Do Quê Eu Me Esqueci?

2 Do que eu quero me lembrar?


Notas iniciais
este capítulo não estava planejado. Como eu costumo dizer, "saiu saindo"

A doce melodia soava fraca, ecoando cada vez mais baixa pelos corredores vazios da escola. Só o som do piano era ouvido pelos poucos estudantes que ainda iam embora. Sussurros e sussurros comentavam a beleza da melodia, e então desapareciam.

A caminho da sala de música, passos.

A porta fora aberta. Dentro da sala, um moreno solitário era a fonte da melodia. Tocando o velho piano de olhos fechados, o musicista não parou ao perceber a porta abrindo. Um a um, passos vinham em sua direção. Esperou que eles parassem para então ver o visitante.

De pé, ao lado do piano, um garoto. Estatura mediana, cabelos cor-de-rosa compridos, olhos claros e brilhantes. Sim, era ele, seu colega de classe Kirino Ranmaru. O rosado não disse nada até o outro terminar sua música.

– Shindou Takuto. Sabia que era você.
– Ah é?
– Não tem outro pianista nesse nível na escola.
– Agradeço o elogio — Não tirava os olhos da pauta musical — Procura alguém aqui? Como pode ver, as atividades deste clube já se encerraram.
– Não. Vim somente pela música.

Conversavam como dois estranhos embora não se sentissem assim. Não sabiam o porquê mas guardavam sentimentos um pelo outros. Sentimentos dos quais desconheciam as origens.

– Queria ouvi-la completa.
– Tudo bem, vou tocá-la para você.

Kirino sorriu em agradecimento, e ao ver tal sorriso, Shindou corou e voltou o rosto para a pauta. Correu os olhos pelas páginas até encontrar o inicio da música. Não que precisasse dela, sabia-a de cor, apenas queria desviar seu olhar da forma do outro garoto.

Respirou fundo, ajeitou a postura e começou. Cada nota tocada, não eram só seus ouvidos que eram estimulados. Sentiam seus corações acelerarem os batimentos. Shindou, por estar tocando pra alguém tão estranhamente estimado, e Kirino por ter aquela música só para ele.

A música estava chegando a aquele ponto. Ao ponto em que nenhum dos dois conseguia passar. Instintivamente, Kirino se moveu. Shindou não queria parar, finalmente mostrava aquela música à Kirino, mesmo hesitante, continuava a tocar. Sentiu ter algo atrás de si, então desviou rapidamente o olhar.

Encostado na parede entre as janelas às suas costas, estava o centro de sua inspiração. Como costumava acontecer naquela parte da música, o vazio do esquecimento o castigava. E não só ele. Kirino também parecia sofrer com aquilo. Punha as mãos nas têmporas, se forçando a lembrar de algo que sentia ter esquecido.



"Quem é você? De onde vem esse sentimento de vazio?
Até quando isso vai doer tanto
?"



Não resistiu muito tempo. Sem pensar duas vezes, avançou. Pôs-se bem atrás do pianista, inclinou-se e então abraçou-lhe o pescoço.

Normalmente, Shindou teria parado imediatamente e empurrado o outro, questionando seu feito, mas não o fez. De certa forma, sentia-se muito confortável naquela posição. Era uma sensação familiar para os dois, sentiam já terem estado assim antes e forçavam-se cada vez mais a se lembrar, em vão. Shindou parou de tocar.

– Por favor, não pare.
– Por que está fazendo isso?
– Pode parecer estranho, mas eu sinto como se te conhecesse há muito tempo, como se o que estou fazendo agora fosse algo normal. Eu conheço essa sensação, só não me lembro de onde.
– Então, você também...
– Hum?
– Nã... Não é nada. Vou tocar.
– Sim, por favor.

Pela primeira vez, Shindou seguiu com a música. Ainda sofria com a falta de memória e tendo Kirino tão próximo, se machucava ainda mais. Prendia suas lágrimas a todo custo. Com Kirino não era diferente.

Chegavam às últimas e lentas notas. O som leve os tocava cada vez mais forte. Suportaram firme, até enfim, a musica terminar.

