Doce Vingança
9 Armadilha
Notas iniciais

Era cedo. Muito cedo. O sol mal havia despontado no horizonte quando Katniss atravessou o saguão envidraçado da Atlas com passos ligeiros e o rosto escondido sob óculos escuros.
A recepcionista nem teve tempo de cumprimentá-la. Ela subiu direto para o andar executivo, passou pelos corredores vazios e entrou na própria sala, fechando a porta com um clique seco.
Soltou um suspiro pesado, jogou a bolsa na poltrona e se apoiou na mesa, de olhos fechados.
Não havia dormido. Não de verdade.
O corpo estava ali. A mente? Em pedaços.
A visita à clínica no dia anterior ainda latejava como um soco. Otho. O olhar dele. As mãos trêmulas. O tempo perdido. Seu disfarce. Aquilo mexeu com ela.
E agora… o amor.
O amor de Peeta.
Um amor que ainda não sabia como manter sem sangrar.
Sentou-se na cadeira de couro e ficou ali, estática, observando as luzes da cidade além da janela. O dia ainda acordava e ela desejava voltar a dormir. Para fugir. Ou esquecer.
Foi quando ouviu a porta se abrir devagar.
— Bom dia, minha mulher maravilhosa...
A voz grave e gentil de Peeta invadiu a sala antes mesmo dele entrar por completo. Ele segurava dois cafés e um saco da padaria artesanal do quarteirão. O terno escuro caía perfeitamente sobre a camisa azul clara. Os cabelos levemente desalinhados e o sorriso genuíno no rosto contrastavam com o turbilhão interno dela.
Katniss se levantou num impulso. Ela precisava dele. Agora. Antes que a dor voltasse.
E num impulso, o abraçou.
Sem uma palavra.
Apertou-o com força contra si, enfiando o rosto no peito dele, sentindo o cheiro familiar e inebriante — seu perfume amadeirado, pão quente e aquele toque sutil do amaciante de suas roupas.
Peeta parou por um segundo, surpreso, mas envolveu-a num abraço ainda mais forte, encaixando o queixo sobre a cabeça dela.
— Ei, tá tudo bem… — murmurou, acariciando as costas dela.
Mas não estava.
Katniss chorou.
Sem aviso. Sem controle. Desmoronou ali, nos braços dele.
Solavancos de choro sacudiam o corpo dela. Ela tentou conter, engolir, fingir… mas era impossível.
E, internamente, enquanto ele a embalava com carinho e dizia que estava ali, que estava tudo bem, que ela podia chorar o quanto quisesse, sua mente gritou:
“Malditos hormônios!”
Porque era isso. Era isso e mais mil coisas. Era o amor. A culpa. O cansaço. A tensão acumulada. Era a verdade que queimava por dentro.
Era o medo de perdê-lo.
Era o medo de nunca ser suficiente.
Era o remorso de ter machucado alguém tão bom… tão dele.
— Você quer me contar o que aconteceu? — sussurrou Peeta, ainda abraçado a ela.
Katniss apenas negou com a cabeça, enterrando-se mais contra ele.
— Só me deixa assim um pouco, por favor… — resmungou ela.
E ele ficou. Sem pressa. Sem exigir respostas. Apenas ali.
O abrigo silencioso de que ela precisava.
Depois de alguns minutos de silêncio e braços apertados, o choro de Katniss começou a ceder. As lágrimas ainda escorriam discretas, mas o tremor no corpo diminuía. Ela afastou-se um pouco, limpando o rosto com as costas da mão, sem encarar Peeta de imediato.
Ele, paciente, esperou tirando um lenço do bolso frontal de seu terno e entregando a ela.
Ela agradeceu com um pequeno sorriso, enxugou o rosto, espirou fundo, tentando encontrar uma versão de si mesma que soasse firme.
— Desculpa por isso... eu...
— Não precisa se desculpar por sentir — disse ele, com a voz baixa, o olhar atento e calmo.
Ela assentiu devagar, sentando-se na beira de sua mesa, as mãos ainda um pouco trêmulas.
