Notas iniciais
Capítulo editado 18/06/17.

P.O.V Suzana

Dois anos haviam se passado.

Durante esse tempo tentei viver da melhor forma que podia.
Aos poucos me transformei na pessoa que era. Voltei a ser a mesma garota que teve permissão de adentrar em Nárnia e a qual foi nomeada Rainha daquela terra mágica.

Os bailes, a sociedade e o status quo já não me valiam nada, uma vez que havia perdido tudo.

As pessoas ao meu redor fofocavam, me olhavam com suspeita e penalidade. Mal sabiam elas que meu sofrimento ia além de ter perdido todos aqueles que amava.

Durante esse período de dois anos eu me apeguei a fios de esperança que, com o passar do tempo, pareciam se desgastar.

Eu estava perdendo a fé. A crença que um dia veria meus irmãos novamente e poderia ficar frente a frente com Aslam para pedir-lhe perdão era quase que inexistente em meu ser.

Em uma noite comum, onde o vento frio adentrava pelas frestas da janela, eu me ajoelhei ao pé da cama, buscando a última alternativa viável para acabar com toda a carga de tristeza que se apoderara de mim.

Naquela noite eu rezei. Fiz um prece silenciosa na solidão do meu quarto.
As lágrimas afloraram como cachoeiras nos cantos de meus olhos, enquanto meu peito ardia e minha respiração era um desabafo irregular.
Finalizei minha prece com o peito em fragalhos, o coração dilacerado e a alma ilustrada de arrependimentos.

Me recordo de ter me encolhido no centro da cama, os joelhos colados ao peito. Dormi com as faces lavadas de lágrimas.
Tenho a sensação de que fiz algo certo durante esse período em que permaneci sozinha, afogada em culpa e tristeza, pois, naquela noite, Aslam me ouviu e acalentou-me a alma. Seu rosnado ao longe foi um grito de alegria em meu coração, uma luz no fim do túnel e o milagre tão esperado.

Ele acordou-me do sono e me encheu de esperança e paz.

Me encheu de vida.

Me fez transbordar de fé.

Quando permiti que meus olhos se abrissem ele estava lá, sentado em suas patas traseiras, o mesmo olhar enigmático e a mesma luz intimidadora emanando de sua estonteante figura.

Mas Aslam tinha os olhos tristes, enevoados por uma tristeza tamanha que parecia até palpável.

—Por quê demorou tanto tempo para encontrar o caminho, Suzana?

Senti um nó apertar minha garganta, um nó que exibia a tristeza e denunciava a culpa.

—Perdão, Aslam._minha voz estava embaçada pelo choro, era apenas um soluço indistinto na imensidão.

A seriedade de Aslam me golpeava. Sentia que a culpa e vergonha era tanta em mim que elas poderiam explodir a qualquer segundo.

—Sei que deixei a futilidade se abater sobre minha vida. Desisti de tentar viver à sua maneira, a maneira a qual você me ensinou ser a correta, mas, mesmo após minha sucessão de erros, eu lhe peço desculpas. Peço que me leve para Nárnia, para junto de meus irmãos, eu lhe imploro.

Não consegui controlar meus soluços quando vi, com pesar, Aslam negar com a cabeça.

—Aslam, por favor..._minha voz continuava baixa, soterrada através dos soluços e das lágrimas.

—Suzana, acredito que não tenha me entendido corretamente._o Leão a olhava de cima, a bondade, mesmo que ocultada pela seriedade, ainda estava estampada em seus olhos._Nárnia, assim como os outros mundos, já não existe mais. Apenas seu mundo de origem é exceção, pelo menos por enquanto.

—Aslam..._parei abruptamente, tentando organizar meus pensamentos desconexos._Aslam, por favor..._fechei os olhos com força. Eu não queria perguntar, mas precisava ouvir a resposta dele._Por favor, me diga que há outra saída.

Fechei a mão em punhos, canalizando todo o tremor de meu corpo nelas.

—Minha querida, você necessita entender que você já fez uma escolha. Escolhendo as futilidades do seu mundo e os benefícios que as mesmas lhe traziam você optou por desvincular-se de Nárnia e de seus irmãos. Escolheu se afastar de mim, de minha presença e dos caminhos que havia preparado para você.

