Do outro lado da linha
140 Atendimento #140 Contas
Notas iniciais
Atendimento #140 Contas
Começa o mês e todos nós temos de correr para quitar nossas dívidas. Luz, telefone, internet, conta do bar e conta da sexy shop. Essas são apenas algumas das pendências que Amanda e seu marido Ezequiel tinham de enfrentar antes da noticia da gravidez. Já o senhor Alastor possuía gastos mais equilibrados.
— Um quarto do salário vai para a bebida, o outro um quarto vai para a comida.— Ele dividia o dinheiro do salário em partes iguais. — Outro um quarto para bebida...— Pensou por um instante.— E o resto eu uso pra pagar o que tiver de contas.
— Metade do salário só pra cachaça?— Ezequiel olhava com interesse as poucas notas de dinheiro vivo que Igor colocara sobre o teclado de seu computador. — Você e sua mulher são dois pinguços.
— Metade do salário não! — Ergueu-lhe o dedo médio. — Dois quartos de salário, nunca que eu ia gastar tanto com goró. — Olhou para um lado e para o outro. Neste momento ele viu um de seus ex atendentes, aquele que possuía uma rivalidade com nosso protagonista, conversando a uma distância muito curta com um dos gestores gerais.— Ixi, que é que tá rolando aqui?— Antes de Igor tirar o headset e verificar uma chamada surgiu.
— Alo? — A voz masculina estava em prantos. — Alguém atende por favor! —
Igor não surpreendeu-se ao perceber alguém ligando enquanto chorava, já fizera monitorias suficientes e já vira clientes se debulhando por diversos motivos. Alguns tinham motivos muito bons como por exemplo, encontrar a mulher e o técnico da tv a cabo se atracando iguais animais. Outros eram mais bobos, como a mulher que reclamou que a empresa só mandava técnicos feios para ela, pois ela queria se atracar com ele antes do marido chegar.
O atendente pensou um pouco, estalou os dedos e tirou do mute.
— Se, me vê agarrado com ela separa que é briga, tá ligado? — Igor balançava a cabeça ao lembrar da música nostalgica. — Ela quer um carinho gostoso, um bico dois soco e três cruzado. — Esperou um segundo acreditando que o cliente emendaria a cantoria, mas isso não aconteceu. — Dona gigi? Não? — indagou ele. — Tá aqui é Igor Alastor, o que manda?
—Oi, meu nome é Edison e eu preciso de uma ajuda.
Geralmente quando o cliente liga seu telefone é mostrado para o atendente e com ele este pode localizar os registros no sistema. Não era bem o caso do cliente pois assim que sua chamada apareceu seu telefone foi lançado automaticamente para o sistema de Igor e apareceu seus registros.
— Eu to aqui pra dar um help senhor, só mandar. — Igor ficara em pé para observar o subordinado Kauã. Ele vira o mesmo rindo e conversando bastante com o gestor até que ele o levou para a sala de reuniões. Colocou no mute. — I alá mané...— Retornou.— O que deu ai chefe o técnico da tv era bombado demais?
— Oi ? Não, não. Eu perdi as minhas contas no caminho da lotérica e agora eu estou ferrado. — O cliente estava desolado, parecia té aquelas pessoas que acabam de comprar o cachorro quente e tem seu lanche roubado por um bando de pombos meliantes.
— Pra tá mijando pelos olhos desse jeito as contas não estavam pagas né? — Com um gemido de tristeza o cliente confirmou. — Eu não sei se você tá ligado, mas já faz um tempo assim que os cranudo gringo inventou uma parada chamada impressora. Talvez ela resolva essa choradeira.
— Mas eu perdi as contas com o dinheiro para pagar elas. — Edson chorava como se estivesse em um barco afundando, mas se realmente estivesse o nome da embarcação seria SPC & SERASA.
— Aí é foda. — Igor coçou a cabeça. — Bom senhor eu infelizmente não tenho muito o que fazer, eu tô tão ferrado de grana quanto o senhor. Minha mulher quer que eu me prostitua pra que ela consiga comer cheeseburger no fim de semana. E se o senhor ligou pedindo um empréstimo sinto dizer.
O cliente desatou a chorar.
— Mas...
— Espera.— Igor balançou a cabeça. — Serio mesmo que você liga aqui achando que eu vou te emprestar dinheiro? Tá me achando com cara de agiota? — O ex taxista sentiu um toque no ombro, ao virar-se notou Ezequiel o fitando enquanto meneava a cabeça positivamente.
— Mas você têm cara de agiota, roupa de agiota. — Segurou a camisa azul marinho aberta sobre uma camiseta branca. Fungou rente ao pescoço dele. — Até cheira como agiota cara.
Igor empurrou nosso protagonista com um susto e armou um mata leão em seu pescoço. Enquanto Ezequiel estrebuchava sem ar, Igor reparou uma atualização nos registros do cliente.
— O que é isso? — indagou-se ao aproximar-se da tela e trazer consigo Ezequiel com a cara roxinha. — Senhor...
— Senhor meu Deus. — Orava o cliente com toda a sua fé. — Me empresta uma graninha pra pagar as contas? Eu juro que devolvo em dobro!
Igor franzira o cenho enquanto nosso bailarino das chamadas tentava ler o que mudara na tela.
— Fa-fatura...paga. — Leu estirando a lingua para fora.
— Senhor. — Igor largou Ezequiel que já parecia uma jabuticaba. — Aparentemente a sua conta desse mês foi paga agora.
O cliente caiu de joelhos, comemorou internamente por alguns instantes. Ergueu os olhos.
— Sério que eu agora te devo o dobro? — Constatou o cliente ao perceber agilidade que a negociação se deu com o todo poderoso.
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