Do outro lado de Chicago

8 A Erudição e a Audácia


— B a r b a r a

O vento quente da adrenalina sopra forte contra o meu rosto e faz com que eu fique mais excitada. O trem está vindo. Todos os membros da Audácia — novos e oficiais —, estão em posição para pular.

Eu sempre quis fazer isso.

Eu observava eles fazendo isso todo o momento em que a Amizade vinha à cidade. Era tão... empolgante. Agora eu posso estar sendo observada e eu vou dar o meu melhor. Serei o meu melhor e deixarei o que tiver que deixar para trás.

Uma pequena pontada de dor no peito vem rapidamente mas logo se vai.

— Prepare-se. — diz Amah, ao meu lado.

Olho para o lado surpresa e sorrio empolgadamente.

— Está pronta? — pergunta ele — Você só tem que concentrar a sua força no alvo, que é não morrer.

Solto gargalhadas nervosas e empolgadas. O trem está mais perto agora. Ele passa por mim e a força do vento trazida por ele faz com que os meus cabelos sejam jogados para trás.

Começamos a correr, eu começo a carrer. Meu coração batendo forte no peito e as pernas em movimentos rápidos. Caramba! Que adrenalina! Estou acompanhando em corrida um vagão aberto. Apenas inclino o meu corpo para o lado e salto.

Subo no vagão e logo dou a minha mão para ajudar Alice. Ela sobe ofegante e prende o cabelo loiro em um rabo de cavalo alto.

— Valeu! — diz ela.

— Nada mal para umas delicadas da Amizade! — diz um garoto da Erudição, que também está ofegante.

Uma raiva me sobe quando ele diz "delicadas da Amizade". Isso é um total insulto contra mim e a minha Facção!

— O que aconteceu com a sua antiga Facção? — digo, cruzando os braços no peito e com um sorriso no canto da boca — Seu cérebro de uva não era o suficiente para sobreviver lá, otario?

— Repita isso, Amizade! — diz o garoto, se aproximando de mim.

Me aproximo dele também, com os peito estufados e os punhos cerrados. Pronto para acertar o nariz dele.

— Calma aí, Eric! — diz uma garota de cabelos castanhos — Não vai querer gastar suas forças agora, né? Guarda isso para a iniciação.

Ela me olha rapidamente com um sorriso malicioso e se vai com o tal Eric e vejo o garoto Tobias da Abengação.

O trem está calmo. Um garoto e uma garota da Erudição, de olhos puxados, estão conversando parados em frente a porta do vagão.

— Bem idiota, não é? — ouço uma voz feminina atrás de mim.

Eu e a Alice nos viramos e vemos uma outra garota da Erudição, sentada no chão ofegante.

— O que houve com o pessoal da Erudição este ano? — pergunto — Estão perdendo bastantes "intelectos" para a Audácia.

— Eu simplesmente não suporto a vida chata de lá. — diz a garota, se levantando e estendendo a mão para nós — Meu nome é Yaya.

— Barbara. — digo — Essa é a Alice.

Ela sorri. Seus cabelos são pretos e caem um pouco acima dos ombros. Seus olhos são castanhos e ela tem uma pinta em baixo do olho direito.

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— M a t t e u s

— Bem-vindos à sede da Erudição! — diz Jeanine, com um sorriso largo e animado.

Estamos em pé, no saguão de entrada da sede da Erudição. Os ladrilhos são totalmente brancos, assim como as paredes e o teto. As janelas de vidros e aporta também. A nossa direita, há uma grande biblioteca com vários computadores e livros.

— Meu nome é Jeanine Matthews, como todos já devem saber. — ela dá alguns passos pra frente e coloca as mãos cruzadas acima do umbigo — Todos agora irão receber um dispositivo singular e portátil. Ele funcionará como o seu computador e seu melhor amigo.

Uma senhora não tão velha me entrega um dispositivo que parece ser de vidro em minhas mãos. Na verdade, ele realmente parece ser apenas um cubo feito de vidro.

— Agora, se colocarem o seu polegar para apresentarem sua digital ao dispositivo, ele será ativado e funcionará apenas com a sua permissão. — diz Jeanine — Mas, os dispositivos são vigiados pelos supervisores e seus, provavelmentes, mentores.

