Doce Ignorância

2 Capítulo 1


Hoje é meu aniversário, e eu não me sinto nem perto de feliz.

Rodrigo se foi.

Ele era a única família que eu tinha, ou pelo menos foi o que chegou mais perto disso.

Fui ao seu quarto hoje pela manhã pois achei estranho ele não ter se levantado antes de mim, como era de costume. Assim que entrei, eu o vi deitado em sua cama, imovel, parecia estar mergulhado no sono profundo, então fiquei ali observando por poucos segundos como aquele senhor de idade parecia tranquilo e em paz, e como suas marcas de preocupação pareciam ter desaparecido da face. Enfim quando tentei acorda-lo foi que entendi a razão da paz aparente, Rodrigo estava gelado e com o corpo rígido, havia morrido durante o sono.

Minha primeira reação foi a negação. Eu não acreditei em sua morte, chequei seu pulso algumas vezes, e chamei um medico, achando que ele poderia me dizer algo diferente do que eu havia constatado. Ele não disse. Eu ainda não estava acreditando quando seu corpo foi levado, e nem quando dei o ultimo adeus em seu velório. Um péssimo velório, não que velórios costumem ser bons, mas, este em particular foi pior, não havia familiares nem amigos pra chorar sua morte. Eu era a única ali, e apesar de tudo, não chorei. Talvez porque não acreditava... Vê-lo ali no caixão, parecia tão absurdo, não era o lugar dele, tive de resistir ao impulso de tira-lo dali e tentar acorda-lo novamente.

Quando cheguei em casa não aguentei ficar por muito tempo, apenas tomei um banho troquei minhas roupas e fugi dali o mais rápido que pude. Eu não saberia explicar porque tomei essa atitude, pois por mais que eu tivesse um grande afeto por aquele senhor, não chegava ao ponto de ficar inconsolável, e ainda assim eu estava sofrendo muito. Eu sabia que ele era um homem velho e que logo partiria, mas nunca imaginei que sofreria tanto com isso, não imaginava a falta que ele me faria, se alguém me dissesse a alguns dias eu estaria assim tão transtornada com a morte de alguém, bom, eu teria achado isso uma ótima piada.

Caminhei sem parar ate meu corpo pedir clemencia, nessa hora eu havia acabado de subir uma passarela então resolvi ficar por ali mesmo e descansar , me sentei no chão, escorei na grade, e fiquei observando o sol se por enquanto ouvia apenas o barulho dos carros passando por baixo da passarela e a minha respiração ofegante, senti uma gota de suor escorrer da minha testa, fechei os olhos e fui controlando a respiração aos poucos. Enquanto esperava meu coração voltar a bater em seu ritmo normal uma lembrança surgiu.

Estávamos eu e mais oito crianças deitadas em pedaços de papelão e cobertas com cobertores surrados, eu não estava triste, na verdade estava alegre, eu tinha encontrado um lugar, uma família. Era tarde na noite mas quase todos estavam acordados, conversando. Tínhamos achado um bom abrigo aquela noite, Ana e eu tínhamos achado, e estávamos muito orgulhosas disso. Era um beco entre dois galpões, e a maior parte era coberta pelo teto destes, então estaríamos protegidos do vento e da chuva aquela noite.

Naquela noite Ana e eu ficamos mais afastadas do resto das crianças, num canto onde a luz dos postes não chegava. E nós vimos tudo. Vimos e não pudemos fazer nada se não olhar em silêncio, um grupo de homens com os rostos cobertos chegarem e incendiarem tudo ali.

Eu não entendi quando eles chegaram e jogaram um liquido ao redor das crianças e sobre elas, e aquelas que entenderam não tiveram tempo o bastante pra correr, logo as chamas estavam engolindo tudo, e tudo que se ouvia era o crepitar do fogo e os gritos aterrorizante dos nossos amigos sendo queimados.

Abri os olhos e vi o fim do por do sol, com os gritos ainda ecoando na minha cabeça, respirei fundo uma vez , guardando aquela lembrança no canto mais profundo da minha mente e me assegurando de que ela não voltaria. Me levantei num pulo e me virei pra voltar pra casa, comecei a caminhar mas parei, pois pensei ter ouvido alguém chamar meu nome. Fiquei parada algum tempo pra ver se ouviria novamente.

–Lou. — me virei, e vi o Dan vindo do outro lado da passarela, acenei pra ele e escorei na grade esperando ele me alcançar. Dan é um dos meus poucos amigos, e meu preferido depois da Ana. E Lou é diminutivo de Louise, não gosto do nome então adotei Lou.

Ele chegou ate mim e me cumprimentou com um selinho.

– Eai, tava fazendo o que aqui?

– Tava dando um tempo. -dei de ombro e começamos a descer a passarela.

– Tempo de que? — Saímos da passarela e fomos em direção a minha casa.

– Sabe o Rodrigo? Aquele senhor, meu tutor... Sobre quem te falei a um tempo?.. Ele morreu hoje, e eu não tava afim de ficar em casa depois disso. -Dan segurou meu braço e olho pra mim.

– E como você tá?- Ele me olho preocupado.

– Relaxa, vou ficar numa boa, só sai porque aquela casa é muito grande pra ficar moscando sozinha.

Ele assentiu, e ficamos em silencio durante metade do caminho ate a minha casa, acho que porque ele pensou que eu queria espaço, ou que eu não queria dividir minha dor, sei lá. Dan é minha amizade mais recente, então ele ainda tem algumas coisinhas pra aprender sobre mim. Quando estávamos quase chegando eu tive uma ideia.

– Dan.

– Fala Lou.

– Vamos abrir a casa, avisa a Ana.

Ele entendeu e talvez por isso tenha ficado confuso.

A casa, na verdade é uma boate que Ana e eu abrimos, é mais um hobbie que um negocio, mas... Um hobbie que deu certo, é a melhor da região. Graças a imaginação fértil da Ana, as baladas dela são originais, e as mais loucas que eu já vi. Todos ficam sempre ansiosos pra saber quando vamos abrir de novo. Porque não temos dia nem hora pra abrir, e fazemos isso quando da vontade, e pode ser em qualquer dia e a qualquer horário, segundo Ana, isso deixa as coisas mais divertidas.

Eu não sou a maior fã de baladas, mas estava precisando relaxar, ainda mais porque as memorias da minha infância resolveram voltar sem motivo aparente e eu não estava mais aguentando.