— São só hormônios... Juro. — Olhou rapidamente para ele. — Nem sempre fico assim. É só em alguns ciclos… mais fortes. Eu fico meio desregulada. Chorona. Sensível. Uma bagunça.
Peeta sorriu com ternura, colocando o café sobre a mesa dela.
— Você não é uma bagunça, Katniss. Você é humana.
— Bem... uma humana bagunçada então — falou ela, com um meio sorriso, bebendo um gole do café.
— Mesmo bagunçada, ainda é a mulher mais impressionante que eu conheço — disse ele, acariciando de leve a mão dela.
Ela sentiu um aperto no coração. O amor dele era tão limpo. Tão desarmado. Quando deu início ao seu plano, não imaginou que os sentimentos dele seriam tão intensos e reais. Pensou que seria mais fácil levar a farsa adiante sem se envolver naquela armadilha chamada amor.
Ela não sabia como continuar sustentando tanto segredo entre eles — mas agora não era o momento.
Peeta puxou uma pequena caixa de papel do saco da padaria e a colocou diante dela.
— Trouxe pães de queijo. Sei que você ama.
Katniss sorriu de verdade dessa vez.
— Você é um absurdo...
— Um absurdo delicioso, espero — respondeu ele, divertido. O clima ficou mais leve por um instante. — Ah, quase esqueci... minha mãe te convidou para jantar.
O copo de café parou no ar.
Katniss piscou lentamente, como se precisasse de alguns segundos para processar.
— Sua mãe?
— Sim. Ela disse que queria te conhecer. Que viu você no lançamento e te achou uma mulher admirável, poderosa. Usou essas palavras mesmo. Achei estranho no início, ela não distribui elogios assim, mas parecia sincera.
Katniss quis rir. Gritar. Ou sair correndo.
Mas apenas sorriu, como quem engole um espinho inteiro com a postura de uma dama.
— Que honra... — respondeu, a voz perfeitamente firme, embora o estômago revirasse.
Peeta não percebeu. Ele estava encantado com aquela mulher.
— Vou ver com ela pra quando é esse jantar e te aviso. — Katniss assentiu. — É um jantar pequeno, só a família.
Ela forçou um sorriso doce. Por dentro, sabia que aquilo seria o jantar mais indigesto da sua vida.
Katniss ainda mantinha o sorriso tenso nos lábios, tentando digerir a ideia de jantar com Alma como se aquilo fosse uma casualidade qualquer — quando, na verdade, o nome daquela mulher já era suficiente para fazer seu sangue ferver.
Peeta, sem perceber a turbulência nos olhos dela, inclinou-se um pouco mais, tocando seu rosto com uma delicadeza quase reverente.
— Você tem estado tão distante ultimamente… — disse ele. — Mesmo assim, continua sendo o centro de tudo pra mim.
O polegar dele deslizou suavemente pela curva da bochecha dela e o gesto a desmontou mais do que qualquer palavra.
— Peeta… — sussurrou ela, sem saber ao certo o que vinha depois. Só o nome dele já carregava tanto.
Ele não disse mais nada. Apenas se inclinou devagar, os olhos presos nos dela, como quem pede permissão com um olhar.
Katniss não recuou. Não podia. Não queria.
E então, ele a beijou.
Um beijo profundo. Quente. Calmo no ritmo, mas devastador na intenção.
Ela se perdeu ali, nos lábios dele, no toque firme e cheio de amor que a fazia esquecer o mundo lá fora. Esqueceu Alma. Otho. A clínica. As lágrimas...
Esqueceu até a dor que carregava no peito. Por um segundo, tudo desapareceu.
A mão dele deslizou pela cintura dela com segurança, puxando-a mais perto. Ela correspondeu sem hesitar, enlaçando os braços ao redor do pescoço dele, permitindo-se afundar naquele momento como quem agarra um último respiro antes de afundar de novo.
Mas mesmo no meio da entrega, a culpa sussurrava em seu coração.
Ele era doce demais. Gentil demais.
E ela… estava sendo cruel demais.
Quando o beijo cessou, ele apoiou a testa na dela, ofegante, os olhos fechados.
— Eu te amo tanto, Katniss... — disse ele, como uma prece.
