Do outro lado da linha
240 Atendimento #240: Veja bem
Notas iniciais
Atendimento #240: Veja bem
Simplicidade é a alma do sucesso em uma chamada, o que é claro quase nunca acontece pois os cliente sempre dão um jeito de complicar as coisas. Sabe o que é que faz as empresas gastarem tanto dinheiro em relação a seus produtos? Simplicidade. Pense bem e compare um produto de dez anos atrás com um de hoje em dia e me diga, qual deles é o mais fácil de usar?
Pois é, o desenvolvimento tecnológico na realidade é uma constante batalha contra a preguiça e a burrice da grande população.
— Veja bem eu não tenho culpa de você não sabe explicar o que quer de maneira clara.
— Mas senhor eu falei “pressione qualquer tecla do seu notebook”
— E o que eu fiz querida?
— O senhor pressionou o botão de desligar do seu aparelho. — Alana falava com a mão na frente do rosto, a mulher que já estava tão de saco cheio do cliente que nem seus remédio ela queria mais tomar.
— Sim mas veja bem, você disse que era qualquer botão…
— Então você é uma minhoca desnutrida que não raciocina senhor?
Ezequiel lia seu livro de ajuda à empregados ferrados e se perguntava se estava tudo bem quanto ao vazamento de dados. Não havia ocorrido nenhum tipo de denúncia durante os ultimos tempos como ele previra, na realidade ele esperava que acontecesse, por essa razão ele usava seu tempo livre para tentar tramar um plano infalível que o salvaria de tudo.
— Nunca espalhe as peripécias do seu chefe na internet, ele pode alegar que vocÊ o estava espionando processá-lo e…
— Mas veja bem…
— Veja bem é o cacete fera!
Alana falou tão alto e tão furiosa que Ezequiel perdeu a concentração na leitura e foi conferir o que a subordinada tão tinha dificuldade de resolver. No exato instante que o supervisor deu uma meia volta ao lado de sua mesa, seu jaleco passou por cima do livro fazendo com que algumas páginas fossem puladas.
— Tomou seus remédios?— sua pergunta foi mais na lata que tiro de sniper no coco de vacilão em fps.
— Não, parei de tomar essas porcarias.
Nosso heroi abaixou-se e começou a inspecionar a funcionária, seu objetivo era conferir para ver se a mesma estava passando bem ou se fora trocada por andróide que se revoltaria contra todos e futuramente exterminaria a raça humana.
— Como assim você parou de tomar seus placebo? — ELe levou a mão a boca quando percebeu que dissera a ela o segredo dos remédios falsos.
— Relaxa, eu sabia que eram pilulas de açucar, — ela meneava a mão em um aceno de desdém. — Placebo funciona mesmo se você sabe.
— Tá… e o que…— Ezequiel nem se quer foi capaz de perguntar e a colega já foi esbravejando
— Esse imbecil ! Tudo o que ele precisa fazer é apertar uma tecla para arrumar o problema do notebook dele.
— Verificação antes da inicialização né?
Nosso herói falava daquela verificação chata de antivirus que demora dois mil anos para terminar e que o cliente acha que era defeito do produto.
— Veja bem eu não sou idiota!
O cliente escutava toda a algazarra!
— Senhor, você se considera uma pessoa detalhista? — Ezequiel conhecia aquele tipo de atendimento tão de cor, até porque ele próprio o fizera várias vezes.
— Veja bem, eu me considero um homem detalhista, mas acho que…
— Eu sabia... — Ezequiel não era detalhista, mas devido a experiência ele ja sabia como resolver. — Senhor repita exatamente o que a atendente lhe orientou e que o computador mostrou…
— “Para cancelar a verificação pressione qualquer tecla”
E a armadilha do supervisor continuava a se armar.
— E como o senhor chama essa parada de ligar aí? — Nosso herói, com o sorriso mais aberto que um monstro gigante pronto para invadir uma cidade de gente pequena, ele prosseguiu olhando para a Alana.
— Veja bem é um botão…
— É nada senhor! Tá de zoa que o senhor chama isso de botão…
— Veja bem.. eu chamo ué, é assim que se deve chamar, botão de desligar.
— Entendo senhor, não sou detalhista como o senhor, por isso eu acredito no senhor.
Alana não entendia o que ele fazia ao dar razão ao cliente, na realidade não era de seu feitio fazer isso, normalmente Ezequiel quebrava as pernas dos clientes sem dar-lhes chance de defesa.
— Mas senhor agora que eu observei a situação, lembrando não sou detalhista, eu percebo que a mensagem diz claramente “Para cancelar a verificação pressione qualquer tecla”— Alana entendeu o que viria e mordeu a língua para não gargalhar.— Veja bem senhor… a palavra botão não aparece em nenhum momento. Então veja bem...acho que o senhor é burro mesmo.
O cliente encerrou a chamada ao perceber que ele que errara na chamada. O supervisor tocou a palma da mão com a subordinada em um típico cumprimento highfive.
— Eu tava lendo essa página mesmo? — Questionou-se Ezequiel ao voltar-se ao livro. — Acho que sim...— Completou dando de ombros.
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