Do outro lado da lua
4 Capítulo 4
– O que pensa que está fazendo? Ficou completamente louca? Essas coisas não são cachorrinhos com o qual você joga um galho, são monstros Luz, monstros! – Guilherme andou de um lado para o outro, ele não queria olhar para mim.
Eu não estava pronta para aquela conversa, não estava pronta para Guilherme. Minha cabeça girava em trezentos e sessenta graus, minha respiração ficou presa e uma fumaça invadiu meus olhos de uma maneira que dominou meus sentidos.
***
Estava correndo por um vale de árvores secas. Não tinha controle sobre meus pés descalços, que tocavam rapidamente a terra quente. Respirava ofegante, mas mesmo assim tinha forças para continuar, como se algo enchesse meus pulmões me impulsionando sempre em frente. A neblina gelada batia veloz em meu rosto, tinha a estranha sensação de que poderia congelar a qualquer momento. Minha camisola branca enroscou em um galho seco, me fazendo ir ao chão. Se não fosse isso, não ouviria os passos tão leves quanto à brisa que eu procurava.
Mais a frente, a mulher com capa vermelha flutuava majestosamente. A segui com cuidado para não fazer barulho. As árvores velhas ficaram para trás dando espaço a um monte de gelo com um castelo inteiro feito de espinela. Espantei-me com a beleza de um lugar tão improvável que um grito de uma mulher me assustou.
A mulher majestosa empurrou do precipício outra, meu grito ficou entalado na garganta, tentei chegar perto dela com força e fúria, mas a mulher que virava desapareceu no ar. A outra estendeu as mãos, ela estava presa em um galho, tentei segurara — lá, tentei pega-la...
***
– Luz, está me ouvindo?
–parece que não, seus olhos estão a abertos, mas não reagem.
Escutava a vozes distantes sem poder respondê-las. Finalmente senti ar encher meus pulmões, como consequência tossi como se nunca tivesse tossido na vida. Levantei-me com meus pés vacilantes, e corri, não tão depressa como queria. Guilherme parou na minha frente como uma muralha, seus braços já estavam em volta de mim, era agora um lugar desconhecido.
– Não vou deixá-la fugir, você quase me matou de susto...
O soltei com grande velocidade. Talvez estivesse exagerando um pouco, ou não, devido aos últimos acontecimentos. Eu só queria uma pessoa ao meu lado nesse momento, a única que não pode estar. Lembrar dela me trouxe uma onda de sentimentos que eu estava trancando no fundo de um baú bem escondido.
Olhei para Guilherme, ele podia entender tudo o que estava pensando mesmo que eu não dissesse uma palavra. Ele suspirou pesadamente e deixou que eu passasse.
Na casa em ruínas o único lugar que estava intacto era o quarto da Cindy. Abri a porta com a certeza que eu nunca tive e entrei com um pé de cada vez. Não era bem o lugar que se espera para um quarto de avó. Era branco, muito branco, com alguns moveis em tons de madeira, mas a maioria deles era em tons claros. Pensando bem, ela nunca usou outra cor de roupa que não fosse clara, seu quarto a refletia muito bem. A saudade apertou meu peito. Mas o que é que eu estava fazendo? Ela precisava de mim e eu estava apenas deixando as coisas passar.
Fui à casa de Guilherme, por sorte não haviam voltado ainda. Juntei o máximo de coisas que consegui, joguei dentro de uma mochila e fui para dentro da floresta. Guilherme disse que aquelas coisas que nos atacaram quando éramos crianças, vinha de lá e voltavam pelo mesmo caminho com as pessoas que desapareciam. Eu só precisava achar alguma coisa que me desse uma pista.
Horas se assaram desde que entrei pela trilha, ela só ia até certo ponto e depois não havia mais nada, apenas árvores completamente fechadas. Esquivar-me de todos os galhos e matos altos não estava sendo muito fácil, eu não aguentava mais andar ou fazer qualquer coisa, escurecia rápido. Joguei a mochila no chão e desabei sobre ela, eu não aguentava mais aquilo. Por que eu não podia ser uma menina normal, com problemas normais de menina? Porque eu tinha que estar procurando minha avó no meio da floresta fechada, lotadas de lobisomens e sabe-se lá mais o que?