Ela não respondeu. Apenas manteve os olhos fechados também, sentindo o cheiro da pele dele, o calor do toque, o gosto que ainda estava em sua boca.
Pensando em como aquilo talvez não fosse o que ela merecia.
Mas desejando, com todas as forças, nunca mais soltar aquele abraço.
✦✦✦
Mais uma reunião havia acabado — e, para Katniss, foi mais um esforço concentrado em parecer inabalável diante dos executivos, relatórios e metas. A Atlas seguia a todo vapor. Mas por dentro, ela ainda era uma ferida aberta com um curativo de silêncios bem colocados.
Quando a porta de sua sala se abriu, ela esperava encontrar apenas sua cadeira, a tela do notebook suspensa e talvez um e-mail urgente.
Mas não.
O que encontrou a fez parar.
Sobre sua mesa, descansava um lindo arranjo de flores — peônias brancas, lírios rosados e hortênsias azul-claras, envoltas num papel de seda creme com um laço de cetim. Ao lado, uma caixa média da Dunkin’ Donuts cuidadosamente embalada com um bilhete preso sob o elástico:
“Para os seus ciclos difíceis e para todos os dias em que você esquece o quão amada é.”
— Com carinho, Peeta.
Katniss sorriu, surpresa e tocada.
Antes que pudesse processar a emoção, a porta se fechou atrás dela com um leve clique.
Ela se virou e lá estava ele — Peeta, encostado no batente, com as mãos nos bolsos da calça social e um sorriso calmo nos lábios.
— Você fez isso? — perguntou ela, segurando o bilhete, quase sem acreditar.
Ele apenas deu de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Só um mimo — respondeu ele. — As flores… são só uma forma pequena de dizer o quanto sou grato por cada momento com você.
Ela caminhou até ele sem pensar, com o coração apertado e os olhos umedecendo de novo — mas desta vez, não de tristeza.
Ela o abraçou forte, enterrando o rosto no pescoço dele, como se aquele gesto pudesse costurar as partes de si que ainda estavam soltas.
— Você é bom demais pra mim... — murmurou, com a voz abafada.
Peeta apertou os braços ao redor dela e falou baixinho em seu ouvido...
— Sou exatamente o que você merece.
E ali, naquele abraço silencioso em meio ao perfume das flores e ao doce aroma de donuts com açúcar e canela, Katniss engoliu seco percebendo que, mesmo com todo o peso que ainda carregava, o amor também estava ali... Sobrevivendo.
✦✦✦
Katniss ajeitou o vestido vinho com recortes elegantes no quadril e costas nuas, observando seu reflexo no vidro escuro do Lamborghini. Peeta segurava sua mão com delicadeza, mas os dedos estavam tensos.
— Tem certeza de que quer entrar? — perguntou ela, em tom provocador, tentando aliviar o clima.
— Ainda dá tempo de simular uma falha no motor — respondeu Peeta, num meio sorriso. Mas respirou fundo. — Vamos.
“A casa que nunca foi um lar”
Entretanto, no fundo Peeta sabia que seus irmãos acolheriam Katniss.
Foram recebidos por Presley, com um sorriso radiante que praticamente pulou no pescoço de Peeta e depois agarrou Katniss como se fossem amigas de infância.
— Eu tava surtando pra te conhecer! — exclamou Presley, puxando Katniss para dentro como uma anfitriã rebelde. — Você é ainda mais linda pessoalmente! Vai ter que me contar o segredo desse delineado perfeito.
Katniss riu, encantada. Não esperava encontrar leveza ali, mas Presley era exatamente isso, luz.
Na sala de estar, estavam Finnick e Annie, finalmente de folga dos plantões exaustivos. Annie, com os cabelos ruivos ondulados presos num coque despojado, sorriu calorosamente para Katniss.
— Estávamos torcendo pra esse encontro acontecer logo — disse ela, segurando uma taça de vinho branco, abraçando-a calorosamente.
Finnick a cumprimentou com um beijo educado na bochecha.
— Já estava na hora do Peeta aparecer com alguém à altura dele — comentou, sincero. — E você... é impressionante, Katniss.
