Do Próprio Inferno
12 12. Prolongando o inevitável
Anne arrumou um quarto para eu passar a noite. Aconcheguei-me e esperei o tempo passar. Lá pelas tantas da madrugada comecei a executar meu plano. Saí de mancinho pela porta dos fundos e fui a pé até a minha antiga casa, que era apenas alguns quarteirões de distância.
Ao chegar lá, fui logo para as trepadeiras, as mesmas que Thiago escalava no início, e passei a subir por ali. Eu teria que ser discreta, pois a janela que eu entraria seria a do quarto de Denys. Foi meio complicado escalar com vestido, mas eu não tinha outras peças de roupas.
Com certo esforço consegui abrir a janela que estava destrancada. Denys dormia profundamente na cama de casal. Admirei sua face por alguns segundos, pois talvez nunca mais a visse.
Abri a porta do quarto cuidadosamente e segui pelo corredor até o quarto de Liam, onde o mesmo dormia feito um anjo. Peguei sua malinha ao lado do guarda-roupa e comecei a colocar suas roupas ali dentro. Assim que terminei, peguei Liam no colo, esperando que ele não acordasse, mas em vão, pois o pequeno tinha sono leve, bem diferente de Denys.
― Mamãe? Pra onde estamos indo? ― perguntou ele esfregando os olhinhos.
― Shi! ― pedi silêncio ― Não se preocupe, volte a dormir, eu e você vamos fazer uma viagem.
― Papai vai também? ― perguntou confuso.
― Papai não pode ir, querido, ele tem que trabalhar. Nós o veremos depois, sim? ― sorri doce.
Ele assentiu e voltou a dormir em meu colo.
Tive que fazer certo malabarismo para levar Liam em um braço e a mala em outro, isso tudo sem fazer barulho, mas eu consegui, por sorte meu filho era leve.
Afastei-me da casa rapidamente e fui novamente até a casa de Anne. Por sorte Thiago estava acordado na sala, então não precisaria ir até seu quarto.
― Faça suas malas. ― disse eu a Thiago.
Ele olhou para Liam e eu de olhos arregalados e perguntou:
― O quê?
― Vá fazer suas malas. Nós iremos fugir. ― lhe informei.
Thiago levantou-se do sofá e foi em minha direção.
― Mas assim? Sem planejar nada? ― perguntou-me ele.
― Eu planejei. ― falei com um sorriso convencido.
― Certo, então me diga seu plano. ― falou.
― Bem, daqui nós iremos a estação de trem King Cross e compraremos nossas passagens, iremos para outra cidade, onde ninguém nos encontrará.
― Ta e depois?
― Você arranja um emprego e compramos uma casa. ― falei simplemente.
Ele bufou e revirou os olhos.
― Meu amor, não é assim tão fácil como pensas. ― começou ele ― Você pelo menos viu se há um trem à essa hora? ― perguntou.
É, realmente o plano não era assim tão infalível.
Qual é, gente, me dá um desconto, eu era imatura. Pra mim as coisas iriam se ajeitar conforme o que eu quisesse, mas descobri que o mundo não girava ao meu redor. ― Patética.
Por sorte meu amante tinha o que precisávamos para tapar os buracos no meu plano. Ele arrumou suas malas e as pôs no carro junto com a minha e a do Liam. Fomos até a estação e compramos nossas passagens, o problema é que o próximo trem só sairia pela manhã, lá pelas oito horas. Então nos hospedamos em um hotel ali por perto e ficamos torcendo para que Denys dormisse até mais tarde e não percebesse a falta de Liam até que tivéssemos dado no pé.
Thiago e eu dormimos com Liam em nosso meio na cama. Pedimos para que um funcionário do hotel nos acordasse quando desse o horário de irmos. Às sete da manhã já estávamos de pé, tomamos banho, pegamos nossas malas e fomos novamente para a estação. Liam não entendia muita coisa do que estava acontecendo, mas tampouco perguntava. Ficamos esperando o trem sentados em bancos de madeira.
