Do outro lado de Chicago
7 A Cerimônia de Escolha
— B a r b a r a
É hoje! Hoje, é o grande dia da minha escolha. O dia que deixarei de ser Barbara Wells da Amizade para ser Barbara Wells da Audácia.
Estou apavorada.
Não sei se conseguirei sobreviver a Audácia. Ouvi dizer que eles tem metodos muito brutos de treinar os seus iniciantes. Mas e daí? Eu estarei com o Matt. Juntos, poderemos passar na iniciação.
Matt se tornou uma espécie de inspiração e querer força pra mim. Como se ele me inspirasse, como se ele me fizesse provar que o mundo não é só ajudar as pessoas e pensar nelas. Mas também lembrar de nós e viver a linda vida que nós temos. Isso, com certeza, seria um pensamento egoísta para a Abnegação. Ainda bem que não sou.
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— M a t t e u s
Eu não posso ir para Audácia. Eu serei morto. Nunca vi em toda em minha vida alguém da Abnegação indo para a Audácia. Mas também não consigo pensar na maneira que meus pais irão me olhar quando eu for para a Erudição. Também não consiguirei viver uma vida inteira na Abnegação.
Por que isto está acontecendo comigo?
Eu não preguei os olhos a noite inteira com pensamentos ruins e sonhos remotos. Um deles mostrava-me em uma sala de testes, com vários membros da Audácia e Erudição me usando como cobaia e tirando a minha vida aos poucos. Outros, eu me via no fundo de um poço, sangrando e gritando por ajuda e socorro mas ninguém me ouvia.
— Está pronto, filho? — pergunta o meu pai, aparecendo na porta do banheiro.
Estou vestido sobre um smoking sem a capa, somente o colete, a gravata e a blusa cinza tampando todos os meus braços. Meu pai abre o cofre do espelho, para que eu possa me ver. Encaro o meu espelho por exatos sete segundos e, então, ele fecha. Meus cabelos pretos ainda estão baixos e os meus olhos castanhos estão com lágrimas.
— Hoje é o dia que você vai nos orgulhar. — diz ele, colocando a mão em meu ombro.
Sorrio de discreto para ele, enquanto ele me conduz para fora do banheiro.
Hoje eu não irei orgulhar a minha familia. Tentarei e darei o meu melhor para orgulhar uma pessoa que tem se esforçado para me mostrar quem eu realmente sou.
Barbara. ♥
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— B a r b a r a
— Garota! — diz Letícia, parando atrás de mim — Seu vestido está todo levantado atrás.
Solto gargalhadas, enquanto ela ajeita o meu vestido. Já estamos andando nas ruas da cidade em direção ao Eixo, o maior prédio que existe na cidade. Alguns espertinhos da Erudição chamam de arranha-céu mas eu prefiro Eixo porque... bom, porque é mais fácil né.
— Vocês estão nervosas? — pergunta Alice, aparecendo ao lado de Letícia.
— Eu estou um pouco. — diz Leticia.
— Eu não sinto nada. — minto.
— Barbara como sempre não sentindo nada. — diz Alice — Eu confesso que estou apavorada.
— Não há motivos para você estar apavorada se você sabe qual escolha fazer. — diz uma voz atrás de nós.
Viro-me e vejo um garoto de pele morena, cabelos baixos e olhos castanhos.
— E quem é você, Amizade? — pergunto.
— Adrian. — responde ele — Vocês nunca me repararam porque... bem, eu sou um pouco afastado.
— Um garoto da Amizade, não tem amizade, porque é afastado de amizade sendo ele da facção da Amizade. — diz Alice, rapidamente.
Minha cabeça quase explode só de tentar entender o que ela quis dizer.
— Okay! — digo — Nunca, ninguém, disse tanta "amizade" em uma só frase.
Alice ri e logo a sua risada contagia a mim e a Leticia. O garoto Adrian nos acompanha até aporta, ou pelo menos acompanha as meninas porque Johanna me chama para andar ao lado dela porque ela com certeza vai nos dizer alguma coisa.
— Está ansiosa? — pergunta Johanna.
— Um pouco animada. — digo, mordendo o lábio.
— Ótimo! — diz Johanna — Você lembra do que eu disse? Não precise se prender a mim, basta escolher quem você realmente é e o que quer ser. Ainda te amarei do mesmo jeito.
— Obrigada, Jo. — digo, beijando a bochecha dela.
Percebo que beijei a sua cicatriz e logo viro o rosto pra desfarçar a cara de nojo porque eu não sei como aquilo aconteceu.
