Do trono ao cadafalso
37 Capítulo XXXVII
Notas iniciais
"Há alguns dias noto olhares estranhos de minhas aias sobre mim. Minha Corte jamais esteve tão mórbida. Meus amigos se ausentam cada dia mais, o silêncio persiste em se instalar em cada cômodo... Eu sinto como se todos ao meu redor escondessem algo de mim, como se soubessem de algo que eu não sei (...)."
Sakura não via Suigetsu há cerca de duas semanas, desde o constrangedor episódio que aconteceu na frente de Shikamaru. Notava que Karin sentia falta do homem que seria seu marido um dia, e Sakura considerava essa ausência um pouco estranha.
A Rainha jogava cartas com uma de suas damas, sentada próxima à uma grande lareira a fim de manter-se aquecida naquela fria manhã.
Notou o som de passos cada vez mais nítidos, então logo seu primo, Gaara, estava em sua presença.
– Majestade. — O ruivo fez uma reverência.
Ele parecia afoito, perturbado com algo.
Sakura olhou para suas aias de modo que elas imediatamente compreenderam a ordem para que deixassem a Rainha sozinha com seu primo.
– Aconteceu alguma coisa? — Indagou seriamente assim que as damas de companhia se retiraram.
– Majestade... Sakura... — Respirou fundo — Estou com medo. Algo está acontecendo?
– "Algo"? — Uniu as sobrancelhas.
– O Rei adiou sua viagem para o exterior, e anunciou que irá sozinho.
Os olhos esverdeados se arregalaram em completa surpresa.
Sakura viajaria com o marido na próxima semana, estava tudo resolvido. Mesmo que houvessem motivos para um adiamento da viagem, por que Sasuke não levaria sua Rainha consigo? Ele iria à Corte de um país aliado como convidado, como prova de amizade entre os dois países, a cortesia dizia que a consorte do Rei deveria estar presente.
– O Rei não pode fazer isso. — Sakura disse com raiva.
– Ele está decepcionado, por algum motivo. — Gaara falou preocupado — Sakura, alguma coisa está acontecendo.
A respiração da Rainha começou a descompassar. Ela não podia crer que após tanto tempo estava perdendo o favor do Rei.
Estava com um péssimo pressentimento.
– Ordene que me preparem a carruagem. — Sakura falou com a voz firme.
Gaara assentiu e fez uma reverência antes de se retirar, deixando para trás uma Sakura preocupada.
A Rainha ordenou que suas aias a preparassem para a viagem. Lhe foi colocado um vestido marrom escuro, com poucas aplicações de pedras; Os cabelos foram presos e sobre sua cabeça foi colocado um chapéu na mesma cor do vestido.
– Majestade... — Karin falou aflita com sua senhora enquanto as outras aias no quarto arrumavam os vestidos que Sakura queria levar na viagem.
Karin temia por sua Rainha. Mais do que isso, Sakura era sua amiga.
– Karin, envie uma carta para minha mãe. — Sakura disse com a voz firme — Diga que eu quero ver minha filha. Peça para que levem Sarada para a Corte do Rei ainda hoje.
– Sim, Majestade.
Enquanto suas damas de companhia e seus pertences eram levados de carruagem para a Corte do Rei, Sakura montou num cavalo de pelagem escura e foi na frente, podendo cavalgar mais depressa, e, portanto, chegou primeiro.
Quando a Rainha foi avistada, lhe permitiram a entrada no castelo e alguns criados que cuidavam do estábulo lhe auxiliaram na descida do cavalo.
Por conta da quantidade de camadas por baixo dos volumosos vestidos, era deveras complicado para uma mulher subir e descer de um cavalo. Havia uma sela especial apenas para as mulheres.
– Onde está meu marido? — Ela questionou afoita para um dos empregados.
– Creio que esteja no jardim, Majestade.
Sem ao menos agradecer pela resposta, Sakura virou as costas e andou apressadamente à procura de Sasuke.
Podia parecer um motivo banal, mas o monarca jamais tomaria a embaraçosa atitude de viajar para a Corte de um amigo sem a presença de sua consorte. Mesmo que Sasuke tivesse uma amante titular, em algumas ocasiões a Rainha não poderia ser simplesmente substituída.
