Doce Vingança
3 Dando Nomes
Notas iniciais
2. Dando Nomes
A noite passa enquanto o vento trás seus murmúrios.
Sons agudos de lágrimas brotando no fundo das almas perdidas
Seres condenados a morte
Por injustiça…
Sua injustiça!
Apertou o bebe em seus braços enquanto uma torrente de emoções se passava em seu interior. Ver sua vila devastada pela guerra insana, fazendo-os pagar os preços que não eram destinados a eles a fazia querer gritar contra tudo e contra todos de uma forma histérica até seus pulmões explodirem. Ela queria Fazer os responsáveis por aquilo sentirem dor. Muita dor. Sentirem na pele aquilo que ela estava sentindo. A dor na alma como aquela que ela sentia em si mesmo. Aquela compaixão que puxa uma corrente de outras diversas emoções.
Traição. Ela se sentiu traída diante daquilo. Traída pela sua pátria. Nunca fora tão patriota a ponto de tomar as dores da sua terra, mas naquele momento ao mesmo tempo em que se sentia traída ela conseguia tomar as dores da pátria machucada pelos pecados de pessoas que guerreavam. Mas guerreavam pelo quê?Poder. Simples única e explicitamente pelo poder. Poder que os fazia; sem ver; guerrear contra seus conterrâneos.
Ela fechou os olhos, ou os apertou. Ela não pode distinguir já que a escuridão se estendia a sua frente de uma forma quase palpável. A escuridão raivosa, que congela tudo quanto tocava. Ela por um momento quis ser uma criança para se esquecer de tudo. Ela quis ser aquele bebe para que alguém a pegasse no colo e lhe fizesse esquecer tudo aquilo. Ela queria se perder em algum lugar aonde o caos da realidade não chegasse a ela, mas ela naquele instante sabia que devia se manter forte. Forte por aqueles que morreram, mas principalmente forte por aquele bebê que estava em seu colo.
Ela podia ouvir os barulhos externos, mas ela estava presa em si mesma naquele exato momento. Presa com os sentimentos aflorando em seu interior. Ela queria tantas coisas ao mesmo tempo, mas em nenhum momento ela os conseguia reconhecer. Nomeá-los de certa forma agora se tornara algo distante, e incompreensível. Vontade de gritar, e de fazer aquelas pessoas, aqueles que a colocaram naquela situação caótica sofrerem. Sofrerem uma dor terrível. Uma dor pior que aquela que crescia exponencialmente em si. Compaixão por aquele bebê que estava em seus braços, que agora parecia repousar num sono profundo, mas ela estava alheia a isso. Compaixão por todas aquelas pessoas que agora viam suas vidas, seu passado em cinzas que o vento levava vagarosamente.
Vingança! Sua mente brilhou com essa palavra crava a fogo em seu ser. Ela por um momento conseguiu colocar um nome naquilo que avançava nublando seus sentimentos. O desejo. O puro desejo de vingança enquanto em sua mente ela podia ouvir os gritos ainda ecoarem, e as bombas ainda explodirem. A torrente que esse nome fez em seu ser a tirou o fôlego por um mísero minuto antes de a compreensão preenchê-la. Ela queria dor naqueles que detinham a culpa pelos mortos, mas ainda por cima pelos vivos. Aos vivos ela sentia sua boca salivar, mas ao, mas tempo de secar em ansiedade.Dor. Gritos. Gritos de dor. Heloiza queria que os responsáveis gritassem de dor, como aquelas mães que; agora distantemente; gritavam por seus filhos mortos, por aqueles pobres seres humanos que choravam.
Ela se estremeceu com o flash da imagem que se formou em sua mente, mas ela gostou de seu timbre de agonia. Os soldados, aqueles que quiseram subjugá-la, aqueles que quiseram estupra-la, eles amarrados em algum lugar escuro enquanto eles gritavam ensangüentados e machucados, e ela ali, rindo da cara deles, zombando deles e por sua falta de coragem, por sua falta de força naquele momento deprimente de sua existência, quando eles eram os colocados em julgamento. A sua vingança. A vingança que naquele momento era a certa. A vingança que era doce como o mel que se derretia na sua boca. Algo prazeroso enquanto ela sabia que aquilo que eles apreciavam sofrivelmente naquele momento implorando pela morte não era nada se comparado com o que eles fizeram.
