Do Princípio...
1 Relembrando
Notas iniciais
P.O.V Suzana
Nárnia.
Era esse o nome.
Tudo começou por culpa de Nárnia.
Tudo começou por culpa de um conto de fadas que penetrou na imaginação de meus irmãos e os fizera crer que um dia, por mais absurdo que parecesse, havíamos vivido aventuras em terras distantes e encantadas, onde seres extraordinários habitavam sob o governo de uma criatura magnânima de superioridade e poder infinito, conhecida também por Aslam.
Eu via nos olhos de Lúcia, embora já com idade suficiente para desapegar de seus contos de fadas, o brilho da crença e da felicidade quando o nome Aslam ou Nárnia era mencionado.
Pedro tinha o mesmo olhar de igual admiração quando o assunto surgia.
Até mesmo Edmundo, sempre tão centrado, parecia esquecer sua lucidez nesses momentos.
Mais do que isso, lembro-me da surpresa no rosto de cada um de meus irmãos quando declarei que eles estavam caindo em delírio, que Nárnia não existia e que Aslam era uma criação de suas imaginações insatisfeitas com a realidade.
Nesse dia Lúcia chorou e Pedro se afastou aborrecido, enquanto Edmundo me olhava incrédulo.
Eu não lembro do que acontecera a seguir.
Apenas recordo que meses se passaram e que a insistência de Pedro, Ed e Lú de tentarem me tirar a razão acabou. Por fim eles desistiram.
Eu deveria ter ficado satisfeita. Afinal, havia me livrado de Nárnia, Aslam e seja lá o que mais eles haviam criado.
Mas não tive tempo de me sentir aliviada.
Foi tudo muito rápido.
Num dia eu era uma moça feliz, cercada de amigos e família e no outro, para minha total surpresa e desespero mútuo, eu me tornara órfã, sozinha e assombrada pelos fantasmas de amigos e familiares.
Sendo lógica do jeito que sempre fui, apenas decidi seguir em frente, mas os pesadelos me impediram de cruzar minha barreira de luto e tentar reconstruir minha vida.
A noite, no escuro de meu quarto solitário, Lúcia vinha me acordar. Suas palavras eram claras e cobertas de convicção.
—Você precisa se lembrar, Suzana. Lembre-se! Lembre-se de Nárnia!
Por meses perdi meu sono, pois Lúcia insistia em me visitar com freqüência e seu pedido era sempre o mesmo: Nárnia.
O fantasma de Lúcia era insistente, não desistiu fácil. Mas, quando percebeu minha aversão à Nárnia e tudo o que a ela era ligada, tratou logo de enlouquecer-me, juntando Edmundo e Pedro aos meus pesadelos.
Se Lúcia acordou-me por meses, Edmundo e Pedro conseguiram superar ela em apenas uma noite.
Pedro era mandão, enquanto Edmundo me chateava com seus sermões longos e de difícil entendimento.
Nessa noite em questão, perdi a conta de quantas vezes despertei-me do sono, os cabelos grudados ao rosto e a respiração ofegante. Em determinado momento, cansada de tentar cair no sono e ser puxada pelos cadáveres de meu passado, empoleirei-me na ponta da cama, certa em manter-me acordada, convicta que não deixaria que os pesadelos me chamassem para si mais uma vez. Porém, diferente do que o planejado, o sono se aproximou sorrateiro de meu corpo e eu me deixei levar.
Não percebi quando adormeci, mas me lembro muito bem de quando “despertei”.
Era tudo muito claro e limpo.
Não havia nada e ao mesmo tempo existia tudo.
Seria um bom lugar para encontrar paz se não estivesse enfornado de meus amigos, parentes e família. Todos aqueles que morreram.
Todos aqueles que tive de sepultar.
Minha cabeça girava, meus olhos perdiam o foco e eu me vi gritando, as mãos cobrindo os ouvidos, tentando ocultar a confusão de vozes que se misturavam e pediam o que Lúcia me pedia a meses: ter fé. Acreditar em Nárnia.
A cena já era assustadora por si, mas a adição de criaturas como ratos falantes e centauros me pegou ainda mais desprevenida.
Eu sentia o medo emanar de todos os meus poros.
Não conseguia gritar, mas tentava tapar os ouvidos o mais que podia.
Meus olhos passeavam pela multidão sem destino, sem absorver cada rosto, apenas apavorado demais para se ater a apenas um.
Mas eles, por peça de um destino sem senso de humor algum, focalizaram em uma pessoa.
Um homem de expressão jovem, mas que parecia carregar o peso do mundo nas costas.
Seus olhos castanhos eram profundos.
Olhos de quem viveu muitas aventuras.
Olhos que transmitiam uma tristeza incalculável...
Pelo que pareceu segundos estive conectada com esse completo estranho, sentindo sua tristeza e entendendo seus segredos sem ao menos conhecê-los.
Uma dor lancinante focalizou em algum ponto da minha cabeça.
Uma dor profunda e aguda, uma dor que parecia ser feita por algo forte, ininterrupto, algo como um bloqueio.
Levei a mão a cabeça, pressionando o local, mas não conseguindo me afastar do par de olhos castanhos.
Nos segundos que se passara a dor atingiu seu ápice.
Dos meus olhos reviam lágrimas quentes e silenciosas.
A gritaria só agravava a dor.
Os olhos castanhos eram a única coisa que me detinham de me entregar a escuridão e ao desespero.
Mas, para meu completo espanto, meus olhos presenciaram uma luz ofuscante se aproximar do rapaz, cegando-me temporariamente.
Estreitando os olhos, devido a luz que a coisa irradiava, consegui distinguir uma silhueta no meio do nível altíssimo de luz.
Pelas curvas, constatei ser a silhueta de uma mulher.
A surpresa golpeou-me de forma violenta quando a mulher circundou o rapaz com seus braços, enquanto o mesmo retribuía o gesto e trazia a mesma para si, segurando com firmeza em sua cintura.
Ele desviou os olhos apenas para conceder brevemente um olhar à mulher. Quando seus olhos se elevaram e se encontraram com os meus novamente eu distingui culpa neles.
Eu estava tão envolvida na cena dos dois estranhos que percebi tardiamente que minha cabeça estava prestes a entrar em colapso, de tanto que doía.
Ignorei por um instante o rapaz e tentei me concentrar em minha dor, mas minha alma ansiava por olhá-lo, por se embrenhar no mar castanho de seus olhos e, assim, o fiz.
Bastou que nossos olhos se cruzassem mais uma vez para que a dor invadisse meu crânio com uma intensidade inumana.
Escorreguei até o chão gritando, as mãos segurando os dois lados da cabeça com firmeza.
Algo clareou em minha mente, enquanto a dor amenizava de forma gradativa.
Imagens de uma outra época, uma época até então desconhecida por mim, começaram a flutuar ao meu redor me engolfando em seus significados e sentimentos.
Os castores.
Os centauros.
O Guarda Roupa.
A Estação de Trem.
Castelos.
Telmarinos.
A Rainha Destemida.
O Rei Justo.
O Rei Magnífico.
A Rainha Gentil...
Nárnia.
Aslam.
Caspian...
Foi como um click.
Como um abrir e fechar de olhos.
Como um curativo retirado de forma rápida de um machucado.
Em apenas alguns segundos tudo voltara.
Tudo fazia sentindo novamente.
E foi assim que acordei.
Sentada em minha cama, o coração batendo descontrolado no peito, eu suspirei pesadamente e deixei as lágrimas formarem uma fila por minha face.
Eu lembrara.
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