Minha Facção começa subir as escadas do Eixo, porque para nós, exercícios físicos são bastantes prestativos para o nosso organismo. A Abnegação está logo atrás de nós, subindo como lesmas, mas não tento olhar para trás na esperança de ver o Matt. Eu quero ver quando ele for chamado para o meio e fizer a sua escolha. Escolher quem ele é. Escolher a mim.
Entramos no grande salão, cheio de bancos separados entre 5 partes. Cada um para a sua Facçãos. No meio, tem o grande palco e um circulo formado por 5 colunas com um grande recipientes de marmore que tem o simbolo e uma coisa de cada Facção. Uma coisa quero dizer uma substância que representa uma Facção: terra para a Amizade, vidros para a Franqueza, brasas quentes e acesas para a Audácia, água para a Erudição e pedras cinzas para a Abnegação.
Temos que ir no meio, onde tem uma faca em cima de uma coluna, para fazemos um pequeno corte na palma de nossas mãos para pingar o sangue no recipiente da Facção que vamos escolher.
Me sento no meio de Leticia e o garoto Adrian, esperando todas as Facções se sentarem e se acomodarem.
Olho para o lado, onde está a Facção da Abnegação, e avisto Matt. Ele parece pertubado. Está com o olhar concentrado no palco. Será que ele tá bem?
— Sejam bem-vindos! — diz a voz de Marcus Eaton, no microfone. Ele está parado no meio do palco, começando a dar o discurso chato que ele dá todo o ano — Sejam bem-vindos à Cerimônia de Escolha. Sejam bem-vindos a maneira a qual honramos a filosofia democrática de nossos antepassados, que afirma que cada homem tem o direito de escolher seu próprio caminho no mundo.
Blá, blá, blá. Eles bem que podiam mudar algumas coisas no discurso pra não ficar tão enjoativo.
— Nossos dependentes agora têm dezesseis anos. Eles se encontram no precipícip da maturidade, e agora é responsabilidade deles decidir que tipo de pessoas serão.
Que sono.
— Há décadas, nossos antepassados perceberam que a culpa por o mundo em guerra não poderia ser atribuída à ideologia política, à crença religiosa, à raça ou nacionalismo. Els concluíram, no entando, que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma. Dividiram-se em facções que procuravam erradicar essas qualidades que acreditavam ser responsáveis pela desordem no mundo. — diz Marcus.
Agora, é a hora que ele culpa um e outro por isso e por aquilo.
— Os que culpavam a agressividade, formaram a Amizade.
O garoto Adrian, que está ao meu lado, abre um sorriso que não entendo o porquê.
— Os que culpavam a ignorância, se tornaram a Erudição.
Uma das coisas que eu discordo completamente. Eles são tão ignorantes se achando os sabem-tudo e desprezam os outros. Sei que a minha Facção mantém uma irmandade forte com ela, mas eu não simpatizo com ninguém da Erudição. Ninguém. Acho que são um bando de idiotas.
— Os que culpavam a duplicidade, fundaram a Franqueza.
Com a Franqueza, eu tenho as minhas opiniões e as minhas criticas.
— Os que culpavam o egoísmo, geraram a Abnegação.
Olho para o lado mais uma vez, para ver se consigo ver o Matt, mas não consigo porque tem a cabeça de uma mulher tampando a minha visão do rosto dele.
— E os que culpavam a covardia, se juntaram à Audácia.
Tento conter o sorriso que estou prestes a dar, porque ninguém pode saber de que eu escolherei a Audácia. Ninguém da minha Facção pode desconfiar. Tenho que ser uma boa menina, pelo menos até eu poder finalmente ser quem eu sou. Corajosa e audáciosa.
Todos começam a aplaudir, de repente. Não sei porquê, mas quando olho para o palco, vejo Marcus e a Jeanine trocando sorrisos e aperto de mãos.
— Obrigada. — diz ela — É muita honra poder participar do governo desta cidade.
Já vi que vai ter mais blá, blá, blá ainda. Gente da Erudição fala demais.