Um braço tocou gentilmente o seu, mas ela não o conseguiu fitar. Ela estava congelada, atemorizada com a essência de raiva que marcava sua alucinação naquele momento onde a dor era suficiente para que ela desejasse ardentemente a vingança. Pelos mortos, mas principalmente pelos vivos. Pelos vivos que veriam a partida definitiva de seus amores, que enterrariam sua vida. Por um instante a imagem de León. A imagem de seu noivo enquanto ele se sacrificava para salvá-la, mas não teve como salvar-se. A imagem de seu futuro se desfez, quando ela percebeu que ele não mais estaria ali para consolá-la. Que ela não mais sentiria seus braços ao seu redor e ele a lhe sussurrar promessas no seu ouvido, promessas para a eternidade, mas que agora não passavam de promessas quebradas. Ele não estaria mais ali para dizer “Está tudo bem! Shh” e passar as mãos em seus cabelos para que por um instante, mesmo na ilusão ela pudesse sentir que tudo estava realmente bem. Ela não sentiria a mão dele lhe acariciar e por um instante ela conseguiu parar de sentir o mundo e se prender em seu paraíso interno, e saber que tinha alguém que a amava, que a desejava. Tantos planos, tantos futuros. A seu desejo de ser mãe. De ter um filho de León. Tudo fora queimado a fogo.
Ela sentiu uma lágrima escorrer em seu rosto, como se de alguma forma aquilo pudesse lhe confortar. Uma lágrima quente, mas que perdia calor; esfriando; a medida que avançava por suas bochechas, pela curva de seu queixo. A dor refletida naquela lágrima, e a chama da raiva que por um momento congelou em seu ser quando a realidade de saber que León estava… ela não conseguiu pensar na palavra. Não havia mais futuro a dois e ela sabia disso. Não haveria mais como restituir sua família.
Apertou um pouco mais ao bebê em seu colo, como se ele fosse o motivo que ainda a matinha presa a sua vida. Ela olhou para o bebê e pela primeira vez notou a pele clara dele, em contrate com o cabelo muito escuro que brotava em sua cabeça, um belo menino de faces angelicais. As pequenas mãos agarravam a borda de sua camisa fortemente, como se seu subconsciente estivesse lhe deixando amedrontado que ela pudesse lhe largar. O peitinho subia e descia compassadamente sob aquelas roupinhas sujas pelo pó. Ela pela primeira vez sorriu ao observar aquele ser ingênuo em seu colo, displicentemente dormindo enquanto o mundo se explodia. Ela podia sentir que ele era seu sonho. Que ele era aquilo que ela sonhava em ter com León, o futuro que ela queria: Ser mãe. Mesmo com seu interior machucado ela permitiu que aquela pequena chama materna crescesse em seu interior. Ela permitiu, enquanto tentava abrir espaço entre as chamas do ódio e da vingança que congelava seu peito.
O barulho de um caminhão e de pessoas se movimentando se tornou real. Real, mas ela não teve a oportunidade de ligar, ou ela não quis – ela na verdade nem desejou – atentar para qualquer coisa que acontecia em seu redor. Ela naquele instante estava tendo sua revelação, do que poderia ser seu futuro. Ela poderia ser mãe! Sua vingança poderia esperar mais um pouco. Ela não tinha pressa. Não necessariamente sabendo que seu mundo já estava destruído ao ponto de que nada, absolutamente nada poderia mais dar errado. Seu mundo já estava destruído, queimado e sendo levado pelo vento juntos com os murmúrios de dor. Ela agora tinha essa única necessidade: ter aquele bebê a salvo!