Eu queria pedir para que ele parasse. Para que se esquecesse das burradas que fiz há dois anos antes. Pedir para esquecer que um dia Suzana, a mesma que fora nomeada Rainha Gentil, havia se entregado facilmente a um mundo de caprichos.
Mas eu não podia, porque, vergonhosamente, essa era a verdade.

—Houve uma grande batalha, Suzana. Seus irmãos participaram dela como os Grandes Reis e Rainha que eram. Os que optaram por defender Nárnia, ao invés de traí-la, receberam, mesmo que de forma imperceptiva, um lugar em meu País.

Eu entendia as palavras de Aslam e o significado por detrás delas.

Eu não era merecedora de adentrar no País de Aslam.

Ficara tão preocupada comigo mesma que tomei minha decisão: decidi esquecer que um dia Nárnia fora parte da minha vida.

Abaixei a cabeça, a vergonha ardendo em meu rosto.

—Erga-se Suzana, não há motivos para tais lágrimas.

—Há mais motivos do que eu gostaria de admitir, Aslam._declarei com o rosto banhado em lágrimas. _Ao aceitar as futilidades do outro mundo eu dei as costas não só a você como também aos meus irmãos e ao meu povo. Eu encobri minhas concepções e construi um muro de mentiras.

Envergonhada e magoada, abaixei a cabeça, não podia mais encarar Aslam. Não merecia encará-lo.

—Não sou merecedora de sua bondade ou de seu perdão._enxuguei as teimosas lágrimas que insistiam em cair._Compreendo que não há segundas chances, e aceito as consequências de meus atos.

Houve um breve período de silencio.

Pensei em erguer a cabeça, mas tinha medo de constatar que Aslam havia sumido e com ele toda a esperança.

—Nunca há o impossível para aqueles que são dignos, Suzana._a voz forte e reconhecível de Aslam se fez presente.

Minha incredulidade fez-me erguer o queixo e analisar Aslam.

—Desculpe, mas o que quer dizer com isso?

O Leão esboçou um sorriso bondoso.

—Quero dizer que não cabe à mim dar-lhe uma segunda chance, minha querida.

Por segundos congelei.

Senti meu coração acelerar de forma descompassada no peito.

—A quem cabe essa tarefa, Aslam?_os vestígios de lágrimas haviam desaparecido de minha voz.

Eu estava atenta e pendurada por cordas finas de esperança, cordas essas que a qualquer momento podiam se romper e me jogar contra uma parede escura. Mas, ainda assim, eram cordas de esperança.

Aslam me encarou brevemente e voltou-se para um ponto sobre seus ombros.

Só então percebi o muro de ondas que nos circundava.

Sorri estupefata.

Aslam rugiu, e seu rugido era um comando inegável.

A parede de ondas se abriu, revelando um caminho amplo entre as águas.

—Segundas chances são para aqueles que um dia agiram de maneira correta._iniciou Aslam_Não acredito que suas últimas escolhas tenham lhe beneficiado, mas tenho absoluta certeza que Nárnia ainda lhe deve muito por tudo que você fez pela mesma durante o seu reinado.

Aslam começou a andar e eu o segui.

Lado a lado seguimos por um caminho onde paredes de ondas se erguiam.

—Aslam, para onde estamos indo?_questionei, embora um palpite crescesse em meu peito a medida que nos aproximávamos cada vez mais.

—Você saberá.

Ao longe uma porta maciça, feita de uma madeira resistente, se erguia anunciando o fim do percurso.

Aslam adiantou-se alguns passos e ficou de costas para a grande porta, enquanto eu me mantinha de frente para Aslam, encarando a porta.

O Grande Leão olhava de forma especulativa para mim, seus pensamentos pareciam flutuar ao meu redor.

—Você se recorda da primeira vez que esteve em Nárnia?

A pergunta me pegou de surpresa, mas assenti um vez.

—Então você certamente se recorda do seu apavoro quando adentrou na mesma. Me lembro de sentir o medo fluir de você. Nárnia era terrirório desconhecido, um lugar cheio de criaturas diferentes e magia excessiva, um lugar que, para você, uma pessoa tão lógica, não poderia ser real.

Senti minhas bochechas queimaram a constatação da fala de Aslam.