Cato surgiu pouco depois, elegante e abatido. O divórcio com Clove o corroía. Ela continuava com as ameaças, mas os advogados que Peeta escolheu a dedo, trabalhavam incessantemente, desde o encontro no Pier 79. Peeta o abraçou e trocou algumas palavras rápidas, prometendo apoio. Katniss observava de longe, discretamente o quanto o amor entre os irmãos era sincero.
Quando Alma apareceu, foi como uma névoa cobrindo o ambiente.
— Boa noite a todos — cumprimentou ela, com um sorriso que não chegava aos olhos. Seus cabelos estavam presos num coque perfeito e seu vestido marfim parecia ter saído de um editorial europeu. — Então você é a famosa Katniss Everdeen.
— Muito prazer, Sra. Mellark. — Katniss respondeu com um sorriso diplomático.
—Igualmente. Na verdade, Sra. Snow... — corrigiu Alma, olhando-a dos pés à cabeça. — Peeta sempre teve um gosto... peculiar.
Foi sutil, mas doeu. Peeta fechou o semblante, aproximando-se de Katniss, como se quisesse protegê-la da energia da mãe.
Durante o jantar, Alma era a anfitriã impecável — pratos franceses, taças de cristal, talheres de prata. Mas por trás de cada brinde, escondia farpas disfarçadas de sutilezas. Katniss mantinha o charme e o controle, mesmo sob seus olhares calculistas.
A certa altura, Presley tocou o braço de Katniss e cochichou:
— Não liga pra ela. Ela é assim até com a própria sombra. — E completou, divertida. — Mas você está ganhando, só pelo fato dela estar apertando a taça de vinho desde que você entrou.
Katniss riu baixinho.
Depois da sobremesa, Katniss foi até o lavabo e, ao voltar, ouviu vozes na sala de estar. Era Alma com Peeta.
— Você realmente acha que essa garota é confiável? Que está apaixonada por você? — Alma dizia, com a voz baixa mas firme.
— Mãe, por favor... — respondeu Peeta, exausto. — Você não precisa gostar dela. Mas eu... a amo.
Alma bufou, desdenhosa.
— Ama? Você mal a conhece. E vive com essa necessidade ridícula de se apegar a mulheres que te dão um pouquinho a mais de atenção. Já não basta o que sofreu com a Glimmer?
Peeta não respondeu. Apenas passou por ela e foi até Katniss.
— Vamos? — perguntou ele, com o rosto tenso.
Durante a despedida, Alma sorriu friamente para Katniss e lhe deu dois beijos no rosto.
— Espero vê-la mais vezes... se não sumir antes, como as outras.
Katniss respondeu com outro sorriso doce.
— Oh, estarei sempre por perto. Sou mais persistente do que pareço.
No carro de volta, Peeta passou a mão nos cabelos, frustrado.
— Me desculpa por ela.
Katniss tocou sua mão.
— Eu sou mulher. Lido com sogras desde que nasci. A tua... é só um nível hard.
Peeta riu, aliviado.
✦✦✦
O 4 de julho trazia consigo os flashes das câmeras, os sorrisos bem ensaiados e os brindes sob toldos brancos na propriedade litorânea da família Mellark. A mansão nos Hamptons — imensa, com colunas gregas e vista panorâmica do oceano — abria suas portas para uma festa beneficente tradicional organizada por Alma. Era sua forma de manter o status social inabalável, cercada pela elite, ostentando charme, fortuna e... controle.
Katniss subiu os degraus do deck principal ao lado de Peeta. Vestia um vestido de seda azul claro, com alças finas, decote discreto, bem acinturado acima dos joelhos, deslizando sobre sua pele. Seu cabelo estava solto, ondulado com um pequeno grampo ordenado de pedrinhas azuis, o azul combinando perfeitamente com os olhos de Peeta. Ela estava uma verdadeira deusa.
Mas seus olhos estavam presos em Alma.
A anfitriã sorria, distribuía abraços contidos, supervisionava garçons e exibia sua imagem de mulher perfeita. Katniss só conseguia lembrar da cadeira de rodas no jardim da clínica. Em Otho Mellark e na semelhança com Peeta. Lembrava do momento em que ele sussurrou coisas desconexas, ou talvez não.
