Notas iniciais
Adivinha quem voltou? Euzinha, trazendo para vocês mais um capítulo. Aproveitem, pois não sei quando sairá o próximo.

Apostar corrida com Guilherme, nunca foi uma boa ideia. Meu esforço de tentar ultrapassá-lo ao menos uma vez na vida estava fracassando, como sempre. Eu tentava me livrar de todas as perguntas conturbadas em minha memória, já ele, queria que eu as trouxesse a tona, não posso deixar isso acontecer. Não sou uma pessoa que saiba lidar com medos.

Se nenhum esforço ele quase flutuava ao meu lado, a parada abrupta e as mãos fortes em meu pulso que pareciam algemas, fez com que meus pés vacilassem. Ele me segurou antes que eu caísse.

Tentei não olhar em seus olhos, ou meu esforço não ia adiantar em nada. Cuidadoso, ele levantou meu rosto, até que ele estivesse completamente no meu campo de visão.

– Não é fácil, de repente isso tudo desabou em cima de você. Nada do que eu disser vai te fazer sentir melhor, mas saiba que eu ainda estou aqui – ele deu um sorriso discreto, algo como um apoio.

– não vai funcionar – disse soltando sua mão do meu rosto. Ele me encarou confuso por algum tempo – você não vai me fazer chorar Guilherme.

Voltar a correr era a única coisa naquele momento capaz de secar meus olhos quase transbordando, foi o que eu fiz.

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O chão cheio de pedras e a neblina na noite sem estrelas era um grande problema para quem tinha pés tão pequenos. Seu pai a arrastava por entre as árvores que gritavam. A pequena garota estava com medo, pressionou as mãos nos ouvidos para não escutar, mas o som ultrapassava suas mãozinhas de criança. Mesmo estando os dois correndo, o barulho parecia persegui-los.

A forte explosão foi seguida por outras. Ela sentiu o calor e olhou por cima do ombro, as árvores estavam pegando fogo. Seu pai pegou-a em seus fortes e protetores braços.

– vai ficar tudo bem querida, se acalme. Vamos ficar bem – disse em seu ouvido, com a voz grave e confortável.

A pequena menina afundou a cabeça na curva de seu pescoço e tentou controlar o medo, ela não podia evitar. Agora as luzes deixavam as sobras das arvores gritantes ainda mais amedrontadoras.

Seu pai estava ao lado dela, isso a consolava. Em seus braços ela tentou ser forte. Desde então eles não pararam mais de correr.

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A noite estava tensa como a anterior, porém eles não estavam se preparando para proteger a casa. Dessa vez ficaram fora o dia todo, levaram as armadilhas para a floresta e trataram de afiar suas lanças. Eu não queria admitir, mas estava apreensiva.

Quando a noite definitivamente apareceu, os cinco chegaram para buscar suas coisas. A noite seria de caçada. Tentei falar com Guilherme, mas ele estava daquele jeito estranho.

– eu posso ficar... — estava sugerindo a ele.

–não, ela vem conosco. – me interrompeu Peter.

– mas...

– nada de mais. Ela vem com a gente – ele se dirigiu a Guilherme.

Guilherme o acompanhou com o olhar até a porta, ele estava indignado, mas não se opôs.

– desculpe-me por isso – pediu irritado.

– está tudo bem – tentei acalmar a ele e a mim mesma.

Diogo estava com seus óculos escuros mesmo estando de noite, o cabelo despenteado negro contrastando com a pele branca. Ele estava encostado na arvore com seu arco jogado nas costas, parecia descontraído para quem estava indo caçar monstros de três metros.

– não se preocupe – abaixou os óculos – nenhum lobo é páreo para esse tanquinho, afinal eu sou forte, corajoso, inteligente, já falei do tanquinho...

Parei de escutar quando ele começou a dancinha sensual. Para nossa sorte, minha primeira noite caçando lobos seria com chuva e neblina, não estava chovendo ainda, mas os raios e os trovões avisavam que seria logo.

Depois de entrar na floresta, a parte mais difícil foi enxergar um palmo à minha frente. O vento soprava no meu ouvido com sua sintonia aguda, isso não me arrepiava tanto quanto os uivos frenéticos, que pareciam se aproximar mais de onde estávamos. Era como um filme de terror.

Guilherme não saia do meu lado. Ele estava mal humorado, acho que ele queria estar aqui tanto quanto eu. Peter fez um sinal com a mão para que parássemos, nós é claro, obedecemos.

– vamos nos separar, verificamos as armadilhas e voltamos a nos encontrar daqui a meia hora e nenhum minuto a mais – disse com a sua voz nada gentil. Eu ainda não sei o que esse cara tem que me deixa tão intrigada.

Com o barulho atordoante, eu e Guilherme seguimos para as armadilhas ao leste da floresta. Um passo de cada vez.

Além dos lobos, as corujas resolveram fazer uma reunião, meu coração acelerado tamborilava nos meus ouvidos. Passamos por uma pequena clareira, foi o suficiente para ver a lua brilhante e majestosa lá no céu.

Guilherme parou de repente. Ele agitava seu arco de um lado para o outro. Um suor frio escorreu por seu rosto pálido, ele não estava bem, não estava nada bem.