— Trabalhamos juntas. — diz Jeanine — As cinco facções tem vivido em páz há anos, cada uma contribuindo com um diferente setor da sociedade. A Abnegação — Jeanine se vira para eles com um sorriso — supriu nossa demanda por líderes altruístas no governo; A Franqueza providenciou líderes confiáveis e seguros no setor judiciário; a Erudição nos ofereceu professores, pesquisadores e inovação para um melhor avivamento desta cidade; a Amizade nos deu conselheiros e zeladores compreensivos e pacíficos; e a Audácia se encarrega de nossa proteção contra ameaças tanto internas quando externas. Mas o alcance de cada Facção não se limita nestas áreas. Oferecemos uns aos outros muito mais do que pode ser expressado em palavras. Em nossas facções, encontramos sentido, encontramos propósito, encontramos vida.
Eu não sabia que Jeanine estava trabalhando no governo, principalmente para o Marcus. Ela parece ser alguém que gosta de mandar em tudo mas acho que me enganei.
— Longe delas, não sobreviveriamos. — diz Jeanine.
— A Facção... antes do sangue! — diz Marcus.
— A Facção antes do sangue! — repete todos no salão, em alta voz e em forma de coral.
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— M a t t e u s
— Quando eu chamar os seus nomes, venham até o centro e sejam livres para serem quem vocês são. — diz Marcus, dando o último anúncio.
Meu coração está batendo forte e rápido como nunca. Eu não tenho ideia do que escolher. Estou sentado entre os meus pais. Minha mãe está segurando forte a minha mão mas eu ainda sinto como se estivesse caindo! Não posso decepciona-los! Não posso deixar Barbara!
— Adrian York! — chama Marcus.
Um garoto da Amizade se levanta e vai em direção ao centro. Ele puxa as mangas de sua blusa vermelha e pega a faca do meio do palco. As luzes agora estão focadas somente no palco.
Ele demora para fazer um corte em sua mão e também parece sofrer para fazer aquele simples corte em sua palma da mão. Essa maneira de escolher a nossa respectiva Facção, é uma forma de honramos o legado: "A Facção antes do sangue."
Ele anda em direção ao recipiente com terra e pinga o seu sangue.
— Amizade! — anúncia Marcus.
Era de se esperar.
No momento da Cerimonia de Escolha, os nomes são chamados aleatóriamente. A qualquer momento pode ser o meu.
— Tobias Eaton!
Tobias se levanta de um banco de duas fileiras a frente da minha. Ele anda com passos largos e rápidos até o centro. Ele pega uma nova faca que foi colocada na pequena coluna de vidro do meio do palco e corta a sua mão. Ele anda em direção ao grande recipiente de brasas acesas e ferventes e deixa o seu sangue cair.
Tobias encara Marcus, com sua expressão firme e dura. Como a de um cão.
— Diga! — diz Tobias, fazendo com que todos do salão possa ouvi-lo.
— Audácia! — anúncia Marcus.
Vários murmúrios correm pelo grande salão. Pela reação do público, tenho certeza que os boatos de que Marcus bate no filho irão voltar. Marcus parece estar fora de si. Impossibilitado de continuar a anúnciar as escolhas.
Então, Jeanine surge por de trás dele e toma o seu lugar. Marcus se retira do palco e desaparece.
Vários nomes são convocados por Jeanine.
— Tori Wu... Audácia! Leticia Trevis... Amizade! Oliver Conburn... Franqueza! Drika Webbster... Erudição! John Nash... Abnegação! [...]
Várias pessoas transferidas, outras de volta para a sua Facção de origem. Nenhum deles são importantes ou convenientes para mim. Exceto uma.
— Barbara Wells! — anúncia Jeanine.
Barbara levanta com seu vestido amarelo da coluna de bancos separados para os membros da Amizade. Ela anda em direção ao centro, com os braços encolhidos no corpo e com os vestidos balançando preguiçosamente. Seus cabelos movem-se quando ela olha para o lado e me encara diretamente. Meu coração quase dá um salto ao olhar aqueles olhos azuis claros e profundos.
Barbara pega a faca no meio da coluna e faz um corte na palma da mão. Rapidamente vejo sua mão se tornar uma pequena poça de sangue e, ela, sem hesitar, anda em direção ao recipiente com brasas de fogo e ferventes e pinga o seu sangue.
Daqui pude ouvir o seu sangue ferver no fogo de tanta coragem.
— Audácia! — anuncia Jeanine.
Barbara, sorridente, é aplaudida pelo bloco da Audácia e é recebida com abraços fortes e apertados. Olho para a sua antiga Facção, Amizade, e analizo os seus antigos amigos. Eles demonstram ar de decepcionado. Exceto uma de cabelos loiros. Ela está sorrindo. Provavelmente deve ser o tipo de amiga que apoia em tudo o que faz. Já a porta-voz, Johanna Reyes, demonstra um ar de contrariada e decepcionada.
