Do or Die

3 Capítulo 3 - Fase 0 part2


Notas iniciais
E o terceiro capitulo da fic foi postado! Ficou meio grande, mas... Boa leitura ;D

Caso você nunca tenha estado em uma sala de recepção de um hospital com três enfermeiras meio zumbis que queriam te matar, permita que eu descreva para você. A sala era circular, com o painel da recepção em um canto, o quadro com o cartão dourado estava lá em cima. Havia mesas e café e sofás espalhados aqui e ali — a maioria estava destruída a aquela altura — e havia um grande buraco na parede aposta, isso mesmo, um buraco grande o bastante para um carro entrar em pleno 8º andar de um prédio. Mas o interessante era que esse buraco na parede, que arrancava parte do piso também, não tinha nada. Como se fosse um buraco negro e vazio, que mostrava apenas o frio céu da madrugada do mundo lá fora, sem quais quer estrelas no céu ou prédios vizinhos. Apenas o infinito vácuo de uma noite sem estrelas... Arrepiei-me só de pensar como seria uma queda dali.

E as enfermeiras em questão não eram tão normais também. Elas eram mais altas do que a maioria das pessoas, pálidas e com as veias pulsando para fora da pele — veias roxas e azuladas que pareciam teias de aranha sob suas peles pálidas -, seus olhos eram vagas órbitas brancas, sem pupila e sem cor, eram apenas brancos. Cada uma se vestia como uma enfermeira, mas o único detalhe era que seus rostos estavam todos cobertos por faixas hospitalares cheias de sangue, e a única parte do rosto delas que estava visível através das faixas eram os olhos vagos. As roupas delas, que deveriam ser brancas, estavam cobertas por uma mistura engraçada de sangue e fuligem. As três perseguiam o rapaz alto que mencionei antes. Ele parecia um rato correndo para lá e para cá, de tempo em tempo olhando de relance para mim, pedindo ajuda. Era de fato uma cena assustadora. E sem dúvida eu estava relutante de que fosse real.

A garota suja de graxa pegou o extintor de incêndio e golpeou as costas de uma das mulheres. Esta caiu no chão e parecia que ficaria ali por um tempo. Depois outra se virou para ela e começou a persegui-la. Segurei o machado com ambas as mãos e consegui levantá-lo. Olhei para o rapaz e segui para ajudá-lo. Golpeei com grande esforço a enfermeira que o perseguia pelas costas, fiquei surpresa ao perceber que elas não tinham sangue. E o mais estranho foi que ela não reagiu como o esperado — e nem o machado. Ao invés de cair no chão ou algo do tipo, ela apenas se virou e o machado ficou preso em suas costas. Eu não tive força para tirá-lo de lá. Ela me fitou por um instante, confusa e começou a me perseguir. Corri, mas velocidade não era meu ponto mais forte. A enfermeira maluca me agarrou pelo tornozelo e eu caí no chão. Virei-me, lutei, tentei chutá-la, me arrastar, mas era como se a mão dela fosse mecânica, porque além de estar causando muita dor, eu podia sentir que logo ela iria quebrar meu tornozelo. A cada segundo ela — ou melhor — aquilo apertava mais. Eu gritei por ajuda quando a enfermeira me puxou para perto, e com a outra mão que deveria ser tão forte quanto a que me segurava pelo tornozelo, ela começou a me enforcar. Isso mesmo, me enforcar! Eu entrei em desespero, comecei a soluçar a tossir, a qualquer momento ela iria me matar, levei ambas as minhas mãos até a mão dela que me enforcava e tentei de tudo para tirar de lá, mas a força não estava a meu favor. Comecei a desistir quando minha visão embaçou e fui perdendo a força nos músculos, iria dizer adeus, mas então algo a golpeou por trás e decapitou a enfermeira instantaneamente.

A cabeça da mulher caiu no chão, mas as mãos não me soltaram. O rapaz alto que eu havia salvado estava com o machado em mãos, e logo sorriu de forma amigável quando se aproximou e cortou os braços do robô que prendiam meu pescoço e meu tornozelo com o machado.