Pressiono o meu dedo no meio do dispositivo. Uma linha azul passa por todo o dispositivo e ele cria ologramas reais no ar de um teclado e uma pequena tela.

— Ótimo! — diz Jeanine — Agora, por favor, digitem o nome de sua familia.

Na tela ologramática do dispositivo, está escrito: "Digite o nome de sua familia de origem(lembre-se, o nome de sua família, é impossível ser modificado ou trocado)." Digito as palavras "Connor". E a tela desaparece, surgindo outra dizendo...

— Escreva o nome em como vocês querem ser reconhecidos. — diz Jeanine — Agora, vocês podem escolher um novo nome e uma nova identidade. Após inserir o nome que vocês quiserem, não haverá troca e serão oficialmente reconhecidos no sistema de acordo como o tal.

Paro por um tempo, pensando se eu gostaria de mudar o meu nome. O nome que a minha familia me designou.

Esse é o problema. Eu não tenho mais familia. Fui para outra Facção, fui para outro lugar. Eu não sou mais o Matteus. Não sou mais o garoto careta da Abnegação. Agora... eu sou o Matt. O garoto da Erudição.

Digito "Matt" no dispositivo e a tela desaparece, novamente surgindo outra rapidamente escrito: "Olá, Matt. Seja bem-vindo à Erudição. Por favor, responda este pequeno questinário..."

Logo, tem uma série de cinco perguntas que logo reconheço como ciências. É claro. Erudição trabalha mais a base da ciência, claro que irão perguntar sobre ciência para testar o nosso conhecimento.

Uma garota loira e de cabelos cacheados e cheios bufa ao meu lado. Olho para ela. Ela está sorrindo e digitando em seu dispositivo.

— Puff! — diz ela, sorrindo animadamente e olhando para o seu teclado e depois a tela — Esse questionário está medíocre.

Sorrio de leve para. Analiso as perguntas e logo percebo que ela tem razão. Estas perguntas são tão igênuas que posso até dizer que qualquer um da Abnegação responderia a isto.

"1. Segundo a sistemática filogenética, em geral, a variedade de organismo é gerada de duas maneiras. Quais são?" A resposta é fácil. É cladogênese e anagênese.

Como as outras, o questinário é bem fácil. Termino de responde-la em menos de trinta segundos, enquanto outros ainda estão respondendo.

— Juro que se não tiver nada que vale a pena se interessar aqui, eu dou no pé. — diz novamente a garota de cabelos cheios ao meu lado.

Não consigo evitar de soltar uma pequena gargalhada e sorri para ela. Os olhos dela são como mel e sua pele é bronzeada. Ela veio da Audácia.

— Meu nome é Drika. — diz ela — E o seu?

— Me-meu nome é Matt. — digo — Desculpe.

— Relaxa! — diz ela — Então, veio da Abnegação? Deve ser tudo novidade pra você essas tecnologias aí.

— Na verdade, não. — sorrio — Eu estudei isso em alguns livros da escola.

— Arrazou! — diz Drika.

Sorrio para ela.

— Muito bem! — diz Jeanine, reatando a minha atenção — Já que todos terminaram de responder os questionários, eu gostaria que vocês pressionasse os dedos de vocês em um pequeno botão que irá aparecer na tela de vocês... — ela digita alguma coisa em seu dispositivo que eu não consigo ver, porque a imagem do olograma dele está ao contrário — agora!

Um botão redondo surge no meio da minha tela. Pressiono com o meu dedo e minha tela é coberta pela cor verde e nada mais é escrito. Olho para o lado e percebo que a de Drika também está. Olho ao meu redor e percebo que de alguns estão vermelhas.

— Para passar nesse pequeno teste de conhecimento da Erudição, é preciso acertar no minimo setenta e cinco porcento das questões. — diz Jeanine, agora mostrando uma face séria — Se a sua tela está verde, parabéns! Você alcançou a meta. Agora, se a sua não está, por favor, deixe o seu dispositivo em cima da mesa e queira se retirar deste lugar. Seu intelecto não pode pertencer à Erudição.

Alguns viram-se com rostos tristes, outros prestes a desabar no choro e outros com uma demonstração de raiva na cara. Suspiro de alivio ao perceber que não sou um deles. Não ainda.

— Acho esse teste um pouco falho. — diz Drika — A pessoa pode ter uma inteligência brilhante mas não pode ingressar na Erudição porque não acertou este questionário.

