Doce Pecado

13 Silêncio


Doce Pecado

Silêncio

Ruídos altos, fortes, pancadas contra as pedras. Peças jogadas ao chão. Estrondos. Caminho pelos corredores, procurando pela origem desses sons, mas é difícil. A cada passo que dou encontro apenas o silêncio, profundo, palpável. O barulho aumenta e a ausência de som se torna mais pesada, sufocante.

Paro em frente a uma porta. Toco-a, tentando empurrá-la. A madeira cede sob meu toque, afastando-se e revelando um aposento bagunçado, cheio de móveis quebrados, papéis espalhados e pedras trincadas. No meio de tudo, há um rapaz. Ludwig permanece ajoelhado, o rosto baixo, as mãos abertas sobre o chão, como se quisessem agarrar algo.

Aproximo-me e toco o ombro de Ludwig. Meu movimento é respondido com o toque das unhas do rapaz em minha mão, cortando minha pele, que logo se cura. Atônito, observo as linhas vermelhas que percorrem o rosto jovem, marcando as bochechas pálidas. As íris douradas brilham como se fossem iluminadas pelo fogo do líquido escarlate.

Tento tocá-lo novamente, mas Ludwig se afasta, o corpo tremendo com o choro contido. Não me movo mais e apenas observo. O silêncio entre nós é tão forte quanto aquele que sentia enquanto fazia minha busca. É como se eu pudesse ouvir um milhão de palavras misturadas e ao mesmo tempo não ouvir nenhuma. Um silêncio que diz mais do que eu posso compreender. Um silêncio que vem dele, de Ludwig.

- Por que chora? – pergunto, ajoelhando-me em frente ao rapaz – O que sente?

Ludwig move a cabeça de um lado para o outro, negando uma resposta. Respiro fundo e, com as duas mãos, toco o rosto manchado com vermelho, sentindo o rapaz tremer sob meu toque. Aproximo meu rosto, encostando minha testa à de Ludwig. Os lábios crispados parecem fazer uma força sobrenatural para impedir que as palavras fujam.

- Apenas diga. – sussurro – Se sentirá melhor se disser o que sente.

Os segundos passam e o silêncio se torna cada vez mais pesado, beirando o insuportável. Ludwig treme demais, fazendo eco a sensação que o silêncio proporciona. Dor, desespero, tristeza. Um suspiro escapa pelos lábios vermelhos, acompanhado de uma única palavra.

- Silêncio. – Ludwig diz, os olhos fechados com força – A presença do silêncio machuca. O que ele diz...

- O que o silêncio te diz? – pergunto.

- Que não poderei ouvir o que quero, que não poderei sentir o que desejo, ver o que almejo... – Ludwig respira fundo – Que o silêncio será minha única companhia durante todo o tempo em que ele durar.

- O que irá durar? – questiono, não entendendo sobre o que Ludwig fala.

- O desaparecimento. – os olhos se abrem, permitindo que eu encare as íris douradas. Íris que brilham com uma força que machuca tamanha é sua intensidade.

- Você não vai desaparecer. – digo baixinho.

Mais uma vez, deparo-me com o medo de Ludwig de desaparecer. Não compreendo como ou por que esse medo existe. Pergunto-me o que poderia fazer com que Ludwig tema tanto a inexistência.

- Você acredita que uma pessoa possa desaparecer e então reaparecer? – ele pergunta, o tom de voz mais calmo, assim como o corpo, que não treme mais – Você acredita que alguém pode renascer?

- Como assim? – pergunto. O “desaparecer” a que Ludwig se refere é a morte?

- Quando uma rosa morre, você acha que ela pode voltar a nascer? – Ludwig continua – Se sim, ela voltará com a mesma cor ou mudará? Uma rosa vermelha renascerá vermelha ou rosa? E uma rosa poderá renascer branca?

- Acredito que... – começo, mas paro. Em que acredito? Nunca parei para pensar na possibilidade de, um dia, renascer. Preso nessa condição que me permite durante muitos séculos, nunca cogitei a opção de morrer, de desaparecer, de deixar essa condição e então voltar em outra. Mas o que me garante que voltarei diferente, que minha condição – minha cor – será diferente? Deus? Ou eu mesmo? Minha alma, minhas pétalas, meu caminho – Acredito que a rosa pode renascer com a cor com que se identificar.

- Então se uma rosa vermelha morre no instante em que alcançou a cor rosa, ela renascerá rosa? – Ludwig pergunta enquanto um fraco sorriso nasce nos lábios finos.

- Sim. – digo – Acredito que você reaparece com a condição que alcançou no momento em que desapareceu.

Ainda sorrindo, Ludwig toca meus pulsos, afastando minhas mãos de seu rosto. Não imponho resistência, deixando que ele faça o que quiser. Um pouco de vermelho ainda permanece na face jovem, misturando-se ao branco da pele, fazendo-me lembrar de algo que Ludwig disse.

- Você disse que eu sou uma rosa que honra o nome que recebeu. – digo e Ludwig assente, confirmando – Por quê?

- Porque você é. – ele responde – Você está no limite da trilha.

- Limite? – pergunto, confuso.

- Sim. – Ludwig responde, soltando meus pulsos e se levantando – Seu caminho está quase completo, padre.

Levanto-me e faço menção de perguntar algo, mas Ludwig não permite. Em silêncio, o rapaz observa o jardim através da janela. A natureza sendo molhada pelas gotas d’água que caem do céu. A chuva não cessa.

- Amadeus? – Ludwig chama. Viro-me e ele continua – Qual é a cor da dor?

Imediatamente, sinto um choque passar por todo meu corpo. A pergunta de Ludwig é a mesma que imaginei ter ouvido Alexis fazer. Meu peito dói, como se estivesse prestes a explodir.

- O quê? – pergunto em um sussurro.

- Ouça o silêncio, padre.

Dito isso, Ludwig sai do quarto, deixando-me sozinho e atordoado. Olho rapidamente para o jardim, vendo a água molhar as pétalas brancas das rosas e é como se eu pudesse voltar a ouvir a voz de Alexis, sentir o toque dela sobre minha pele, sob a chuva. Minha cabeça dói. Todo meu corpo dói como se estivesse sendo comprimido por uma pressão invisível. Uma pressão feita de silêncio.

Saio do quarto, caminhando pelos corredores sem realmente notá-los, o que faz com que minha perna colida fortemente contra um banco de madeira. Caio, segurando a voz em minha garganta. Olho para cima, vendo o altar iluminado por dezenas de velas. Fogo brilhante que ilumina as faces serenas de minhas crianças, adormecidas sobre os bancos.

Lentamente, aproximo-me das velas, apagando-as uma a uma, mas logo percebo que, assim que a chama de uma se extingue, essa mesma chama volta a renascer. Curioso, faço o fogo se apagar e, novamente, ele renasce.

- Gosto quando elas estão acesas. – uma voz diz às minhas costas. Viro-me, deparando-me com o olhar escuro que reflete o fogo das velas, brilho avermelhado que ilumina a face pálida e bela. Estou sonhando novamente?

- Alexis... – o nome deixa meus lábios sem que eu possa controlar.

- Olá, Amadeus.

Notas finais
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