Quase sem ar, levei ambas as mãos para o pescoço, e respirei fundo. Ele ficou com o machado e saiu correndo, onde atacou outra enfermeira pelas costas. Ela não caiu no chão, mas ele conseguia retirar o machado antes que ela se virasse para ele. Faltaria apenas um golpe para matá-la, quando a outra que estava no chão — que fora acertada pelo extintor pela garota — se levantou e começou a puxa-lo pelos pulsos em direção ao buraco na parede.

Ele deixou o machado no chão enquanto foi levado pela enfermeira, que o arrastava pelos pulsos até onde o piso começava a se desfazer para o buraco negro. Não estava longe, e eu tinha que salvá-lo. Peguei o machado, cambaleante e ainda sem forças, corri o mais rápido que pude até chegar bem perto dos dois. A enfermeira parou de arrastá-lo para me encarar com aquele olhar vazio. Fitei-a por um momento, em dúvida. Mesmo com uma aparência horripilante, ela não era mesmo uma pessoa viva. Voltei-me para os seus braços e os golpeei com o machado. Cortei os dois instantaneamente. Novamente, as enfermeiras não sangram o que foi bem agradável já que o sangue apenas servia para piorar as coisas.

Ele se livrou das mãos da enfermeira com muita rapidez, se levantou tomando o machado de minhas mãos e golpeando a enfermeira para que ela caísse no buraco. Tudo o que eu vi foi ela se misturando com a escuridão sem fim.

O rapaz alto observava aquela criatura caindo com um ar pensativo. Ruídos não mais altos do que sussurros vinham do buraco negro. Hipnotizantes e inaudíveis, como murmúrios cegos vindos do vácuo. Como se o vento estivesse tentando se comunicar. Ou nos avisar.

Alto metálico surgiu no campo de visão do buraco. Algo bem distante...

– O que vocês dois estão olhando? – perguntou a garota caminhando em nossa direção – Já peguei o cartão, temos que correr! – ela parecia impaciente quando bateu o pé no chão, frustrada.

Ela estava muito próxima da parede quando tudo explodiu. Tudo aconteceu muito rápido, foram questões de segundos quando uma bola de demolição arrebentou a parede em um estouro e com um baque a jogou em pelo o ar. A garota suja de graxa gritou assustada, enquanto era lançada para longe da parede e caiu no chão.

O rapaz alto que estava perto de mim começou a correr em direção a ela. Mas ao invés de ajudá-la a levantar ele apenas pegou o cartão dourado da sua mão e seguiu correndo de volta para as escadas de emergência.

– Volte aqui, seu infeliz! – ela gritou, ou pelo menos tentou enquanto arfava a cada respiração. Zonza, ela tentou se por de pé, mas cambaleou e caiu de volta no chão – Minha perna... Devo ter quebrado alguma coisa!

Corri para ajudá-la e pude ver que ela se sentiu agradecida. Ela me usou de apoio para ficar de pé. Quando olhei para a parede de onde a enorme maça de demolição havia arrebentado, vi que abrira outro buraco negro idêntico ao que já existia ali. Antes de poder pensar para onde correr, a maça de demolição, a imensa bola de metal negra, abriu outro buraco na outra parede, bem próximo a mim e a garota.

Os destroços da parede voaram em minha direção. Alguns me acertaram e levemente me feriram. Mas nada que me impediu de continuar. Corri com a garota apoiada em meu ombro para bem longe da parte do prédio que estava sendo demolido.

– Se isso continuar o prédio vai ser derrubado! É um modo de nos apressarem, temos que sair logo daqui – ela resmungava enquanto corríamos em direção as escadas.

Já era difícil andar por ai sozinha depois de ser atacada por algumas enfermeiras zumbis, e agora tinha que ajudar a sustentar uma pessoa por um caminho de escadas que não parecia acabar. Subimos vários andares pelas escadas, seguindo o estranho rastro de sangue no chão. Perguntei-me de onde aquele rastro estaria vindo, e então percebi que era daquele rapaz alto. Ele deveria estar ferido.

Por vez ou outra, a garota que eu carregava estremecia de dor e me obrigava a andar mais devagar. Outras vezes o baque da demolição dos andares inferiores invadia o ambiente em um estalo surdo que me fazia questionar quanto tempo ainda tínhamos para sair dali.

