Do amor ao oceano

10 As luzes submarinas


O restante da semana cansativa havia se passado,arrastando consigo as poucas expectativas que os dias anteriores geraram. Marinette acompanhava os esforços incessantes de Alya e Mylene para refazer as condições em que encontraram os animais,na busca de efetivar uma recuperação nas culturas que haviam coletado. Sem sucesso,como previa.

Vê-las abatidas pela angústia e não poder contar a verdade era,no mínimo,impiedoso de sua parte.

Precisava descobrir outra maneira de ajudar,sem envolver o risco de se expor indevidamente.

Estava sentada á beira do cais,balançando os pés na água gelada, o cheiro da maresia a preencher seus pulmões. Havia saído mais cedo do trabalho naquela sexta e aproveitava o tempo sozinha para espairecer. Já fazia alguns dias que não saía no lado externo da casa,por medo de reencontrar Adrien naquele estado ansioso. Quando tudo passou,aceitou que precisavam conversar. E agora era um bom momento: Sem preocupações,indecisões, tristezas ou mesmo qualquer sentimento positivo aflorado. Tudo que tomava sua cabeça era o som da água colidindo ao longe, embaralhada ao gorjeio de algumas gaivotas que sobrevoavam a região e o sino baixo de embarcações,distantes o suficiente para que virassem apenas uma mancha na paisagem.

A perfeita serenidade flutuava em meio á vastidão...

Sua distração poderia ter perdurado mais tempo,não fosse o som da água se movendo ao seu entorno,como ela já bem conhecia e como sentira falta nesses últimos dias…

— Adrien! — Ela voltou o rosto na direção,observando o tritão emergir a parte superior,próximo de suas pernas. — Você não foi embora…

— Óbvio que não! — Respondeu,esmorecido. — Você queria que eu fosse?

— Com certeza não! — Notou,então,certo cansaço no rosto dele. — Você está bem?

Ele virou parcialmente o rosto quando percebeu o olhar inquisidor. — Tô... Só tive alguns problemas esses dias... E você? Ainda assustada comigo?

Arregalou os olhos.- Assustada? Com você? Isso… É sobre eu ter saído correndo,não é? — Ele assentiu. — Você não me assustou,é que… Olha,eu não sei como dizer…

Cruzou os braços,com a voz baixa. — Só diga a verdade, Marinette… Eu não gosto de mentiras!

Sentiu seu coração disparar. Não podia abrir o jogo dessa maneira, lançar tudo para o alto tão de repente. — Sei que não devia ter sumido sem te avisar,foi injusto da minha parte,eu reconheço. Mas quero pedir desculpas. — Ele voltou a encará-la. — Eu estava um pouco mal com algumas coisas e… Acabei agindo errado no fervor da situação. Naquele dia,minha cabeça estava um caos e eu tentei deixar pra lá,mas não consegui...

Ele parou para pensar alguns instantes. — Eu achei que tivesse feito algo ruim, M'lady... Achei que tinha conseguido estragar tudo. — Sorriu de canto. — Mas estou aliviado de ver você novamente !

Ela levantou a mão,estendendo até os fios loiros molhados do rapaz,num afago. — Você não faz ideia da falta que as suas piadas!

Ele se fingiu ofendido,ainda aproveitando o carinho na cabeça. — Só das piadas, Mari? Sério?

— Tá bem,não foi só das piadas! — Riu brevemente. — Você faz muita falta,seu gato bobo...Me desculpa por ter agido assim,de verdade.

— Tudo bem,eu também senti muito a sua falta e… Espera aí,por quê me chamou assim?

— Oh,sério que não sabe? — Gargalhou. — Você parece um peixe gato quando ativa seus poderes!

— Eeeei,não pareço não ! — Cruzou os braços,virando de costas,tentando parecer bravo. — Você é que não enxerga direito debaixo d'água!