“Ela é mentirosa.”
E aquilo... ecoava até ali.
Katniss segurou a taça de espumante, mas não bebeu. Viu Alma posar com um grupo de doadores. Fingiu, como sempre fizera.
— Você está distante — disse Peeta, aproximando-se por trás, com a mão em sua cintura.
— Só... observando. — Katniss sorriu, disfarçando. — É uma festa e tanto.
— Vem comigo — sussurrou, em seu ouvido, e antes que respondesse, ele a puxou pela mão.
Caminharam pela lateral da mansão, desceram os degraus até a faixa de areia que se estendia além dos jardins impecáveis. O som da festa foi ficando para trás, substituído pelo barulho ritmado das ondas.
A praia estava vazia, a maré baixa, a luz do pôr do sol pintando tudo em tons alaranjados. Ali, Peeta parou, puxou Katniss para si, seus olhos azuis cravados nos dela.
— Eu precisava respirar. E só consigo fazer isso direito com você por perto. — Ele tocou o rosto dela com devoção.
Katniss engoliu em seco. Ali, naquele instante, era apenas uma mulher diante de um homem apaixonado. E Peeta não hesitou. Tomou seus lábios num beijo denso, longo, faminto.
Logo estavam na areia fina, os corpos colados, ele sobre ela com cuidado, seus dedos percorrendo seu corpo como se ela fosse sagrada. Ele a possuiu ali, com a reverência de quem ama e deseja, murmurando contra sua pele...
— Eu te amo.
Katniss fechou os olhos. Uma pontada atingiu seu peito, mas o plano... o plano ainda estava vivo. Sua mente era afiada, seu controle, treinado.
— Eu amo você ainda mais... — respondeu ela, sorrindo com os olhos ainda marejados de prazer.
Peeta a abraçou com força, como se aquele momento fosse eterno. Katniss, no entanto, olhou para o horizonte atrás dele. O mar era infinito. Assim como a mentira em que ela estava se afundando cada vez mais.
E a alma que ela prometera destruir estava ali, vulnerável... em seus braços.
✦✦✦
O sol da manhã filtrava-se pelas grandes janelas de vidro da mansão nos Hamptons, refletindo nas porcelanas brancas e talheres de prata cuidadosamente arrumados sobre a longa mesa de café da manhã. O aroma de café moído na hora misturava-se com o de frutas frescas, croissants amanteigados e panquecas servidas com geleia artesanal.
Katniss já estava à mesa, os cabelos presos em um coque frouxo e o corpo ainda envolto em um vestido leve de algodão branco. Apesar da beleza serena da manhã e do requinte da mesa, a tensão estava ali. Alma, sentada na cabeceira, observava tudo com seu ar polido demais para ser sincero. Seus olhos críticos não perdiam um único movimento da jovem mulher ao seu lado.
— Dormiu bem, querida? — perguntou Alma, sorvendo seu café sem sequer olhar diretamente para Katniss.
— Muito bem, obrigada — respondeu Katniss, com um sorriso educado, porém firme.
Do outro lado da mesa, Presley já fazia questão de se sentar colada a Katniss, sorrindo, trocando comentários animados sobre o vestido, a maquiagem natural, a playlist do dia, como se fossem melhores amigas há anos. Katniss tinha que admitir, a irmã caçula de Peeta era de uma leveza rara.
— A gente podia passar o dia na praia. Eu e você. Tipo, só garotas — disse Presley, encantada com a ideia. — Posso até levar meu ukulele!
Katniss riu baixo.
— Você me compra fácil com música e mar, Presley.
Do lado oposto, Cato estava em silêncio, o maxilar travado enquanto passava mel na torrada. Seus olhos vagavam entre a mesa e o celular. Seu coração parecia estar distante... em casa. Na verdade, com sua filha, Skye, que Clove se recusara a deixar ir. Ele tentou sorrir, mas o aperto no peito era visível.