Fora a isso, tudo parecia bem comigo. Quero dizer, eu ainda não tinha nenhum corte ou membro quebrado e isso era um alivio. Fora talvez meu pescoço que ainda ardia pelo sufoco daquela enfermeira. Seguimos em silêncio até chegar a um dos últimos andares onde a subida pela escada havia sido interceptado por conta da presença que vários escombros – pedras, vidro, metais quebrados, vidraças e lixo hospitalar — que não permitiam que seguíssemos para o próximo andar, nos dando a opção de entrar no andar em questão e foi isso que o rastro de sangue fez. Nós o seguimos.

Nesse andar em questão, logo que entramos a garota saiu do apoio do meu ombro e ficou de pé. Ela parecia capaz de andar, mancando e resmungando de dor, mas queria andar sozinha. Por alguma razão, ela não queria mais depender de mim. O andar parecia um depósito. Havia salas e mais salas, caixas e mais caixas de papelão fechadas, poeira e teias de aranha para todo o lado. A luminosidade era baixa, de modo que conseguia enxergar apenas vultos. Foi assim até encontrar o final daquele andar, após vários minutos passando por entre caixas de mercadorias e poeira, seguindo apenas um rastro de sangue no chão.

Encontramos um cadáver de um garoto. Não era nem dois anos mais novo do que eu, mas também não era humano. Seus cabelos eram longos e escuros, mesmo estando morto, seus olhos estavam abertos e sua pupila estava tão dilatada que havia deixado os olhos inteiros dele escuros. Seu rosto tinha uma expressão vazia e de dor, como se mesmo morto, seu cadáver estivesse sentindo agonia. Um rosto fino, sem lábios, apenas dentes a mostra. Dentes amarelados e afiados em algumas partes. Não por serem como presas, mas por terem sido quebrados por algo. O resto de seu corpo era magro e muito esguio para uma pessoa normal. Seus dedos e braços eram compridos demais e tão magros e deformados que os ossos apareciam claramente sob a pele. A pele que também não era humana. Tinha uma cor esverdeada, com veias escuras em todo o corpo.

– Ah, já chega disso! – A garota exclamou atrás de mim – Algo deve ter deixado ele assim. E aposto que alguém o matou depois disso. Tem mais gente na nossa frente do que aquele rapaz, precisamos correr!

– Como assim ‘algo o deixou assim’? – perguntei.

– Existem armadilhas, algumas que acabam transformando as pessoas. É como uma doença. Vamos logo.

Ela avançou dois passos até que o som da maça de demolição se tornou mais alto, como se estivesse logo abaixo de nós. – Vamos! – Ela puxou meu braço e me levou adiante.

Realmente, se ela tivesse me deixado lá teria ficado obervando aquele garoto por mais vários minutos. Até que depois de andar um pouco chegamos a onde seria a entrada para o elevador. A porta de segurança estava aberta á força, e lá dentro tinha apenas o vazio buraco de onde deveria estar o elevador, mas agora existiam apenas os cabos de aço e a poeira.

– Só pode estar de brincadeira... – ela resmungou – Temos que ir para o andar de cima por aqui, já que as escadas estão interceptadas. Ta, como eu vou conseguir subir por esse buraco assim? – Ela deu ênfase na ultima palavra conforme apontou para a perna direita.

– Podemos ajudar com isso – Uma voz atrás de nós disse.

Virei-me com rapidez e a garota sacou sua faca, em alerta. Eram dois rapazes, um mais baixo e mais gordo, e um de estatura alta que usava óculos. Reconheci o baixinho de agora a pouco, quando ele me atacou e tive que colocá-lo para dormir com aquela pancada com o extintor de incêndio.

– Então você está vivo! – disse, em um falso tom de alegria. Ele mostrou um sorriso amarelado.

– Ah, não se preocupe comigo.

– Vamos subir essa coisa então? – o rapaz de óculos interferiu, não gostando do tom de voz do amigo.

Ele se aproximou do elevador e encarou o buraco vazio que levava para vários andares abaixo.

– O elevador foi cortado, mas ainda está aqui em cima. Quer dizer que ele pode cair a qualquer hora na cabeça de qualquer um de nós quando formos passar para o próximo andar – ele avaliou a situação apenas colocando a cabeça na abertura do buraco – Ela deve ir primeiro – ele apontou para mim sem me olhar diretamente nos olhos – Depois eu, para puxar sua amiga com a perna ruim. E depois o gordo.

