Do or Die
21 Capitulo 21 - Fase 5 parte 2
Notas iniciais
Acordei com o som de passos ao meu redor. Eu me sentia cansada, tanto que foi uma luta conseguir abrir os olhos. Nicolle estava sentada do meu lado, enrolando um curativo na minha perna. Ela era uma garota ruiva, com sardas e pele clara. Seus cabelos eram cacheados e ela tinha algum jeito com ferimentos, pelo jeito.
– Desculpe se te acordei – Ela disse, com uma voz calma – Você estava muito mal quando te encontramos.
Por instinto, levei minha mão para minha orelha, ela não sangrava mais, mas estava coberta por sangue seco e pegajoso.
– Já vamos limpar isso – Nicolle disse, se afastando de onde eu estava deitada e indo chamar alguém.
Eu me levantei, relutante. Havia uma fadiga estranha em mim. A primeira coisa que reparei quando levantei foi que haviam trocado as tiras do curativo no meu braço, feito um para a perna e limpado meu machado, o que era estranho. A arma estava repousada no outro extremo da mesa onde eu estava deitada. Da janela, olhei para o céu onde a hora estava gravada: 27:00h.
– Muito bem – Disse a voz áspera de Alaric se aproximando – Consegui reunir o grupo todo – ele soava triunfante. – Vai me dizer o que aconteceu?
– Uma armadilha – Eu disse, me levantando da mesa e ficando em pé. Olhei ao redor: era um lugar com teto baixo, um salão aberto que lembrava muito um refeitório a dizer pelas mesas e cadeiras espalhadas em todos os lados. Era estranhamente fresco e seguro ali dentro, tão seguro que eu a sensação que normalmente se encontrava tão distante de todos nós, segurança era estranha para mim. Reconheci Maysa e Pan conversando ao longe, sentadas em uma mesa. Theo e um garoto gordinho que seguia Alaric desde sempre conversavam do outro lado do salão, como vigias na porta de entrada. Voraz estava ali perto, sentado em uma cadeira com os olhos atentos a mim e a Alaric. Nicolle havia sumido.
– Nos prenderam numa sala... Estávamos em cinco, o Tommy estava comigo. Só um pôde sair. Sinto muito Alaric... – Comecei, até então sem perceber quando as lágrimas começaram a cair.
– Thomas era corajoso. Ele sempre foi. Bom, agora que você está bem, saiba que destruímos o prêmio, o satélite numero 4. Não há nada com o que se preocupar. – Ele disse, soando um pouco estranho, como se estivesse se segurando para não falar alguma coisa – Contando os minutos para sair daqui, imagino – Ele sorriu. E por um instante eu vi um sinal do rapaz que Alaric realmente era. Por trás de toda essa dureza e severidade que ele mostrava como um líder, ele ainda era um jovem de pouco mais de 16 anos, assim como todos nós.
– E que lugar é esse? – Fiz força para me levantar, minha perna lutando para continuar descansando.
– Tivemos muito trabalho para encontrar esse lugar – Ele disse sonhadoramente, enquanto arrumava sua aljava de flechas em uma mochila – Matamos muito para chegar aqui, pegamos um punhado de chips e agora estamos esperando, você sabe...
Algo no seu tom de voz deixava claro que ele estava esperando minhas instruções para continuar, ele não tinha a mínima ideia de como sair dali. Alaric me encarava, esperançoso e ao mesmo tempo receoso, hesitante. Seu casaco escuro – que eu não me lembrava desde quando ele usava aquilo – estava rasgado e coberto de fuligem, suas botas estavam com a aparência de que já tiveram seus melhores dias há dez anos, e seu semblante era de cansaço.
– Desculpe, eu não sei por onde procurar o próximo satélite.. Eu... – Vacilei, ao ver o olhar de advertência de Voraz, um pouco distante dali.
– Foi ideia dele virmos para um lugar afastado da cidade – Alaric disse, seguindo meu olhar ao encarar Voraz – Quando estiver pronta, vamos sair daqui. E olhe – Ele pegou na mochila duas barras de cereais e me entregou – Coma e vai se sentir melhor.