— Discordo. — ouço uma voz atrás de mim.

Viro-me e um garoto ruivo e de cabelos bagunçados está sorrindo atrás de mim, com o seu dispositivo na mão.

— Como uma individuo pode obter uma "inteligência brilhante" se a mente dele desconhece o básico da ciência? — pergunta ele.

— Dizem que os nascidos na Erudição são as pessoas mais chatas da Terra. — diz Drika — Eu não acreditava nisso até saber que você existe.

O garoto ruivo sorri.

— Eu sou Gabe Webbster. — diz Gabe.

— Eu sou Drika.

— Meu nome é Matt.

— Um transferido da Abnegação. — diz Gabe — Isso é raro aqui na Erudição.

— É? — digo — Que bom. Pelo menos posso ser notado.

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— B a r b a r a

— Hora de pular! — grita alguém.

— E lá vamos nós. — digo.

— De novo. — diz Alice, sorrindo.

Estamos prestes a pular quando percebemos uma coisa.

— Eu não posso fazer isso de novo. — diz uma garota de cabelos castanhos vestida de Amizade.

— Ei, relaxa... — diz Yaya, consolando a garota.

— Você já reparou nela pelos polmares da Amizade? — pergunto para Alice.

— Não se lembra dela? — pergunta Alice — Ela colhia frutas junto conosco em épocas férteis.

Olho para Alice, fazendo uma cara de bosta, com a boca torta e balanço a cabeça.

— Barbara, você tem que começar a se lembrar das pessoas. — diz Alice.

Yaya e a garota da Amizade voltam de mãos dadas.

— Vocês saltam primeiro e logo depois irá eu e a Gabi. — diz Yaya — Ela precisa ver como é que se faz.

— Okay! — digo.

O trem começa a passar em frente a um telhado, onde todos os outros membros da Audácia estão pulando. Eu e a Alice damos alguns passos para trás e corremos até a porta do trem. Respiro fundo e salto. O vento contra o meu rosto é a melhor sensação que já senti em toda a minha vida. É como se eu fosse livre, como se eu tivesse nascido para isso.

Os meus pés aterrisam no telhado em perfeito equilibrio, Alice cambalea um pouco mas se sai bem. Logo atrás, Yaya cai em pé mas Gabi rola no chão. Ainda tem outros audaciosos pulando mas eu e as meninas continuamos o caminho em frente, onde tem um grupinho de gente.

Quando chego perto do grupo, percebo que estão ouvindo as palavras do Max, líder da Audácia:

— Parabéns! — diz ele — Se querem ingressar na Audácia, estão no caminho certo. Mas, ainda há um último teste para provarem se tem a coragem que nós queremos.

— Fizeram a gente pular de um trém para outro prédio, o que mais eles querem? — murmura Gabi.

— Vocês irão saltar deste telhado. — diz Max.

Vários murmurios correm pelo grupo.

— Eu não posso fazer isso! — diz um garoto da Franqueza.

— Então pode voltar, você não pertence a Audácia e a mais nenhum lugar. — diz Max.

Suas palavras são tão cruéis que até eu sinto a dor. O garoto dá meia volta e caminha em frente. Presto atenção nele até que alguém diz:

— Eu pulo!

Viro-me e vejo um garoto de cabelos loiros e arrepiados indo em direção a ponta do telhado. Max abre caminho para ele. O garoto loiro fica na ponta do telhado, encarando o chão que deve ter lá em baixo e salta com os braços abraçando as pernas encolhidas.

Max aplaude o garoto. Fico me perguntando como seria o Matt neste momento. Ele provavelmente seria o primeiro porque ele avaliaria o líder; quero dizer, ele não nos mataria fazendo com que pulemos de um prédio a menos que ele esteja fazendo um teste de raciocinio. Mas isso aqui não é Erudição, é Audácia.

Ai! Pensar como o Matt me dá dor de cabeça!

— Próximo? — pergunta Max.

— Eu vou. — digo.

Se eu quero saber o que há lá em baixo, o único jeito de descobrir é saltando. Não posso ficar parada esperando todos pularem enquanto fico imaginando que tipo de teste este pode ser.

Mas é óbvio! É um teste de coragem! Se o Max quer algo corajoso, ele também quer algo audacioso, então, vou dar para ele uma tipica ação da Audácia.