Annie, sempre delicada, servia os gêmeos, Anthony e Kate, com paciência e sorrisos doces. As crianças riam, brigavam pelo último morango e testavam os limites da etiqueta, o que arrancava olhares repreensivos de Alma, como se fossem uma mancha em sua toalha de linho bege.
O ambiente já estava carregado o bastante quando Peeta entrou na sala, com o cabelo bagunçado pelo vento e a pele levemente dourada do sol da manhã. Ele beijou Katniss no topo da cabeça e se sentou ao seu lado, com um sorriso malicioso no rosto.
— Ela é um peixe nadando, sabiam? — disse do nada, pegando uma fatia de mamão. — Ontem à noite ela praticamente virou sereia.
— Peeta! — Katniss arregalou os olhos, rindo e corando.
— O quê? Foi só um elogio! — disse ele, rindo ao ver o rubor dela e o olhar de Alma tentando não erguer uma sobrancelha inteira.
Presley já estava de pé.
— Pronto! Agora eu quero nadar também. Vamos agora, por favor! Annie, diz que vem com as crianças também!
Anthony e Kate gritaram em uníssono:
— PRAIAAAA!
Annie olhou para Finnick, que sorriu e acenou com a cabeça.
— Vamos, mas só depois de todos comerem direito.
Katniss aproveitou a movimentação para trocar um olhar com Peeta, que piscou para ela, cúmplice. Mesmo sob aquele teto de aparências, eles estavam vivendo uma realidade intensa, feita de segredos, afagos e... verdades penduradas por fios.
Já Alma, mesmo servindo-se de outro croissant, não conseguia disfarçar o incômodo. A naturalidade com que Katniss se entrosava com os filhos — especialmente com Presley e os pequenos — era uma ameaça invisível à sua autoridade.
Peeta, então, limpou os cantos da boca com o guardanapo e anunciou, como quem simplesmente queria quebrar o tom ácido.
— Depois do mergulho, vou preparar mojitos na varanda. Quem topa?
Cato foi o primeiro a levantar a mão, quase como um pedido de socorro.
— Eu preciso de álcool. Urgente.
Presley riu e Katniss acompanhou o riso com um sorriso discreto.
O sol começava a descer preguiçosamente no horizonte. A brisa salgada que vinha do mar balançava levemente as cortinas transparentes da varanda da casa. Era fim de tarde, e todos pareciam anestesiados entre a água salgada e o som calmo das ondas.
Cato, agora com os cabelos ainda molhados e uma camisa aberta sobre o peito, tentava ajudar Presley a separar os copos. Ela, detalhista e bem-humorada, organizava folhas frescas de hortelã em um prato pequeno.
— Alguém viu o açúcar mascavo? — perguntou, com uma colher na boca.
— Procura perto do limão… ou atrás da vodka que o Cato escondeu da última vez — disse Finnick, rindo baixo enquanto cortava rodelas de lima com a habilidade de um bartender.
Peeta surgiu com uma garrafa de rum em uma das mãos e, na outra, uma tigela com muito gelo. Usava uma camisa branca leve, desabotoada até o meio do peito, e a barba começava a desenhar sombras suaves sob o pôr do sol. Os olhos dele encontraram os de Katniss.
— Me ajuda com os copos? — perguntou, suave.
Katniss assentiu, caminhando até ele, com os cabelos ainda úmidos do mergulho e vestindo apenas uma saída de praia preta sobre o biquíni. Ela se abaixou para pegar algumas taças e, ao se erguer, ele se aproximou por trás, passando uma das mãos pelas costas dela, quase sem querer.
Quase.
— Você está diferente hoje... mais leve — murmurou ele baixo, perto demais da sua nuca.
Ela sorriu sem virar o rosto.
— É o mar. Ele me acalma.
Peeta entregou a ela um raminho de hortelã.
— Ou talvez seja você que está acalmando o mar.
Katniss fingiu não se abalar, mas o coração pulou como uma chama sendo atiçada.
Cato bateu duas palmas.
— Vamos, cadê o álcool prometido? Eu estou quase chorando aqui.
Presley apareceu com a coqueteleira e Finnick trouxe os ingredientes frescos para a bancada de madeira rústica.