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Algum tempo depois, segui mancando até a janela mais próxima e encarei o céu. O dia estava escurecendo rápido, e não era pela noite estar caindo e sim pelas nuvens. Pesadas massas cinzentas e escuras haviam coberto o sol e o límpido céu. E era como se essa mudança de clima quisesse dizer alguma coisa, como se ela mesma estivesse sentindo o que todos estávamos sentindo: a sinfonia do colapso ecoando lá longe, como uma premonição do fim de tudo isso.
E o céu cinzento adquiriu uma característica ainda mais escura, como se estivesse tentando nos intimidar, com convencer a desistir. As luzes do refeitório se acenderam, poucas e falhas, piscando em intervalos regulares, mas era o bastante para completar a luminosidade diária.
Apenas mais um satélite, e depois estamos livres – Uma voz rouca, que demorei para reconhecer como minha própria, invadiu minha mente.
– O que foi? – Nicolle se aproximou de mim, se sentando ao meu lado e encarando as nuvens também – Parece que vai chover – Ela limpava a lâmina da lança com um pano velho, com o total cuidado apesar de parecer acostumada a limpar armas – Quanto tempo para sairmos daqui?
– Por que todos vem me perguntar como se eu soubesse a reposta? – Tentei sorrir, mas havia algo me incomodando, não com Nicolle, mas com Voraz.
– Aquela história dos satélites... – Ela começou, e por alguma razão não terminou, estava esperando minha reação. Foi quase como automático e involuntário quando ouvi a palavra satélite, me virei para trás e fitei Voraz. Eu sabia o que fazer a seguir e era doloroso pensar nisso... Como eu poderia... Matá-lo? E não fazia qualquer sentido essa história de Voraz ter alguma ligação com os criadores disso; Aquelas lembranças deixaram bem claro que eu podia confiar nele, eu devia confiar nele para, juntos, sairmos dali. Era o nosso objetivo em comum e não poderia ser despedaçado com teorias bobas. Eu tinha que tirar Voraz desse jogo, tirar todos daqui. E descobrir a verdade.
Depois de perceber que eu estava fazia um bom tempo encarando Voraz, e que com certeza ele havia percebido, voltei-me para Nicolle que se distraia limpando sua lança. – Você quer sair daqui? – perguntei, soando mais fria do que pretendia.
– Claro. Você não? – Ela disse, quase como automaticamente.
– Quero dizer, sair desse lugar. Descobrir a verdade – Ela levantou os olhos da lança e me olhou com certo interesse – Por quê? – Perguntei.
Ela demorou um pouco para responder, pensativa.
– Todos os que morreram aqui, simplesmente morreram. E se eles tivessem família? Um irmão, uma mãe? Eles ficariam sabendo que ele morreu? O que fariam com o corpo, afinal? – Ela parecia preocupada – Eu não quero morrer como um fantasma, morrer como se não tivesse vivido. Morrer sem ter ideia do que iriam fazer com meu corpo, se iam devolver ele para Deus sabe quem de família eu tiver? — Ele tomou fôlego – É como morrer sem ter existido. E tudo o que eu quero é existir, viver. Eu quero saber quem eu sou, todos querem saber por que e como vieram pra cá. Simples assim – Ela concluiu conforme apertou os olhos e voltou a limpar sua lança.
Mas e todas as pessoas que morreram por minha culpa?
A pergunta ecoou do fundo do meu consciente, não como se eu mesma tivesse pensado, mas como se uma outra voz, diferente da minha, quase como um alter ego dentro da minha cabeça a tivesse dito. Era como a lembrança de um pensamento, que parecia ser tão velha, tão mais antiga, até mesmo mais velha do que meu tempo nesse jogo. Era um pensamento que eu tive antes mesmo de entrar nesse jogo. Pessoas haviam morrido por minha culpa, a não sei quanto tempo atrás, quantos anos luz atrás, parecia tanto tempo, algo tão antigo e frágil dentro de mim. Um sentimento percorreu meu corpo como uma onda elétrica: culpa e remorso.
– Layla, eu preciso falar com você agora! – Alguém disse ao meu lado, se aproximando.
Nicolle e eu viramos alarmadas para ver quem tinha dito aquilo e para a surpresa de alguns – ou não – era Maysa quem estava se aproximando. Ela arguia sua arma, uma sai, no alto e fazia gestos de urgência enquanto corria para perto de mim.
– O que aconteceu....? — Eu estava confusa e ela estava aflita.
