Do Silêncio Às Trevas
2 Made Of Stone
Notas iniciais
“Agatha corria pelas planícies de terra negra, que reverberava com a felicidade da garota, junto com o vento que alisava a paisagem sombria. Vestia uma espécie de túnica que parecia feita de espectros escuros, esvoaçante e uma mistura do negro da noite e do escarlate sangrento. Ela passava por uma vastidão de Acônitos, também conhecida por Wolfsbane. Ela sentia que podia acabar com todo o seu sofrimento apenas ficando naquele lugar. Pela eternidade.
Mas logo a paisagem mudou para uma batalha. Ela via corpos estirados no chão com sangue escorrendo dos mesmos. Era um sangue negro, como os dos demônios que eram mostrados nas aulas ou nos desenhos colados em seu armário no colégio. Todos ao seu redor vestiam armaduras metálicas, reluzentes no calor da batalha. Até mesmo ela usava uma. Empunhava um arco e em suas costas uma aljava com flechas poderosas que poderiam acabar com qualquer demônio ou “mortal” que tentasse algo, seja com ela, seu clã ou principalmente com seu mestre. Mas alguma coisa seriamente deu errada e seus inimigos retornaram com mais força e poder. Espíritos guiados por feiticeiros avançaram para cima de Agatha, que acertava alguns, mas não era o suficiente. Um, maior que os outros estava prestes a matá-la, chegando mais e mais perto com suas garras e um sorriso cínico no rosto desfigurado e transparente…”
Seu despertador toca com o início de The Phoenix do Fall Out Boy, determinando que seu sonho tinha acabado, mas o pior estava por vir: seu primeiro dia de aula no 2º ano do colegial. Ainda, como sempre, a aurora do dia não havia nascido. Ela suspirou e sabia que teria o recomeço das zoações e jogadas de substâncias esquisitas. Mas sentia que seria diferente esse ano, era algo que jamais poderia questionar. Mas por hora deixou de lado e se arrastou lentamente para fora de sua cama macia e convidativa e foi direto para o banho. Ela agradecia por não precisar usar uniforme, e sim por usar suas roupas confortáveis. Suas roupas costumeiras já estavam em cima de sua cama, esticadas e passadas. Mais uma vez ela diria obrigado à sua mãe por ser tão carinhosa. Mas sentia-se triste por ter que ver a mesma se esforçando para tirar os pedaços de frutas das roupas.
Agatha foi tirada de seus devaneios com a porta de seu quarto sendo aberta por sua mãe, sorridente mas ela sabia o tamanho da tristeza que guardava ao longo dos anos.
– Filha, já está pronta? São quase seis horas.
– Mãe, calma. — Agatha sorri para ela por estar mais nervosa — Não precisa fazer do primeiro dia uma convocação global dos pássaros para me proteger.
– Eu sei, mas... Você sabe como sou.
– Mãe não vai ser igual ano passado.
– Foi um ano tão turbulento para nós... — ela suspirou e sorriu, já saindo do quarto da garota — Mas como você me pediu, não vou fazer uma convocação global dos animais. Agora ande, termine de se arrumar. Sabe que seu pai odeia atrasos.
– Eu também mãe. — Disse sabendo o quanto em algumas características eram idênticos. Riu ao lembrar de alguns acontecimentos com essa pontualidade do pai. Por um tempo achou que estava sendo observada, mas olhando para o canto do quarto, como sempre só viu as sombras diminuindo de tamanho enquanto o Sol nascia. Suspirou e pegou suas coisas, já sabendo o que estava por vir.
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A mulher ocultada pelas sombras observava a menina com uma pura intensidade, se isso fosse possível. As trevas corriam em suas veias desde muito tempo antes de todos nascerem.
– Senhora? – Seu acompanhante a chamou – O Sol está nascendo, precisamos ir.
– Veja como ela cresceu nos últimos anos. Alistair, logo precisaremos dela. A batalha está chegando e ela nunca sequer tocou em uma arma de guerra. Os ancestrais da família mortal dela eram particularmente fortes em relação à magia e a força, mas depois daquela noite… Eles ficaram mais obscuros, como se o que aconteceu tivesse sido apenas outra noite na vida dos ciganos. Mas eles sabiam o que estava por vir. A cada 3 gerações Alistair. Essa é a geração dela. – A Dama das Sombras, assim chamada por seus companheiros e por todos no mundo negro, comentou sozinha. Mas ela sentia que se não voltasse logo, os Outros* iriam arrumar mais uma guerra. – Vamos voltar, preciso informar ao Lorde o sonho dela. Mande alguém a observar durante o dia. O Lorde não gosta que demoremos neste mundo, vamos.
A sombra do lugar onde estavam, diminuía de tamanho conforme o Sol entrava pela janela. O portal por onde tinham vindo foi novamente aberto e no outro lado se via o caminho para a construção de obsidiana que até o próprio Hades choraria de tamanha beleza que era. A Dama das Sombras olhou para trás, sorrindo por ver sua guerreira indo enfrentar suas próprias batalhas, de mochila nos ombros e olhos castanho-avermelhados envoltos com lápis escuro. Ela queria tanto ajudá-la com esses problemas, mas não era a hora exata. Alistair, já no outro lado do portal, esperava sua senhora formalmente ajudando-a caminhar até a sala do trono onde o Lorde a esperava com um fervor contido.
