Doce Sacrifício
30 Capítulo 30 - Canals
Notas iniciais
Era como se uma bigorna tivesse caído e esmagado a cabeça de Alison.
Em compensação, seu corpo estava bem acomodado numa superfície fofa e quentinha. Aquilo era uma cama? O que ela estava fazendo numa cama?
Alison toma coragem e abre os olhos, somente para encarar o teto branco. Ao seu lado, Jessica segurava um pedaço de algodão, que exalava perfume masculino, perto de seu rosto. Aquela possivelmente fora a solução que a amiga encontrou para acordá-la.
Jessica solta um suspiro de alívio. Finalmente Alison acordou. Ela já estava partindo para a tática do copo com água gelada na cara.
– O que aconteceu? – a loira exterioriza a pergunta que sua mente era incapaz de responder.
– Olhe em volta.
Devagar, Ali se senta na cama e passa os olhos pelo cômodo, percebendo que aquelas paredes e objetos eram muito familiares.
– Por que estamos no quarto do Miller?
– Resumo rápido: eu te encontrei dançando em cima do balcão e pedi ajuda pra te tirarem de lá antes que você fizesse alguma besteira. Logan quem bancou o herói da história, você apagou e ele te trouxe pra cá. E me deixou como sua babá caso algo acontecesse. Então nem pense em vomitar aqui, eu não vou limpar a tua sujeira.
– Há-há. Engraçadinha.
Jessica joga o algodão no lixeiro do banheiro de Miller e pergunta a Alison enquanto guardava dois livros de volta a estante:
– Como se sente?
– Cozida.
– Veja pelo lado positivo: pelo menos você não teve uma bad trip.
– Eu acordei na cama do Miller. Isso é bem pior que uma bad trip. – a loira termina de calçar suas botas e fica de pé, sentindo-se menos tonta do que achou que ficaria. – Você pode dirigir? – mas ainda assim não ia arriscar.
– Posso.
As duas deixam o quarto sem mais delongas. Jessica volta a trancar a porta e guarda a chave no bolso de seu casaco por cima do vestido.
Elas fazem seu caminho até o térreo ignorando os três casais que se pegavam no corredor e os dois caras caídos na escada. O resto da casa parecia sufocadamente cheia, mas do lado de fora não parecia ter mais ninguém.
Alison revira os olhos para Alexandra e Nicholas fundindo seus corpos no sofá. Lexie estava no colo do garoto, de costas para a loira. Por isso ela não viu quando seu namorado notou Alison ali e lhe piscou um olho, com um sorriso sacana moldado no rosto. Alison revira os olhos mais uma vez. Depois ele reclamava quando a namorada brigava com ele por causa daquela amizade intima demais dos dois. Mas quase fraternal, claro.
Do outro lado da sala, Madison sente o já conhecido bolo no estômago e leva a mão a boca, saindo apresada até o banheiro do térreo. No caminho, ela esbarra em Jessica, fazendo esta prestar atenção na morena. Ela percebe suas intenções e sai correndo atrás de Madi até o final do corredor.
– Ah, qual é! Jessica! – Alison chama a amiga, em vão. Tudo o que ela queria era sair dali o mais rápido possível, antes que encontrasse com Logan por aí. A loira estava a ponto de seguir as outras duas quando uma ideia lhe veio à cabeça.
~”~
Madison chega até o banheiro e vai direto pro sanitário. Seu corpo estava se acostumando a voltar tudo o que ela ingeria, mesmo ela não querendo. E beber de estômago vazio não podia ter um resultado muito promissor.
E o pior é que ela não estava emagrecendo. Muito pelo contrário: todas as vezes que ela se olhava no espelho, ela parecia ainda mais gorda.
Com toda a sua presa, ela nem pôde trancar a porta, facilitando assim para Jessica, que entra no banheiro logo em seguida. E como o estrago já estava feito mesmo, ela não tinha muito o que fazer a não ser segurar o cabelo de Madison para que a garota não vomitasse nele.
Jessica espera ela terminar, ir até a pia, lavar o rosto e colocar uma pastilha na boca, tudo no mais sagrado silêncio. Jess pensava em algo para falar, mas a porta é novamente aberta, tomando a atenção das duas.
– Madison... – Alexandra entra no pequeno cômodo e atrás dela, Jessica nota Alison chamando-a para fora com um gesto de cabeça. Era melhor dar privacidade para as amigas, então ela sai do banheiro, fechando a porta atrás de si, a qual Lexie trata de trancar, antes que Madison resolvesse sair dali.