– Não tenho tempo para explicações, venha comigo agora! — Eu me levantei em um pulo, agarrei o machado com a mão esquerda com a quase certeza de que precisaria usá-lo a seguir. Maysa me puxou pelo braço, Nicolle me deu um "tchauzinho". Enquanto andávamos Maysa sempre olhava para os lados e para trás, como se estivéssemos sendo perseguidas. A garota andava cada vez mais rápida e eu a seguia aos tropeços.
Andamos um pouco até chegar ao centro do saguão. Pelo modo quase histérico como Maysa me levava, puxando meu braço e me arrastando como se sua vida dependesse disso, chamou a atenção de vários outros do grupo, como Alaric, Pan e Theo, que correram para ver o que estava acontecendo, mas mantiveram distância ao se deparar com o olhar assassino que Maysa encarava eles, quase como raiva e medo.
– Layla olhe para mim! – Ela disse, abaixando seu rosto e o deixando pouco visível á fraca luz ambiente. Suas palavras saíram como um sussurro, quase como se tivesse medo que os outros ouvissem. Ela tomava fôlego para falar, como se as palavras custassem a sair da sua boca. Parecia cansada e ofegante. — Não tenho tempo para explicações ou coisa assim. Eu descobri quem é o traidor e ele esta na nossa equipe — Isto me acertou como um soco no estomago. O momento era de tensão e suspense, Maysa limpava sua mão suada em sua calça rasgada. Ela respirou fundo, não olhando para ninguém especifico além do chão, parecendo apavorada.
Silêncio. Mas não era a Maysa fazendo suspense. Tudo havia ficado quieto porque as luzes haviam apagado em um estalo. Não víamos mais nada, era um dia escuro e as poucas luzes que iluminavam o saguão haviam sido misteriosamente apagadas em um ruído cego.
Não víamos nada. O único som era da respiração uma da outra. Movi minha cabeça para os lados, desnorteada, como se estivesse procurando qualquer vestígio de um vulto ou vão de luz para me basear. Escuridão de novo, pensei com certa irritação.
Maysa segurou em minha mão, ela tremia mais do que nunca. Dava para sentir seu visível desespero. Consegui ouvir passos invadindo o lugar, Maysa apertou minha mão com mais força e consegui sentir que tinha outra pessoa parada ao meu lado. Consegui sentir a fria respiração misteriosa em meu ombro, então algo bateu em minhas costas e me empurrou para longe. Cai no chão desesperada, vi o vulto partindo pra cima de Maysa e fiquei parada. Fiquei parada porque o jeito como havia me empurrado havia me feito bater com força a perna machucada de mau jeito contra o chão, e o urro de dor que escapou da minha boca foi suficiente alto para atrair mais passo para perto de mim, no escuro a voz de Voraz se aproximava de mim.
– Maysa? – Ouvi Voraz dizer, em um tom baixo, a poucos metros de mim. Havia um tom de dúvida em sua voz.
E então houve o grito.
Um grito grave e estridente. Um grito feminino que poderia ser de Maysa. Não um som de medo ou de surpresa pelo fato de a luz ter sido apagada e nem nada parecido. Era um som conhecido. Um som de dor, de sofrimento. O som grave foi sustentado no ar com desespero, por um tempo: de início alto como em um filme de terror, fresco e alto, e depois diminuindo com o ritmo das batidas de um coração. Foi ficando mais baixo, mas manteve o tom de urgência e dor.
Até se cessar da mesma maneira que havia começado: de repente e misteriosamente.
Ouvi um som repetido de passos rápidos vindo de algum lugar á frente. Passos apressados. Olhei para os lados na esperança de captar qualquer vislumbre ou pista sobre aquilo, mas foi em vão já que o silêncio e a escuridão continuaram.
Minha respiração ficou pesada. Eu não sabia o que fazer. Pensei em sair correndo dali, ir lá fora onde talvez houvesse luz, mas algo me impedia de me mover, dúvida e curiosidade, talvez?
E então as fracas e vacilantes luzes voltaram a se ascender como um flash rápido e quase atordoador. Cambaleei para trás, levando a mão para cobrir os olhos. Mas a surpresa foi tanta, que tive que me apoiar na mesa para não cair para trás.
Um pouco á frente, havia o corpo de uma garota, caída no chão e ensopada na própria poça de sangue. Havia o corpo de Maysa.
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