Doce Ilusória

5 O incidente maluco do dia


Notas iniciais
Comentem, e eu posto outro :D

Olho mortificada para um Calvin que tentava parecer furioso, mas na verdade, estava a poucos minutos de cair em uma gargalhada que acordaria a todos nessa porcaria de casa.

— Cala a boca! — E para complementar meu estado crescente de ira, empurro Pedro para longe de mim. O resultado não poderia ser pior. Ou melhor.

Graças ao chão molhado, ele desaba rumo ao chão, e o barulho que se segue é um tanto preocupante.

— Você está bem? — Pergunto com medo de tê-lo aleijado. Mamãe me mataria.

Ele geme de dor.

Calvin passa voando por mim, e o ajuda a se levantar. Atira-me um olhar de advertência enquanto permite que Pedro se apoie nele.

— Samara, dessa vez você foi longe demais.

Tento parecer arrependida, mas tudo o que encontro é uma expressão de descaso, nada apropriada para a ocasião.

Pedro me fuzila com os olhos.

— Garota, você é uma psicopata.

Cruzo os braços e me encosto contra a parede.

— Você não pensava isso enquanto me apalpava no chuveiro, ou quando tentou me beijar e suas mãozinhas perdiam o controle. — Sorrio de forma sarcástica. Ok, eu menti, como se pode notar, mas o que seria a vida sem uma pequena sementinha da discórdia?

Calvin olha de mim para Pedro, tentando escolher em quem acreditar.

— Mentirosa! — O garotinho está em um tom semelhante ao tomate, e parece a ponto de explodir. Tadinho.

Olho para minhas unhas enquanto finalizo a conversa.

— Querido, só você sabe o que aconteceu e o que queria fazer acontecer. — Dou uma piscadela e saio do banheiro, finalmente desistindo do banho. Já estava muito bem acordada.

Atravesso o corredor e entro em meu quarto, e só então lembro de que não há roupas minhas aqui. Mesmo assim, vou até o guarda-roupa, e quando o abro, surpresa é eufemismo.

Mamãe provavelmente deve ter me confundido com uma boneca, o que é ridículo, pois eu estaria mais para a esposa do Chuck, e não uma Barbie. Mesmo assim, lá estavam vários vestidos que eu só usaria em casamentos ou velórios, todos bem alinhados no guarda-roupa de espaço considerável.

E nem uma roupa que eu poderia usar no momento.

Isso só é mais uma prova de que esse casamento é um erro completo. Vejam só, ela está enlouquecida! Eu precisava pôr um ponto final nessa história o quanto antes.

Não estava a fim de andar seminua pela casa, embora a maior parte dos moradores já tivesse me visto assim, mas ainda havia o paizão do ano. Olhei para todos aqueles tecidos, e meu dilema sobre qual usar durou alguns minutos. Escolhi um tomara que caia tão comprido, que era possível fazer uma cortina com ele. O tecido, fino e macio, parecia extremamente caro. O pensamento me agradou, enquanto usava os dentes para começar a rasgá-lo. Depois puxei com as mãos mesmo, até que ele ficou em um tamanho adequado.

Tirei o sutiã molhado, assim como a calcinha. Por sorte havia uma gaveta com peças íntima, todas de renda com bordadinhos frescurosos. Escolhi uma peça qualquer, e após colocá-la, apanhei o vestido do chão. Puxava para um azul turquesa, e por um leve momento senti remorso por tê-lo destruído. Que logo passou, sinto o dever de acrescentar.

Sacudi meus cabelos, que se tornaram um ninho de passarinho. E, diga-se de passagem, um passarinho que curte as folhinhas estreladas.

Saio correndo do quarto, de pé descalço, quase levando um tombo na curva do corredor. Vejo uma mulher na minha frente, aquela tal governanta, se não me engano. Luto contra a minha memória para tentar me lembrar de seu nome, mas minha mente continua em branco.

— Oi. — Complemento com um sorriso aleijado.

Ela olha para mim todinha de uma forma crítica, coisa que não me agrada nem um pouquinho.

— O café já foi servido, estão todos lhe esperando.

Nesse momento Pedro surge ao seu lado, como se tivesse sido conjurado por um mago idiota. Ele manca levemente, e quase lhe peço desculpas sinceras, mas acabo mordendo a língua no último momento.

— Todos? — Ergo uma sobrancelha para a mulher. Ela me ignora, e volta por onde veio, me deixando sozinha com o despacho de encruzilhada.

— E aí, tá doendo muito? — Tato e discrição nunca foram qualidades minhas.

Seu olhar é de raiva. Que dó, ele está brabinho.

— Qual é o seu problema? Sério, você por acaso é uma doente mental?

— Cuidado, eu posso acabar me ofendendo assim. Ninguém nunca usou xingamentos tão ridículos comigo antes.

— Ótimo, ofenda-se. Morra disso.

— Ótimo. — Rebato, meus olhos faiscando.

Continuamos assim, nos encarando. Até que seu olhar abaixa para a bainha do vestido feita manualmente e para meus pés descalços. E então seus olhos sobem até meu cabelo bagunçado. Sinceramente, ele estava começando a me irritar.

— Você nem é capaz de ter a aparência de uma dama, quanto mais se portar feito uma.

Eu. Não. Acredito. Que. Ele. Disse. Isso.

Filho de uma mãe adoradora de pasto.

— O que é, agora o meu jeito de ser interfere no fato de eu ser uma garota, é isso? Pois escute aqui, seu abobado. — Chego perto dele, cutucando-o no peito. — Você é um merdinha, e aposto que nem homem é capaz de ser. E nunca, nunca mais ouse falar assim de mim, está entendendo?

Ele apenas me encara, aumentando ainda mais a minha raiva. Qual é a desse idiota?

— Se você está tão ofendida, é porque há um fundo de verdade no que eu falei. E quanto ao fato de eu ser ou não homem, isso não é da sua conta.

Abro um super sorriso Colgate. Essa última frase não foi nada inteligente, lamento informar.

— Não é da minha conta, é? Pois então, Pedrinho, me diga, prefere os morenos musculosos ou os loirinhos quietinhos?

Vejo-o travar a mandíbula, como se o meu comentário o tivesse ofendido mais do que gostaria de demonstrar.

Mal posso acreditar no que o retardado fez em seguida.

Empurrou-me contra a parede, o que me fez duvidar de sua aparente dor nas costas. Cobriu a minha boca com a sua de forma bruta, precisando abaixar um pouco o rosto, por ser uma girafa perdida. Não conseguia respirar, o jeito que ele me apertava e beijava era possessivo, avassalador. Não correspondia o beijo, mas não fiz nada para afastá-lo.

Provei de sua boca, sentindo todos os ângulos de seu corpo contra o meu. E tão abruptamente quanto começou, ele se afastou, deixando-me extremamente confusa. Outro eufemismo.

Ele ofegava quando se aproximou do meu rosto, que agora estava virado para o outro lado, encarando um vaso de flor.

— Prefiro as ruivas que se escondem debaixo de uma camada roxa de rebeldia.

E se afastou. Meus olhos estavam arregalados, e meu corpo, completamente inerte.

Ele estava brincando, certo?