Do Princípio...
3 Identidade
Notas iniciais
P.O.V Autora
Pela manhã, antes que seus olhos pudessem se acostumar com a luz que irradiava da janela do quarto, Suzana se viu cheia de tarefas para executar antes mesmo de tomar seu desjejum. Emanoela, naquela manhã, parecia terrivelmente ranzinza, o que fez Suzana questionar-se se tal humor tinha alguma ligação com o desastre da noite anterior.
Talvez por euforia, ou apenas por birra, Suzana fez questão de demonstrar todo o seu desinteresse pelos pretendentes que a mãe jugara serem adequados. Durante todo o baile, Suzana agiu com a maior cortesia que lhe conferia a educação, mas sem, de fato, esconder o desagrado para com seus parceiros de dança.
A única parte boa que a garota recordava-se era seu reencontro junto à Max. Ela e o primo aproveitaram as rápidas escapadas em suas danças para debaterem sobre os mais diversos assuntos, relembrando momentos e contando tantos novos.
Para Suzana, Max não havia mudado em nada. Sua aparência continuava firme: os olhos negros se destacando no rosto alvo, tão atentos a tudo que a garota se perguntou se ele estava notando a carranca de Victor sobre o ombro; as madeixas escuras de Max, antes mais curtas, agora caiam sobre seus olhos.
No fim da festa, quando fora obrigada a dizer adeus, Suzana voltou acompanha dos pais para casa, a fúria de Emanoela evidente em cada frase, enquanto Liam, por outro lado, parecia mais calado que o normal. Suzana não procurou saber o porquê. Na verdade, não tinha o mínimo interesse. Procurar respostas com os pais era o mesmo que aventurar-se dentro de uma floresta escura e sombria: nunca havia nada de bom nisso.
—Vá ao mercado e compre uma jarra de leite do velho Tiberius. Não deixe que ele lhe engane: me traga leite fresco._mandou a mãe, depositando uma moeda na palma da mão de Suzana.
Suzana levantou-se do chão, sacudindo as mãos de terra. O resultado do vestido não era diferente: estava tão puído que, mesmo que a garota tentasse retirar o barro que se impregnara no tecido, ainda assim de nada adiantaria.
—Eu estou um desastre completo._amaldiçoou-se a garota, enquanto encarava a horta recém mexida.
—Deixe de frescura, Suzana! Preciso do leite para hoje!_ralhou a mãe de dentro da casa, oculta nas sombras do interior da mesma.
Suzana praguejou baixo, mas não desobedeceu a mãe. Passou pela pequena cerca que circundava o velho chalé e seguiu o caminho da estradinha de barro, suando ao sentir o calor do sol esquentar sua pele.
O caminho até a aldeia foi cansativo. As pernas de Suzana reclamaram de exaustão, enquanto o corpo ansiava por um copo de água. O verão nas terras de Telmar alternava entre muito calor e muito frio, acompanhado de chuvas tempestuosas. Aquele, para a infelicidade de Suzana, parecia um dia em que o sol se imporia.
Suzana teria montado seu cavalo, Aslam, para ir até a aldeia, caso montá-lo fosse permitido. A mãe determinara que Aslam só seria usado em último caso, uma vez que não queria a filha cavalgando feito uma selvagem pelas ruas de Telmar. Segundo ela, as pessoas falariam mais do que já falavam, e isso seria prejudicial para o futuro da garota.
Quando as primeiras lojas ficaram visíveis, Suzana quase chorou de alívio. Tinha a impressão que desmontaria na primeira sombra que encontrasse em seu caminho.
Suzana passava pelas pessoas de queixo erguido, mesmo que o rosto, as mãos e o vestido, não fossem motivo de grande orgulho, pelo muito contrário: denunciavam um desleixo significativo o suficiente para envergonhá-la. Mas, a maioria das pessoas já haviam acostumando-se com a aparência extravagante da menina, os murmurinhos eram quase inexistentes, ainda que os olhos fossem bastante perspicazes durante todo o trajeto.
A garota chegou até a velha loja de Tiberius e sorriu para o comerciante idoso.
