Doce Pesadelo
56 Capítulo 56
Notas iniciais
POV Ariel
Não consigo nem raciocinar direito, estava com tanta raiva da Madson. Só consigo pensar que não quero ficar nenhum minuto ali e dar de cara com ela, ou com o Caio nesse momento. Mas já estava escuro lá fora, ou seja, não daria para ir ao parque para pelo menos ficar um pouco sozinha e agora?
Olho para meu celular e penso: é isso! Procuro nos contatos e vejo seu nome ali, clico para chamar o telefone.
– Alô? – ele diz com a voz um pouco rouca.
– Posso ir aí? – digo com a voz um pouco trêmula com medo dele rejeitar a ideia.
– Agora?? Não é um pouco tarde?
– Por favor... – minha voz sai baixa quase como um sussurro, sinto uma avalanche dentro do meu peito.
– Ari, você tá bem? O que aconteceu?
– Quando chegar aí te conto.
Desligo o telefone e coloco no bolso.
Não quero ver a cara da Madson nem se tivesse pintada de ouro, então penso que não seria uma boa ideia sair pela porta da frente.
Olho pela janela e noto se a altura é muito grande daqui até o chão, acho que no estado que estou prefiro me arriscar a quebrar o pé, do que ouvir mais asneiras da minha irmã egoísta e babaca.
Tento descer pelo parapeito da janela e me segurar na calha e ir descendo com calma pelo cano. Quase me desequilibro, droga! Paro um pouco e respiro fundo – é melhor do que ficar com a Madson! – e continuo descendo até chegar no chão.
Olho para a janela da sala para ver se ela me viu, mas ela provavelmente ainda está na cozinha. Então simplesmente corro noite a fora.
***
– O que aconteceu? – ele me pergunta visivelmente preocupado.
– Não quero ficar em casa, o clima não está bom! – respondo e sinto meus olhos marejarem.
– Vem, entra! – ele segura minha mão e me puxa para dentro.
A casa de Nathan é grande, sempre fico encantada com o lustre na sala. Eles tinham uma sala de estar e outra sala de jantar.
– Meus pais deram uma saída para comprar comida chinesa para a Melanie, porque se ela pede, eles saem correndo – ele revira os olhos.
– Ah, para! Duvido que eles não façam suas vontades! – dou um sorriso amarelo.
– Não, do mesmo jeito que tratam a princesinha – ele mostra a língua – vem, vamos jogar alguma coisa?
Subimos para o quarto dele, eu tinha vindo aqui na semana passada, mas os pais dele estavam trabalhando e como só estava a Melanie em casa com sua amiga, ficamos na sala assistindo um filme de ação, então eu ainda não tinha conhecido o quarto dele.
O quarto tem as paredes num tom de verde-água, uma cama grande e uma televisão bem na sua frente junto com o aparelho do vídeo-game que estava em uma estante pequena. Na lateral tinha uma escrivaninha igual de escritório para os estudos, e na outra parede o guarda-roupa.
A porta fica meio-aberta, ele olha para mim um pouco envergonhado, mas eu compreendia, pois se os pais dele chegassem e visse a porta fechada e entrasse e eu estivesse lá, seria uma grande encrenca. Eu apenas assinto com a cabeça.
Nathan sentou no chão de frente com a televisão, pegou outro controle e conectou na tela. Aparentemente ele já estava jogando algo.
– Quer jogar Call Of Duty? – ele sorri.
– Eu não sei jogar isso – reclamo.
– Não tem problema, eu te ensino, assim você vai poder descontar um pouco do que você tá sentindo...
– Tudo bem, mas você vai ter que ter paciência, porque não sei NADAAAA...
– Relaxa, eu sou um bom professor – ele pisca.
***
– Uau! Isso é demais, toma aqui seu otário! – digo empolgada enquanto acerto tiros em um dos jogadores.
– Você aprendeu rápido – ele ri – olha só, já é o segundo que você mata!
– Depois da décima vez jogando né, Nate! – reviro os olhos.
– Eu demorei bem mais do que isso para aprender jogar! – ele pisca – Você tá se sentindo melhor?