Ninguém discutiu. Eu podia não conhecer ninguém dali, mas a garota que eu havia ajudado parecia conhecer os dois porque não os questionou e apenas assentiu com certa familiaridade.

– Pode ir – Disse o rapaz de óculos.

Aproximei-me da entrada do elevador e olhei para baixo. Olhei para uma queda de mais de quinze andares e logo um frio repentino tomou conta de meu corpo. Engoli seco, respirei fundo. E apenas quando ouvi a voz do garoto gordo começar a reclamar dei um passo para frente e me agarrei ao fio de aço do elevador. Ele aguentou meu peso, mas meus dedos doeram quando joguei meu corpo para cima, ainda em dúvida comecei a tentar a subir. Meu preparo físico deveria realmente ser bom para eu conseguir subir aquele cabo de aço com certa facilidade. No mínimo, eu deveria ter subido várias cordas durante toda a minha vida. Mas o frustrante disso foi perceber que eu realmente não me lembrava de ter feito isso antes e isso foi o bastante para me distrair e quase me fazer cair. Quase.

Cheguei ao andar em cima, dei um salto e me agarrei a porta de ferro entre aberta do próximo andar. Demorei um pouco para me sustentar e para criar coragem de ir para lá. Mas felizmente, consegui.

Assim que meus pés ficaram firmes, fiquei de pé ainda cambaleante e depois ouvi um grunhido baixo e vi que o rapaz de óculos já havia subido também e estava esperando eu sair da frente da porta do elevador para ele subir.

Estávamos nós dois ajudando a puxar a garota com a perna machucada, eu puxando a mão dela e o garoto de óculos o braço, enquanto o garoto baixinho a empurrava para a cima. Faltava pouco para ela conseguir subir, quando um rugido metálico foi ouvido. O elevador, a dois andares acima, fez o ruído metálico, e depois os fios restantes pareciam estar se estourando porque uma série de estalos de metal fora ouvido. A garota entrou em desespero e começou a falar, com o evidente medo na voz: — Vai despencar a qualquer momento! Droga, vamos todos morrer!

O garoto de óculos ao meu lado parou de olhar para baixo e me encarou. Ele sussurrou para mim, tentando parecer discreto. – Vamos conseguir salvá-la, mas ele eu não sei. Está disposta a trazê-la para cima, mesmo que isso custe a vida dele?

O encarei por um instante. Se fosse para escolher salvar um dos dois a deixar os dois morrerem, eu ficaria com a segunda opção. Concordei com a cabeça.

– Ainda falta muito para esse elevador cair, mas vamos rápido com isso! Faça um esforço extra ai embaixo, garoto! – o rapaz gritou, enquanto acenou para mim.

Em uníssono, todos puxaram a garota para cima. O som dos fios do elevador sendo estourados era amedrontador. Usei toda a minha força, e quando a garota já estava com metade do corpo para dentro do andar seguro, o baque do elevador foi alto o bastante, e o garoto baixinho que estava no meio do caminho entrou em desespero. Ao invés de ajudar a puxar a garota para cima, ele a puxou para baixo.

– O que pensa que está fazendo, idiota? – gritou o rapaz de óculos, fazendo o maior esforço possível para ser mais forte que o baixinho e puxar a garota para cima.

– Se eu não conseguir sobreviver a essa coisa, vocês sabem... – ele tremia e sua voz falhou – Ela fica comigo!

– A segure por um momento, sim? – disse o garoto de óculos para mim. Ele se levantou e soltou a garota. Eu a puxei com todas as minhas forças e consegui a manter com a cintura para cima no andar seguro. O rapaz se óculos havia sumido. Teria ele nos abandonado?

Depois do que se pareceram anos, ele voltou. Passou reto por mim e pela menina, ficou pendurado com metade do corpo para fora do andar, olhando para o garoto baixinho logo abaixo.

– Já chega – Ele bradou, no instante em que jogou um bloco de concreto, com todas as forças, na cabeça do garoto que segurava a menina.

Notas finais
E acabou, com um pequeno misterio no final ;D Espero que tenham gostado.

Nao se esqueçam de comentar um #AloSeVoceLeu e gostou, ou ate mesmo se nao gostou, nao deixe de comentar ;D Criticas construtivas sao muito importantes para nos. Ate o proximo capitulo ;D