— Katniss, você vai ser nossa provadora oficial — disse Presley, oferecendo a ela o primeiro copo decorado com uma rodela de limão e uma folha de hortelã no topo.
Katniss experimentou. O gosto era forte, doce e mentolado. Perfeito.
— Aprovado.
A varanda se encheu de risos, brindes e toques de copos gelados.
Mas, no meio da leveza, Katniss observava tudo com olhos atentos.
Era uma tarde perfeita. Uma família unida. Um homem apaixonado.
E tudo isso poderia ser dela…
Se ela não tivesse vindo para destruir.
A leveza daqueles momentos quase a fazia esquecer o motivo.
A confiança deles, a maneira como a incluíam... tudo era perigoso demais.
A resposta, por ora, estava no mar.
E Katniss sabia nadar muito bem em águas perigosas.
O som dos risos e dos copos tilintando ainda ecoava na varanda, agora misturado com a playlist tranquila que Presley havia colocado no celular. O céu já começava a escurecer, e o ar estava morno, salgado, envolvente.
Katniss se levantou discretamente com seu copo de mojito quase vazio e desceu os três degraus que levavam ao jardim dos fundos. A grama macia estava fria sob os pés descalços. Ela caminhou entre as hortênsias floridas e o bambuzal lateral até chegar ao pequeno banco de pedra que ficava de frente para o mar.
Sentou-se ali. Observou as ondas ao longe, agora escuras e misteriosas como os próprios sentimentos que insistiam em se revirar dentro dela. Passou os dedos pelo vidro molhado do copo, girando o gelo. Respirou fundo.
— Fugindo da festa, senhora Mellark? — perguntou uma voz suave às suas costas.
Presley.
Katniss sorriu de canto.
— Só me afastando um pouco. Não consigo manter o riso por tanto tempo sem uma pausa estratégica.
Presley sentou-se ao lado dela com um novo drink nas mãos — o próprio, decorado com glitter comestível. Katniss riu da extravagância da bebida.
— Você e Peeta formam um casal lindo — disse Presley, quase de forma casual, mas com intenção.
Katniss virou lentamente o rosto para ela, sem responder.
— Digo, é tão raro ver o Peeta tão... centrado. Tão... inteiro. Eu nunca o vi assim. Você trouxe isso a ele. — Presley mordeu o canudo. — Por isso, não me leve a mal, mas… vocês já pensaram em dar o próximo passo?
Katniss engoliu seco. O mojito pareceu amargo de repente.
— Próximo passo?
— É. Sei lá, morar juntos, noivar, casamento... filhos talvez. Digo, o Peeta já falou disso com você?
Katniss desviou o olhar para o mar. As ondas pareciam mais violentas agora, embora o vento estivesse calmo.
— Não. Nunca conversamos sobre isso — disse com um sussurro quase inaudível.
— Ué. Mas ele te ama, isso é óbvio. E você... ama ele, não ama?
Katniss ficou em silêncio por longos segundos.
Depois respondeu com os olhos presos no oceano:
— Às vezes... eu acho que sim. Outras vezes, eu não sei se o que sinto é amor ou só um reflexo de tudo o que ele é... e de tudo o que eu não sou.
Presley a olhou, surpresa com a profundidade da resposta.
— Katniss, você é tudo. Talvez até demais. Talvez seja isso que assuste... — falou ela, com gentileza.
Katniss respirou fundo, tentando conter o nó na garganta. Presley sorriu, deu um tapinha na perna dela e se levantou.
— Vou voltar antes que Cato comece a devorar as folhas de hortelã por desespero alcoólico. Se precisar de mim, você sabe...
Katniss assentiu e a menina se afastou.
Ficou ali sozinha mais um tempo, olhando para o mar.
Pensando em tudo que poderia ter sido…
E tudo que ainda podia desmoronar.
O próximo passo.
Ela queria.
Ela temia.
E, no fundo, não sabia se o merecia.
✦✦✦
A mesa estava impecável. Velas altas, taças de cristal, talheres de prata. Alma Mellark sempre fazia questão de manter a estética — ainda que por dentro ela fervesse como ácido.
