
— Kitkat? — chamou uma voz animada.
Katniss tirou um fone e olhou para o lado. Abriu um sorriso.
— Jason! — disse ela, reduzindo a velocidade da esteira.
O rapaz alto, expressão simpática, parou ao lado dela. Usava regata branca e calça de treino preta.
— Achei que tinha sumido de vez — falou ele com uma piscadela. — Ou tava treinando escondido pra não passar vergonha quando perder pra mim na piscina?
Katniss riu, pegando a toalha ao lado.
— Perder pra você? Só se for no campeonato de quem inventa mais desculpa.
— Continua afiada. — Jason riu. — Ainda a mesma Kitkat que me fazia perder a concentração só de apostar no Squash.
Do outro lado da sala, Peeta pousou os halteres e caminhou com um foco que deixaria qualquer um alerta. Os olhos estavam semicerrados, e o maxilar, travado.
Jason continuou:
— Esse look novo tá funcionando, viu? Quase caí da bike quando te vi.
Katniss balançou a cabeça, rindo.
— Você continua o mesmo.
Mas antes que pudesse dizer mais, dois braços passaram por sua cintura, e uma boca bem conhecida beijou sua bochecha... depois sua boca. Prolongadamente.
— Amor — disse Peeta, com voz arrastada. — Tá tudo bem por aqui?
Katniss piscou devagar, percebendo o tom possessivo. Jason arqueou as sobrancelhas com um meio sorriso educado.
— Oi... — disse Jason, estendendo a mão. — Jason Kim. Velho amigo da Kit... da Katniss.
Peeta apertou a mão com mais força do que o necessário.
— Peeta Mellark. Namorado. Dono da boca que você quase interrompeu.
Katniss deu uma cotovelada sutil no abdômen de Peeta, tentando conter o riso.
Foi então que Presley surgiu, segurando um copo de smoothie de proteína de morango.
— Interrompi algo? — perguntou ela, os olhos indo direto para Jason.
Jason olhou para Presley como se tivesse sido atingido por um raio solar particular.
— Quem é você? — perguntou, genuinamente curioso.
— Presley Mellark — respondeu ela, puxando o rabo de cavalo para o lado. — Irmã do ciumento aqui do lado.
— Prazer é todo meu — cumprimentou Jason, sorrindo de orelha a orelha.
Presley olhou para Katniss de canto e arqueou a sobrancelha com malícia. Katniss sorriu como quem diz “depois a gente conversa”.
Peeta ainda mantinha o braço firme na cintura de Katniss e perguntou, direto para ela:
— Vamos nadar um pouco? Ou precisa que eu te salve do seu “velho amigo”?
— Só se você me prometer não morder ninguém — censurou Katniss, divertida.
Jason riu.
— Relaxa, Mellark. Só vim dar um oi. Mas parece que seu território já tá bem marcado.
— Sempre esteve — respondeu Peeta, com um sorriso triunfante.
Presley passou por eles e tocou de leve o braço de Jason.
— Você vem pra piscina? A gente pode conversar sobre... competições e Squash.
Jason sorriu, encantado.
— Seria uma honra, Presley Mellark.
Katniss observou os dois se afastarem e sussurrou para Peeta:
— Tá vendo? Você não precisa ter ciúmes. O Jason é praticamente um irmão pra mim.
— Irmão que te chama de Kitkat e quase derreteu te olhando? —murmurou Peeta de volta.
— São os hormônios, baby. Eu sou irresistível — provocou ela, dando um selinho nele.
Peeta suspirou, derrotado.
— Um dia ainda coloco uma coleira com seu nome.
— Tenta e dorme na casinha do cachorro e vai por mim, sei que não tem um pet, mas consigo só para ver isso acontecer — respondeu Katniss, já caminhando em direção à piscina com um sorriso vitorioso.