A escuridão total me cercou em poucos minutos, acendi uma fogueira com muito esforço e... começou a chover. Segurei minha caneca com as duas mãos e escorreguei por uma arvore até estar sentada no chão de lama.
Minha situação não era nada boa, floresta escura na noite de lua cheia, chovendo e sem uma fogueira, eu ficaria gripada, com certeza ficaria gripada. Alguns galhos se mexeram um pouco, segurei minha faca por prevenção e esperei desejando que o que estivesse atrás dos galhos fosse embora. Minha visão foi escurecendo aos poucos e eu apaguei. O mesmo sonho estranho voltou, a mulher da capa desaparecia antes de virar.
Batia o queixo desesperadamente, a escuridão me impedia de andar sem tropeçar, ou melhor, correr sem tropeçar. Na minha situação não havia muito que fazer, os uivos se aproximavam depressa, não estava preocupada com lobisomens, percebi que não tinha o menor pingo de medo deles, minha preocupação era que se naquele lugar havia lobisomens, o que e mais poderia ter ali? Sai do meu devaneio e fui cercada por uma luz forte, coloquei a mão no rosto para conseguir, sem sucesso, enxergar alguma coisa.
Alguns segundos depois, meus olhos acostumaram com a excessiva claridade. Era uma parte da floresta mais aberta, a grama verde cobria todo o terreno plano em que estava, as árvores em volta daquele “buraco” se retorciam em volta de um minúsculo chalé. Era impossível não notar a beleza desse lugar, flores azuis e vermelhas conduziam um caminho de pedras brancas ate a entrada, o sol reluzente iluminava o caminho.
Antes que eu pensasse em andar em direção ao chalé, pequenos homenzinhos saíram de traz de árvores com lanças e espadas, não sabia qual deveria ser minha reação, correr ou ficar parada? Eu estava cansada de correr, então ia ficar parada. Sem esperar, os homenzinhos pularam na minha direção, novamente coloquei a mão no rosto desejando que tudo aquilo parasse. E... funcionou, ele estavam olhando para mim com os olhos arregalados sem nem sequer se mexerem. Saindo de uma sombra, quase imperceptível, uma mulher de curtos cabelos negros e pele branca feito neve empunhava uma espada feita de diamantes.
Eu não estava acreditando, homens pequeninhos e uma mulher branca, só poderiam ser eles, só poderiam ser Branca de Neve e os setes anões, eu estava explodindo de felicidade, poderia sair saltitando, eles existiam. Mas minha felicidade só se resumia por dentro, porque de verdade, ficar com uma espada no pescoço e cercada de lanças não era nada divertido.
– Quem é você e como conseguiu entra aqui?- perguntou ela com a voz firme e autoritária.
Engoli a seco.
– Eu sou Luz e entrei aqui, bem... entrando – dei de ombros.
Ela ficou um pouco surpresa, deu uma boa olhada em mim, mas não baixou a guarda.
– O que faz aqui?
– Eu estava procurando uma pessoa e acabei parando nesse lugar, pensando bem, foi uma burrice, nem sei se ela está vivia. Já faz tanto tempo – disse respirando bem fundo.
Branca não sabia o que fazer, ela apenas ficou parada me analisando.
– Dei-me um bom motivo para não cortar sua garganta nesse exato momento — ela falou entre dentes.
Podia pensar em um milhão de coisas desesperadas para salvar meu pescoço, mas analisando minha vida só havia uma resposta plausível.
– Eu não tenho nenhum. – disse convicta, olhei bem fundo em seus olhos azuis para saber que eu não era inimiga e que dizia a verdade.
Ela cedeu um pouco a espada, não havia nenhuma expressão em sua face. Inesperadamente ela caminhou por entre as lindas flores e não disse uma palavra até virar para traz.
– venha comigo – ordenou.
Eu sabia que não era inimiga dela, mas não sabia se ela era minha inimiga, afinal, ela não era bem a Branca de Neve das histórias. Vendo minha hesitação ela disse:
– Não vou machucá-la, não mais – continuou andando seguida por bem mais que sete anões.
Meus pés a obedeceram contra a minha vontade, andar por aquele caminho trazia as sensações mais estranhas possível, queria muito saber se eram boas ou ruins.
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