Doce Sacrifício
3 Capítulo terceiro – “Com quem será”
Notas iniciais
Capítulo terceiro – “Com quem será”
Quatro dias depois disto, a noiva do Kazekage encarava um grande espelho em seu quarto. Era o dia em que seria apresentada a Gaara pela primeira vez em toda sua vida. Nunca trocara qualquer palavra com ele. É claro que ela já o conhecia, pois já o vira em diversas ocasiões. Mas nunca foram apresentados como Gaara e Hinata. Apesar de a primeira impressão ter sido horrível, ela sabia que o rapaz havia mudado. Ele era muito querido por Naruto e Hinata sabia que o loirinho tinha o poder de mudar a mente das pessoas. Agora ela teria que compartilhar sua vida com o garoto, mesmo sem nunca ter tido um diálogo sequer com ele.
– Onechan... Quer ajuda para se arrumar? – Ofereceu-se Hanabi, que contemplava admirada à melancólica, porém belíssima imagem de sua irmã.
– Claro, Hanabi-chan. Obrigada. – Respondeu sentando-se na cadeira giratória de sua penteadeira, onde havia um elegante estojo de maquiagem quase intocado. Hanabi riu por dentro, pois Hinata nunca fora muito feminina, não sabia se maquiar muito bem.
– Não faça nada exagerado, Hanabi, por favor. Não quero assustar Gaara-sama. – Ela sorriu sem humor.
– Não seria má ideia assustá-lo. Talvez ele desistisse. – Comentou a mais nova enquanto passava um rímel preto nos olhos de Hinata, completando com um gloss incolor nos lábios pequenos e carnudos. Uma maquiagem extremamente simples e natural só para realçar um pouco a beleza daquele rosto tão parecido com o seu.
– Eu queria que você desse mais atenção ao meu cabelo. Eu nunca consigo fazer nada legal nele. – Comentou ela olhando admirada seu reflexo. Ela era incapaz de passar rímel sem borrocar o olho todo. Mas Hanabi fizera aquilo como se fosse extremamente simples.
– Eu sei. – Hanabi sorriu divertida deixando a irmã curiosa.
– O que? Por que está sorrindo?
– Não é nada. É que quando você tenta prender o cabelo sempre resulta em um rabo de cavalo torto e desgrenhado. – Disse ela sem conseguir conter uma risada discreta. Hinata riu junto, era a mais pura verdade. – E então, gostou do vestido que papai comprou? Eu mesma escolhi.
– Adorei, Hanabi. Eu não escolheria outro vestido. – Respondeu sorrindo quase alegremente se a ocasião não fosse tão perturbadora. – É tão bonito e confortável, gostei muito da cor também.
– Eu sei que eu tenho bom gosto. – Declarou presumida – Eu também adorei, quase comprei um igual para mim. – As duas riram depois que Hanabi disse isto.
O cabelo preto de Hinata escorregava entre os dentes da escova nas mãos de sua irmã. Desde que decidira casar-se em seu lugar, ela e Hanabi ficaram muito mais próximas. Era uma pena que isso não ia durar tanto tempo.
Hipnotizada pelo brilho azul que os fios negros cintilavam, Hanabi nem escutara a irmã falando consigo.
– Hanabi? Está me ouvindo?
– Uhm, desculpa... – Respondeu voltando a si. – O que foi?
– O que vai fazer no meu cabelo?
– Não sei... – Respondeu ainda escovando os cabelos pretos. – Quer estrear um rabo de cavalo perfeito que não seja torto? – Perguntou rindo.
– Para, sua chata. – Fez um bico. – Eu estou falando sério. Eu não quero nada demais mesmo, mas também não quero parecer nenhuma desleixada.
– Mas que dilema, oh céus! – Debochou. Hinata revirou os olhos. – Para de bobeira, seu cabelo é lindo. Deixe solto mesmo, ele está tão comprido. Os homens gostam muito disso, ainda mais se estiver solto. Aliás, é só uma conversa teoricamente informal. Não é necessário muito fru-fru.
Convencida pelo argumento da irmã, Hinata levantou-se e ficou de frente para o espelho e colocou uma grossa mecha de seus cabelos na frente do ombro direito. O vestido azul-bebê acima dos joelhos mostrava suas pernas bem torneadas e fazia um jogo de tom sobre tom com o cabelo azulado.
– Você está linda! – E estava mesmo. Simples, mas muito linda.
– Obrigada. – Sorriu timidamente. – Graças a você. – Hanabi ganhou um ar desanimado depois do que a irmã disse.