—Uma garrafa de leite fresco, seu Tiberius. E, por favor, tente não enganar a minha mãe mais uma vez. Quem anda pagando por suas atitudes sou eu._a repreensão deveria ter soado mais ríspida, mas Suzana sabia que o velho não fazia por mal. Sua idade avançada não permitia que ele realizasse seu trabalho tão bem quanto outrora.
—Eu peço desculpas, minha jovem. Vou providenciar o melhor leite da casa!
Suzana sorriu para o senhor, enquanto o mesmo tateava até os fundos da loja.
—Gostei do estilo.
Suzana se sobressaltou, reprimindo o que seria um grito.
Ao seu lado, Max exibia um sorriso travesso, quase conspiratório.
—Por tudo que é mais sagrado, Max: não me assuste assim!
O primo riu, os braços cruzados em frente ao peito de forma despreocupada.
Suzana não pode deixar de notar que, sob àquela postura relaxada, Max parecia mais com o Max de três anos atrás, o qual usava camisas folgadas de algodão e botas puídas; tão descuidado com a aparência que os cabelos se rebelavam em todas as direções.
—Quase não a reconheci com esse pano sobre a cabeça._acusou, levando a mão até os cabelos de Suzana e retirando com cuidado a flanela que cobria seus cachos.
Suzana se manteve ereta por um instante. Ela e Max haviam se tornado muito unidos na infância, mas a separação na adolescência havia contribuído para manter uma certa distância física entre os dois. Mas agora, enquanto Max parecia tão a vontade tocando-lhe os cabelos, Suzana percebeu que gostava da intimidade que o primo impunha entre ambos.
—Bem melhor._confessou, lhe admirando o rosto.
Suzana segurou a flanela que Max estendia em sua direção e lhe lançou um meio sorriso, revirando os olhos no ato.
—Uma flanela não faz a menor diferença quando você está coberta de barro._brincou, fazendo com que Max a seguisse na risada.
—Essa era uma pergunta que eu faria em seguida.
—Bom..., digamos que sou ótima com hortas e flores, apenas._porque era bem melhor ele pensar isso do que Suzana confessar que a mãe lhe colocava para cuidar das mesmas todo o santo dia.
—É boa com a terra, provavelmente é uma excelente dona de casa..._Suzana fez uma careta_e ainda luta. Ok. Você está me impressionando.
—Tire a parte de boa dona de casa e seremos amigos._brincou a garota, recebendo um sorriso carinhoso de Max.
—Sua mãe ainda está insistindo?_seus olhos tinham uma compreensão que Suzana não entendia, mas que Max vivenciava a cada dia, enquanto o pai traçava uma lista de moças dignas de desposar.
—Ela só fala nisso. Nesses últimos meses, principalmente, ela tem sido bastante insistente._para não dizer rigorosa, pensou a garota.
—E tem conseguido mudar sua cabeça?_Suzana não notou a hesitação no rosto do primo.
—Nem um pouco, mas anda cada vez mais difícil driblá-la._confessou.
Tiberius apareceu entre os dois de repente, uma garrafa de leite pendendo de sua mão pouco instável.
—Aqui está, minha querida.
Suzana agradeceu o senhor e depositou a moeda em suas mãos, se distanciando junto a Max em seguida.
—Quer companhia até...?
Antes que Max terminasse a frase, Victória se materializou na frente de ambos, um dos braços puxava Rosie consigo.
—Procurei você a manhã inteira, Max!_acusou.
Rosie, ao lado da garota, parecia visivelmente envergonhada. As bochechas estavam rubras, enquanto os olhos vasculhavam o solo com interesse genuíno.
—Bom dia para você também, Victória. Rosie._Max viu o constrangimento de Rosie ficar ainda mais evidente quando ela engasgou em seu cumprimento retórico.
—Papai está atrás de você igual a um louco! Estou certa que ele mandaria chamar quem quer que fosse para encontrá-lo, caso Rosie não tivesse mentido.
Suzana e Max se voltaram para a figura diminuta e delicada de Rosie.
