Do outro lado da linha
109 Atendimento #109: Procedimento
Notas iniciais
Atendimento #109: Procedimento
Para tudo nessa vida existem procedimentos. Se você quer viajar, existe um procedimento para isso, comprar passagem, arrumar as malas, fingir que tá doente para ganhar folga no trabalho; se você quer dormir existe um procedimento para isso, deitar, coçar a bunda, se esticar, pensar em teorias atômicas, etc. E pra perder a virgindade então? Nossa é um processo mais burocrático do que tirar visto para os E.U.A.
Para os operadores o que mais se faz é seguir procedimentos, porém, por mais que tentem seguir em uma constante sempre existe um ou outro cliente que escapa pela tangente.
— Entendi. — Nosso herói anunciou tentando cortar o assunto do cliente
— Aí eu simplesmente trouxe pra casa e coloquei na energia, só que minha esposa me chamou e por isso eu não...
— Entendi. — Ezequiel falara com um tédio de mil preguiças com lentidão.
— Tá, eu acho que desviei um pouco do assunto não foi? — O cliente reconhecera a falha com um sorriso envergonhado.
— Que nada senhor, eu só estou a doze minutos tentando saber qual seu nome para começar a fazer o registro do meu atendimento, só isso.
— A me desculpa.
— Relaxa, você não vai ser o último que vai fazer isso. — Ezequiel liberou o ar dos pulmões em um som de “você é um imbecil” — Fala ai chefe, qual é o seu nome?
O cliente informou seu nome e fez todo o registro. Philip explicara a Ezequiel que sua conta estava apresentando problemas para chegar, de acordo com o que fora dito o cliente tinha plena certeza que tinha feito tudo correto em seu cadastro e portanto o problema tinha de ser no sistema da empresa de Ezequiel.
— Mas eu fiz tudo perfeito, é impossível que eu tenha feito o registro errado.
— Nada é impossível colega. Das coisas que eu escuto aqui esse caso é um dos mais simples, sério mesmo.
O cliente se recusara a entender e começou a revisar toda a sua história com operador.
— Vamos lá eu quero encontrar onde eu errei.
— Tá, fazer o que né?
Ezequiel abriu a mochila e dela sacou uma garrafa de café, sim daquelas térmicas. Despejou o liquido na tampa e logo concluiu que estava sem açúcar, o que foi muito bom considerando que o cliente repassou quase tudo o que vivera. Após mais vinte minutos de muitas histórias de uma infância deturpada, nosso operador favorito já estava trincado de cafeína.
— Então amigo onde você acha que eu errei?
— Sabe lá no começo? Lá no iniciozinho de tudo quando você ainda era um pentelho remelento que nem conseguia soltar um pum sem se borrar todo? — Ezequiel tinha os olhos arregalados e a respiração acelerada.
— Sim, mas o que têm isso? — Philip não desconfiava do estado que seu atendente se encontrava.
— Então, começou ali. É...— Ezequiel meneava a cabeça rapidamente, quem o olhasse de relance teria a impressão que estava convulcionando, mas era apenas energia acumulada.— Era só um registro simples cara, como é possível você ter errado isso? Nem uma gansa chapada de bala halls conseguiria fazer um cadastro tão errado como o seu.
— Agora eu quero que você me prove que eu errei.
— Vamos lá… você colocou o endereço da sua rua no campo “ENDEREÇO”? — O atendente enfatizou o termo de forma a não ter dúvida.
— Sim eu coloquei.
— Colocou o número da casa?
— Coloquei sim.
— Escreveu um ponto de referência para onde chegaria?
— Sim eu fiz isso.
— Têm certeza? — Ezequiel plantara a isca em baixo do caixote e estava pronto para pegá-lo em sua armadinha.
— Absoluta amigo, eu coloquei endereço, ponto de referencia e o numero.
— Obrigado por confirmar senhor, mas...— Ezequiel abrira o sorriso largo. — Essa era a forma incorreta de fazer.
A chamada silênciou-se.
— Senhor, eu sei que você tinha toda a intenção de receber a conta em casa, mas se tivesse prestado atenção no inicio da página teria visto que a opção “receber conta por E-mail estava marcada” então nunca que você receberia sua conta, porque não tem nenhum e-mail chamado ruadascastanheirasnumero543aoladodobardoalemao@meuendereço.com !!
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