Há vários dias não via o Rei, não havia como responder por ele, como dizer o que se passava por sua cabeça.
Estaria o soberano enlouquecendo? Sakura realmente chegou a considerar isso, mas temia mais por si do que por ele.
Encontrou o marido caminhando pelo jardim. Quando viu a Rainha, Sasuke não esboçou reação alguma, era como se Sakura sequer estivesse ali.
Ela se aproximou, parecia desesperada enquanto Sasuke mantinha-se numa frieza assustadora.
– Majestade. — Mostrando-se submissa, Sakura se curvou diante do Rei — Não compreendo por que está desgostoso com a minha pessoa. Chegaram aos meus ouvidos notícias desagradáveis, de que viajará sem mim. — Ela abaixou o olhar, demonstrando o quão abalada estava — Se de alguma forma o Rei está insatisfeito comigo, suplico que conversemos abertamente... Como marido e mulher.
– Como marido e mulher? — Sasuke falou de forma que soou enojada — Claro. — Ironizou.
Ele virou as costas na intenção de sair dali e encerrar aquele assunto, mas Sakura segurou forte em seu braço.
– Não, diga-me! — A mulher implorou — O que eu fiz de tão grave para ser tratada dessa forma?
– Solte-me, Sakura! — Ordenou.
– Não! — Disse em desespero — Sasuke, por favor! Eu sou sua esposa... Por que me excluir dessa forma?
Sasuke a encarou por cima do ombro, seu olhar era gélido.
– Eu sou o Rei. — Respondeu duramente — Não questione minhas decisões.
Sasuke puxou seu braço e seguiu seu caminho, enquanto que Sakura permaneceu estática. Não sabia o que fazer, não sabia o que estava acontecendo. Nunca enfrentou tantos problemas em seu casamento.
Aquele já não era mais o Sasuke de outrora... Não era. Seus sentimentos por ele também não.
Sakura decidiu não insistir no assunto com o Rei. Embora estivesse abalada, sabia que Sasuke estava mudado desde a febre que quase tirou sua vida. Todavia, ela não imaginava que a situação ia muito além disso.
...
No dia seguinte pela manhã, Sakura assistiu a um torneio de Justas acompanhada do marido, ambos agindo como se nada tivesse acontecido, mas a frieza entre o casal era nítida.
O Rei, por ordens médicas, estava proibido de participar dos torneios, mas nada o impedia de assistir.
Aquela posição de expectador era humilhante para Sasuke. Tais torneios iam além de um esporte praticado pelos homens, era uma demonstração de virilidade e coragem, e o Rei sentia prazer em derrotar quantos oponentes conseguisse. Mas agora, nas atuais circunstâncias, seria insensatez de sua parte vestir uma armadura e pegar uma lança para encarar uma Justa.
Os oponentes, trajando armaduras completas, subiam em seus cavalos. Segurando uma grande lança num braço e um escudo no outro, os homens cavalgavam rapidamente um em direção ao outro, na intenção de derrubar o oponente com a lança.
Era um esporte perigoso, e os expectadores aplaudiam de maneira eufórica o vencedor assim que um dos oponentes era derrubado do cavalo.
Muitos dos participantes ficavam severamente machucados. A força da lança de madeira sobre o corpo do oponente, dada a velocidade do cavalo, era extremamente forte.
A saúde do Rei era de extrema importância para o país, e a única herdeira de Sasuke ainda tinha três anos de idade. Os médicos concluíram que o corpo do monarca ficara consideravelmente mais frágil após a febre, portanto uma Justa seria muito perigosa para ele.
Enquanto o casal assistia aos torneios, Sakura notou que um homem se aproximou de Sasuke e cochichou algo em seu ouvido. O monarca assentiu, então imediatamente se levantou, nesse momento a Justa parou e todos fizeram uma reverência, logo em seguida o moreno se retirou.
Sakura permaneceu ali, assistiu os torneios até o fim, mas se perguntava o que de tão importante poderia tirar Sasuke dali, visto que ele era completamente apaixonado por tais torneios.
Quando a Rainha se recolheu, pôde desfrutar da companhia de Sarada. Há semanas não a via, a saudade corroía suas entranhas de forma dolorosa.