"Ou eu sei elogiar discretamente e você que não percebeu…" — Tem razão,tem razão! — Levantou as mãos em rendição,ainda rindo. — Você é bem mais bonito que um peixe gato.

Acabou corando levemente,mesmo que não perdesse a pose. — Ainda bem que sabe disso,princesa! — Disse,se aproximando do rosto da oceanógrafa, que parecia se divertir com a situação. — Ou devia dizer,minha futura rainha dos oceanos?

Ela tocou a ponta de seu nariz com o dedo indicador, afastando-o. — Esse título já me pertence a muito tempo,Adrien. — Sorria vitoriosa.

— Gostei de ouvir,milady. Quer dizer que vou ter menos trabalho para fazer virar realidade,então? — Ela corou intensamente, suas bochechas assumindo uma cor quase escarlate,fazendo-o rir. — Bom,mudando de assunto,você ainda quer conhecer o lugar que eu te falei?

— Eu adoraria! Mas como faremos? Você me disse para não trazer o equipamento,então...

Ele estendeu uma das mãos,mostrando uma bolinhas vermelha de pele enrugada,que se assemelhava a uma lichia,em sua palma,entregando sequencialmente. — Vai te ajudar a respirar debaixo d'água e a não ter problemas com a pressão. — Ela olhou para ele,desconfiada. — Pode mastigar,mas precisa engolir pra que surta efeito.

Fez o que mandou,aos poucos sentindo uma mudança ligeira. Era como se seu corpo tivesse virado uma pluma. Quando notou isso,lançou-se com os braços apoiados no estrado,entrando diretamente ao lado do tritão.

— Tá pronta? — Ela acenou positiva. — Ótimo,me siga!

Logo que ele desapareceu da superfície,ela impulsionou para baixo, submergindo o corpo. Quando se aproximou,após alguns movimentos na água,ele estendeu o braço em sua direção. Ao enlaçarem as mãos com os dedos, certificando-se de que estava bem presa,Adrien começou a puxar, guiando-a por mar aberto durante alguns minutos. Quando a luz no mar começou a reduzir,indicando o final do dia,ele parou próximo a um pequeno rochedo,soltando a mão de Marinette e se virando para ela.

— Fecha os olhos!

Ela arqueou a sobrancelha,virando-se para observar o ambiente sem nada fora do comum. Deu de ombros. — Por quê?

— Vou te levar até lá de outra maneira. — A mestiça se surpreendeu quando sentiu um par de braços passando por detrás de seus joelhos e costas, aninhando-a em seu peito,fazendo-a soltar um pequeno grito de resposta. — Sério,fecha os olhos! Juro que vai valer a pena!

Ela recostou as costas,se aconchegando nos braços dele e fechando os olhos,sentindo a movimentação da água ao seu redor. Começou a acompanhar as batidas do coração dele e, quando menos esperava, ele se desvencilhou devagar, recolocando-a naturalmente.

— Espera só mais um instante! — Ele rodeou o entorno,nadando mais acima de onde estavam,em busca de algo que,quando encontrou,escondeu atrás das costas,com um pequeno sorriso no rosto. Voltou ao lugar,ficando ao lado de Marinette. — Pronto,já pode abrir…

Quando suas pálpebras se arquearam, imediatamente vislumbrou algo tão fantástico quanto já pudera imaginar: Era o interior de uma caverna,na qual germinava uma infinidade de plantas,que dançavam sob o compasso ditado pela água. Folhas de todos os tamanhos e cores desenhavam uma nova expressão visual,carregadas de algo num formato circular,refletindo cores discretas nos locais onde resquícios de luz que adentravam o mar.

Seus olhos ganharam um brilho novo. — Adrien… Isso… É lindo! — Girou o corpo,passeando devagar por todo o ambiente,observando os detalhes de tudo que via.

O olhar do tritão a acompanhava,com um sorriso singelo. — Você gostou?

Se eu gostei? — Ela se virou em sua direção,animada. — Eu nunca vi nada tão lindo quanto isso em toda a minha vida!