—Rosie fez o quê?_o tom de perplexidade de Max não passou despercebido por Suzana.
—Eu...me desculpe. Mas vi que a situação não estava favorável para você, então falei que havia lhe encontrado caminhando pela aldeia, apenas._apressou-se em dizer a garota. Max podia jurar que, se pudesse, Rosie estaria cavando um buraco com as próprias mãos ali mesmo.
—Eu fico grato, Rosie._falou Max com suavidade, realmente satisfeito pela atitude admirável da filha de Richard.
—Você vai para casa?_questionou Victoria, os olhos vasculhando o mercado como um abutre, provavelmente procurando uma nova conquista.
Max olhou para Suzana. Seus grandes olhos azuis estavam compreensíveis. Sabia que o primo tinha questões importantes em casa, principalmente agora que era um soldado oficial da guarda do rei.
—Pode ir. Eu conheço o caminho muito bem._assegurou ela com um sorriso.
Max retribuiu o mesmo com tristeza. Achou que a conversa com o pai tivesse surtido algum efeito, mas teria de se impôr mais para romper o muro de preconceitos de Victor.
—Até mais._disse se afastando e, para a surpresa das três garotas, voltando rapidamente para depositar um singelo beijo no rosto da prima.
Suzana e Victória não disseram nada por alguns segundos, ambas perplexas demais para falarem qualquer coisa que fosse.
—Bom...se me dão licença, meu pai está me esperando perto do castelo._anunciou Rosie, quebrando o clima sepulcral que se instalara ali.
Rosie saiu de cabeça baixa, o que fazia sua figura parecer mais vulnerável do que o normal.
—Eu também vou indo. Minha mãe me espera._balbuciou Suzana, os olhos ainda grudados na figura de Max que se afastava a longos passos.
Victória assentiu, mas nada disse. Afinal, já estava tudo bem claro, pelo menos para quem queria ver.
***
Suzana ainda remoía a atitude estranha de Max muitas horas depois de chegar em casa. O primo de antes nunca teria agido de forma tão inusitada. A garota procurou encontrar uma resposta óbvia em meio ao caos de seus pensamentos, mas a única que lhe fez sentido fora o tempo.
Inquieta e se sentido uma tola, Suzana rumou para o pátio da casa para fazer a única coisa que tinha o poder de centralizar seu equilíbrio novamente.
Com o arco em mãos, a flecha mirada no centro de um arbusto frondoso, Suzana treinou por horas, até que a voz de Emanoela se fizesse presente:
—Suzana, pare já com isso e venha me ajudar!
A mãe estava ocupada estendendo alguns lençóis sob um varal estável, a carranca de sempre expulsando toda a beleza que ainda lhe restava na face.
Suzana não pode evitar esboçar uma careta ao grito da mãe, preparando seu arco uma última vez. A concentração de Suzana ia além do costumeiro. Naqueles poucos segundos, ela era o arco e a flecha o destino. A garota alinhou o arco na altura da boca e estreitou os olhos, a respiração controlada e calma. Quando a flecha tomou impulso no ar o resultado foi o esperado.
A garota sorriu, satisfeita com o mesmo.
—Suzana!_a voz de Emanoela aparentava estar mais raivosa, o que fez com que Suzana engatasse numa corrida ao encontro da matriarca.
Do outro lado, Emanoela esperava de forma impaciente, os lençóis já aninhados sobre o varal, rugindo com o bater desgovernado do vento.
—Será que você não entendeu?!_ralhou a mãe, fazendo com que Suzana recuasse de forma imperceptível dois passos.
—Não quero você treinando está coisa! Isso não é para damas, não é qualificado!
Suzana baixou os olhos para o arco em sua mão e, em seguida, soltou um suspiro de frustação.
—É apenas por distração mamãe._mentiu a garota, tentando ao máximo ocultar a nota falsa em sua voz.
—Eu, sinceramente, não sei o que fiz de errado para você sair tão diferente de mim e do seu pai._comentou a mãe de forma ríspida, a decepção misturando-se com a raiva.