Mãe e filha estavam no grande salão de audiências, onde o Rei recebia embaixadores e súditos. Estava vazio naquele momento, e Sakura brincava com a menina.
– Quer experimentar seu futuro trono? — Sakura perguntou para a filha, encarando o trono do Rei.
– Quero. — Sarada assentiu sorridente.
– Então vá, caminhe até lá. — Estimulou a rosada — Erga sua cabeça, como uma Rainha rumo à sua coroação.
Sarada caminhou sorridente e de cabeça erguida em direção ao trono de seu pai, subiu três degraus e sentou com um pouco de dificuldade naquela grande cadeira que era um pouco alta e grande demais para seu pequeno corpo.
– Olha, mamãe! — A menina dava risadas gostosas, balançando as perninhas que ficavam penduradas para baixo.
– Oh, que bela Rainha! — Sakura falou encantada — Venha cá, criança.
Sarada quase pulou do trono e desceu com cuidado os degraus, então correu até onde estava sua mãe.
A Consorte segurou na mão de sua filha, então ambas caminharam juntas para perto do trono do Rei e sentaram lado a lado no primeiro degrau.
– Sabe de uma coisa? — Sakura indagou com um sorriso no rosto.
– O que, mamãe?
O brilho infantil nos olhinhos negros de Sarada era algo que encantava sua mãe.
Uma menina tão doce, pura e inocente.
– Um dia você sentará nesse trono como Rainha. — Sorriu — Você irá pacificar este país.
– Eu vou?
– Vai. — Assentiu — Será uma Rainha sábia e justa. Será maior do que seus antecessores. Honrará o sangue que corre em suas veias. Minha filha, você será a pessoa mais importante e mais poderosa deste país.
Sarada sorriu. Não compreendia as palavras de sua mãe, mas sorriu apenas por estar na presença dela.
As duas adoravam os raros momentos em que estavam juntas. Sakura sentia por não poder estar sempre ao lado de sua filha tão amada.
Após um aborto, um filho que morreu com poucos dias, uma filha prematura nascida morta, uma gravidez fantasma, isso tudo somado aos seus recentes problemas conjugais, Sakura sentia que Sarada era a única alegria de sua vida.
Sons de passos se fizeram presentes no grande salão, então Kabuto apareceu diante da Rainha e da Princesa.
Sakura se levantou do degrau e deu alguns passos para frente, ficando próxima daquele homem que possuía uma enorme confiança por parte de Sasuke.
– Majestade. — Kabuto fez uma reverência — Tenho ordens para levá-la até a Torre Sangrenta.
O coração de Sakura se apertou. Há séculos aquela Torre era destino dos traidores, palco das piores torturas e execuções.
– Por quê?
– Majestade, as ordens são apenas para que a senhora seja levada à Torre. — Respondeu.
– Mas eu sou a Rainha! — Ralhou entre dentes, furiosa.
– As ordens são do Rei.
Sakura estava com medo, mas não deixava transparecer.
– Isso é algum tipo de teste? — Ela questionou desconfiada.
– Apenas me acompanhe.
– A Rainha está sendo presa? — Riu sem humor — É isso?
Kabuto assentiu, para a infelicidade da mulher.
– Vamos. — O homem chamou.
Numa atitude desesperada, Sakura correu até sua filha e a pegou em seu colo.
– Sarada... — Sakura abraçou forte a menina que não compreendia o que estava acontecendo.
Não sabia o que havia feito para que o Rei emitisse uma ordem de prisão a ela, mas inicialmente pensou que pudesse ser algum tipo de teste.
No fundo, estava com medo.
– Majestade... — Kabuto tocou no ombro de Sakura, então ela o encarou com os olhos tristes — Temos que ir.
Sakura assentiu, então colocou a Princesa no chão.
– Seja forte. — Sussurrou no ouvido da filha, em seguida deu um beijo em sua bochecha — Eu amo você, Sarada.
Então Sakura acompanhou Kabuto rumo ao seu destino final. O destino conspirava da maneira mais cruel possível contra ela, e a partir dali seu fim estava traçado.
Sakura acenou para Sarada, e caminhava olhando por cima do ombro até que perdeu a menina de vista.
Aquela foi a última vez que mãe e filha se viram.
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