– Sim, isso desestressa bastante! Adorei! – dou uma risada.
– Você é boa, pode ser minha dupla agora! – ele me cutuca com o cotovelo enquanto segura o controle e tenta matar mais um jogador.
– Há há há, engraçadinho! – mostro a língua e tento pegar o seu controle.
– Ei!! – ele segura forte o controle – Eu te elogio e você está tentando me fazer perder, você faz parte do meu time! Devia estar do meu lado.
– O inimigo pode estar mais próximo do que você imagina – sussurro.
– Ah é? – ele olha com um olhar malicioso – Então toma essa!
Ele começa a fazer cócegas.
– Não Nate! – rio descontroladamente – Para! PARAAA!
– Vai me pedir desculpa?? – ele sobe em cima de mim e segura meus braços magrelos, com que força eu conseguiria sair dessa??
– Tá bom! Tá bom! Vou pedir! – continuo rindo – Sai de cima que eu peço!
– Hmmm – ele me olha desconfiado – não sei não...
– Juro, to sem ar! – digo com dificuldade de tanto a barriga doer.
– Ok! – ele diz saindo de cima.
Me levanto e olho nos olhos deles e assim que abro a boca como se fosse dizer algo, num impulso levanto para sair correndo.
– Ahhh você roubou! Não vai fugir dessa vez! – ele fica boquiaberto e me segura pelo pulso me puxando de volta.
Automaticamente meu bracelete que estava nesse braço se abre e cai no chão.
– Ops! Desculpa não era para ser tão forte assim! – ele diz pegando meu bracelete.
– Tudo bem! – sorrio.
Voltamos a nos sentar no chão.
– O que significa essas iniciais? – ele pergunta curioso.
– É um bracelete que ganhei do meu irmão, é a inicial do meu nome – digo apontando para letra A – e as iniciais dos meus irmãos.
– M de Madson – ele diz – aquela que me ameaçou quando falei que não queria nada com você.
– Sim – respiro fundo – C de Caio, meu outro irmão.
– E esse J? – ele diz me olhando com um ponto de interrogação nos olhos.
Relembro toda a briga que tive com a Madson algumas horas atrás, e que gritei com ela que ela não era a única que sentia falta do Johnny, como se ele fosse somente irmão dela. Eu não falava muito sobre o Johnny, contei para a Emily sobre meu irmão mais velho que morreu, mas nunca contei de fato toda a situação que envolvia sua morte. Estava cansada de guardar isso só comigo, para não prejudicar a Madson, mas ela não pensou duas vezes em estragar meu dia com o ciúmes bobo da Melanie, e porque ela odeia ser contrariada ou que não sejam o que ela acha que é o certo. Ela esperava o quê? Que eu me vestisse como uma rockeira delinquente como ela? Eu nunca gostei do mesmo estilo de roupa que ela gosta de usar. E daí que eu me vestia como uma patricinha, eu gostava dessa combinação.
– Ari?? – Nathan me interrompe dos meus pensamentos.
– Ah, desculpe... – continuo pensando será que seria uma boa ideia contar para ele? Fingir que nada aconteceu ou não falar sobre isso, não apaga da memória. Estava cansada de pensar na Madson e não no que eu sentia... E eu precisava desabafar com alguém! O Nathan, tenho sido a pessoa mais fofa comigo, depois da irmã dele. E me recebeu aqui, uma hora dessas... Não quero mais me sentir sozinha.
– Você tá bem? Se não quiser falar, tudo bem... – ele fala para mim e depois desvia o olhar para voltar a despausar o jogo.
– Não é isso! – respondo rapidamente – Eu... quero contar! Na verdade preciso falar sobre isso.
Ele coloca o controle na cama e me olha pacientemente como se estivesse aguardando eu criar coragem de falar.
– Se eu te contar um segredo, você promete que nunca vai contar para ninguém? – digo com o coração palpitando.
– Claro, Ari! Eu juro! – ele diz cruzando os dedos.
– O “J” é de Johnny – respondo.
Ele me olha sem entender, pois só falei da Madson e do Caio.
– Meu irmão mais velho... morto.
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