Houve um tempo em que as palavras dos pais feriam Suzana. Para a sorte da menina, esse tempo havia se perdido no tempo, junto as lembranças de menosprezo. Max a ajudara muito nesse quesito, mas o grande responsável por essa nova mudança havia sido a crença no Grande Leão, assim como a certeza em si mesma.
—Como posso ser útil mamãe?_questionou Suzana rapidamente, tentando evitar o assunto o qual a mãe tomava caminho.
—Preciso que vá até o castelo e leve uma mensagem ao seu pai._ Emanoela estendeu uma carta lacrada para a garota, aguçando a curiosidade de Suzana num nível máximo.
—Não ouse abrir o conteúdo desta carta, Suzana_advertiu a mãe, observando o interesse crescente da filha no envelope.
—Não o faria, mamãe._garantiu, apressada.
Suzana, literalmente, não faria isso. Por mais que a curiosidade lhe aguçasse a alma, ainda assim ela sabia respeitar a privacidade dos outros.
—Então vá logo. Use seu cavalo para ir, não quero que se atrase para o jantar.
Emanoela voltou-se para seus afazeres, enquanto uma Suzana animada se aproximava do belo animal que era seu cavalo.
—Olá, Aslam!_cochichou perto de seu focinho, enquanto acariciava o mesmo.
Quando recebera Aslam de presente, Suzana logo afeiçoou-se pelo animal a primeira vista. Em seu interior o nome Aslam ecoou de forma involuntária, preenchendo-a de uma calma e certeza imensuráveis.
Para o azar de Suzana, a menção do nome do animal havia causado uma grande dor, tanto no cavalo quanto na menina, uma vez que os pais viram aquilo como uma afronta aos costumes e crenças de Telmar.
O que era para ser uma simples homenagem ao Grande Leão, tornou-se um pesadelo. Em suas lembranças, a garota podia visualizar claramente uma garotinha com a mão sobre a face, choramingando ao efeito do tapa que o pai havia distribuído em sua face. Suzana se lembrava de ficar no chão ao lado do animal, enquanto o pai ameaçava sacrificá-lo. Para sua sorte, o animal escapou da morte, mas não da fúria de seu pai. Suzana ainda conseguia ouvir o relinchar doloroso do animal, enquanto o pai lhe açoitava de forma rude, mesmo o animal sendo inofensivo.
Aquela noite foi como uma aprendizado para a vida de Suzana, uma vez que percebeu que mencionar Nárnia, ou qualquer coisa que à ela estivesse ligada, apenas atrairia dor e desgraça para si e para aqueles com que se importava. Nesse sentido, Aslam foi "rebatizado", passando a denominar-se Billy, enquanto em seu interior, Suzana continuava a chamá-lo pelo nome que havia causado tanta comoção.
Suzana montou em Aslam com facilidade, uma vez que treinava, sempre que possível, com o cavalo pelas redondezas do chalé. Sua facilidade em montá-lo e guiá-lo era algo fascinante, principalmente vindo de uma mulher.
A garota gostava de seguir uma linha diferente da imposta às mulheres telmarinas. Atirar flecha, brandir uma espada ou cavalgar, eram características ousadas, as quais os pais tentaram fazê-la abandonar, mas que não haviam conseguido.
Para Suzana era mais do que ser diferente. Era a ideia de sempre estar preparada para tudo, sem necessitar que ninguém a ajudasse. Era uma forma de mostrar sua própria autonomia, mesmo que de forma tão característica.
Não demorou para que Suzana chegasse até o vilarejo, e menos ainda demorou para que as pessoas a olhassem de cara feia.
A garota tentou não se importar com as vozes abafadas que a seguiam, dando atenção ao pequeno momento de diversão entre ela e Aslam.
Quando chegou no portão do castelo, Suzana puxou as rédeas de Aslam com eficiência, fazendo-o parar de forma sutil e não abrupta.
Dois guardas vigiavam o portão, ambos cobertos por suas armaduras.
—O que você quer?_grunhiu o guarda mais baixo e carrancudo, seu mal humor fluindo em cada palavra.
