Do outro lado de Chicago

9 O amor é covardia


— B a r b a r a

Está frio aqui fora. Depois de conhecer toda a Audácia, Alice e eu vinhemos aqui para fora respirar e conversar um pouco. Essas mudanças foram bastante radicais e nós precisamos uma da outra. Já estamos vestindo o preto Audácia. Ela está trajando apenas uma camiseta preta e eu uma jaqueta. Não sei como ela aguenta o frio.

Conversei com ela sobre o Matt e como eu me sinto.

— Eu aconselho você a esquecer ele e se concentrar em sua iniciação. — diz ela.

— Eu vou fazer isso. — digo, forçando um sorriso — Pode deixar.

Ela sorri pra mim.

— Eu vou descer. — diz Alice, me abraçando — Tô e sentindo um pouco cansada.

— Tudo bem. — digo — Boa noite, Ali.

— Boa noite, Bah.

E se vai.

Me sento na beirada do telhado, balançando as pernas no ar e com o pensamento cheio de vozes. Penso em o que aconteceria se eu pulasse. Obviamente, eu morreria. Mas a sensação de voar é tão boa, que é quase um vicío.

Logo me vem o Matt na memória, de novo. Balanço a cabeça para apagar a memoria daquele careta imbecil da minha mente. Eu não quero me lembrar nunca mais de como era o seu rosto e de como era a sua voz.

O trem está vindo, ao longe. Posso ver a luz do farol. Ele está rápido. Ele passa por mim junto com uma forte corrente de vento, fazendo com que os meus cabelos são jogados para trás.

De repente, vejo um ponto azul se jogando do trem e caindo no telhado, bem atrás de mim. Eu não vi o que era. Quando me levanto e me viro, vejo que era justamente...

— Matt! — digo, assustada.

— Barbara! — diz ele, andando pra frente.

— Não se aproxime. — digo.

Ele faz uma cara de decepção, fica sem jeito e limpa a mão nas calças azuis. Ele dá um passo para trás, ainda encarando o chão.

— Sei que deve estar chateada. — diz ele — Na verdade, você tem todo o direito de estar chateada. Eu...

— Chateada?! — digo — Tem ideia do quanto eu confiei em você?

— Barbara... eu... — ele se embola nas palavras.

Cruzo os meus braços, esperando com que ele fale mas ele não consegue. Ele não pode. Porque é um covarde, porque é um fracote, porque é um careta. E eu o odeio!

Ando em direção ao outro lado do telhado, para saltar para dentro da sede da Audácia mas ele segura o meu pulso com uma mão forte.

— Espera! — diz ele — Tenho os meus motivos para não ter escolhido a Audácia.

Solto o meu pulso da mão dele com força e me viro, cruzando os braços.

— Não é tão simples como você pensa, Barbara, mas...

— Na verdade, Matt, é bem simples. — digo, com toda a raiva que eu posso carregar — Me responda como você foi parar na Erudição se você havia me dito que o seu teste de aptidão deu Audácia?

Matt abre a boca, pronto para falar algo mas nada lhe sai. De novo. Vejo lágrimas se acumulando nos olhos dele mas eu não tenho pena dele, eu tenho pena de mim. Não vou aceitar essa peça barata que ele atua.

— Mentiu pra mim, não foi? — pergunto, agora não conseguindo deixar de acumular lágrimas nos meus olhos também — Você não era quem eu pensava e... e eu tenho ódio de você!

— Barbara...

— NÃO FALE COMIGO, SEU COVARDE! — o meu grito parece ecoar por toda a cidade.

Matt fica paralisado e assustado.

Fungo o nariz, respiro fundo e seco as minhas lágrimas. Ele não merece ver a minha dor. Ele não merece saber nada sobre mim.

Encaro-o por uma última vez e me viro.

Piso na beirada do prédio, pronta pra pular, quando o careta me impede novamente.

— Tem razão. — diz ele. Paro para ouvi-lo, mas sem me virar. Porque já não consigo mais olhar para a cara dele — Sou um covarde. Eu não posso ser alguém corajoso e audacioso, porque não nasci assim. Eu não nasci corajoso como você, Barbara. E mesmo se eu tentasse... eu não conseguiria.

— O seu erro foi não acreditar em você mesmo. — digo.

— O meu erro foi pensar muito em você. — diz Matt, fazendo com que o meu coração acelere e mais lágrimas se acomulem. — Você... você queria que eu me tornasse o que eu sou de verdade. Bem, aqui estou eu. Mas acho que eu estava errado. Você queria que eu fosse o que você queria.

Alguns segundos de silêncio correm. Nossos suspiros na noite fria tornam-se em apenas fumaças saindo de nossas bocas.

— Barbara, eu trocaria tudo para poder ficar ao seu lado. — diz Matt — Mas eu não consigo. Eu não sou corajoso como você! E eu só posso aprender isso de uma maneira: com você do meu lado.

Viro-me para encara-lo nos olhos. Para saber de que ele não está mentindo para mim.

— Você não precisa de mim para poder fazer isso. — digo.

— Está enganada. — diz Matt — Eu preciso de você pra tudo, desde a primeira vez em que você sujava a minha imagem na Abnegação. Apesar de ser errado e eu te dar sermões, eu gostava. De verdade. Barbara, eu te...

— Não diga! — falo, antes que ele comete um erro terrível — Você não tem noção do estrago que essa palavra pode causar, por tanto, não fale se não eu irei quebrar o seu nariz!

— O que eu tenho que fazer? — pergunta Matt — Pra poder ter a sua confiança e amizade de volta?

Os olhos do Matt estão brilhando de lágrimas, receiando por alguma solução de que me faça confiar nele novamente. Mas eu não vou. Sou egoísta. Sou orgulhosa. E se é isso que faz com que eu afaste pessoas de mim, isso eu usarei contra o Matt.

— Fique longe de mim. — digo.

Eu me viro e encaro a escuridão que está lá em baixo. Penso em pular quando me vem uma última frase para ser dita ao Matt.

Última.

— O azul caiu bem em você. — digo — Mas o preto ficaria bem melhor.

Salto e o deixo para trás, sozinho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.