Doce Mentira
2 Dúvida
Notas iniciais
Aquela ideia atormentou minha mente, afinal de contas, ela era tão simples e tão cruel. Como distinguir a realidade de um sonho? Realmente existe uma resposta para essa pergunta? Pensar sobre isso apenas trará a loucura para o seu cotidiano. Mas sendo assim, é correto simplesmente evitar e ignorar esse assunto? Seria a ignorância uma benção? Não possuo uma resposta formada para isso.
Eu abri meus olhos respirando pesado e transpirando. Isso se devia ao um sonho que tive. Sonhei que vivia num sonho e ninguém além de mim sabia isso. Era inquietante e doloroso, todos contestavam a minha sanidade. Alguns fingiam acreditar tentando assim me ajudar. Nessa luta para provar meus ideais, eu confrontei a dúvida. Porque havia de fazer aquilo? O que mudaria? Porque tentar mostrar a realidade para aquelas que não querem vê-la?
Mas o pior ainda não era esse. O ápice da dor me alcançou quando eu acordei. Era realmente um sonho. Era doloroso acreditar que eu cheguei a duvidar disso. Era mais doloroso ainda saber que aquelas pessoas não passavam de projeções de minha cabeça atormentada pelas dúvidas:
–Vamos esquecer isso... -Pensei eu me levantando. -É melhor assim...
Olhei para o meu quarto e sentei-me na cama, o despertador iria despertar em minutos e por isso resolvi desliga-lo. As minhas roupas jogados no chão preenchiam o quarto que não tinha nada além de uma mesa, uma cama e um guarda-roupas. Levantei-me novamente e abri o meu guarda-roupas. Peguei o uniforme, me vesti e desci as escadas.
Na cozinha estava meu café da manhã pronto e meu pai sentado na mesa:
–Bom dia, acordou mais cedo hoje. -Disse ele terminando seu café. -É uma pena, eu já tenho que ir. Avise sua mãe para ela não se atrasar!
Ele levantou-se e foi se distanciando. Eu apenas observei a situação e logo em seguida sentei-me na mesa. Não estava com humor para conversar com ninguém. Meu sonho ainda me assombrava. Terminei rapidamente minha refeição matinal e segui para o meu carro. A viagem era entediante como sempre e por isso resolvi explorar a internet através de meu celular. O tempo voou e quando percebi a escola já estava próxima.
Desci do carro e perguntei hesitando:
–Ei, você acha que existe a possibilidade de alguém criar um sonho tão realista quanto a própria realidade?
Não queria ouvir uma resposta que apenas criasse mais medo em mim:
–Não... -Respondeu o automóvel.
Eu suspirei e sorri. No final das contas, tudo aquilo era impossível de acontecer. Estava pronto para continuar o meu dia com o melhor humor possível:
–Isso é impossível para UM humano. -Continuou a máquina colocando ênfase em um.
–Você quer dizer que vários humanos conseguiriam? -Perguntei eu temendo a resposta.
–Uma quantidade maior que cem conseguiria sem nenhuma dificuldade... -Respondeu a voz metálica.
Eu deveria ter ficado quieto. Eu realmente preferia não ter uma resposta para aquelas perguntas. Mas novamente, a curiosidade foi maior e eu abri minha boca novamente:
–E...e...e...todas as pessoas da Terra? -Perguntei eu gaguejando.
–A população mundial seria capaz de criar um sonho mais real que a realidade.
Eu me mantive em silêncio e afastei-me do carro. Já sabia demais e tinha que conviver com isso para o resto de minha vida. Se tudo o que eu imaginei era possível, o que impedia disso estar acontecendo agora? De um momento para o outro, uma mão acertou meu ombro e atrapalhou meus pensamentos:
–Ei, Anderson, porque você está tão quieto? -Perguntou um de meus amigos que caminhava do meu lado. -O Anderson que eu conheço estaria falando sozinho ou fazendo qualquer outra coisa estranha.