Na ponta do telhado, viro me de costas para o buraco fundo atrás de mim, fecho os olhos, abro os braços e salto.

Abro os olhos para me ver se distanciando do telhado, de onde saltei. Estou caindo muito rápido e meus cabelos estão voando brutalmente. De repente, as coisas a minha volta começam a ficar escuras e sinto que estou sendo segurada por uma coisa fofa. Essa coisa me joga pra cima novamente e faz com que o meu corpo gira e vejo o que está me sustentando: uma cama de rede elástica. Tinha uma rede em baixo, nos esperando. É claro.

Sorrio como uma boba, até que sou inclinada para o lado e caio em pé no chão.

— Seja bem-vinda à Audácia. — diz uma garota loira, com pircings no nariz e vários nas orelhas.

— Valeu. — digo.

— Como é seu nome? — pergunta ela.

— Barbara Wells. — respondo.

— Segunda a pular, Barbara! — grita ela — Parabéns!

Logo depois, ouço um grito e vejo que a garota de olhos puxados da Erudição caiu na rede.

A Audácia é totalmente escura, totalmente o oposto da Amizade. Me alinho ao lado do garoto que saltou por primeiro, e espero.

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— M a t t

O meu quarto é um pouco pequeno e vazio. Os pisos são brancos, assim como o teto. Estou sentado na cama, segurando o meu casaco da Abnegação. Eles disseram que irão se livrar das roupas de nossas antigas Facções mas eu não sei se teria coragem de destruir a roupa que me fez ser o que eu sou. Já estou vestido do azul da Erudição.

Achei que usariamos ternos azuis e paletós. Mas os iniciantes usam uma blusa de gola, calças azuis e tênis pretos. Um médico da Erudição fez um rápido exame de vista na gente. Ganhei um óculos de repouso para os olhos, para que as minhas retinas não sejam danificadas durante o iniciamento. Todos os novos iniciantes e reunirão daqui a um minuto na biblioteca.

No canto do quarto, tem uma pequena mesa de escritório onde está apenas o meu dispositivo desligado.

Me pergunto como a Barbara deve estar passando pela iniciação da Audácia agora.

Ouço alguém bater na minha porta. Levanto-me da cama, guardando o meu casaco da Abnegação em baixo do colchão e vou abrir a porta. Drika está ao lado de fora, vestida de azul.

— Vamos? — pergunta ela.

— Yep! — digo.

Fecho a porta do meu quarto e andamos lado a lado no corredor vazio.

— Onde está o seu óculos? — pergunto.

— Acho que esqueci de propósito dentro do meu quarto. — diz Drika, olhando pra mim e fazendo um sorriso engraçado.

Solto uma pequena risada e logo nos encontramos na grande biblioteca. O corredor de nossos quartos não fica tão longe assim do saguão.

Desta vez, um homem de cabelos pretos e olhos verdes está esperando por nós.

— Bem-vindos! — diz ele — Primeiramente, eu gostaria que todos tivessem o conhecimento de que, no iniciamento da Erudição, não serão todos que irão ser selecionados. O nosso iniciamento, é feito na base da teoria da "seleção natural". E todos sabem o que essa teoria diz, não é mesmo?

— Que o mais apto a sobreviver, vença. — digo, em alta voz.

O instrutor me encara, com um sorriso estampado no rosto e acena com a cabeça.

— Isso mesmo! — diz ele — Hoje, vocês são nove, mas no amanhã... apenas sete serão selecionados. Estejam aqui amanhã de manhã, às 08h30, para começarem os seus estágios. Iniciantes, meu nome é Stephen, e amanhã, espero que estejam prontos.

Stephen sorri para o público e pisca. Ele deve ser algum tipo de inluencia na Erudição.

— Bom! — diz Drika — Temos o dia todo livre. O que quer fazer?

— Querem resolver algumas equações comigo? — pergunta Gabe, surgindo de repente.

— Você deveria avisar quando chega, não é? — diz Drika — E não, não queremos.

— Na verdade, eu tenho uma coisa bem mais complicada para se resolver. — digo.

— Tem?! — diz Drika e Gabe, ao mesmo tempo.

— Sim, tenho.

Começo andar até a porta de saída do saguão e eles vem atrás de mim.

— Aonde vai? — pergunta Gabe.

— Um lugar complicado de se chegar. — digo — Não me siga!