– fique alerta! – disse para mim quase inaudível.

Uma brisa diferente se aproximava de nós dois. A cada segundo parecia aumentar, nós ficamos paralisados, apenas esperávamos o que quer que fosse aparecer. Em um segundo uma nuvem negra de morcegos se chocou com a gente. A minha primeira reação foi correr, desesperadamente e loucamente com os morcegos grudando no meu cabelo e batendo as garras afiadas na minha pele.

Quando eles se dissiparam e eu finalmente parei de correr, a floresta ficou silenciosa. Florestas silenciosas nunca, nunca significam algo bom. A segunda reação foi pânico, seria, se eu não estivesse completamente paralisada. Com certeza, sem sombra dúvidas havia algo atrás de mim. Fechei meus olhos e apertei minha mão bem forte, tentando controlar o martelar do meu coração.

A respiração alta balançou meus cabelos, me virei o mais devagar que consegui. Meus pés trabalhavam com calma. Ouvi um rosnado que saiu do fundo da sua garganta.

O lobo rosnou tão ferozmente que os pelos da minha nuca eriçaram, em um segundo eu estava no chão sentindo meu ombro molhar e uma dor latejante nas costas. O animal andou pesadamente até estar sobre mim.

Vi minha vida passar toda em um segundo, foi à sensação mais estranha que já senti. Quando nossos olhos se encontraram, foi como um imã poderoso. Eles passaram de dourados brilhante a verdes intensos. Vi sua ferocidade se esvair e sua postura mudar. Meu medo foi em borá, repentinamente ele não mais existia.

O lobo de três metros soltou um gemido agudo, cambaleou alguns passos para trás, mostrando um garoto loiro com um arco nas mãos.

– você está bem?- me levantou do chão. Ele tentava me puxar para longe com um desespero aparente.

O lobo choramingou, diminuiu e gritou. No lugar de um monstro, estava um menino que não devia ter mais que quatorze anos. Meus olhos passam do garoto para Guilherme.

Ele estava com os ombros caídos e os olhos escuros. Dei alguns passos para trás, ele tentou me segurar, mas eu desviei. Corri depressa com Guilherme na minha cola.

Os outros vieram em nossa direção, choquei de frente com Diogo que me segurou. Havia algo borbulhando dentro de mim, uma explosão de sentimentos, medo, pânico.

“vai ficar tudo bem querida, se acalme. Vamos ficar bem...” a voz do meu pai veio em minha cabeça. Respirei trezentas vezes e gritei com meu pulmão ardendo.

– o que eles são?!

Todos me olharam como se eu fosse uma completa louca. Diogo soltou meus braços e apertou seu arco por instinto.

– como assim o que eles são? – repetiu minha pergunta com um tom sarcástico na voz.

Guilherme chegou correndo, Diogo passou seu olhar cauteloso para ele que estava suando e com a flecha ensanguentada nas mãos. Uma rápida compreensão encheu seu rosto. Ele passou o peso de seu corpo de um pé para o outro, um sorriso queria brincar em seus lábios.

– o que acha que lobisomens são Luz? — Disse enfatizando cada palavra.

Foi como engolir uma faca. Sem controlar meus pés corri o mais rápido que pude, para dentro da neblina densa, mesmo com eles atrás de mim. A chuva começou a cair desmanchando todas as possibilidades de enxergar alguma coisa.

Eu não tinha me dado conta do que estava fazendo. Eu tinha saído no meio da floresta a noite para caçar lobisomens, eles eram só mitos até ontem. Sentei-me em uma longa raiz da arvore, não sabia o que era pior, a chuva gelada ou minha lagrima quente, talvez os dois juntos não fossem uma boa combinação.

Fiquei sentada lá na chuva incessante e fria até o dia começar amanhecer e espantá-la. Não era completamente dia ainda quando ouvi as vozes de Guilherme e companhia. Não adiantava fugir uma vez que ele estava perto o suficiente, mas não custava nada tentar.

Eu ainda não aprendi a lição sobre andar em uma floresta sozinha, nunca dá certo. Como um raio veloz um mostro gigantesco, muito maior que o anterior, pulou na minha frente. Ele rugia e se esperneava, não estava tentando me atacar, nem tinha me visto ali, ele estava preso em uma das armadilhas dos caçadores.

Guilherme chegou antes do que eu esperava, ele olhou para mim e logo se voltou para o lobo. O lobo, que tem orelhas e focinho muito sensíveis, nos percebeu e ficou imóvel, enfrentando Guilherme. Eu estava no meio dos dois, não aguentaria ver aquela cena se repetir. Deci a mão em direção a cintura, a faca que tinha pegado antes de sair ainda estava lá. A segurei com força enquanto olhava o movimento delicado de Guilherme em direção ao seu arco.

Antes que ele o alcançasse, corri para o lobo e cortei a corda que o prendia. Eu tinha que impedi-lo, antes que atirasse eu corri em sua direção, ele se distraiu em um segundo e então, congelou. Seus olhos varriam a área em quanto seus pés trabalhavam rápido.

O lobo não estava mais preso.