Era só o Christian enchendo o meu saco. Sua pele escura e seus olhos castanhos faziam um total contraste com minha pele clara e olhos azuis. Ele vestia o uniforme da escola junto de uma boina cinza. Eu por minha vez, vestia apenas o uniforme da escola:
–Então vai ficar quieto? -Perguntou ele se escorando em mim.
Eu não respondi porque não estava afim de conversar. Ele se distanciou e foi para o lado de outro amigo meu:
–Daniel, o Anderson está normal demais hoje...alguma coisa deve ter acontecido... -Sussurrou ele.
Daniel era um jovem de cabelos loiros, pele clara e olhos verdes que usava uma variação de nosso uniforme que era mais clara. Christian estava à menos de dois metros de distância de mim, ele sabia que eu podia ouvi-lo e estava fazendo isso de propósito:
–Eu sou uma pessoa totalmente normal... -Resmunguei eu.
Daniel colocou a mão no meu ombro e sorriu:
–Não precisa mentir...nós sabemos que não...
–Como assim "não"?
–Cara, na semana passada nós encontramos você na entrada da escola dormindo de pé... -Disse Christian ficando a minha esquerda.
–Eu tinha ido dormir muito tarde na noite anterior...
–Ah, teve aquele dia que você dormiu na escola e quando acordou duas horas depois que as aulas tinham acabado!! -Riu Daniel.
–Maldito faxineiro...se ele não tivesse contado para a escola toda...-Resmunguei.
–Enfim, você é um cara bizarro!
Talvez eu tivesse que concordar. Mas uma coisa nisso tudo era clara, a presença deles me distraiu de meus pensamentos pessimistas. Nós seguimos para a sala e eu precisei compartilhar meus pensamentos com eles. Cutuquei Daniel e esperei sua resposta:
–O que foi?
–Você já pensou que está realidade pode ser um sonho?
Ele virou-se para trás com os olhos regalados e com uma cara de surpresa:
–O que foi? -Perguntei.
Ele voltou-se para a frente novamente e respondeu:
–Não é nada. Mas porque você pensa isso?
–Ainda não sei mas a ideia veio a minha mente e não tem nada que prove o contrário.
–Isso é bobeira sua, cara, você é estranho mas esse é o pensamento mais estranho que você já teve. -Comentou Christian que estava na cadeira a direita.
–Então você estava escutando... -Disse eu me virando para Christian.
–É verdade. -Falou Daniel. -Você não deveria se focar tanto em assuntos sem sentindo, se tem tanto tempo livre assim, porque não estuda para as provas?
Eu sorri:
–Talvez vocês tenham razão...
A noite tomou o lugar do dia e eu alcancei minha casa. Mal havia acabado de comer e eu me preparei para dormir. Não havia dormido bem na noite anterior e essa era a minha chance de recompensar isso. Me deitei na cama e fechei meus olhos, não demorou muito e eu já estava sonhando. Uma hora depois eu abri meus olhos naquela posição de novo. Meu corpo suando, minha respiração estava pesada, meus olhos quase lacrimejavam e meu peito doía.
Eu sabia o que era. Era a dúvida. Era o desejo de descobrir a verdade mesmo que eu me arrependa mais tarde. Era esse tipo de desejo irracional. Eu me levantei da cama, sentei-me perto da mesa, abri o meu livro digital e comecei a absorver todas as informações sobre sonhos. Duas horas mais tarde eu finalmente compreendi as falhas de um sonho:
–Não poder projetar aquilo que não conhecemos, o que significa que é impossível criar algo novo ou desconhecido. -Conclui. -Minha suposições estavam corretas...
Me levantei com pressa e enquanto corria para fora de casa me deparei com um espelho. Olhei o meu reflexo e vi um jovem atormentado e com muito medo. medo de que? Nem mesmo ele sabia. Acabei por perguntar a mim mesmo porque estava fazendo aquilo. Não sabia a resposta:
–Mas talvez indo até o fim disso...eu vá achar uma... -Pensei eu abrindo a porta de casa.