Katniss chegou elegante e serena, usando um vestido vinho que realçava sua silhueta. Cabelos presos com elegância, postura firme. Ela sabia o que esperar. E estava pronta.
Presley, Finnick e Cato já estavam à mesa. Peeta, ao seu lado, parecia atento a cada gesto dela. Já Alma… parecia uma leoa estudando sua presa.
— Fico feliz que tenha aceitado nosso convite, Katniss. Uma ótima ideia em passar o feriado conosco aqui — disse Alma com um sorriso fino. — Peeta tem esse coração grande… às vezes até grande demais, não acha?
Katniss sorriu gentilmente.
— Corações grandes tornam o mundo mais suportável.
— Claro… — Alma passou a faca na carne como se o animal ainda estivesse vivo. — Só espero que o dele não acabe sendo usado como trampolim de ascensão. Já vimos isso tantas vezes.
Presley tossiu, desconfortável. Finnick ergueu a sobrancelha e Cato chutou o pé da irmã por debaixo da mesa.
Peeta entrelaçou os dedos aos de Katniss debaixo da mesa, como um pedido de desculpa silencioso.
— Mãe… — disse ele com tom de advertência.
— Oh, querido, estou apenas dizendo… Katniss é encantadora, claro. Só acho que algumas pessoas aprendem muito bem a… usar encantos. Sobretudo aquelas com aparência comum na juventude. Não é, Katniss?
Katniss manteve o sorriso, mesmo com o estômago virando.
— Felizmente, aparência não define caráter. Aprendi isso com pessoas que têm uma fachada perfeita… e intenções bem questionáveis.
Presley riu abafado. Finnick pigarreou. Peeta apertou mais forte a mão dela e Alma apenas ergueu uma sobrancelha.
— Vejo que você sabe jogar. Que bom. Peeta precisa de alguém com inteligência… e obediência, se possível.
Katniss inclinou-se levemente.
— Ele precisa de alguém que o desafie, não que o controle. Mas isso ele já percebeu.
O restante do jantar seguiu com mais trocas afiadas e olhares cruzados, mas Katniss se manteve impecável. Ao fim, Peeta praticamente a puxou pela mão para fora da casa principal.
A casa da piscina era silenciosa, acolhedora. As luzes da piscina tremeluziam no teto baixo, projetando reflexos ondulados pelas paredes.
Katniss largou os sapatos no tapete da entrada e foi direto para a sala envidraçada. Peeta a seguiu, fechando a porta com um suspiro exausto.
— Me desculpa... — disse ele. — Por ter te arrastado pra esse feriado. Eu devia ter previsto que ela faria isso. Minha mãe tem esse talento de sufocar e destilar veneno com uma taça de vinho na mão.
Katniss virou-se para ele, se aproximando devagar.
— Peeta Mellark… por você, eu iria e voltaria do inferno cem vezes.
Ele pareceu perder o ar por um instante. Os olhos dele buscaram os dela como se tentassem decifrar se aquilo era real — ou apenas mais uma miragem naquele deserto emocional.
Mas Katniss estava ali. Presente. Entregue.
Ela o puxou pela gola da camisa e o beijou com fome.
Com urgência.
Com raiva, talvez — mas também com amor.
Peeta mal teve tempo de reagir antes que ela começasse a despi-lo, botão por botão. Ele tentou dizer algo, mas ela o empurrou com firmeza até a poltrona larga, fazendo-o sentar-se.
— Não diz nada — murmurou, contra o pescoço dele.
Ela tirou o próprio vestido com lentidão, deixando-o cair ao redor dos tornozelos. Ficou apenas com a lingerie rendada escura, os olhos fixos nos dele.
Subiu sobre ele com elegância selvagem, as mãos dele indo direto para sua cintura.
— Katniss… — sussurrou ele, entre beijos e suspiros.
— Shh… agora é minha vez de mostrar que você é meu... — adiantou-se, com a boca colada à dele.
E naquela noite, Katniss se perdeu mais uma vez em Peeta. E, ali nos braços dele, jurou que faria Alma pagar por cada ato cometido.

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