– Fim.
– Como se chama?
– "Esquecimento da névoa". (Kiri no bōkyaku)
– Que nome estranho. — Sorriu meio irônico. — Por que a nomeou assim?
– Não me lembro. Realmente, não tenho memórias claras sobre isso. É, de fato, como uma neblina.
– Shindou Takuto — falava sério — quem é você?
– Eh?
– Eu não o conheço, mas sinto que sim. Essa canção é tão familiar, mesmo que tenha a descoberto a pouco tempo. Diga-me, por favor, quem é você pra mim?

Kirino abraçou-o mais forte, mantinha o rosto colado a orelha do moreno. Shindou, por sua vez, não conseguia mais segurar as lágrimas.

– Então me diga também — a voz trêmula soava baixo — quem é Kirino Ranmaru?
– É um cara que costuma ser confundido com uma garota, gosta de ler e se sente atraído pelas costas de um pianista.
– Minhas costas?
– Sem perceber, eu estou fisicamente sempre atrás de você, decorando cada linha que a forma do seu corpo deixa no seu uniforme.
– E o que é Shindou Takuto pra você?
– Alguém de quem, por mais que tente, não me lembro. É alguém muito importante, disso tenho certeza. Uma pessoa que quero manter sempre por perto. Só não sei o motivo disso.
– Ran-ma-ru
– hum?
– Eu sinto que sempre te chamei assim. Não que isso mude alguma coisa, eu também não tenho memórias de você. Só sei que também é alguém importante para mim.
– Takuto...

Um nome, uma primeira lágrima, silêncio e enfim um beijo.

Um beijo tão quente, tão doce, tão familiar e tão doloroso.



"Como pude me esquecer desse sentimento tão precioso?"



– Me desculpe. — Disse ao cortar o beijo. — Não vai acontecer de novo.

Soltou-o e se afastou a passos rápidos foi à porta. Parou ao sentir um par de mãos segurando as costas de seu uniforme. Não se virou até sentir um pequeno calor na área. O rosto que se escondia ali deixava seus sentimentos escaparem pelos olhos.

– Faça acontecer de novo, eu não me importo. Eu quero me lembrar, me faça lembrar. — Falava entre soluços.
– Essas lágrimas... Me solte.
– Ranma...
– Apenas me solte.

Shindou soltou, levando as mãos aos olhos. Surpreendeu-se ao ser abraçado, agora de frente, por Kirino. O rosado mantinha uma mão em sua cintura e a outra nas costas de sua cabeça, alisando carinhosamente o cabelo. Por suas alturas compatíveis, as cabeças se encaixavam perfeitamente nos ombros um do outro. Shindou também abraçou Kirino, passando a mão por baixo dos braços, agarrando-se firme as costas dele.

– Você é o meu Takuto, não é?
– Seu Takuto?
– Alguém com grande senso de responsabilidade, alguém super sensível, alguém que sempre chora nos meus braços quando se sente muito mal. Esse é o meu Takuto.
– Então, você se lembra?
– Não, não me lembro de nada. Também não sei como isso funciona, isso é tudo pura intuição.
– Meu Ranmaru... Sempre está por perto, sempre querendo me proteger, sempre me pedindo pra tocar piano pra ele. Por que, Kirino? Por que não me lembro do meu Ranmaru?
– Então — Moveu a mão que estava em cima, levando-a até o rosto de Shindou para que o olhasse em seus olhos — seja o meu Takuto. Mesmo que eu não me lembre de um passado com você, passe a ser meu a partir de agora.
– Então seja meu Ranmaru.
– Takuto.

Outros beijos foram dados, as carícias se intensificavam, compartilhavam cada vez mais o calor um do outro.

O vazio da ausência de memórias ainda doía nos dois, mas superariam. Desde que estivessem juntos a partir de agora, superariam qualquer coisa, criariam novas memórias.



"Posso ter me esquecido dos detalhes, dos motivos. Mas se estiver com você, tenho certeza que os sentimentos jamais serão esquecidos"


"Acabei de me lembrar do que eu me esqueci"

"Esqueci de te dar bom dia, de te pedir um caderno de anotações emprestado, e acima de tudo esqueci de que deveria te dizer todos os dias o quanto eu te amo."

Notas finais
Surtos de inspiração inúteis...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!