E Peeta, claro, foi atrás. Como sempre
✦✦✦
O sol da tarde atravessava as amplas janelas envidraçadas do elegante do escritório de Peeta. As pastas abertas, gráficos e contratos repousavam sobre a mesa, mas nem Peeta nem Johanna pareciam realmente preocupados com eles naquele momento.
Peeta estava recostado na cadeira giratória, com as mangas da camisa dobradas e um olhar distante. Johanna se servia de um dos cafés cápsula da máquina atrás da mesa, mexendo o açúcar com desinteresse.
— Sabe, Mellark... — Começou Johanna, com o sorrisinho malicioso que anunciava sarcasmo — Já que o tema é casamento, e alguém aqui está cercado de inspiração... quando é que vai fazer o pedido pra Gataniss?
Peeta soltou um riso nasal, passando a mão pela nuca como quem tentava conter uma verdade borbulhante.
— Bem... — Ele desviou o olhar, meio sem jeito. — Na real... naquele dia no shopping, quando a Katniss se perdeu por uns minutos na loja de eletrodomésticos, eu fui até a Tiffany da Madison... e comprei o anel.
Johanna se virou tão rápido que quase derrubou o café.
— Você o quê?!
— É... — Peeta riu, abaixando a cabeça, quase envergonhado. — Comprei o anel. Foi... impulsivo, mas tão certo. A Kat tinha acabado de sair desfilando lingeries naquele provador como se fosse uma supermodelo saindo de um sonho. Naquela noite, quando voltamos, e ela usou aquela bendita fantasia Mulher-Gato... eu quase fiz o pedido ali mesmo.
— Por que não fez?! — Johanna cruzou os braços, semicerrando os olhos. — Sério, Mellark. Não é como se você estivesse se envolvendo com qualquer uma. A Katniss é a porra da exceção de todas as regras. Ela é brava, é doce, é determinada, é... é tudo.
Peeta sorriu. Aquele sorriso de canto que ele só deixava escapar quando falava de Katniss.
— Eu sei, Jo... eu sei. Ela é cheia de vida, tem um coração gigante... e não se parece em nada com as decepções que tive. Nada daquilo. E muito menos com minha mãe — suspirou ele fundo. — A Katniss é uma mulher de classe sem ser superficial. Ela tem uma luz... algo que me puxa pra ela. Eu a amo, Jo. Não é só paixão, entende? Eu a amo de verdade... a ponto de doer.
Johanna ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo o que ouviu. Então, balançou a cabeça com um sorriso genuíno.
— Então casa logo com ela, seu idiota.
Peeta riu.
— É mais complicado do que parece... acho que ela tem coisas que ainda não dividiu comigo. Sabe quando você sente que há algo que ela carrega sozinha?
— Sinto. Mas se tem alguém que consegue fazer essa mulher baixar a guarda... é você.
Antes que Peeta pudesse responder, a porta da sala se abriu suavemente.
Katniss entrou, impecável como sempre, usando um conjunto off-white de alfaiataria e os cabelos presos em um coque frouxo. O celular em uma mão, e uma pasta de relatórios na outra.
— Desculpa a demora, tive que passar no andar da comunicação — disse ela.
Imediatamente, Johanna se endireitou, pegou um contrato qualquer e fingiu examinar com concentração teatral.
— Estávamos... revisando os termos com o grupo europeu — disfarçou Johanna, forçando uma seriedade quase cômica.
Katniss arqueou uma sobrancelha.
— Juro que por um segundo achei que estavam falando de mim.
— Imagina, Everdeen... jamais! — respondeu Johanna, com um sorrisinho de canto. — Só negócios... por enquanto.
Peeta sorriu para Katniss, e por um instante, ela sentiu que havia algo diferente em seu olhar. Uma promessa não dita. Uma esperança que queimava baixinho.