Ele a puxou com delicadeza pela mão vazia,fazendo-a virar de costas para si,apoiando a mesma em seu ombro. — Então,acho que vai querer ver o que acontece agora…

Quando Marinette ia perguntar-lhe algo,toda a luz que provinha da superfície diminuiu até sumir,ocasionando uma cegueira momentânea. Tocou levemente por cima da mão de Adrien,numa espera ansiosa. Segundos depois,como flores durante o florescer,os círculos pendurados nas folhas começaram a se abrir,emanando uma luz amarela de seu interior,trocando de cores em sua casca para cores vibrantes e vivazes,cujo reflexo vagueava pelo teto num baile harmonioso.

— É como eu tinha visto no meu sonho… Eu me recordo… — Marinette não conseguia tirar os olhos,vidrados pela imagem apaixonante que vivenciava. — Adrien… O que é este lugar?…

Ele passou ao seu lado,situando-se mais á frente dela. — Este, M'lady,é o Jardim das Luzes. Mas acho que você pode conhecer agora como Jardim da Vida... — Fez uma pausa,observando o olhar de espanto da jovem. — É aqui que se resguarda todas as plantas que já viveram neste planeta,desde os primeiros dias. É daqui que surgem e se preservam as espécies quando se extinguem na natureza,seguras pela magia da criação que as mantém vivas á milhões de anos…

— Isso… Existe mesmo ? — Voltou o olhar esperançoso em sua direção. — É real?…

— Tão real quanto eu ou você... — Tirou o braço esquerdo das costas,revelando em mãos uma vistosa flor vermelha,de pétalas em formato oval,cujo caule dourado parecia trançado em pequenas pedras transparentes, transformadas em prismas na presença da luz. Parecia resultado de um trabalho minuscioso,além de anos e anos de cuidado. — ...Ou mesmo tão real quanto tudo que eu sinto quando você está comigo...

Tocou sua mão,pegando gentilmente a flor que lhe fora entregue,enquanto observava os detalhes singulares da mesma. Sorriu,fascinada. — Essa flor é ainda mais linda,Adrien... Obrigada!

Ele sorriu de volta,ainda mais feliz, quando a viu posicioná-la em seu peito,protegendo com as mãos e constatando uma fragilidade nas pétalas. Voltou á realidade quando ouviu um som familiar nas redondezas. — Acho que é hora de irmos,Mari… Creio que não posso ficar muito mais tempo hoje...

Seu sorriso murchou. — Entendo… Bem,vamos,não quero que arrume problemas!

Em questão de minutos retornaram ao cais da casa,nadando lado a lado silenciosamente durante o trajeto. Marinette deixou a flor na parte de cima e subiu,pegando-a em seguida. Logo se agachou para se despedir dele.

— Foi a melhor surpresa que eu já ganhei até hoje… É simplesmente o lugar mais lindo do mundo. — Sorriu largamente. — Pode ter certeza de que eu nunca vou me esquecer disso... — Segurou seu rosto,que a olhava profundamente,trazendo-o mais para perto e dando-lhe um beijo demorado na bochecha. — Você é incrível,Adrien. — Se afastou devagar e,quando chegou próximo á porta,voltou o rosto em sua direção novamente,acenando. — Nos vemos amanhã,na sua primeira aula!

Logo que ela fechou a porta,Adrien soltou todo o ar que lhe restava num único sopro. Seu coração batia forte, sentindo o calor de seu corpo se arrastar até a ponta dos dedos,formigando.

Precisou se controlar muito para não beijá-la nos últimos momentos

Resolveu descer novamente e,enfim,tornar á sua casa. Tudo parecia fluir do jeito certo,ocasionando uma explosão de sentimentos bons em seu interior.

Enfim,um pouco de sorte lhe acometera. E nem mesmo a pior das notícias podia tirar a alegria que ele sentia naquele momento.