Doce Inverno
20 Capítulo 20
Notas iniciais
(Escutem: https://www.youtube.com/watch?v=BmErRm-vApI )
O quarto tinha o cheiro dela. Era como se nada houvesse mudado – talvez fosse recente, talvez porque o seu corpo poderia apodrecer em uma caixa de madeira velha e o local continuava intacto.
Entrar naquele quarto foi como um baque. Eu cheirava a flores, água do mar e gente morta. Aquele quarto tinha um cheiro de livros, café derramado na mesa, uma bala podre dentro da mochila e um perfume doce misturado com talco. E, acima de tudo, o cheiro dela. Aquele quarto tinha tudo que era dela. Absolutamente intacto. Até mesmo a cama estava arrumada da forma que ela deixou.
Vi o gato dela subir na cama e se enroscar no travesseiro. Ele miou para mim.
– Damon? – Elena chamou cautelosa atrás de mim. Só o tom de sua voz já me fez resmungar.
– Não, não, eu tenho que te achar. Você tem que ser uma vampira! Isabella! – berrei e mergulhei mais uma vez. Não tinha muito o que enxergar, mas finalmente toquei em seu corpo. A puxei para fora, aliviado. – Graças a Deus, eu não perdi você, eu não perdi você.
Sorri enquanto acariciava seu rosto. Mas sua pele continuava gelada, dura. Seus olhos ainda estavam fechados. Meu sorriso sumiu ao perceber que não havia batimento cardíaco ou circulação sanguínea.
– Não! Bella, Bella amor acorda. – nadei até perto do penhasco novamente e fiz massagem cardíaca, mas não adiantava.
– Temos que alimentar o gato. – Elena tocou meu ombro. Me afastei bruscamente e me aproximei do gato. Antes que ele fugisse de mim, quebrei o pescoço dele. – Damon!
– Ele não viveria, de qualquer forma. – disse baixo enquanto acariciava o pelo do animal morto. – Ele não ficaria bem sem ela.
O peguei e entreguei a Elena. Ele não poderia feder neste quarto, aqui era praticamente um santuário para mim. Havia o cheiro dela, a presença dela continuava aqui, me assombrando.
Elena ainda me encarava com os gatos no braço. Eu retirei os sapatos devagar e me deitei na cama de Isabella. Seu travesseiro ainda cheirava ao seu shampoo, embora fosse fraco. Retirei o pelo do gato dali e me acomodei melhor.
– Damon, não é melhor...
– Sai daqui, Elena. Isso não tem nada a ver com você, não dessa vez.
– Damon...
– Vai embora. – Pedi e fechei os olhos, queria silêncio. Queria me concentrar na presença de Isabella, queria ignorar o vazio que havia dentro de mim.
Estava me sentindo tão vazio que não conseguia sequer pensar em desligar tudo. Eu não poderia fazer isso. Isabella havia me preenchido em tudo, agora eu me sentia vazio, ela havia levado tudo comigo quando não resistiu.
Larguei o corpo com cuidado perto da arvore e telefonei para Stefan, desesperado.
– Ei, Damon.
– Stefan... – solucei. – Eu preciso que mande Alice e Bonnie para cá, agora.
– Ei, o que aconteceu? Você está...
– Ela está morta. Ela não pode estar morta, eu fiz alguma coisa errada.
– Damon, se acalme e me conte agora o que houve. – Ouvi a voz de Elena e coisas se batendo do outro lado da linha. Cheguei o pulso de Isabella. Nada.
– Eu só preciso que venham logo...
Desliguei o telefone e acariciei o rosto de Bella.
– Por favor, esteja viva por favor. Você não pode me deixar...
Mas eu já sabia. Era tarde demais. Isabella tinha morrido antes que meu sangue chegasse em seu organismo.
Elena saiu do quarto após um suspirar triste. Ouvi sua conversa com Stefan, mas rapidamente me desliguei de tudo que acontecia ao meu redor e me concentrei no cheiro dela que sumia aos poucos.
– Nunca estamos prontos para perder alguém. — O antigo psicólogo de Isabella declarou em frente das poucas pessoas que se aglomeravam ao redor do caixão. – A vida é dura, difícil. Não estamos prontos para perder alguém assim, tão rápido. Charlie e Isabella Swan sofreram um acidente de carro e morreram na hora. Infelizmente, os dois se foram e não há nada que possamos fazer.
Ela estava com uma expressão calma. Meu sangue fora o suficiente para curá-la, mas não salvar sua vida. Ela estava com a pele limpa e tão branca quanto a neve, estava com as unhas pintadas, usava um vestido branco e tinha as mãos sobre o peito. Ela estava tão pálida e tão morta que me lembrou o Inverno quando a conheci. Foi a época fria mais doce da minha vida, e tantas coisas ocorreram depois que eu queria me congelar na neve e simplesmente ficar lá.
Não podia me mexer, mal conseguia respirar. Stefan e Elena me guiavam para todos os lugares, mas eu ficava parado, entorpecido. Via, mas não prestava atenção. As coisas não entravam exatamente por meus ouvidos, eram apenas barulho distante. Eu podia ouvir o mar, a batida de carro e o seu grito de dor.
O resto não me importava.
Ela estava morta.
Eu sentia minhas veias rasparem uma contra a outra, sentia que precisava de sangue, minha gengiva gritava de dor. Eu estava com sede há alguns dias, podia sentir o sol queimar meus pés e depois o vento o refrescar. Eu estava com dificuldade para respirar, meu coração doía para bater. Recusava qualquer gota de sangue que me ofereciam, estava a beira de finalmente dormir. Sem sonhos, sem tormento. Apenas adormecer e esquecer que não fui rápido, forte e cuidadoso o suficiente.
Isabella estava morta e eu sentia que era minha culpa. Por ser culpado, eu não poderia morrer também. Mas isso não me impedia de tentar.
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