Não sei que caminho seguir, então não vou a lugar nenhum

Eu meio que gosto da minha vida bagunçada, então por que eu deveria me importar?

Meus amigos me chamam de Casper porque eu os ignoro o tempo todo

Minha pele é como alabastro porque o sol nunca brilha em mim

Quero ser, quero ser solitário

Casper — Robert Grace


O som saía alto de seus fones de ouvido enquanto ela girava lentamente da sala para a cozinha, não havia o medo que fosse vista, porque as janelas, único meio que ela possuía para ver o mundo lá fora, agora estavam fechadas, com as grossas cortinas impedindo a luz fraca do fim da tarde de iluminar o ambiente. Às vezes tentava dar pequenos pulinhos e girar com as mãos em cima da cabeça como uma bailarina, para logo em seguida se esbarrar com a quina do sofá e desandar a rir, a música ainda estourando em seus ouvidos.

Em questão de minutos ela começou a fingir que tocava um lindo violino transparente e cheio de brilhos, mesmo que jamais tenha encostado em um, mas a música pedia e não seria ela que negaria o pedido feito pela música, então parou por alguns segundos para prender seu cabelo tingido de castanho-claro em um rabo de cavalo no topo da cabeça, sem se incomodar com os fios que se desprendiam e roçavam em seus ombros, e logo voltou a rodopiar.

Ela tentava reprimir o riso que escapava de seus lábios, fazia tanto tempo que ela não parava apenas para ouvir uma música e dançar sem olhares de julgamento, bem, não é como se ela fizesse qualquer aula de dança também, poucas pessoas sequer sabiam sobre esse seu gosto para a dança, mas ali estava ela, sentindo o mundo pela ponta de seus pés e se imaginando em um grande palco, o barulho animado e ensurdecedor de milhares de vozes que faziam seu corpo vibrar, a luz ali não a incomodava, também não incomodava os possíveis olhares de julgamento e a falta de ar, só haveria ela e seus sonhos, que nada tinham relação com a música, mas por alguns minutos ela tentou se imaginar seguindo aquele caminho estranho e era bom fingir ser uma cantora ou dançaria prestigiada.

Mas no último rodopio onde pararia em uma triunfante pose seu celular tocou ruidosamente a assustando de tal maneira que seu pé encaixou na dobra do joelho e, se já não esperasse tal acidente e posicionasse rapidamente suas mãos junto a peito, sua testa estamparia um grande e chamativo galo, não é como se alguém fosse vê-lo, mas ela passaria em frente a algum espelho enquanto limpasse a casa, e se estressaria com sua falta de jeito.

Enquanto respirava fundo e controlava sua palpitação ela rapidamente pegou seu celular e contou até 10 antes de encarar o visor, respirando aliviada ao ver o nome da sua mãe piscar insistentemente.

— Olha quem decidiu dar o ar da graça e ligou para sua filha mais velha! – Mesmo feliz sua voz tremia, ela temia por aquela conversa com alguém tão familiar que ligara por motivo nenhum, ou pior, talvez pelo motivo de sempre. – Aconteceu alguma coisa? A senhora costuma ligar pela manhã e não quando a noite está caindo.

— Estou proibida de ligar para minha própria filha?

­­— Mas é claro que não, Senhora Clarissa! – Seu sorriso era perceptível enquanto falava, andando pela casa sendo guiada pelos seus pés, passando pelo quarto e indo direto para o sofá, se jogando sem muitas cerimônias no apoio para os braços, seu pescoço e cabeça dependurados para fora, ela sabia que logo ficaria com uma dor irritante, mas no momento sua única preocupação era jogar os pés no encosto onde normalmente suas costas ficariam. – A que devo essa ligação tão especial?

— Estava apenas querendo saber como está... É motivo bom o suficiente para a senhorita?

— É a mesma resposta de sempre, estou bem!

— Já tem duas semanas em casa... Se isso é estar bem... – Clarissa rapidamente se interrompeu e Elise em um pulo se endireitou. Então ali estava o motivo exato para uma ligação fora de hora. Aquela conversa novamente.

— Eu estou bem ficando em casa...

— Sem sair? Sem socializar? Desmarcando encontros com ex-amigos de escola?

— Uma pessoa não precisa sair e socializar para estar bem, a senhora sabe disso e já tivemos essa mesma conversa semana passada! – Elise rebateu, o coração martelava dolorosamente em seu peito e a respiração começava a falhar.