No começo eu era a única que relutara Nárnia com todas minhas forças. Em silêncio em desejava voltar a Londres, voltar a minha casa e a minha família.
Minha mente simplesmente renegava o fato de Nárnia ser real, de poder estar vivenciando aquilo...

—Posso ver que se recorda._constatou Aslam_Você temia Nárnia, temia os que ela habitavam e, principalmente, temia à mim.

Meus olhos baixaram para meus pés.

Eu me sentia envergonhada e culpada.

Tudo que Aslam estava falando era verdade.

Eu realmente temia tudo e todos no começo.

—Mas todo esse seu medo foi deixado de lado por culpa de seus irmãos. Amá-los lhe dera força para acreditar. Com o passar do tempo Nárnia tornou-se parte de você, o sangue de Adão que corre em suas veias falara mais alto e você se rendeu a magia.

Lágrimas brotavam do canto de meus olhos.

—Você se tornara Rainha, ganhara um povo e o governara com maestria junto de seus irmãos._Aslam pausou encarando-me com seriedade_Nárnia ensinou-lhe tudo o que você necessitava para amadurecer, deixando-a seguir o seu caminho quando chegasse o momento certo.

Assenti brevemente.

—O compromisso de vocês era seguir cada qual um novo caminho após os aprendizados adquiridos em Nárnia. Seus irmãos fizeram juz a promessa. Pedro tornou-se um homem de honra e respeito, assim como Edmundo. Você e Lúcia tinham o dever de seguir os passos de seus irmãos, mas você não o fizera.

Aslam olhou-me com olhos tristes.

—Achei que no dia em que a batalha se aproximasse você e seus irmãos retornariam como os grandes líderes que Nárnia já teve. Porém, você deixou que as dúvidas a dominassem, rebaixando Nárnia a um mero conto de fadas.

—Aslam, você não sabe o que eu passei._defendi-me, apesar de saber que nada justificava de fato meus atos.

—Sei de tudo que passou Suzana, por isso que hoje tomei minha decisão.

Encarei Aslam, em meu peito uma centelha de esperança brilhava fracamente.

—E qual será sua decisão, Aslam?

O Grande Leão virou-se e fitou a porta brevemente voltando-se logo após para me olhar.

—Terá uma segunda chance.

Aquela frase, tão pequena e inquietante, tão genuína e coberta de significância fizera que meu coração, tão adormecido no peito, voltasse a bater ritmado.

—Obrigada, Aslam._de meus olhos vertiam pesadas e grossas lágrimas, mas não eram lágrimas de tristeza, era a mais verdadeira das felicidades. Uma que fazia o sorriso se ampliar e os olhos transbordarem em constante excitação.

—Não Suzana, acredito que você não entendera bem. Permita-me explicar.

O temor foi, de forma sutil, invadindo meu corpo, gelando meu sangue e desacelerando meu coração.

Em instantes eu já estava estagnada feito estátua.

O receio das palavras de Aslam gelando minhas mãos e balançando minhas pernas.

—Todos os que entraram em meu país entraram por merecer.

—Sim, eu sei...

—Então, normalmente sabe que para entrar neste terá de merecer, provar ser devota de Nárnia, provar ser uma verdadeira merecedora.

As palavras de Aslam eram enigmáticas, me confudiam e me deixavam em estado de alerta.

Mas eu sabia, bem no fundo, que qual fosse o preço a pagar para reencontrar meus irmãos e provar meu valor eu pagaria sem hesitar.

—Eu não me importo qual preço eu terei de pagar, não ligo, faço qualquer coisa, Aslam.

Aslam assentiu pensativo.

—Do princípio, minha querida, essa é sua forma de provar ser merecedora._declarou o Grande Leão.

Meu cérebro funcionava em constante rapidez na tentativa de encaixar o quebra cabeça das palavras de Aslam.

—Como assim do princípio?_vi-me obrigada a perguntar.

—Você possui duas escolhas, Suzana e nenhuma delas ousa ser fácil._avisou Aslam_A primeira é deixar as coisas como estão e esquecer Nárnia e todos aqueles que um dia conhecera. O esquecimento se tornara um meio de aplacar a dor e saciar a alma, você será feliz no seu mundo se optar por esquecer-se.