Dois braços fortes a rodearam e ela por reflexo se afastou assustada enquanto sua mão deslizava se agarrando ao bebe. Mas de alguma forma, os olhos do homem parado ao seu lado, a fez se abrandar. Talvez a compaixão que passou por seus olhos castanhos, ou a mesma raiva, o mesmo desejo de vingança atrás de todas as camadas de compaixão e amor que envolvia suas íris castanhas.
-Eu a assustei? Desculpa se… — ele disse mas ela dispensou comentário com um aceno da cabeça – é que os militares podem voltar…
-Compreendo! – sua voz mostrou sua indignação. Ela sabia que a qualquer momento aqueles malditos poderiam voltar para procurarem refugiados ou homens que servissem de escravos ou meninos e bebês que pudessem se juntar as filas de seu exército. Esse último pensamento a fez querer proteger ainda mais aquela criança em seus braços.
-Somos os “Ho chi minh”! Creio que depois do que aconteceu… você necessite de algum abrigo!
Ela confirmou com a cabeça. Havia uma vaga lembrança de quem pudesse ser os Ho chi minh, mas ela não podia se lembrar. Parecia algo de um passado tão remoto, de uma vida onde a guerra que se desdobrava em seu campo de visão não fazia parte do cenário. Um passado que ela era feliz ao lado de… Cortou a linha de raciocínio para se prender no presente.
-Certo então… — O soldado pareceu incerto – os demais já estão começando ir… você é só me seguir!
Ele se virou e avançou novamente para a floresta. Apesar de já estar claro ela se sentia se movendo sobre as trevas. Uma densa neblina em sua mente lhe fazia ter sucessivos tremores, mas ela não ligava. A floresta estava imunda, com lama espalhado em vários lugares, junto com corpos e sangue misturados. Um quadro de angustia. Dor, e muito sofrimento faziam-na sentir seu coração apertar, mas ela já tinha passado o pior.
A floresta cada vez se escurecia mais, e não adiantava que ala tentasse se recordar que o sol raiara. As trevas exteriores não eram nada se comparadas àquilo que anuviava seu interior, mas ela continuava marchando. Marchando pela arvores e arbustos, enquanto se segurava firmemente com uma mão e a outra segurava mais forte ainda seu bebê. Ele era agora seu bebê. Ele estava igual a ela naquele instante, sem ninguém, mas ela o faria ver como ela poderia ser sua família. Ela cuidaria dele. Ela daria a ele o amor.
Os sons eram baixos e somente eram quebrados pelos seus passos e pelo ritmo de sua respiração. Vários outros sons estralavam ao seu redor, mas ela não queria ligar. Ela não poderia. Uma fresta de luz quebrava a escuridão quase mórbida que se instalava no lugar.
Assustou-se quando uma outra pessoa apareceu do nada, mas ela não olhou para si, mas para o soldado que estava a alguns passos a sua frente, que se virou rapidamente. Um olhar de compreensão se passou pelos dois, até que aquele que aparecera de repente, lhe ofereceu um sorriso antes de voltar para as sombras.
-É um dos nossos! – O soldado explicou enquanto eles saiam numa clareira, uma falha no meio das árvores.
Outras pessoas se alojavam ali, junto com outros soldados que usavam uma boina com uma faixa vermelha, e outros refugiados de; quem sabe outra guerra, ou outras aldeias saqueadas em prol do poder. Essa palavra queimou de nojo em sua garganta, e a raiva palpitou em torno dela. Tudo era por poder. Política e poder.
-Bem vindo ao campo de refugiados da floresta dos lutadores do Ho chi minh! – aquele que guiara Heloiza pronunciou aos demais.
N/A Jhow: Gente, espero que todos gostem do capitulo por que deu muito trabalho para nós (eu a kiza) escrevermos. Para quem não conseguiu pegar, o grupo “Ho Chi Minh” são aos lutadores contra os ditadores no pais. Bem para quem não sabe esse nome vem do chinês com a tradução de Aquele que trás a luz! Obrigado por lerem e comentem MUUIITTOO!
Notas finais
obrigada e continuem acompanhando.
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