E embora ela ainda tivesse planos silenciosos em andamento, naquele momento, diante dos dois maiores aliados — e talvez maiores ameaças — da sua sanidade, ela apenas respondeu:
— Então vamos trabalhar... antes que o casamento de vocês vire um reality show ao vivo.
✦Sábado, 17 de agosto✦
Amor à Beira-Mar, era o destaque do The Manhattan Tribune.
O sol começava a se pôr sobre as águas douradas do Hudson quando os primeiros convidados subiam a bordo do luxuoso iate Selene, atracado em um dos cais mais discretos e exclusivos de Manhattan. Com três andares, heliponto, deque de vidro e uma pista de dança sobre o mar, o navio parecia saído de um sonho.
Katniss ajustou o vestido longo de seda azul safira que abraçava seu corpo com perfeição. Seus cabelos estavam presos em um coque baixo com pequenos pontos de brilho e sua maquiagem ressaltava seus olhos acinzentados. Ela olhava ao redor, admirada. Mesmo depois de tudo, Johanna ainda conseguia surpreendê-la.
— Gataniss, você está devastadora — sussurrou Peeta em seu ouvido, beijando seu ombro exposto.
Ele usava um terno azul petróleo com camisa branca aberta no colarinho. Despreocupado e magnético, como sempre.
— Hoje não é sobre nós, Mellark — respondeu ela, sem disfarçar o sorriso. — Mas obrigada.
Logo os demais padrinhos chegaram. Cato, com um terno creme e óculos escuros, ao lado da efusiva Presley, que usava um vestido com franjas prateadas, sandálias altíssimas e Alma usava um vestido violeta. Finnick chegou acompanhado de Annie.
No deque de recepção, Delly — de mãos dadas com Johanna — exalava felicidade.
— Chegaram! — gritou Delly, correndo para abraçar Katniss com força. — Meu Deus, você está maravilhosa!
— Eu ia dizer o mesmo, noiva do ano — respondeu Katniss emocionada.
— E eu? — perguntou Johanna, arqueando uma sobrancelha.
— Está sexy demais para o próprio bem. — Katniss riu, puxando Johanna para um abraço apertado.
Durante a cerimônia, o som das ondas quebrando suavemente servia de trilha natural. O celebrante era amigo de infância de Delly, e conduziu o ritual com leveza e emoção.
Mavie Cartwright, mãe da noiva, chorava discretamente ao lado de Katniss e Peeta.
Jonathan Mason, o irmão de Johanna, havia vindo da Austrália com sua esposa Samantha e os filhos, Levy e Noah. Quando Jonathan discursou sobre a irmã caçula, o coração de todos apertou.
— Jo cresceu rápido demais. A dor da perda fez dela uma rocha, mas foi o amor da Delly que a transformou em casa...
Johanna enxugou uma lágrima, segurando a mão de Delly com firmeza.
— E eu nunca vi minha irmã tão inteira quanto agora.
Os aplausos irromperam assim que as noivas se beijaram. O céu começava a ser pintado com tons de lavanda e âmbar, refletindo nas águas como se o universo tivesse dado sua bênção pessoal.
O jantar foi servido no salão panorâmico do iate. O menu incluía ravióli de burrata com manteiga de sálvia, salmão ao molho de champagne e, claro, uma mesa de sobremesas absurdamente sofisticada — Johanna havia exigido uma seleção italiana só para agradar Peeta.
— Faríamos bem em fugir depois disso. Tipo, pra Itália? — confidenciou Peeta para Katniss entre um brinde e outro.
— Ainda temos assuntos pendentes antes da fuga, Sr. Mellark — respondeu ela, com olhar misterioso.
A pista de dança explodiu logo após o brinde dos padrinhos. Katniss dançou ao lado de Delly e Presley, e até Mavie arriscou alguns passos com Jonathan. Finnick arrastou Annie para o centro da pista, enquanto Cato tentava acompanhar Presley com dificuldades e muitos tropeços.
Johanna, em algum momento, parou e observou tudo com um copo de whisky na mão. Katniss se aproximou.