— Matteus Connor! — anuncia Jeanine.
Meu coração agora está prestes a explodir de tal velocidade. Minha garganta aperta e o ar se torna dificultoso de se respirar.
É a minha vez!
Eu, definitivamente, queria estar morto. A dor que irei causar em meus pais irá me matar por dentro.
Minha mãe aperta a minha mão com força, o que me chama a atenção para encara-la nos olhos. Vou realmente ter a audácia de decepciona-la? Ela faz um sinal com a cabeça, indicando o palco. Ela reprimi um pequeno sorriso e, então, me levanto. Caminho com passos lentos e curtos até o centro, onde todos os olofostes estão. Tudo isto estará sendo registrado. Tudo.
Subo as escadas, uma por uma, respirando e inspirando. O ar ainda está dificil de se adiquirir. A cada passo, uma pontada de dor no peito. A cada pontada, um pensamento remoto de como os meus pais se sentirão.
Pego a faca em cima da coluna, que está na minha frente e faço um corte em minha mão. Sinto uma dor ardente na palma da mão e um vento frio entrando por esta brecha.
E agora? O que eu escolho?
Eu prometi a Barbara que iria para a Audácia com ela.
Não. Você não pode ir para a Audácia, você será morto.
Não posso suportar uma vida inteira na Abnegação. Não posso.
Tenho que escolher a Audácia. É a única que me resta.
Ou não. Barbara está esperando por mim na Audácia.
Ando em direção ao recipiente da Audácia e coloco a minha mão em cima das brasas quentes e ferventes, sentindo o calor entrar pelo meu braço.
Lembro-me rapidamente das palavras de Cara: "Não pode ir para a Audácia... eles irão te descobrir rapido demais."
Meu corpo é impossibilitado de se mover por conta das inúmeras vozes em minha cabeça e, de repente, ouço uma dizer:
Talvez você se sinta assim porque está pensando muito nos outros.
E esta voz está certa. Barbara queria me revelar quem eu era. Quem eu sou. Quem eu serei. E finalmente entendi o que ela quis. Irei ser o que eu sou de verdade.
E eu não sou corajoso como ela para seguir um caminho na Audácia.
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— B a r b a r a
A mão de Matt já está coberta de sangue de tanto tempo que ele está parado, ao lado da coluna do meio, onde ele pegou a faca. A mão dele está tremendo muito. É como se ele estivesse indo para a sua morte lenta e dolorosa.
Os minutos se passam, quando finalmente, ele dá o seu primeiro passo. O segundo. O terceiro. Ele está indo em direção ao recipiente da Audácia! Ele está indo ser corajoso! Ele está indo me escolher!
Matt posa a sua mão sobre o recipiente mas o seu sangue não pinga. Escorre para o lado mas não cai, apesar de sua mão está tremendo como uma vara de bambu.
Matt respira fundo e inspira. Seus ombros descem tensamente e seu corpo é inclinado para a direita, para outro recipiente, para outra facção, para outra escolha.
Seu sangue pinga, fazendo o barulho do impacto com a água ecoando por todo o salão silencioso.
— Erudição! — anuncia Jeanine.
A coluna de bancos da Erudição aplaudem ao Matt. Uma garota loira e vestida de azul esfrega o a mão no braço de Matt. E isso me causa um ódio. Tanto dele, quanto dela. Como ele pode? Ele mentiu pra mim!
E tanto eu, quanto os pais dele, estamos decepcionados com ele!
Eu não quero que olhar para a cara dele nunca mais!
— Audácia! — ouço Jeanine anunciar.
Uma cabeleira loira me abraça, antes de eu perceber quem é que escolheu a minha nova Facção.
— Estamos juntas! — diz Alice.
— O quê?! — digo — Alice, o que está fazendo aqui?
— Eu estou sendo corajosa. — diz Alice — Ah, qual é! Não achou que eu ficaria na Amizade, não é?
— Na verdade, eu achei sim! — digo.
— Errou feio! — diz ela, me abraçando de novo.
Leticia ficou na Amizade. Estamos separadas dela. Eu, Alice e a Leticia somos como irmãs. Eramos. Agora, somos de Facções quase rivais. Como isso aconteceu? Fomos criadas juntas, recebemos o mesmo ensinamento mas escolhemos caminhos diferentes.
O bom disso tudo, é que terei uma amiga comigo. Logo a pessoa que eu não imaginava estar comigo lá dentro.
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