—Tenho uma mensagem para entregar a um de seus homens._falou de forma educada, embora estivesse impaciente com o tratamento do guarda.
—Qual deles?_inqueriu.
—Não importa! Acha mesmo que se eu entrar e tentar burlar suas leis não serei pega?_ a língua de Suzana normalmente era mais rápida que seu cérebro, soltando a primeira coisa sem filtrá-la.
O guarda a olhou com raiva, como se a garota tivesse acabado de lhe roubar umas parcas moedas.
Suzana não desviou o olhar, sabia que desviá-lo seria considerado um sinal de vulnerabilidade, além de que a garota não estava disposta a dar esse gostinho ao guarda.
—Deixe-a entrar Tolkin, tenho certeza que ela não causará confusão alguma._uma voz veio de trás de Suzana, tão melódica quanto podia.
O guarda que se aproximava era bastante jovem e atlético, talvez um ou dois anos mais velho que Max, mas, ainda assim, tão sério quanto. Suzana não deixou de reparar em seus cabelos loiros e seus olhos safiras. Para o desagrado da garota, o rapaz era muito belo, além de parecer esconder os sentimentos tanto quanto Suzana ocultava os seus.
—E então, o que me diz?_perguntou ele para o guarda carrancudo, um sorriso leve se esboçando em seu rosto.
O guarda chamado Tolkin, estreitou os olhos para Suzana, falando cada palavra de forma ameaçadora:
—Se tentar algo, qualquer besteira que seja, sua cabeça eu mesmo farei questão de decepar._alertou.
Suzana manteve um olhar de monotonia, enquanto respondia no mesmo tom:
—Não se eu decepar a sua primeiro, Tolkin.
O guarda ficou vermelho de raiva, porém se manteve calado. Atacar Suzana não era correto, principalmente por ela ser mulher e indefesa.
O portão foi aberto com um estrondo, enquanto Aslam rumava para dentro da fortaleza que era o castelo de Telmar.
Ao chegar no centro do pátio, Suzana desceu de Aslam e pôs-se a observar ao seu redor. O castelo era todo vigiado por guardas e havia apenas uma saída, sem falar nas colunas íngremes e melancólicas que revestiam o castelo, fazendo quase impossível o desafio de fugir escalando.
A garota deixou Aslam amarrado junto de uma grade que dava a lugar algum, prometendo voltar depressa.
Pedir informações aos guardas parecia desafiador, mas não o foi de fato. Suzana percebeu que as informações vinham até ela sem que a garota se empenhasse, e o motivo, logo, fez-se claro: Suzana era uma bela mulher cercada de homens ávidos por atenção, qualquer equação diferente seria loucura.
Não demorou para que visualizasse a figura firme de Liam em uma das torres. O pai estava vigiando a ala leste, a mesma ala que dava para os aposentos do rei.
—Pai._chamou Suzana, fazendo com que o homem virasse sua atenção para ela.
—O que faz aqui menina?_o humor de Liam era tão bipolar quanto o de Emanoela, por isso Suzana não se espantou muito com a rispidez que revestia a fala do pai, embora tenha mantido uma distancia considerável do mesmo, uma vez que conhecia o gênio violento de Liam.
—Mamãe pediu que entregasse está mensagem ao senhor._apressou-se em responder.
Suzana estendeu a carta, sua voz não passava de um sussurro. O homem arrancou a carta violentamente da mão da filha.
—Suma da minha frente e volte para a casa imediatamente._ordenou, fazendo com que a menina assentisse.
Suzana não ousou olhar para trás, pelo muito contrário: a garota sumiu rapidamente de perto do pai, ofegante e pálida com o breve encontro.
Quando viu necessidade de acalmar-se, Suzana serpenteou por um corredor escuro e ali equilibrou a respiração e os pensamentos.
Já calma, Suzana tomou o mesmo caminho que a fez chegar ali, mas o barulho de espadas se chocando fez com que a garota parasse no mesmo lugar, a atenção voltada para todos os lados, embora a escuridão do corredor parecesse engolfá-la.