—Não posso._minha voz não passava de um sussurro, mas ainda assim distinto demais para ser ouvido_De maneira nenhuma, Aslam. Lhe peço desculpas, mas aceitar está condição é apoiar aquilo ao qual me transformei e isso eu não deixarei ocorrer novamente.

Aslam, para meu espanto, sorriu satisfeito.

—Então só lhe resta a outra opção, creio que está será difícil escolher Suzana.

Assenti.

Eu tinha nítida consciência de que nada dali para frente seria fácil, mas se era para ficar junto de meus irmãos novamente eu não ousaria recuar a nada o que me fosse imposto.

—Suzana, para que você tenha uma segunda chance de entrar em meu país e viver eternamente em perfeita paz e harmonia com seus queridos amigos, irmãos e parentes, você terá que desistir de si mesma.

—Como disse?

—Você não será mais uma Pevensie, você não terá conhecido seu mundo e sim Nárnia, seus pais não serão os Pevensie, e você jamais terá conhecido Lúcia, Pedro e Edmundo.

Uma máquina.

Minha mente parecia uma constante máquina que a qualquer segundo pifaria.

—Suzana, você não terá lembrança alguma, pois, se aceitar minha oferta, terá voltado no tempo e não terá laço nenhum com os Pevensie, nem com seu mundo de origem. Você nascera numa família telmarina, será criada pela mesma e cabera a você, quando chegar a hora, decidir entre defender Nárnia ou voltar-se contra ela e lutar com seu povo telmarino. A decisão é sua minha querida.

O silêncio se fez presente por meros segundos, enquanto eu tentava voltar a realidade de segundos atrás.

—Mas se por acaso eu lutar contra Nárnia? Digo...nada terá adiantado voltar no tempo.

—Você terá que arriscar minha querida, se decidir que sim eu apenas posso desejar que sua essência narniana fale mais alto quando a hora chegar.

Eu podia sentir o olhar de Aslam sobre mim, mas demorei cerca de um minuto inteiro para encará-lo.

—Aslam, você sabe como me sinto. Sabe a culpa que carrego em minhas costas. Nárnia talvez existisse se eu não tivesse ficado no oculto, eu era uma das mais velhas, porém me sentia como se tivesse a idade de Lúcia, sentia-me indefesa. Até a própria Lúcia era muito mais corajosa do que eu. Quando sentia que deveria tomar coragem e mostrar que talvez eu fosse útil via-me querendo que Nárnia nunca ouvesse existido._desabafei com os ombros caídos.
"_Não sei como nem porquê, mas quando Caspian juntou-se à nós senti-me mais protegida, talvez fosse pelo fato de que via nele a liderança que nunca tomei, via nele a força que deveria ter e não possuía, via nele tudo que queria ser e não tinha coragem de fazê-lo.
Eu não sei porquê, mas na última batalha em que travei em Nárnia senti-me mais forte, mais corajosa e destemida Eu sentia que poderia mover e lutar contra qualquer um, pois se acaso fracassasse haveria alguém por quem valera a pena lutar. Acho que o amor que senti por Caspian me levou a tal sentimento, e a união que nasceu entre mim e meus irmãos só fortalecera mais isso. Se agora eu admitisse esquecer tudo e continuar minha vida sem dor e sem mágoa eu estaria aceitando esquecê-los. Não só Nárnia e seu povo, mas a minha família. Se hoje consegui chegar até aqui foi por meio das lembranças, Aslam, não deixarei que me transforme totalmente no que eu era de novo.
Então eu digo sim, eu posso errar quando houver a luta, porém será um erro ao qual eu não terei controle, mas, neste momento, tenho exatamente ideia do que estou prestes a escolher, não posso permitir-me errar sabendo o certo.

Aslam olhou-me animado: a decisão estava tomada.

—Eu aceito sua oferta Aslam, espero não decepcioná-lo.

—Desejo o mesmo, Suzana.

Me aproximei de Aslam e senti-lhe soprar meu rosto.

Olhei uma última vez para a porta esperando que tudo desse certo.

Aos poucos fui deixando-me levar pela escuridão, na certeza de abrir meus olhos para o um mundo novo.

Para o desconhecido.

P.O.V Autora

Suzana, com seus nove anos de idade, tinha a personalidade forte do pai e a impaciência da mãe.

Tanto o pai quanto a esposa, tinham pela filha um carisma enorme.