Logo a locomotiva apareceu e pulamos para dentro do transporte. Escolhemos nossos lugares perto da janela e nos sentamos. O trem estava partindo e foi nessa hora que eu ouvi um grito desesperado do lado de fora. Denys olhava em nossa direção com os olhos cheios de lágrimas, corria para tentar alcançar o trem, mas não conseguiu.
Eu deixei parte de mim para trás. Meu coração sangrava. Thiago apertou minha mão com carinho, o fitei e sorri, pois ao menos eu tinha a ele e a Liam, que seriam meus pilares a partir dali.
Mudamo-nos para outro estado, um lugar distante o suficiente de Denys. Thiago havia arrumado tudo, arranjou documentos falsos, que nem sequer perguntei como os conseguiu, e uma casa. Logo éramos a família Dallson.
Thiago agora era meu marido, segundo aqueles documentos forjados, e Liam era seu filho legítimo comigo. O nome do meu filho havia perdido o “Arnon”.
Thiago havia mudado nossos nomes também. Eu me chamava Rebecca e ele adotou o nome de Terêncio. Apenas Liam permaneceu com o seu, pois seria estranho para ele que começássemos a chamá-lo por outro nome.
Thiago arranjou um emprego em uma empresa pequena de sapatos, o salário não era tão bom quanto antes, mas ele havia transferido boa parte de sua antiga conta para a nova, o que nos garantia o teto e a comida. Vivíamos bem, até.
Liam, claro, não parava de pedir pelo pai, mas parou depois do primeiro mês. Estava tranquilo, como sempre foi, e não disse nada quando começamos a nos chamar por nomes diferentes. Apenas não conseguia pronunciá-los direito.
― Lebe... Lebecca... ― tentava ele.
― Rebecca. ― falei novamente.
Ele fez bico e teimou em não dizer mais.
― Tio... ― começou ele, dirigindo-se ao Thiago.
― Não o chame mais de tio, querido. Pode chamá-lo de pai. ― tentei convencê-lo.
― Pai? ― perguntou confuso ― Mas e o meu pai?
― O Terêncio é seu pai. ― falei convicta.
― Mas e o papai? ― insistiu o pequeno.
Thiago se abaixou na frente de Liam e olhou fundo em seus olhos.
― Eu sou seu pai. ― disse com convicção.
Ih! Olha! A fala do Darth Vader! – Okay, podem ignorar essa pequena distração e vamos voltar a minha vidinha.
Até eu acreditei quando Thiago disse, pois ele estava realmente crente naquilo. Sorri e apoiei meu amado.
Liam não contestou mais.
Dois meses depois de nossa fuga, já havíamos arrumado tudo. Era um novo começo, uma nova vida. E Thiago tinha um ar muito melhor agora, não reclamava mais e havia voltado a ser aquela pessoa que eu tanto amei.
Eu estava fazendo o almoço quando Liam perguntou pela primeira vez por Thiago como pai.
― Quando o papai volta? ― perguntou.
― Seu pai é o Terêncio. ― disse pela centésima vez.
― É. Quando ele volta? ― voltou a perguntar.
Então eu me toquei que finalmente Liam havia adotado Thiago como pai.
― Ele está no trabalho, filho. Volta daqui a pouco para o almoço. ― falei sorrindo.
Ele assentiu e foi brincar.
Ouvi algumas batidas na porta da frente, devia ser a vizinha, pensei, ela sempre passava por lá para prosear. Engano meu.
Fui atender a porta e deixei as panela no fogo. Quando eu vi quem viera me visitar tomei um susto, pois realmente não era um rosto que eu desejava ver.
― Senhora Dallson? ― perguntou ele sínico. Era o detetive, o mesmo que cuidou do caso de Berta. Estava mais velho e com a aparecia mais cansada, mas ainda usava o mesmo sobretudo marrom e o olhar acusatório.
― Sim? ― perguntei, na esperança de que ele não se lembrasse de mim.
Ele sorriu de escárnio e disse:
― Está presa pelo assassinato de Berta Smith e por falsidade ideológica. Tem o direito de permanecer calada, qualquer coisa que diga poderá ser usado contra você no tribunal.
Fale com o autor