Doce Mentira
5 Confiança
Notas iniciais
Entrei na minha casa silenciosamente e apenas me dirigi a minha cama. Não havia muito mais a se fazer também. Estava arrasado. Minha realidade foi virada de cabeça para baixo num segundo. Consegui as provas que eu tanto precisava apenas para finalmente perceber que minha sanidade estava perturbada:
–Pelo menos...agora eu conseguirei dormir... -Pensei eu pousando minha cabeça na cama.
Minha mente ainda estava perturbada. Não sabia se era certo simplesmente aceitar que tudo acabou ou continuar tentando. A dúvida estava impregnada em todo o meu corpo, até mesmo posso chama-la de amiga devido ao tempo que estamos juntos. E dormir assim, mostrou-se impossível...
Então decidi ir ao encontro daquele, que pode ter me salvo mas ao mesmo tempo pode ter destruído o meu mundo. No final das contas, o ponto de vista é tudo o que importa. A casa de Daniel não era muito longe por isso decidi ir andando. Andar durante a noite de certa forma era relaxante. A brisa refrescando meu rosto e apenas a escuridão para me confortar. Mas algumas vezes, a escuridão pode ser mais acolhedora que uma multidão de pessoas.
Com apenas a luz dos postes de iluminação mostrando o caminho que eu deveria seguir, eu cheguei lá sem muitos problemas. Tive certeza de conferir que alguém estava acordado lá dentro antes de tocar a campainha, não queria acordar ninguém. Após o fazer,
alguns segundos se passaram e sua mãe me viu através do interfone:
–Anderson! Já fazia um bom tempo que eu não te via! -Disse ela abrindo o portão. -Vamos, entre! O Daniel está tomando banho.
Eu fiz como o sugerido enquanto me lembrava de vários acontecimentos nostálgicos. Eu costumava brincar bastante aqui quando era pequeno. O jardim, os brinquedos antigos, a gangorra, tudo isso me deixava em paz. Limpei os pés antes de entrar na casa de Daniel e sua mãe veio ao meu encontro:
–Há quanto tempo! -Sorriu ela me cumprimentando. -O Daniel está tomando banho, espere por ele em seu quarto.
–Há quanto tempo mesmo... -Respondi eu. -Já faz um bom tempo que eu não venho aqui...
Eu segui em direção ao quarto de Daniel sem dizer muito até que fui interrompido pela voz de sua mãe:
–Você vai ficar para o jantar? -Perguntou ela. -Porque está quase pronto.
Não havia muito a se fazer em casa por isso decidi aceitar:
–Porque não, não é mesmo? -Respondi. -Vamos relembrar os bons tempos!
Ela respondeu com um sorriso e retornou para a cozinha. A atmosfera da casa de Daniel era muito
diferente da minha, de certa forma, aqui tudo era mais alegre. Como a porta do quarto de Daniel estava aberta, eu apenas entrei. Sua cama estava meio bagunçada, havia alguns cartões de memória jogados pelo chão. Eu peguei um em minha mão e não pude evitar em pensar:
–Isso com certeza é pornografia...
Sentei-me numa cadeira, conectei o cartão de memória ao gerador de hologramas e sussurrei para mim mesmo:
–Vamos descobrir que tipo de fetiches ele tem...
Acessei o cartão de memória e me deparei com algo estranho:
–Kalista Drumon, feminino, estudante. Não parece ter alguma relação com o infrator. Sua família também é absolutamente normal. Seu desempenho na escola é razoável. Tem secretamente namorado um rapaz de outra escola. Probabilidade de infração: 13%.
Podiam ser apenas algumas anotações malucas mas o problema era outro. Kalista Drumon era uma aluna de nossa sala. Eu provavelmente deveria apenas ignorar isso e esperar pelo Daniel mas de certa forma, eu não podia. Peguei outro cartão de memória e conectei ao gerador de hologramas:
–Christian Albergue, masculino, estudante. Tem uma relação de extrema proximidade com o infrator. Sua família também já teve contato com o infrator. Seu desempenho escolar é um pouco acima da média.
Grande probabilidade de ser influenciado pelo infrator. Probabilidade de infração: 75%.
Eu já tinha uma ideia de quem fosse o infrator mas mesmo assim eu precisava ter certeza. Continuei procurando incansavelmente enquanto desejava que aquilo não fosse verdade. Até que aquele nome surgiu:
–Anderson Vieira, masculino, estudante, infrator. Extremamente perigoso, pode influenciar as pessoas a sua volta a se tornarem infratores também. Manter sobre uma forte vigilância. Probabilidade de infração: Incalculável.
Minhas dúvidas estavam corretas...Eu sou o infrator! Mas o que drogas é o infrator? E porque o Daniel sabe tanto assim da vida dos outros? Eu já estava começando a me desesperar quando vi algo um pouco abaixo daquilo que havia acabado de ler:
–Atualização: O infrator despertou. Ele já está tentando cometer uma infração e provavelmente conseguirá. Vou tentar impedi-lo mas não sei se conseguirei, estou solicitando assistência. Tempo estimado para a chegada de reforços: 3 minutos.
Meu coração disparou a palpitar freneticamente. Alguém está vindo...e eles vão tentar fazer alguma coisa comigo...preciso fugir daqui agora mesmo. Aquilo tudo podia não passar de uma brincadeira mas algo dentro de mim dizia o contrário. Algo dentro de mim dizia que eu deveria correr com todas as minhas forças. Foi
quando eu escutei a porta se fechar lentamente em minhas costas.
Alguém tinha entrado no quarto...e eu sabia quem era. Ele colocou suas mãos em minhas costas e disse:
–Ah...você viu demais...
Eu sentia como se suas palavras atravessassem minhas costas como facas. Eu comecei a tremer de medo:
–Q-Q-Quem é você? -Disse eu trêmulo.
–Isso não faz mais diferença...não agora...
Com quem eu estive vivendo esse tempo todo? Quantas máscaras essa pessoa esteve usando durante a sua vida toda? Era só isso que se passava na minha cabeça aterrorizada. Eu me mantive parado e apenas pude ver o contador do tempo de chegado dos reforços se transformar em zero. Eu senti algumas lágrimas escorrerem involuntariamente de meu rosto:
–Acabou...
Mas quando sua mãe abriu a porta, meu coração se encheu de esperança:
–Me salve!!! -Gritei eu acreditando que ainda havia esperanças.
Ele apenas suspirou:
–Olha a merda que você fez...
Antes mesmo de sua mãe ter tempo para responder, ele retirou uma pistola de seu bolso e disparou um silencioso projétil em sua cabeça. Ela caiu sem fazer muito barulho e apenas deixou uma poça de sangue se formar. Lágrimas começaram a escorrer de meus olhos com mais força ainda e eu apenas soltei um grito de desespero:
–Marlene!!!
Como ele pode ter matado a própria mãe? Isso é, se essa for realmente sua mãe. Ela era quase minha família e mesmo assim, ele a matou sem hesitar por nenhum segundo. Eu me levantei irado com sua indiferença e urrei com todas as minhas forças:
–Quem é você???
Ele me acertou com uma coronhada na cabeça e respondeu calmamente:
–Eu já disse que isso não importa mais...
Minha visão foi escurecendo e alguns homens de roupas negras entraram na casa. Eles me carregaram para um carro. Não me lembro muito bem do que aconteceu depois...
Fale com o autor