— E seu trabalho, como ele fica? Sem contar sua faculdade! Você tinha se empenhado tanto nela e desistiu sem nem tentar buscar ajuda...

— Eu já havia conversado com minha chefe, ela entendeu o que está acontecendo comigo e por confiança ela me deu esse tempo... – Mesmo que fosse para convencer sua mãe o tom que usava era para se convencer, convencer que não havia nada de errado, que ela não estava doente de fato, que aquilo era algo passageiro, mas no fundo ela sabia, que seu breve confinamento em casa só aumentaria o que ela parecia ter desde muito jovem.

Elise era apenas mais um número entre os diversos casos de agorafobia, e mesmo negando sempre esteve ali, e agora parecia cada vez mais forte, parecia mais divertido viver no mundinho de seu quarto e dos seus inúmeros livros, amor esse que foi descoberto graças a sua amiga de infância, mais divertido do que desbravar o mundo porta a fora. Dar o primeiro passo parecia cruel demais para ela tentar, sem contar os pequenos ataques de pânico que a faziam suar frio e muitas vezes chorar, em busca de qualquer um que a ajudasse, alguém de confiança. E após um surto no meio de seu trabalho ela decidiu. Estava na hora de ficar resguardada, ela não aguentaria aquelas sensações estranhas que tomavam seu corpo quando pegava um ônibus ou andava entre a multidão para chegar ao prédio onde trabalhava.

— Por que não procuramos ajuda querida? Eu e seu pai a levaremos até o consultório da medica, ou ela poderia ir até ai... – Mas Elise temia dar esse passo, assumir que realmente já não era capaz de controlar o pânico crescente dentro de si, e mesmo que quisesse pedir ajuda as palavras diversas vezes sumiam.

— Não precisa mãe! – E mais uma vez ela tentava se convencer daquelas palavras – Eu só preciso de mais alguns dias e volto para o trabalho. Eu prometo para a senhora!

Quando sua mãe desligou, Elise respirou fundo, perdendo a vontade de voltar a dançar. A música começava a sufocá-la e nada condizia com os sentimentos que estouravam em seu peito, ela já nem queria mais comer o espaguete que estava tão empenhada em fazer e que prometeu para si mesma desde o começo da semana, tudo parecia sem graça demais, sufocante demais, e se arrastando vagarosamente ela ia apagando as luzes até chegar em seu quarto, não muito grande, juntando em pequenos montinhos os livros que ela largava em cima da cama, se jogando de barriga para cima, encarando o teto e antes mesmo que soubesse o que acontecia ela chorou até dormir. Vinha fazendo muito isso ultimamente...

***

Como sempre ela só percebeu a grande mensagem, na outra janela, enquanto passava pano. O volume nos fones capaz de deixar qualquer um surdo, mas ela gostava daquele jeito, e precisou ler diversas vezes antes de correr para pegar a pequena louça e o giz em seu armário de tranqueiras.

Nas últimas duas semanas aquilo vinha acontecendo quase o tempo todo e durava por horas. Havia uma espécie de encanto em conversar com alguém por janelas, sem pronunciar sequer uma palavra, existia algo de romântico mesmo que eles compartilhassem apenas o companheirismo, e sentimentos como gostar de alguém pertenciam apenas a Elise e sua imaginação quase hiperativa.

"Você não apareceu ontem" A placa dele dizia, e era reconfortante que não houvesse uma grande distância entre as janelas deles, facilitando a leitura, mas seu dono de sorriso gentil não estava ali, talvez tivesse saído mais cedo para correr com seu cachorro de pelos dourados. Eram muito comuns aquelas corridas matinais, e ela apreciava o modo como ele se importava com ela, mesmo quando estava completamente ocupado.

Elise acreditava fielmente que o conhecia, não por serem vizinho há quase seis anos, quando ela se mudou para aquele bairro calmo e simples, mesmo que nem se lembrasse de esbarrar nele ao sair de manhã para o trabalho ou à noite quando corria para a faculdade, mas algo em sua aparência simples e brilhante parecia a todo momento conhecida, talvez fosse o que chamam de aparência comum, mas não era possível aquilo, seus olhos a distância tinham um tom de castanho claro e seus cabelos pretos que caiam nos olhos...