– Você sabe que não pode salvar o mundo, não sabe? – a loira pergunta assim que voltam para a aglomeração de pessoas e Jessica não consegue dizer se seu tom era de sarcasmo ou irritação.
– Mas uma pessoa pelo menos eu posso ajudar.
– Sim: eu! – era irritação mesmo. – Que preciso desesperadamente e um bom banho quente, cafeína e uma cama confortável. A minha, de preferência!
– Deixe de ser egoísta, Alison!
– Nem vem! Eu chamei a Alexandra, não chamei?
– Você e Alexandra juntas sem brigarem. Está aí uma coisa que eu nunca pensei que iria presenciar.
– As pessoas precisam crescer uma hora, não é? – Jessica olha para a loira, não acreditando que ela realmente tinha dito isso. – Eu sei: no meu estado isso é uma puta de uma contradição.
Alison já estava indo até a porta de entrada, mas Jessica a puxa de volta, explicando que precisava encontrar Logan para devolver sua chave. A loira tenta argumentar que a esperaria no carro, só que a amiga não a deixa ir, já que ela tinha que agradecê-lo pelo o que ele fez.
– Hei, a Bela Adormecida acordou. – elas o encontraram na entrada de uma das salas, conversando com Joshua. Jessica lhe devolve a chave, agradece e diz que já estavam de saída. – Mas já vão?
– Sim. – Jessica cutuca Alison discretamente, avisando-a que aquela era a sua deixa.
A vontade de Alison era de jogá-la na piscina e deixa-la lá até que a amiga congelasse.
– Eu acho que te devo um obrigado, então... – Ali hesita, sua voz saindo bem baixinha. Céus, aquilo era humilhante. – Obrigada.
– Que isso. Quando precisar de um lugar confortável para passar a noite é só chamar. – Logan pisca um olho pra ela do jeito mais descarado que conseguia, seu sorriso deixando claro que havia mais naquela oferta do que somente cordialidade.
– Retiro meu agradecimento. Passar bem. – a loira arrasta Jessica para fora daquela casa, ignorando uma parte bem pequena dela – mas muito irritante – que queria guardar aquela oportunidade para um próximo momento.
– Dude, você podia ser mais discreto. – Josh aconselha o amigo, que observava as garotas se distanciarem.
– O quê?
– Você ‘tá de quatro pela garota. Limpa a baba, Miller! – o garoto não aguenta e começa a rir, logo recebendo um tapa na testa dado por um Logan nada feliz.
– Ficou louco? Logan não baba. Muito menos fica de quatro por uma garota. Logan pega geral, é isso o que ele faz.
– Eu odeio quando você começa a falar na terceira pessoa.
~”~
– Eu não sei do que você está falando. Eu estou completamente bem.
– Pare de mentir pra mim! – Alexandra já estava ficando cansada daquilo. Há quanto tempo elas estavam naquele banheiro? Lexie só queria que a amiga confessasse de uma vez. – Me diz o que está acontecendo, eu só quero te ajudar!
– Eu não preciso da sua ajuda. Me deixe ir. – Madison tenta passar pela loira e abrir a porta, porém Lexie fica na sua frente, impedindo-a.
– Madi, por favor. Você sabe que isso é errado. – a voz de Alexandra estava bem mais baixa agora, transmitindo junto aos seus olhos marejados uma súplica quase desesperada. – Só pare, por favor.
– É mais fácil falar do que fazer. – Madison não estava muito diferente. Ambas estavam meio bêbadas e aquela conversa estava deixando-as um pouco emotivas demais.
– Admitir o problema é o primeiro passo para a reparação¹.
[Dois dias depois]
Alison estava na sacada do apartamento de sua mãe, de onde tinha uma bela visão do Central Park, com suas árvores secas e o branco cobrindo toda a sua extensão. New York City era realmente muito linda no inverno, com toda aquela neve e as luzes de natal.
A porta de vidro da varanda é abeta e Alison nem precisa olhar para saber que era seu pai ali. O cheiro do chocolate-quente o entregou.
Michael se senta ao lado da filha no pequeno sofá, logo tendo as pernas cobertas pela manta que Alison usava para se esquentar. Ele passa uma das canecas para a loira, que bebe o conteúdo sem assoprar, queimando a língua. Como sempre. Mas a culpa não era dela, ninguém mandou seu pai fazer o melhor chocolate-quente do mundo!