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*Flashback P.O.V Agatha*
“A aula de história americana estava quase acabando com meus ouvidos. Como alguém pode ter uma voz tão irritante? Só tenho mais 5 minutos e então vou poder ir pra casa. 5 minutos. Fechei os olhos e me imaginei fora dali, no lugar dos sonhos que venho tendo. O sinal toca avisando que a aula finalmente acabou. Recolho meus materiais, colocando-os na mochila e me retiro da sala que aos poucos se esvaziava. Hoje teria que ir a pé para casa, tendo que tomar o maior cuidado possível para ninguém me perturbasse.
Colocando meus fones e escolhendo o modo aleatório, Made Of Stone** começou a tocar. Não moro tão longe do colégio para não estressar tanto meus pais.
It's never enough for you, baby
Don't want to play your game anymore
No matter what you say
Caminhando calmamente pelas ruas e ignorando os olhares de nojo vindos da população de Winter City, resolvi passar por uma [rua] menos movimentada. Não ouvi os passos vindos atrás de mim. Não ouvi quando riram de mim. Só senti quando atiraram algo pesado contra a minha perna, acho que era uma pedra. Caí de quatro apoios no chão com um pequeno rastro de sangue escorrendo do ferimento, fazendo queimar por causa da sujeira.
– O que houve bruxinha? Não consegue se curar? – Um dos garotos disse em um tom de ameaça e ironia – Oh, que pena, acho que não estamos na Lua certa não é?
– Ou será que a luz do dia te afeta também? – Disse outro
A cada passo deles, eu me rastejava para trás. A cada rastejar, minha perna latejava e eu tentava com afinco, não gritar.
– O q-q-q-que vo-vo-vocês querem comigo? – Gaguejei sussurrando
– Olha, a bruxa não fala só… como é o nome daquela língua antiga? – O que me acertou disse
– Latim – Um outro garoto respondeu
– É, é isso aí. Não se preocupe bruxinha, nós só queremos descobrir a anatomia da sua espécie. – Então avançaram. E eu, infelizmente, encostei na parede. Ao total eram 5 garotos, mas só 4 me agrediram. O garoto mais alto, que parecia ser o ‘líder’, puxou meus cabelos e bateu minha cabeça contra a parede com força suficiente para abri-la. Outro, mais novo talvez, chutou minhas costelas me fazendo arquejar e ficar de quatro apoios em busca de ar. Os outros dois pegaram bastões de madeira e bateram em minhas costas e novamente em minha cabeça, desnorteando meus sentidos. Então uma série de socos, chutes e risadas preencheu o ar.
– O sangue dela é perigoso rapazes, cuidado. – O mais velho disse – Ora, ora, ora, que feitiço usou dessa vez ahn? Tá tentando enganar a nós? Hein? – Ele segurou meu queixo com força e deu um tapa em minha bochecha – Responde porra! Todos nós sabemos que pratica magia negra e rituais satânicos.
Mas eu já não sentia meu corpo. As vozes foram ficando distantes, as formas deles vagas e a dor persistia, insistentemente irritante. Eu não sabia se agradecia por estar desmaiando ou se implorava para que socassem com força suficiente minha nuca. Ninguém iria me ajudar. Eu sabia disso. Eu teria que tentar andar por mais um bom tempo até minha casa, sangrando feito o diabo e com costela quebrada.
Quando voltei a mim, já escurecia. Eles já tinham ido embora, então me arrastei até minha bolsa e a coloquei em meu ombro, tentando me reerguer. Sem sucesso. Tentei inspirar, mesmo que doesse caralhos e me levantei. A sensação de estar sendo observada continuava a me seguir, me rondando, me avaliando. Fui me apoiando na parede para sair dali o mais rápido possível. Tinha que chegar em casa antes das 21:00.
Eu tinha que chegar em casa. Eu precisava. Cambaleei pelas ruas vazias e escuras até uma estradinha de terra. De longe avistava o jardim, com luzes acesas. Nossa casa não era de fato tããããão grande mas também não era um cubículo. A cada passo que eu tentava dar, era mais uma pontada de dor na costela quebrada. A cada passo, era mais um perto de casa. A cada passo eu perdia um pouco da minha consciência. Mas eu não podia desistir agora, não, eu não podia dar esse gostinho a eles.
Com dor e tudo eu passei pelo portão de metal, atravessei o jardim cambaleando. Eu precisava manter o foco até chegar no meu quarto. Quando abri a porta da casa, foi um alívio, mas parcial. Se é que é possível isso. O pior desafio foi subir as escadas, com a costela quebrada queimando minha lateral, eu chorava uma mistura de sangue e lágrimas. Eu me perguntava o por que de eu carregar esse fardo a caminho do banheiro. Assim que liguei o chuveiro e sentei na banheira, deixando a água lavar e deixar um rastro de imundice na porcelana branca, eu continuei a chorar. Não só de dor e angústia, mas também de raiva. Em cada ferida aberta que eu lavava, meu corpo latejava. Meu corpo implorava pelo descanso final. Uma chance de ir para o Elísio.
Quando consegui colocar um pijama, já eram 20:40. Quando meus pais me viram do jeito que meu corpo estava, eu já afundava numa escuridão que eu pensava e queria que fosse eterna."
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