Mas Suzana não possuía apenas as características de seus pais biológicos. Ela era uma filha de Adão e como tal seu coração a fazia questionar, criticar e especular o desconhecido.

Tudo quanto era espada Suzana queria manusear, mas nada se igualava ao seu amor pelo tiro ao alvo.

O pai, que sempre sonhara com um filho homem, não se opunha em deixar a menina, vez ou outra, brincar no quintal da velha casa da família, alegando a esposa que ela tinha de aprender a se defender.

Os pais de Suzana teriam dado carinho e apoio incondicional a filha por todo o caminho da mesma se Suzana tivesse trilhado o destino ao qual estava planejada.

Mas o sangue de Adão falou mais alto e Suzana sucumbiu a curiosidade.

Certa noite, quando já devia estar dormindo, a menina andou descalça sobre o velho assoalhado de madeira, tomando cuidado para não ser pega por olhos atentos.

Na cozinha o pai se encontrava sentado a mesa saciando a fome com a tão conhecida sopa de repolho que Emanoela, mãe de Suzana, preparara. A mãe estava ao lado do pai, os olhos aflitos enquanto ouvia o que ele falava atentamente.

Suzana se espichou o mais que conseguiu para ouvir o que eles diziam.

—Têm certeza? Não seria uma espécie de cavalo diferente a qual não conhecemos?_perguntava a mãe.

—Aquilo não era apenas um cavalo, Emanoela. Eu vi e posso lhe garantir isso.

Houve um minuto de silêncio até que a mãe voltasse a falar.

—O que acham que era?

Suzana pode distinguir o medo na voz da mãe.

O pai suspirou pesadamente, enquanto engolia uma última colherada de sopa.

—Um centauro. Uma espécie de cavalo homem. Uma criatura amedrontadora. Surgiram boatos que era um sobrevivente do velho povo narniano.

Narniano.

Suzana sentiu a curiosidade aguçar como nunca com as novas informações que o pai contara a mãe. Ela não fazia ideia do que seria um centauro, muito menos o que era um narniano, mas não lhe restava dúvidas que gostaria de saber do que se tratava.

—Acha que poderia ser um?

—Não seja inocente, mulher! Narnianos não existem!_o pai parecia furioso, mas limitou-se a esbarrar a tigela de barro sobre a mesa e rumar para o quintal, afim de guardar suas espadas e machados.

Emanoela não se levantou de imediato. Ficou mais algum tempo sentada encarando o vazio, nem percebera quando Suzana, trajada numa camisola muito grande para o seu tamanho diminuto, saiu de seu esconderijo e caminhou até a mãe.

A garota afagou a face da mulher que se sobressaltou com o toque.

—O que faz aqui, menina?_a repreenda pegou Suzana desprevinida. Ela, no intuito de consolar a mãe, acabou esquecendo que estava escondida ouvindo atrás das portas, um ato que a mãe repudiava.

Naquela noite Suzana foi dormir chorando.

Emanoela não era a pior mãe que existia, mas não era, nem de longe, uma das mais compreensivas.

A mulher achava que uma boa educação deveria vir desde pequeno e estimava a violência para que isso fosse concretizado.

Na manhã seguinte, mesmo dolorida pela surra que levara, Suzana saiu logo de manhã para colher algumas frutas dos pomares. Essa era a tarefa delegada pela mãe à menina e Suzana não era louca de contraria-la.

Mas naquela manhã Suzana tomou um curso diferente dos que fazia cotidianamente.

A garota rumou mais para o centro da cidade, mesmo sabendo que havia uma considerável chance de ser pega pelos olhares atentos do pai, uma vez que o mesmo trabalhava no castelo do Rei.

Suzana quase nunca visitava a prima Victória, mas tinha consciência da condição mais abastada dos seus tios o que, sucessivamente, lhes concedia uma significativa coleção de livros os quais Suzana nunca ousara mexer.

Quando Suzana batera na porta de carvalho da caso dos tios foi recebida de bom grado pela prima Victória. Suzana era apenas alguns meses mais velha que Victória e, diferente da prima, não possuía irmãos.

Por sorte, naquela manhã, apenas Victória e o irmão mais velho, Max, estavam em casa.

Max era um bom rapaz, três anos mais velho que Suzana, mas, ainda assim, a tratava como igual, como se suas faixas etárias não fossem um abismo gigantesco que lhe colocava em patamares diferentes.