Suzana decidiu seguir em frente, não devia ficar ali. Uma confusão a essa altura do campeonato poderia lhe custar muito caro.
ZIPPPPP...
Uma flecha passou a centímetros do pescoço de Suzana e parou do outro lado do corredor, acertando um guarda no peito e fazendo-o estatelar no chão de pedra.
Suzana encarou o autor do disparo em alerta, reconhecendo o guarda jovem que lhe ajudou a entrar no castelo. Suzana não pensou duas vezes e pesou suas chances.
O brilho de uma lâmina sob a parede chamou-lhe a atenção e a atraiu até ela, arrancando-a em seguida e partindo para o ataque. Suzana era eficiente com uma espada, não tanto era com o arco e flecha, mas o suficiente para desferir golpes de todos os lados e ângulos.
O guarda recuava a medida que a garota ia ganhando terreno, os olhos um pouco em choque com a facilidade de Suzana.
—Acalme-se._pediu, enquanto bloqueava os golpes, sem, de fato, atacar.
Suzana não lhe deu ouvidos e continuou a duelar, embora estivesse claro que ele não tinha a intenção de lutar com a garota.
O sujeito defendia-se com o arco como podia, prestes a qualquer momento falhar e findar com a própria vida.
—Por favor, deixe-me explicar!
O guarda tentava acalmar a situação, mas isso apenas parecia piorar a mesma
Suzana desferiu um golpe certeiro no arco do guarda, fazendo o mesmo voar longe.
O guarda, com os olhos esbugalhados de medo, ergueu as mãos em sinal de redenção. Suzana parou a centímetros de seu pescoço.
—Por que tentou me matar?_a pergunta de Suzana saiu como um sibilo, tamanha era sua irritação.
—Não foi você que eu queria matar, e sim à ele._o guarda apontou para o cadáver caído mais a frente.
—Têm um minuto para se explicar._avisou Suzana, os olhos inflamados.
O guarda olhou-a com admiração. A garota se sentiu incomodada com o olhar e apertou a espada ainda mais contra a garganta dele, um aviso.
—Cinquenta segundos._pressionou sem vestígio de brincadeira
—Ok._apressou o rapaz._Todos os telmarinos acreditam que não haja mais narnianos pelas redondezas, eu discordo, acho que eles estão sim lá.
A confissão pareceu não fazer sentido para Suzana. Qualquer outra resposta teria feito com que ela acreditasse de prontidão, mas aquela não fazia sentido algum.
—Quer trair seu povo?_Suzana falou com incredulidade visível.
—Exatamente._prosseguiu o rapaz, sem remorso.
Suzana arregalou os olhos estupefata, não era a resposta que achou que ouviria.
—Por quê?_balbuciou de forma desconexa.
—Porque tenho minha devoção voltada para Aslam, acho que está na hora de mostrar para os telmarinos que a existência de Nárnia e do Grande Leão são verdadeiras.
Suzana desafroxou a espada da garganta do guarda com cuidado, fazendo com que o mesmo se endireitasse, mas sem desviar-lhe a atenção.
—Todos a conhecem muito bem Suzana. Sei que é devota de Aslam.
Suzana não se espantou ao ouvir aquilo. Todos pareciam, de fato, saber sobre a crença da garota, embora nenhum deles tenha sugerido isso ao rei, o que, de certo, lhe causaria uma morte lenta e dolorosa.
—É a sua opinião._mentiu.
—Minha e de todos os telmarinos.
—Não me interessa, quero saber o porquê da matança, apenas.
O guarda seguiu o olhar dela até o outro que estava estirado sem vida no chão.
—Ele descobriu meus planos e estava prestes a relatá-los ao rei.
Suzana estreitou os olhos desconfiada, embora bastante curiosa.
—Quais planos?
O telmarino traidor sorriu satisfeito. Ele sabia que havia, de alguma forma, plantado a dúvida na garota.
—Já se passou cinquenta segundos._o guarda brincou, olhando divertido para Suzana.
