Doce Pecado
18 Escuridão
Amarga Redenção
Escuridão
Um coração feito de vidro que, com um suave toque, quase impossível de ser sentido, é quebrado em mil pedaços. O sangue escapa através dos cortes, deixando o vidro para trás e levando a vida, a essência para algum lugar, muito distante da onde o coração está. Essa é a sensação provocada pela experiência de ser raptado da luz e jogado nas trevas.
Quando você quebra, você anseia ardentemente que algo ou alguém venha te salvar, que uma voz chame seu nome e o desperte do pesadelo em que está preso. E, por mais que eu deseje que seja minha voz a tranquilizar o coração de Amadeus, é a fé dele que o acalma e faz com que a paz nasça em sua alma.
Meus chamados são ignorados, ele foge de mim. Só que não importa o quanto ele me teme, ele não pode escapar de mim. Com meus lábios e meus dentes, eu o marquei como meu e não estou disposta a desistir de tê-lo ao meu lado. Uma tortura amarga, que rouba tudo o que ele possui de belo e valioso. Egoísmo meu? Talvez. Talvez eu seja apenas sádica e adore ver como uma alma pura como a de Amadeus sofre perdida na escuridão.
Se essa é a verdade, há um problema com ela. Amadeus, ao que depender de mim, jamais se perderá. Estarei com ele, guiando-o por este mundo que ele pensa conhecer, até que minha presença não seja mais necessária. A ele, ao mundo e a mim mesma.
Ouço-o chorar e volto meu olhar para o céu, de um azul claro iluminado pelos raios dourados do sol. Pergunto-me quantas vezes ainda o farei chorar e tento imaginar cada lágrima que ele ainda derramará. É triste que não se possa haver aprendizado sem sofrimento e redenção sem pecado.
A porta se abre e alguns homens saem. Posso ver em seus olhos o medo misturado com a reprovação, a recusa em aceitar um deles como sendo um “filho da escuridão”, como eles mesmos denominam.
Ser renegado por aqueles que, um dia, você considerou seus iguais. Eu sei como é passar por isso. Ser visto como algo maligno, algo que não deveria existir. Mesmo que seu coração não tenha mudado, mesmo que, em essência, você ainda seja a mesma pessoa.
Mas os outros não estão interessados em seu coração, em sua essência. A eles só interessa sua aparência, portanto, se você aparentar ser um filho da escuridão, mesmo que seu coração busque desesperadamente pela luz, você será tratado como alguém feito de trevas, sem o direito de defesa ou redenção.
Aqueles que estão na luz, exatamente por estarem nela, julgam precipitadamente qualquer coisa, qualquer ser que apresente o mínimo traço de sombras. Não são todos, é claro, mas não são as exceções que compõem o todo. É por isso que, há muito, parei de me importar em estar nas sombras. Quando você está cercado por elas, você não pode confiar no que vê, somente no que sente. Não que a escuridão seja completamente confiável. A luz também não o é. O perfeito seria encontrar um equilíbrio entre os dois, um ponto onde não importa o que os seus olhos veem, mas sim o que o seu coração vê.
Aproximo-me da porta, abrindo-a sem fazer qualquer barulho e vendo Amadeus observando o próprio reflexo, fracamente iluminado pela luz de uma vela. Com passos silenciosos, caminho até onde ele está sentado, tocando firmemente os ombros cobertos pelo tecido negro da batina e beijando a face relaxada. Os olhos escuros se fecham e a mente parece desistir de lutar contra mim.
Logo, as íris negras voltam a se mostrar e, por um momento, parecem procurar por minha imagem no espelho. Ao falharem, elas se dirigem diretamente a mim, serenas.
- Quem é você? – a voz deixa os lábios finos em um tom baixo, fraco.
- Alexis. – respondo, sorrindo e beijando a boca sem cor.
Solto-o e, sem dizer uma palavra, saio do quarto, esperando que ele faça o mesmo. O som de algumas crianças brincando o traz para fora. Acho que esta é uma boa maneira de mostrar a ele que seu lugar não é mais na pura luz.
Um pouco afastada, observo-o sair sob o sol e voltar correndo, gritando de dor, e logo sendo rodeado pelas pequenas crianças. Vê-las, tão pequenas e inocentes, faz com que uma pálida melancolia nasça em meu coração. Seria muito bom se pudéssemos manter a inocência da infância durante toda nossa vida, ignorando as sombras do mundo, suas falhas e dores, o enxergando como um lugar puro e perfeito.
- Se eu fosse você, ficaria nas sombras por enquanto. – digo, aproximando-me e tocando os cachos dourados que emolduram a face da criança nos braços de Amadeus. Bela menina, de olhos tão azuis quanto o céu sobre nós. – Você ainda teme a luz.
- Andei sob o sol a minha vida inteira. – ele responde sem mais me temer ou resistir, embora fazer isso só o deixe mais confuso – Não temo a luz.
- Não estou falando da luz do sol. – digo, olhando para os antigos colegas de Amadeus que se encontram afastados de nós, o medo ainda em seus olhos – Estou falando do que ela representa.
Amadeus olha para o chão e permanece em silêncio. A fé dele, a essência de sua alma ainda está muito ligada à imagem da luz pura, que vê nas sombras a origem de todos os males. Não estou dizendo que Amadeus deve abrir mão de sua fé agora que foi afastado da luz – não posso permitir isso. Só quero que ele entenda que a escuridão não é inimiga da luz, é seu complemento e agora que ele faz parte dessas sombras, ele deve procurar a origem da luz na escuridão. Da mesma forma que, quando estamos na luz, devemos procurar nela a origem da escuridão.
Quem sabe assim sejamos capazes de encontrar o almejado equilíbrio.
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