Talvez não fosse assim vê-lo no dia a dia, talvez ele estivesse sempre muito arrumado, mas Elise o pegava quando ele acabava de tomar banho e havia lavado o cabelo, ou vindo de uma corrida, ou quando ele simplesmente brincava que era um grande leão de cabelos grandes e desgrenhados, e seu sorriso grande de covinhas era para completar o pacote de um cara perfeito.

"Se ele tem uma aparência comum..." Elise pensava consigo mesma "Eu sou Albert Einstein!" Para logo em seguida rir da besteira que havia passado por sua cabeça, sim, ela estava caidinha por seu vizinho gentil e super gato, e não, ele não sabia disso e não havia planejamento algum para ele saber sobre isso.

"Minha mãe me ligou ontem e depois fui dormir, super cansada" Elise rabiscou, mal contendo o sorriso que crescia em seu rosto e fazia doer suas bochechas. Logo em seguida desenhando um telefone e uma carinha dormindo, só que como não tinha nenhuma prática com desenhos aquilo ficou cômico, mas manteve, queria ver a reação dele com aquele desenho estranho.

Então rapidamente largou o quadro na janela e voltou a limpar a casa, assim que voltasse ele a responderia, era sempre assim. Sua casa não era muito grande, seu quarto, o banheiro, a sala e a cozinha, mesmo um ambiente pequeno era reconfortante e que bagunçava com tanta facilidade, às vezes ela se pegava imaginando se duendes verdes e de orelhas pontudas não entravam por baixo da porta enquanto ela dormia e reviravam a casa ao contrário, mas no fundo ela sabia que era tudo culpa dela, e agora Elise calmamente passava pano no móveis simples e escuros enquanto a música estourava em seus fones de ouvido.

Quando finalmente voltou para o quarto, respirou fundo várias vezes, seus livros estavam amontoados no chão, e se sua amiga estivesse ali ela claramente receberia um puxão de orelha, mesmo se já passasse da idade de recebê-los sua amiga não se importaria, ela ainda ouviria reclamações por dias. Então resmungando pegava os livros do chão e os arrumava na única prateleira acima de sua cama de solteiro, ela precisava de outra, ou talvez de uma estante, mas ali estava, amontoando livros na prateleira, assobiando uma música lenta sobre amores distantes e impossíveis, claramente se imaginando como uma adolescente, em um mundo onde ela e seu vizinho dançavam e riam debaixo da chuva, em uma cena digna da Disney e talvez voltada para High School Musical, um dos seus filmes favoritos.

E então ela o viu, batendo levemente a mão em seu próprio quadro, e mesmo com a distância ela imaginava o som que estaria fazendo, e ele estava mais uma vez com os cabelos molhados e bagunçados. Elise suspirou, ele estava lindo daquele jeito e se pegou imaginando por alguns segundo como seria incrível passar a mão entre os fios úmidos, mas logo balançou a cabeça e leu rapidamente a resposta dele.

"Desculpa, o passeio com a Iris demorou muito hoje. Ela correu atrás de um sapo de novo" Seguido de interpretações dele como uma carinha triste e risadas. A garota se pegou sorrindo mais pela sua risada muda que a assombrava em sonhos do que sua careta de fato.

"Daqui a pouco você vai fazer um museu de sapos e lagartixas!" Elise fez uma cara de pensadora como se imaginasse um grande museu com largatixas, e voltou a rir, rapidamente apagou a mensagem e voltou a escrever "Não tem problema, estava arrumando a casa, nem vi as horas passando"

"Diz ela que é organizada" Elise rapidamente deu língua a seu amigo e fez sua maior cara de ofendida.

"Como se você, Senhor Alexandre, fosse organizado!"

"Meu deus ela usou meu nome todo, estou encrencado" Seguido de um bonequinho com xis nos olhos.

Os sorrisos compartilhados por trás das janelas eram reconfortantes seguidos de risadas de cumplicidade. Elise rapidamente correu para pegar uma cadeira e Alex apenas se sentou na beirada de sua cama, porque eles sabiam o rumo que seus sorrisos os levariam, e eles agradeciam pela rua vazia que não cortaria o ar de intimidade que vagava de uma janela a outra.

"Voltando a nossa programação normal, Bom dia Ellie, como você está? A macarronada ontem deu certo? Posso ir pegar minha parte?" A pobre garota engoliu em seco, mesmo sendo uma brincadeira, hipóteses como ele vir até sua casa a assombravam. Deixaria de ser uma grande brincadeira desfocada pelos vidros para se pintar como real, mas o mais importante, como ela contaria, ou melhor, como ela não contaria para ele que a macarronada não rolou porque ela estava com coisas demais para aguentar ontem?