– O que você está fazendo aqui sozinha nesse frio?
– Nada demais. A Slo já dormiu?
– Já sim. Como ela vai ficar acordada amanhã, ela decidiu dormir tudo o que tinha para dormir hoje.
Alison sorri. Devia ser muito bom ser uma garotinha de oito anos sem preocupações maiores do que não perder a hora do desenho preferido.
Sloane tinha sorte. Por ser tão pequena e ainda não entender esse mundo complicado dos adultos (se bem que Alison não entendia também), ela ganhava algumas regalias para distraí-la do fato que seus pais estavam separados, um em canta canto do país.
E é aí que entra a confusão que os adultos insistem em fazer com suas vidas, porque os seus pais não estavam separados de verdade, como eles queriam demonstrar.
Depois que Collette e Sloane se mudaram para NYC e Michael e Alison ficaram em LA, tudo contribuía para que o casal começasse uma nova vida com novas pessoas, mas o que eles faziam? Agiam como se ainda fossem comprometidos e sempre que tinham a oportunidade eles reuniam a família para que os dois pudessem ficarem juntos. Agora, por exemplo, eles estavam dormindo no mesmo quarto e a loira sabia que enquanto ela e sua irmãzinha dormiam, os dois aproveitavam muito bem a noite. E pensar nisso era muito nojento...
Mas a questão é que seus pais deveriam resolver de vez o real status daquele relacionamento. Porque se eles ficavam todas as vezes que se encontravam e se ainda gostavam um do outro (o que era óbvio só de olhar para eles), então por que é que eles haviam se divorciado? Se existia namoro a distância, então podia ter casamento a distância também! Já que infelizmente Collette teria que ficar em New York por causa de seu trabalho.
– Você está fazendo isso de novo. – Michael termina seu chocolate-quente e coloca a caneca sobre a mesinha a sua frente.
Alison imita o gesto do pai antes de perguntar:
– Fazendo o quê?
– Calada, olhando pro nada, como se estivesse pensando em um jeito de implantar a paz mundial.
– Nem se eu passasse a minha vida inteira pensando isso iria acontecer, pai!
– Então sobre o que era? Se eu puder saber, é claro.
– Não pode não. – ela responde com um sorriso travesso estampado no rosto.
– Ora, claro que posso! Sou seu pai, tenho esse direito! A não ser que seja sobre um garoto, daí eu não quero saber...
Alison solta uma pequena risada pelo comentário do pai.
– Não é sobre um garoto.
– Garota? – agora Alison já estava gargalhando.
– Não. Eu gosto de homens, não se preocupe. – a garota para rir, voltando a limitar-se no sorriso sapeca ao ver a cara de desapontamento de seu pai.
– O único homem da sua vida é o seu velho aqui. Pensei que já tínhamos conversado sobre isso. – ele parecia tão desalentado que Alison teve que abraça-lo para reconforta-lo de alguma forma.
– Falamos sim. Mas o senhor sabe que uma hora eu vou encontrar alguém e...
– Sim, filha: depois dos trinta, como havíamos combinado. E não me chame de senhor.
– Mas isso mostra que eu o respeito.
– Não. Isso me faz parecer mais velho do que eu já sou.
– O senhor, digo, você – ela corrige-se rapidamente ao notar o olhar de repreensão do Sr. Fitzgerald sobre ela. – não está velho. Muito pelo contrário, está bem em forma. Sinceramente eu não sei como ainda está solteiro.
– Quem disse que eu estou solteiro? – ele soltou essa só de brincadeira, porém o rumo daquela conversa iria deixa-lo numa encruzilhada que ele não havia previsto.
– Certo. Qual foi a última vez que o senhor saiu com uma mulher que não fosse a mamãe? E eu não estou falando de dois anos atrás. – o comentário de sua filha o deixou tão embasbacado que ele até deixou escapar o senhor que ela usou na pergunta. – Eu percebi o que está acontecendo entre vocês, eu não sou cega.
– Bem. – Michael limpa a garganta antes de continuar, agora seguindo o tom mais sério que a conversa tomara. – Sendo assim, eu preferiria que você ignorasse isso.
– E eu preferiria que vocês se decidissem de uma vez. Ou vocês estão juntos ou não estão. É simples! Vocês não são mais adolescentes, eu sou! E vocês estão me dando um péssimo exemplo.