A garota achou muita ousadia e o pressionou sem piedade contra a parede fria, a espada firme contra sua garganta, fazendo com que a carne rasgasse superficialmente no local.
—Tudo bem, me desculpe, eu falo._ele disse, a surpresa estampada em seu rosto._Está noite me embrenharei na mata e atravessarei o rio, preciso chegar até o antigo castelo de Nárnia. Agora está mais para ruínas mas, ainda assim, acho que encontrarei alguma pista por lá.
Suzana odiava admitir, mas sabia quando alguém estava sendo sincero e, naquele instante, o assassino lhe dizia a verdade.
—Como assim?_perguntou, as sobrancelhas arqueadas levemente.
—Vou, mas terei que ser rápido, caso contrário notarão minha ausência. De qualquer forma, saiba que não retornarei. Minha vida não é e nunca foi em Telmar.
Suzana viu um breve brilho de semelhança crescer entre ambos. Ela também nunca encontrara um lugar entre os telmarinos, não seria agora que encontraria.
O rapaz esperou a resposta de Suzana, enquanto ela pesava todas as suas palavras.
—Você é maluco!
O guarda sorriu, enquanto Suzana retirava a espada de sua garganta.
Ele observou a garota se virar e recolocar a espada em seu devido lugar, correndo até o guarda morto no chão e puxando-lhe as pernas para dentro de uma porta ali perto.
—Quando partimos?_perguntou, enquanto limpava as mãos no vestido puído.
—Co-como?_perguntou atônito.
—Que horas partiremos?_ a perplexidade no rosto do guarda seria cômica, caso eles não tivessem de ser rápidos.
—Isso não foi um convite.
—Sim, não foi. Porém eu estou me convidando.
—Desculpe, mas não posso. Se algo não sair como o esperado não quero ser responsável por sua morte._admitiu, sincero.
—Não estou pedindo isto, só estou lhe informando que com ou sem você eu irei atrás de narnianos, mas sem você corro o risco de me perder na floresta e eu odiaria ter que ficar andando em círculos no mesmo local.
O guarda colocou a mão na cintura pensativo.
—Vai precisar de alguém para salvar sua vida vez ou outra._disse de forma irônica.
Suzana o encarou e disse de forma simples e seca:
—Concluo que este cavalheiro não será você, pois estará ocupado demais tentando salvar a própria vida.
Ela recolheu o arco e lhe entregou, depositando um sorriso debochado no rosto.
—Engraçadinha.
O cavalheiro, apesar de tudo, a seguiu em sua risada, ficando sério posteriormente:
—Encontre-me está madrugada perto do bosque. Leve suprimentos. Não sei ao certo quando voltaremos.
—Entendido._Suzana preparou-se para sair, mas a voz do guarda a deteve.
—Aliás, meu nome é Christian.
Ela assentiu e deu-lhe às costas, rumando para fora do castelo.
Aslam estava onde Suzana havia o deixado, tão quieto que parecia ter consciência das coisas.
Durante a viagem de volta, Suzana questionou-se se não agiu de forma impulsiva. Se realmente era o certo o que estava fazendo. Pensou em seguir até a casa de Max e lhe pedir conselhos, mas não queria ocupar-lhe com seus problemas. Diferente dela, Max agora tinha uma vida de responsabilidades, não cabia Suzana puxar-lhe para uma correnteza de incertezas.
Mesmo com a cabeça imersa em dúvidas, algo dentro de Suzana parecia rugir pela liberdade. Pela necessidade de descobrir o mundo com seus próprios olhos. Certamente sua fuga lhe traria muitos problemas. Mais certo do que isso, era a certeza que retornar para casa era impossível depois daquela noite. Por algum motivo, Suzana não se sentiu mal por isso. Deixar Telmar e os pais para trás era um alívio. Apenas Max era sua conexão com aquelas terras e aquelas pessoas, mas, ainda assim, Suzana sabia que, no lugar dela, o primo faria o mesmo. Foi com esse pensamento que a garota rumou de volta para o chalé, o coração a mil, enquanto a sensação de liberdade se instalava de forma gradativa em si.
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