– Sim... Graças a mim e à minha covardia você está onde eu devia estar. Por minha culpa você não irá concretizar seu sonho de liderar nosso clã. – Desabafou a menina. Hinata estava sem palavras. A irmã parecia realmente abalada.
– Meu sonho era que minha família fosse mais unida. – Confessou. Hanabi a abraçou e as duas choraram. Sorte que o rímel era à prova d’água...
– Se quiser one-chan, eu ainda posso ir em seu lugar! Ele nunca saberia! Eu mereço esse destino depois de tudo o que fiz a você. – Disse ela soluçando. – Eu sempre te tratei tão mal. E no momento em que você podia simplesmente se ver em paz sem mim e se regozijar com minha desgraça... Você... Você simplesmente me defendeu e me protegeu mesmo sem eu merecer. Eu irei no seu lugar.
Hinata não podia negar que a oferta era tentadora. Neji era tão bom com ela e eles se davam tão bem. Estivera tão animada com a ideia de se casar com ele... Até que a proposta de casamento do Kazekage mudou tudo. Queria tanto experimentar os lábios dele de novo. Mas não dava desse jeito. Comprometida com o Kazekage... Seria uma traição e ainda estaria brincando com os sentimentos do primo. Mas não eram só os sentimentos pelo primo que a fazia querer desistir. Até por que não chegava a estar apaixonada por ele. Mas é que a própria ideia de se casar com Gaara era absurda. Suna ficava tão longe das pessoas que amava, era um lugar totalmente diferente, a cultura era outra, o sotaque, as gírias. Estava com medo. Medo demais.
Dez minutos antes disto, estava Gaara, completamente arrumado para ir à mansão, usando o telefone do hotel em que estava hospedado.
– Escritório do Kazekage-sama, no momento ele não se encontra, quem deseja? – Atendeu Kankuro com uma voz entediada de quem definitivamente preferia surfar numa tempestade de areia a estar ali atendendo telefonemas.
– Kankuro...
– Ah! Gaara é você? E então, já está indo para lá?
– Sim... Eu queria saber se você não acha uma ideia ruim eu levá-la para jantar amanhã, para conversar a sós com ela.
– Ah, cara eu acho legal. Hoje você vai conversar com a família dela, né. Vai ser melhor para os dois, eu acho.
– Uhm. – Ele não disse mais nada. Apenas desligou o telefone, vestiu o sobretudo negro e dirigiu-se à saída do hotel. O táxi que chamara o esperava do lado de fora.
Voltando ao quarto de Hinata, as duas Hyuugas comovidas ainda se abraçavam. Elas nunca tiveram momentos como este de se abrir uma para a outra. Era triste. Por que não teriam muito tempo para isso agora.
– Eu não quero me casar com o Gaara. – Disse Hinata. Hanabi sentiu uma coisa estranha em seu estômago. Aquela coisa que você sente quando está com medo, quando está ansioso e quando está apaixonado. Ela estava com medo. Óbvio. Medo por que agora era ela de novo que iria se casar com o Kazekage.
– Tudo bem... Eu... Eu irei falar com o Oto-sama sobre isso. – Respondeu angustiada, mesmo tentando parecer firme. – Hinata a piscou algumas vezes como se não soubesse do que ela estava falando.
– Não, imoto-chan. Eu não estou desistindo. – Hanabi a encarou sem entender. – Eu não quero me casar com ele, mas... Eu vou. Mesmo que você quisesse, eu não permitiria. Se você fosse mais velha... Se não tivesse acabado de completar catorze anos eu não iria me opor. Mas você é ainda muito nova e imatura. – Concluiu soltando-se do abraço e segurando as mãos da irmã. – Portanto não se incomode mais com isso.
– Hai, One-chan, arigato.
Depois disto decidiram sair do quarto e procurar alguma coisa para passar o tempo, pois faltavam vinte minutos para a hora marcada com o Kazekage. Quando as duas desceram às escadas rindo e conversando alto, atraíram os olhares de Hiashi, Neji e... Gaara, que chegara um pouco mais cedo que o previsto, o que era falta de educação, mas ele não sabia. As duas ficaram boquiabertas quando se percataram da presença do ruivo.
– Ka-ka-ka-kazekage-sama! – Articulou Hinata. – Não o esperávamos tão cedo.
Gaara permaneceu calado, esperando que Hiashi as apresentasse a ele.
