Só de birra, eu me virei e aumentei mais o som. Porque? Porque meu pai tinha que me fazer o grande favor de me levar a mais um daqueles jantares insuportáveis do trabalho dele. Eu não tinha boas lembranças desses jantares, geralmente eu levava fones de ouvido e ficava escutando no volume máximo, o que fez o meu pai me proibir de leva-los hoje. E ainda tinha aqueles vestidos horriveis que a minha mãe fazia questão que eu usasse. Na sinceridade? um saco. Mas essa era a minha vida. Alguns sacrificios que eu fazia em troca dos meus caprichos, como minha mãe diria. Convencê-los de que se me deixassem ir ao show de uma das minhas bandas favoritas eu me comportaria em pelo menos três desses jantares não foi uma coisa fácil. Não que meu pai se importasse, mas dai convencer a senhora Suzan de que Green Day não era barulho, ai sim foi dificil. Claro que pra ela qualquer coisa que não seja música clássica é barulho.

-Claire Elizabeth Damonn. Se não desligar isso em dois segundos você vai estar encrencada.

Desliguei de má vontade e fiquei olhando ela discursar. Eu ouvi as primeiras cinco palavras, o resto eu ja nem prestei atenção.

-Comporte-se nesse jantar — bla, bla, bla será que chove amanhã? — ou você não vai a show algum.

-Legal mã... Suzan. — eu disse, claramente entediada.

-O motorista vem pegar você às sete e meia.

-Não era às oito?

-Sim.

-Porque ele não vem às oito?

-Porque seu pai quer você esteja lá cedo.

-Mas o trato é que eu "me comporte" por três horas. Isso é meia hora a mais.

-Tenho certeza de que não vai fazer diferença pra você.

-Ah, mas vai. Quero hora extra.

-Quer o que?

-Esquece. Minha noite está arruinada. Meia hora a mais eu não vou morrer.

-O que você fez com o vestido que eu separei pra você usar?

-Er... eu, dei uma melhorada. — eu tentei fazer o sorriso mais inocente que podia.

-Isso não está no trato.

-Meia hora antes também não estava.

-Você venceu. Não se atrase. — ela disse indiferente e saiu sem dizer mais nada. Eu tinha mais muito tempo até às sete e meia, mas decidi começar a me arrumar mesmo assim. Acabou que eu enrolei com cada parte do sacrifício mortal de estar "apresentável" nos padrões da minha mãe e assim mesmo fiquei com vinte minutos de sobra. Passei a mão no violão num canto e tentei me distrair um pouco e logo eu já tive que ir.

Quão torturante aquele jantar poderia ser? Mais que os outros? Eu realmente esperava que não. Green Day valeria a pena até quatro desses jantares.

-Boa noite senhorita Damonn — o motorista sorria gentilmente.

-Boa... não. — eu girei os olhos e ele sorriu. Já sabia do quanto eu adorava esses eventos. Ele estava ouvindo alguma coisa que eu reconheci como "ruim demais para os meus ouvidos" no rádio, e ele notou que eu me incomodei.

-Quer que eu coloque em outra estação? — ele disse ja com a mão no painel.

-Anham — eu disse meio distraida, olhando as imagens escuras que passavam do lado de fora. — Sabe.. tanto faz. Desde que isso termine logo.

-Sua noite vai ser longa então — ele disse risonho. — Qual foi o trato dessa vez?

-Que?

-Sabe, o que você vai ganhar em troca? Por não estar ouvindo som pesado no ultimo volume e nem estar usando as suas roupas esquisitas?

-Minhas roupas não são esquisitas.

-Não é o que a senhora Damonn acha...

-Ela não sabe de nada — eu bufei. E ele deu uma risadinha. — Tem um show que eu quero ir... — eu disse por fim.

-Ah, eu sabia.

-É, é, você sempre sabe de tudo. — eu girei os olhos e voltei a olhar pela janela. Ele ficou calado o resto do caminho, só cantando junto com o rádio.