Do nácar ao fel.
1 Omne.
Notas iniciais
I. QUATRO POEMAS AO ANJO DESVENTURADO.
A. "No silêncio em que jaz tão flagelada alma
olhos que em poças de água límpida converteram-se
pois lágrimas que ai salgadas,
quiçá escorrem em tão belo rosto por quererem retornar ao mar de que vieram.
Tem um quê de devoção que aterroriza minh'alma.
Ai de mim.
Me ponho a lamentar também,
pois que tão coitados olhos
tornaram-se riachos que emanam incontido desdém."
DEUX. "Por que anjo,
Debruçado nas pedras beira-mar?
Valha-me um enigma,
Será que choras por estar tão longe o teu lar?
Ou será que choras pelos teus sonhos,
que outrora alguns quiseram trucidar?"
TROIS. "Reles homem que sou,
tanto que faltam-me as mãos para aparar-lhe as lágrimas,
ai são tantas,
quantas são,
são demais para contar e enxugar,
como para aliviar tua dor,
que é do tamanho do mar?"
QUATRE. "Formosa, por hora jaz tão esmorecida,
Um beijo é quase nada,
perduram as dores da partida!
Mil sonhos de amor se vão num raio,
Contudo um adeus acaba com tua vida!"
II. DOIS CANTOS AOS AMORES.
"Desejo insone,
convulsiona de fissura,
Loucura!
Á vosso amor quero devotar-me,
e nos teus braços em firme passo vou,
como em cruz pregar-me.
Ora beber nos alvos seios a essência da virgem.
Cálidos como o gargalo da bebida
que veem a encher-me a garganta com aguardentes de volúpia!"
"Que desvairo, que agonia!
Em sôfregos ais o homem toma a amásia florida,
sobe rubro como um diabo
na galopa a toda brida."
III. CANTO DA PRIMAVERA.
"Olhos apurai,
do manto de neve o colibri se dispersa,
É chegada a primavera,
Luz nos prados qual explosão florente,
venturas na cauda da quimera.
Vede aprumarem sob teu queixo
as rosas num brilho deveras,
Contemplar-te a face num leito gramado,
Ai meu Deus, quem me dera!"
IV. Á HELENA, DULCE MUSA.
Aquela figura puríssima não sonhara nem de longe uma Jocasta!
É Helena,
Em desvairos pois a formosura não se desgasta,
Permanece anja!
Sempre alva e casta."
IV. LAMENTO PER UM AMOR PLATÔNICO.
"Uma fatalidade a qual assisto:
Este grácil colibri perecendo já na jovialidade,
Que no mundo já não vira melhores coisas, bebeu somente da maldade.
Os meus olhos se perguntam assombrados,
Onde paira aquela infância de outrora?
Que nas noites invernais inspiravam sonhos de aurora?
Visseis a flor agora,
se aprumando em espinhos para quem ouse tocá-la.
É o gira-sol que se fecha para a alvorada,
e cândida rosa fenecendo na geada.
Diga me,
é tudo isso um delírio o que tenho visto?"
V. CANTO DO PESSIMISTA.
"Sabei-lo homens, que a vida é uma ilusão
e a verdade por mais se revelar, nos amordaça em ceticismo.
Sou o poeta,
e vim trazer-lhes o ópio que desceram-me as musas,
para continuarmos seguindo cegos nessa vaguidão.
Oh, as paredes da existência se fecham sobre nós."
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