– Você preferiria que estivéssemos separados, sem falar um com o outro e fazendo você e sua irmã terem de escolher com qual dos pais querem passar os feriados?
– Não. Eu preferiria que a merda desse divórcio nunca tivesse nem sido mencionado. É isso o que eu preferiria.
– As coisas não são assim tão fáceis, Ali.
– Se a vida adulta é tão complicada assim, acho que prefiro passar o resto dos meus dias na Terra do Nunca.
– O quê? E fazer como aquele covarde do Peter Pan?
– Covarde?
– Claro! Na primeira dificuldade que encontrou ele voltou correndo pra Terra do Nunca e deixou a pobre Wendy para envelhecer sozinha. E é exatamente o contrário disso que sua mãe e eu queremos. Então estamos tentando achar um meio termo entre a Terra do Nunca e a vida real.
– E está dando certo? – seu pai lhe sorri, de uma forma um pouco cansada, com umas ruguinhas aparecendo em seus olhos. É, ele estava ficando velho. Mas um velho muito charmoso.
– Está é na hora de entrar ou vamos congelar aqui. – Michael se levanta e pega as duas canecas de cima da mesa. – Vamos? – ele não espera a resposta da filha para voltar ao aconchego do aquecedor do apartamento e Alison o segue, vencida, sem a resposta que tanto queria. Mas ela não desistiria assim tão fácil daquele assunto.
~”~
– Não vai mais me ajudar, então?
– Não posso. É perigoso demais. Com Vanessa e Matthew na minha cola, eles podem acabar descobrindo.
O garoto observa em silêncio a morena sentada na cama a sua frente, mais especificamente a região da barriga desta.
– Ela não achou que você o teria.
– Eu pensei nisso. Mas então lembrei que Ashley já abortou um bebê – do Matthew! Quão estranho era isso? – E arranjou complicações que eu não quero para mim. – o garoto próximo a janela assente com um leve movimento de cabeça. – Por acaso Taylor falou alguma coisa sobre?
– Não. É o mesmo discurso de sempre: ele só vai fazer alguma coisa quando você provar com um exame de DNA que o filho é mesmo dele. – a garota deita de costas na cama, com um gato laranja de pelúcia no colo. – Sabe, você não precisa esperar até o bebê nascer, tem como fazer o exame antes. É mais caro, mas pelo menos você resolve essa situação mais rápido.
– Eu nem sei mais se quero que ele assuma. Tem um casal em Encino² que quer adotar uma criança. A mulher não pode ter filhos e eles queriam um bebê novinho, pra ter a “experiência completa”. – dois loucos, só pode! – Talvez eu dê a criança para eles.
– Tem certeza? Muitas fazem isso e se arrependem depois.
– Não eu. Taylor e eu não estamos prontos para sermos pais e aquele casal tem condições de criar o bebê muito bem. – além de poder amá-lo mais também.
– Se você diz... – o garoto dá de ombros, arrumando as almofadas ao seu redor para poder esticar as pernas sobre o estofado rosa e laranja.
A morena volta a se sentar na cama, fitando o garoto, ainda com a pelúcia no colo.
– Mas voltando ao assunto principal: como estão as coisas com ela?
– Complicadas. Mas pelo menos ninguém desconfia. Vocês já conversaram sobre a sua desistência?
– Sim. Contei sobre Vanny e Matthew não me deixarem em paz, o que faz o trabalho ficar um pouco mais difícil.
– E ela te deixou ir fácil assim?
– Claro que não. Ela pode ter me dado um tempo, mas com certeza vai me querer de volta em algum momento. E se ela cair, você sabe, ela nos derruba junto, pra amortecermos a queda dela.
– Boa sorte pra gente então. – um som abafado invade o cômodo e o garoto leva a mão ao bolso da jaqueta preta, tirando seu celular dali. – E por falar no diabo...
– Acho melhor você ir então.
– Sim. – ele se levanta do acento em frente à janela, andando até a porta branca que se encontrava aberta o suficiente para que eles pudessem ver se alguém passasse por ali. – Ah, Emily? – ela vira o pescoço em sua direção, esperando ele continuar. – Feliz Natal.
Os dois trocam um sorriso amigável, o que a garota nunca achou que aconteceria, mas ter relações com –G mudavam as pessoas, aparentemente.
– Feliz Natal.
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