– Estas, Kazekage-sama, são minhas filhas: Hinata e Hanabi. – As duas curvaram-se e sentaram-se no mesmo sofá em que Neji estava, que ficava de frente para o Kazekage. Gaara apenas curvou a cabeça. Neji provavelmente escolhera este assento para melhor analisar o ruivo, com certeza. Ele adorava mesmo fazer isso.
– É um prazer conhecê-las. – Disse ele com um sorriso que ambas consideraram um tanto quanto charmoso.
Gaara estava contente em saber que sua noiva era uma das duas, pois ambas eram muito bonitas, apesar de Hanabi ser nova.
– Hinata me disse, Kazekage-sama, que já o tinha visto antes. – Comentou Hiashi.
– Sim, Hyuuga-san, é verdade, Eu já havia reparado. – Ele respondeu. Neji notou certo nervosismo em Gaara. Na verdade uma ansiedade muito bem disfarçada. Seu rosto era sereno e indiferente, mas mexia muito os dedos das mãos. O pobre garoto estava doido para saber quem era sua noiva e Hiashi não tocava nunca no assunto.
Os dois conversavam sobre política, portanto Hanabi já tinha desistido de prestar atenção no diálogo e seu amado primo se cansara do comportamento repetivo da estimada visita. Estavam mais preocupados agora em trocar, discretamente, puxões de cabelo, beliscões e petelecos. Neji estivera apenas interessado em analisar o ruivo, mas isso não era tão recompensador quanto entreter a bela prima mais nova.
Hinata, no entanto, estava atenta e participava ativamente da conversa, pois Hiashi manipulava o assunto de acordo com os muitos conhecimentos da primogênita. Gaara se deliciava com cada palavra da moça tão antenada e inteligente. Estava mesmo impressionado com ela e tudo que ela dizia parecia muito interessante.
– Minhas filhas e meu sobrinho falam inglês fluentemente, Kasekage-sama. – Tomou um gole de chá após dizer isto e Gaara o imitou. Era estranho para os três jovens Hyuugas verem Hiashi exibi-los para alguém que tinha a mesma idade que eles e ainda mais sendo tão submisso. – Hinata ainda fala francês, alemão e espanhol. – Hinata estava extremamente constrangida. Queria enterrar-se num buraco e sumir. Neji e Hanabi sabiam como ela estava se sentindo sendo tão exaltada e seguravam-se para não rir. – Ela é muito inteligente. Tem um talento muito grande com as ciências exatas, mas também se identifica com as humanas. – Declarou muito orgulhoso, por isso Gaara acreditou que fosse mesmo verdade, mas ele não estava muito interessado em ouvir essas coisas de Hiashi, ele queria ouvir tudo da própria Hinata.
Hanabi pegou um biscoito sobre a bela bandeja que estava sobre a mesinha de centro e Gaara fez o mesmo. Ele não estava se sentindo muito à vontade naquela mansão tão grande, com uma decoração tão luxuosa e de tanto bom gosto, apesar de ser tudo muito delicado e discreto. Konoha era completamente diferente de Suna. Tudo fazia com que ele se sentisse fora de contexto. Mas apesar do desconforto ele estava muito feliz. Agora sabia que Hinata era sua noiva, já que Hiashi mostrara isso indiretamente durante todo o tempo. Um homem tão tradicional como o patriarca do clã Hyuuga não cometeria a deselegância de dizê-lo de forma direta. Ele tratara do assunto como se fosse óbvio.
Gaara levou a xícara com chá à boca para disfarçar um teimoso sorriso que apenas Neji percebeu.
Ao olhar para o relógio na parede, que marcava seis horas, o horário que havia combinado com Gaara para tratarem do casamento, Hiashi pensou numa maneira de se livrar de Neji e Hanabi educadamente. Eles estavam começando a falhar na tentativa de disfarçar o tédio.
– Neji, meu filho, você não havia me dito que às seis e vinte levaria Hanabi para tomar um ar fresco? – O rapaz tinha certeza que não dissera nada disso, mas concordara imediatamente.
– Hai, Hiashi-sama. Havia esquecido. – Levantou-se estendendo a mão para Hanabi. – Me acompanha, Hanabi-san? Te espero em quinze minutos.
– Claro, Oniisan. – Os dois se despediram formalmente, foram para seus quartos, trocaram-se e saíram pelas janelas de seus quartos para não incomodarem os outros, que agora conversariam mais abertamente sobre o casamento.
Notas finais
Quando a Hinata se mudar para Suna, quem vai ajudá-la a se arrumar? Hum...
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