Entrei no meu carro e perguntei:
–Carro, supondo que estamos num sonho, isso explicaria a falta de génios, correto?
–Sim, já que os humanos não conhecem a forma de um génio, seria impossível projetar um. -Respondeu a máquina.
Eu percebi que estava sorrindo:
–Porque estou feliz com isso? Estou feliz porque tenho uma prova de que a realidade é um sonho? -Pensava. -Existe alguma coisa errada comigo...
–O senhor desejaria alguma medicação? -Perguntou o carro. -Minhas checagens confirmaram que o senhor se encontra fora de seu estado normal.
Eu brinquei:
–Existe algum remédio para loucura?
O automóvel pensou por alguns instantes:
–Não, me perdoe mas não existe.
–Entenda o sarcasmo, máquina...
–Desculpe, não possuo tais funções.
–Esquecemos isso. Faça um favor para mim. -Falei enquanto pensava. -Me diga a localização da invenção mais avançada da humanidade?
A Inteligência Artificial pensou por alguns segundos e informou logo em seguida:
–O manipulador de gravidade que ainda está em processo de testes.
–Certo, vamos para lá agora! -Ordenei.
–Sim, mas isso fará com que o senhor perca as aulas de amanhã já que a viagem de ida e volta demorará quatorze horas.
–Não tem problema, vamos logo!
A máquina disparou a correr respeitando os limites de velocidade e eu dormi. Finalmente não fui atormentado por aqueles pesadelos, eu estava me esforçando para descobrir a verdade. E logo eu colocaria um fim nisso. Enquanto aproveitava o meu sono, os avisos do carro me fizeram abrir os olhos:
–Já chegamos, senhor!
Eu desci do carro bocejando e me dirigi para a recepção. O piso, teto e paredes do lugar foram pintados de branco e tudo estava perfeitamente arrumado. Eu me aproximei do balcão e comecei a conversar com a bela recepcionista:
–Com licença, eu sou Anderson Benites, filho de Caio Benites e vim fazer uma rápida inspeção.
A mulher se espantou e não era por menos, meu pai era o diretor das várias empresas que patrocinavam essa instalação e outras. Todos imediatamente começaram a me tratar como senhor e rapidamente me levaram para o manipulador de gravidade. Era uma máquina gigantesca de pelo menos vinte metros de largura. Eu pedi para que fizessem-na funcionar e tudo parecia estar certo.
Obviamente eu não havia vindo fazer só isso. Essa máquina é provavelmente a invenção mais avançada e recente da humanidade, o que significa que o seu interior pode estar vazio. Se pensarmos que nenhum humano conhece o interior dessa máquina, então ela estará vazia.
Eu me aproximei de uma pequena abertura e comecei a abri-la ainda mais:
–Por favor, não faça isso! -Gritou o meu guia.
–Essa reação...talvez ele saiba e não quer me deixar ver... -Pensei. -Mas e se realmente estiver vazio? O que eu farei? Não tenho tempo para pensar nisso...
Abri a abertura de uma vez e me deparei com vários fios, peças de metais e outros. Tudo extremamente arrumado e conectado:
–Não faça isso senão o senhor pode se machucar! -Continuou o guia. -O sistema interno da maquina ainda não está perfeito e podem haver falhar elétricas! Imagine o que aconteceria se você fosse atingido por uma dessas falhas?
Eu não sabia o que sentir, felicidade por minhas suspeitas estarem erradas? Ou tristeza? Eu simplesmente voltei para meu carro cabisbaixo enquanto via o sol nascer. Sete horas mais tarde, eu cheguei a casa e desperdicei o resto de meu dia fazendo coisas inúteis. A noite chegou novamente e eu fui para meu quarto dormir melancolicamente. Mas novamente, os pesadelos voltaram. E eles não iriam me largar tão cedo...
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