"Comi tudo" Ela escreveu em um segundo dando mais uma vez língua para seu amigo que colocou a mão no coração e ergueu a placa.

"Eu já suspeitava disso, sua insensível!"

"É porque estava uma delícia, sou uma super chefe, mas você NUNCA acredita"

"Só vou acreditar quando eu comer!"

"Boa sorte com isso aí" Ela deu de ombros tentando controlar o enjoo em seu pé de estômago, fez sua cara de inocente que nunca convencia ninguém e ele riu, mas algo havia mudado dentro dela naqueles poucos minutos e ela não sabia exatamente o que. Havia um bolo em sua garganta e seus olhos ardiam como se não tivesse chorado o suficiente na noite anterior, e o ar faltava em seus pulmões. Alex apenas observava aquela mudança sutil, nas últimas duas semanas ele tinha se acostumado com as sombras que pareciam cobrir seus olhos, sem motivo aparente, sem contar um pequeno fato que ele raramente escrevia, mas ele percebia como Elise nunca saia de casa, como ela parecia um fantasma vagando de um cômodo a outro, e ele tinha suas suspeitas...

"Você sabe que ainda não respondeu minha pergunta, não sabe?"

"Que pergunta?" Elise rebateu, tentando ao maximo respirar, manter sua expressão igual a de minutos atrás.

"Como você está?"

Elise repassou aquela simples pergunta diversas vezes, sua mão pairando o quadro como se fosse escrever, mas sempre parando para processar algo em sua mente. De fato, como ela estava? Ela sabia que podia ser sincera com Alex, não havia nada de errado em assumir que estava mal, mas assumir para ele era o mesmo que assumir para si mesma que havia algo errado. Seria contra as duas semanas que ela estava trancada em casa repetindo em voz alta "Estou bem, isso é apenas um tempo para respirar sem a correria do trabalho e da faculdade", mas se escrevesse um simples "Estou bem" ela estaria mentindo, e mentindo muito, então dessa vez ela não escreveu, olhou no fundo dos olhos dele e deu de ombros, sentindo uma lagrima solitária escorrer por sua bochecha e rezando internamente que a distância e as janelas distorcessem, que ele não visse a única lagrima que a faria chorar como um bebê se fosse citada. Mas para a sua alegria ele não viu.

"Dar de ombros virou resposta agora?"

"É porque eu não sei como eu estou, fiquei me ocupando tanto que não parei para reparar como estava" Mentira, pura e descarada, mas Alex se notou não disse nada. E Elise estava feliz com aquela resposta, dizer que estava ocupada demais para notar era um novo porto de fuga e ela abusaria dele até não aguentar mais, "Isso, está decidido!" Ela pensava com um sorriso vitorioso.

Ela rapidamente apagou a placa assim que soube que ele já havia lido tudo, principalmente pelo olhar descrente que ele lançou seguido de um revirar de olhos e voltou a escrever.

"Como anda o projeto?" Elise rapidamente mudou de assunto, já quealguns dias atrás Alex confidenciou a ela que estava tentando escrever um romance, mexia tanto com livros em seu próprio trabalho que se viu inclinado para um, e se tornou uma espécie de tara para Elise perguntar a todo momento se ele já estava avançando naquela nova aventura.

"Sou novo nisso, então estamos a passos de tartaruga!"

Ele deu de ombros, mas ela suspirou. Ele nunca contava de fato o que tanto escrevia e Elise sempre tão curiosa se afundava em sua própria ansiedade para saber da estória mas que nunca seu autor revelava os fatos, e como ela não sentia que tinha liberdade para perguntar de fato, ela guardava para si tudo aquilo. Mas do outro lado da janela Alex tentava reprimir o sorriso que se espalhava por seu rosto ao ver Elise tentar conter inutilmente a curiosidade que brilhava em seus olhos, ele achava adorável, mesmo sabendo o motivo dela.

"Desculpa, preciso voltar agora, já estão me ligando e eu preciso redigir alguns textos" e ela sabia que era realmente urgente pela forma como sua letra, sempre tão marcante e bonita, agora parecia um grande garrancho, e ela suspirou, ainda faltava muito para o horário do almoço, o que ela iria fazer?



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.