Doce Vingança
17 Capítulo 17
A sexta-feira amanheceu fria, mas o sol insistia em atravessar as nuvens. Vesti minha melhor roupa — uma camisa branca simples, saia longa preta e um blazer bege que já me acompanhava desde entrevistas antigas. Não era sobre beleza. Era sobre parecer controlada, digna, humana.
— Vai dar tudo certo — disse minha mãe, apertando minha mão no banco do carro.
Leah foi pra escola com Aiden. Ele queria vir, mas o advogado disse que isso poderia gerar mais tumulto. Aiden estava sendo mantido fora do processo até segunda ordem.
Chegamos ao fórum. Era mais moderno do que eu imaginava, mas a frieza do lugar era a mesma de qualquer instituição onde o futuro das pessoas é decidido por estranhos.
Dr. Cunningan nos esperava na porta, com a pasta em mãos.
— Sally, mantenha a calma. A preliminar serve para apresentar as alegações e ouvir partes envolvidas. Você não está sendo julgada ainda. Mas… — ele respirou fundo — é importante que você seja clara, firme e respeitosa.
Assenti. Não havia mais espaço para dúvidas.
Entramos.
Um juiz de expressão cansada presidia o ambiente. Havia uma promotora jovem, e do outro lado, Matt. Ele vestia um terno caro e tinha o olhar triunfante de alguém que se alimentava do caos. Ao lado dele, dois advogados. Nem olhou pra mim.
Meu coração disparou, mas mantive a postura.
— Vamos dar início à audiência preliminar do processo número 0847/25, envolvendo a acusada Sally Hayes, representada pelo advogado Dr. Andrew Cunningan, e o denunciante Matthew Clifford..
— Promotoria, por favor — disse o juiz.
A promotora se levantou, folheando seus papéis.
— Meritíssimo, trata-se de um caso grave de má conduta profissional, abuso de confiança e possível corrupção de menor. A denunciada manteve um envolvimento afetivo-sexual com um jovem de 17 anos, filho de seu ex -empregador, durante o período em que ainda prestava serviços como cuidadora da residência. Há evidências de mensagens trocadas, relatos e o flagrante do próprio pai, que configura a denúncia inicial.
Meu rosto queimava. Mas permaneci em silêncio.
— Defesa — indicou o juiz.
Dr. Cunningan se levantou.
— Meritíssimo, a defesa não contesta a existência do relacionamento, mas reforça que não houve abuso, coação ou qualquer situação de desvio de conduta envolvendo menor vulnerável. Aiden Clifford é plenamente capaz de discernimento, como já avaliado por um laudo psicológico preliminar. Ademais, o relacionamento se iniciou fora do ambiente de trabalho, sem relação direta com a função da acusada.
O juiz assentiu.
— A acusada deseja se pronunciar?
Olhei para Cunningan, que me deu um leve aceno.
Levantei-me. As pernas tremiam, mas minha voz saiu firme:
— Meritíssimo... cometi um erro, não nego. Foi imprudente, foi impulsivo. Mas não foi criminoso. Eu jamais forçaria, manipularia ou me aproveitaria de Aiden. Ele é... importante pra mim. E mesmo com tudo o que estamos passando, continuo me preocupando com ele acima de tudo. Sei que a situação parece errada. Mas eu não sou um monstro. Não sou uma predadora.
Silêncio.
Matt bufou alto. Pediu a palavra.
— Com todo respeito, Meritíssimo, essa mulher destruiu minha família. Seduziu meu filho para me atingir. Meu garoto está confuso, isolado, sem rumo. E ela ainda vem aqui bancar a vítima?
O juiz levantou a mão.
— Sr. Clifford, limite-se aos fatos. Seus argumentos emocionais serão considerados, mas não determinam a legalidade do caso.
Matt recuou no assento, irritado.
— A promotoria pede a prisão preventiva da acusada — disse a promotora, inesperadamente. — Considerando a comoção pública, a reincidência em contato com a suposta vítima, e a possibilidade de fuga.
Meu coração congelou.
— Objeção, meritíssimo! — rebateu Cunningan. — Minha cliente cooperou com todo o processo, permaneceu no mesmo endereço e jamais desrespeitou qualquer medida. A prisão é injustificada.
O juiz respirou fundo. Pegou seus óculos. Olhou para mim, depois para os papéis.
— Considerando os fatos apresentados, nego o pedido de prisão preventiva por ora. A acusada deverá permanecer em liberdade, sob compromisso de comparecimento em todos os atos processuais. E está proibida de manter contato direto ou indireto com o denunciante, Matthew Clifford.
Fechei os olhos por um segundo. Um alívio contido.
— A audiência de instrução será marcada nas próximas semanas. Sessão encerrada.
Ao sairmos, finalmente soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo. Levantamos e saímos da sala.
— Você foi excelente — disse Cunningan, já me passando instruções sobre os próximos passos. — Não baixe a guarda, Sally. A promotoria vai tentar te desestabilizar. Mas você tem mais chances do que eles imaginam.
Quando já estávamos saindo, ouvi passos se aproximando.
Matt.
— Isso não acabou — ele sussurrou, olhando nos meus olhos com raiva contida. — Você destruiu tudo. E vou fazer questão de ver você pagar por cada segundo.
Antes que eu pudesse responder, ele se afastou, sumindo pelo corredor. Não o segui. Não valia a pena. Entrei no carro com minha mãe e fomos para casa.
Ao chegarmos, tirei a roupa e fui tomar um banho gelado. Descobri ali que uma ducha fria não apenas resolve o problema com o calor, mas também ajuda a aliviar um pouco o estresse. Ao terminar, só coloquei uma blusa de alça e um short, deitando na cama logo em seguida para esperar Aiden. Eu até queria buscá-lo na escola, mas estava com medo de Matt ou qualquer um dos homens dele fotografe a gente de longe e use isso contra nós, então Leah combinou de esperar Aiden na saída e de lá, ambos esperariam minha mãe levá-los para casa.
Depois que minha mãe saiu para buscá-los, decidi adiantando o almoço. Algo simples, pois certamente nem Aiden e nem eu estávamos com tanta fome com toda aquela situação.
Assim que terminei tudo, estava indo pôr a mesa quando a porta se abriu. Aiden correu até mim assim que chegou. Me abraçou forte, como se estivesse me segurando para não ser levada.
— Você voltou... — sussurrou, com a voz embargada.
— Eu prometi, não foi?
Ele assentiu com os olhos cheios d’água.
— Ainda estão me julgando, Aiden. Mas pelo menos, por enquanto... eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum.
Nos abraçamos em silêncio.
E pela primeira vez em dias, eu senti que ainda havia esperança.
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