— Tudo bem?
— Puta merda, Everdeen... Eu nunca pensei que viveria pra ver isso. Amor, família... paz.
— Você merece tudo isso, Jo.
— E você? — Johanna devolveu a pergunta com um olhar afiado. — Vai se permitir ter tudo isso também?
Katniss hesitou. Seu olhar encontrou Peeta, rindo ao lado de Levy e Noah, fingindo ser um monstro pirata.
— Bem, eu tenho o Peeta...
— Certo... se quiser fugir no iate, a gente deixa um bote pra você. — Johanna piscou e foi embora.
Quando a madrugada caiu e o mar ficou mais silencioso, Peeta e Katniss se afastaram até a proa, onde o vento batia forte.
— Sabe o que pensei? — disse ele, abraçando-a por trás.
— Hm?
— Nós seríamos noivos muito sexys.
Katniss bufou.
— Não se precipita, Mellark. Eu ainda estou tentando me adaptar ao papel de madrinha.
— Tudo bem... — Ele sorriu. — Eu sei esperar.
Katniss o encarou. Aquela luz, aquele homem, aquela noite. E uma certeza latejou em sua mente — o caos estava prestes a voltar. Mas por agora... havia amor.
E o amor, naquela noite, era o único convite que importava.
As luzes da cidade se espalhavam pelas janelas como estrelas ao alcance da mão. Na suíte de Peeta, o silêncio era interrompido apenas pelas respirações entrelaçadas e pelos sussurros entre os lençóis.
As roupas estavam jogadas pelo chão, cada peça uma lembrança de como chegaram até ali — desmanchando laços, abrindo zíperes, sorrindo entre beijos.
Katniss estava deitada, o rosto voltado para a janela, enquanto Peeta permanecia colado em suas costas, o corpo bem encaixado ao dela, como se fossem duas partes de uma mesma forma.
Movia-se com lentidão, cuidado e desejo. Os dedos dele traçavam carinhosos caminhos por sua pele, e a boca encontrava o espaço entre seu ombro e o pescoço, murmurando palavras que só ela podia ouvir.
— Você é tudo pra mim, Katniss... — murmurou ele, a voz embargada de emoção. — Tudo que eu sempre desejei.
Ela fechou os olhos, absorvendo o calor daquela confissão. O toque dele, o ritmo, o amor. Cada parte de Peeta era como uma chave se encaixando em fechaduras que ela acreditava trancadas para sempre.
— Eu amo cada pedaço seu... cada expressão, cada respiração... até os silêncios — continuou ele, enquanto os movimentos se tornavam mais profundos, mais íntimos. — E vou esperar o tempo que for preciso para o sim...
Katniss não conseguiu responder. A garganta apertada. O coração em ruínas.
Porque ela o amava. Já o amava há muito tempo, mesmo quando dizia a si mesma que odiava.
Mas sua vingança ainda estava ali, como um espinho sob a pele.
Eu vim para destruí-lo, pensou, sentindo os olhos se encherem. E agora... sou eu quem está sendo desmontada.
Peeta a virou com delicadeza, ficando por cima, e a fitou nos olhos.
— Tá tudo bem? — sussurrou, enxugando uma lágrima que escapava sem permissão.
Katniss assentiu, forçando um sorriso.
— É só... emoção do casamento. Culpa dos mojitos. — Tentou brincar, mas sua voz saiu fraca.
Ele sorriu de leve e a beijou na testa, no nariz, nos lábios.
— Então me deixa ser seu calmante. Sua cura.
Ela o puxou para si de novo, os corpos colados, os corações desalinhados.
E fez amor com ele como se tentasse se convencer de que poderia adiar o caos por mais uma noite.
Por mais uma batida.
Naquela madrugada, havia amor. E por mais confuso que fosse, era real.
Mais real do que tudo que ela já conhecera.

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