Doce Coração Assassino
1 × Capítulo 1 ×

Música. Foi assim que Daryl Dixon percebeu que tinha recuperado a consciência. Alguém cantava uma música country. E aquela melodia lhe parecia familiar.
— Oh-oh, it's sad but true, love is never enough… And after just a few months, we are not immune…
Seus olhos foram abrindo devagar, resistindo aos poucos a claridade que a lareira provocava. Estava deitado numa maca sem acolchoamento. Alguém tinha tirado todas as suas roupas e velado sua virilha com um pedaço de pano. Ele moveu os dedos. Estava fraco e sentia câimbra nas extremidades. Arfou tentando se reerguer. Percebeu que estava preso. Sua boca estava amordaçada e sua cabeça, pulsos, tornozelos e tórax tinham sido bem amarrados por fivelas grossas. Onde estava?
— Oh, você acordou!
Uma mulher apareceu em sua frente. Ela vestia roupas estranhas, como se não fossem dessa época. Seja quem fosse, ele tinha que sair dalí. Quem era ela? E o que ela poderia fazer com ele? Seria alguém do bando da Alpha?
— Calma, calma! Você não vai pra nenhum lugar assim.
Daryl moveu lentamente a cabeça. Sua visão ainda estava turva, mas percebeu que perto dele tinha uma bandeja com um arsenal cirúrgico. Estavam sujos com... seu sangue?
— Precisei te sedar duas vezes. Homens como você não são fáceis de domar, não é, querido?
Ele percebia que estava em uma casa de madeira. Cheirava folhas e... lírios?
As janelas estavam fechadas, mas ele sabia que já era noite. Quanto tempo estava desacordado? Sua pele tinha um frescor. Ela devia ter o banhado enquanto dormia. Até o seu cabelo não parecia estar oleoso. Sabia que aquilo o desnortearia. Quem o deixara assim?
— Quem é você? – Perguntou ele.
Ela sorriu. Um belo e doce sorriso pueril. E aqueles olhos. Tão azul quanto o céu podia ser após uma tempestade, mas tão frios quanto uma noite chuvosa.
— Essa cicatriz ficou muito linda – disse a estranha.
Daryl percebeu que ela olhava para sua cicatriz próximo ao peito, uma marca que ele sempre fez questão de esconder a qualquer custo das outras pessoas.
Daryl tinha cicatrizes ao redor do seu corpo. Boa parte delas ele havia adquirido antes do apocalipse, e isso ele devia ao seu pai. Entretanto, existia uma que ele jamais esquecera. Mesmo estando quase inconsciente naquela noite, a gargalhada doentia de quem tinha feito aquilo ecoou por muitos pesadelos seguidos. Depois de 20 anos, aquela cicatriz em forma de coração não lhe causava mais arrepios... Até aquela mulher comentar.
Ela voltou a cantarolar. Era uma música que lhe soava estranhamente familiar.
— Oh-oh, we used to stay up late. Starin' in each other's eyes. Now I'm wakin' early to call you up and apologize…
Daryl voltou a dormir. Ele ainda sentia fortes dores na sua perna. E quem quer que fosse aquela estranha, ele não teria forças para resistir.

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