—O que faz aqui, Sú? Veio falar com mamãe?_perguntou Victória, seus olhos, igualmente idênticos ao de Suzana, observando de forma entusiasmada a prima.

Suzana não duvidava do caráter de Max, pelo contrário, eles sempre foram muito confidentes. Mas, ainda assim, não ousou falar sobre o real motivo que a trouxera ali.

—Apenas estava colhendo maçãs e resolvi dar um passada._mentiu.

Victória sorriu abertamente, era inocente demais para captar o tom de mentira de Suzana. Mas, por outro lado, Max era perspicaz e astuto, percebera a aflição da prima e a cesta fazia em suas mãos.

—Podíamos fazer algo juntas. Faz tanto tempo que não brincamos!_a animação de Victória teria tido o mesmo efeito em Suzana, se a garota não estivesse tão afobada para colocar as mãos nos livros do tio.

—Acho que teremos que deixar para uma próxima vez. Tenho que voltar, caso contrário mamãe irá se zangar.

Suzana já estava prestes a fechar a porta e ir embora quando Max anunciou que acompanharia a mesma até em casa.

Mesmo resistindo, Suzana não conseguira deter a insistência de Max que, assim como prometido, trilhou o mesmo caminho que Suzana fizera com a mesma em seu encalço.

Quando já estavam bem longe, o suficiente para não serem ouvidos por ninguém num raio de cinquenta metros, Max começou a conversar com a prima.

—Foi uma surpresa bastante agradável a sua, mas não consigo entender o porquê da mesma._Max olhou de forma risonha para Suzana, seu cabelo negro caindo sob um dos olhos.

—Do que está falando?_a menina começou a andar mais rápido, deixando o primo alguns passos para trás.

—Quero saber o porquê de você ter mentido para Vic e para mim. Achei que podíamos confiar um no outro!

Suzana estagnou no lugar, de costas para o primo.

Quando se virou para ele, Max estava sério.

—Por quê não me conta o real motivo de toda essa caminhada longa e cansativa até nossa casa?_perguntou se aproximando e ficando frente a frente com Suzana.

Suzana odiava quando Max estava certo, porque, embora o adorasse, ainda assim não queria ter de depender do primo para resolver questões das quais ela sabia que tinha de propriamente resolver.

—Não posso lhe contar._avisou voltando a caminhar, os olhos fixos na trilha que serpenteava até sua casa.

—Acha que sou fofoqueiro?

—Não! Apenas preciso resolver isso sozinha!_brandiu Suzana.

—Então por que foi até minha casa? Se quisesse resolver o assunto de forma autônoma não vejo o porquê de ter tido o trabalho de caminhar até lá.

Suzana bufou.

Max era bastante esperto para ligar os pontos. Era realmente muito mais fácil lidar com Victória.

—Eu não preciso da sua ajuda!_teimou ela, sabendo, bem no íntimo de seu ser, que Max era a pessoa certa para ajudá-la.

—Se estava planejando ganhar ajuda de Vic eu vou logo adiantando que você se daria muito mal. Ela é inocente demais!

Suzana olhou de soslaio para o primo e, juntos, dividiram um sorriso de concordância.

Eles já estavam perto da velha casa dos pais de Suzana e Max ainda não havia conseguido fazer a cabeça da prima.

—Suzana_Max parou de frente para a prima bloqueando seu caminho_Eu não estou falando que sou a pessoa mais confiável do mundo e, certamente, não posso provar isso. Mas me alegria lhe ajudar caso esteja ao meu alcance, claro.

Suzana pesou as palavras de Max por alguns instantes.

Ela podia ignorá-lo e seguir para casa e esquecer de narnianos e centauros.

Ou ela poderia tentar descobrir por sua própria conta, o que provavelmente seria um fracasso.

Por outro lado havia Vic, mas ela sabia o quanto a prima era obcecada por andar nas rédeas de seus pais dominadores.

Por último, fazendo-se a sua única chance de descobrir o que tanto lhe afligia, existia Max que poderia lhe ajudar ou lhe dedurar.

Suzana não era boa com decisões, sempre ousou esquecer a razão e brincar com as consequências do coração e, daquela vez, não fora diferente.

A menina confidenciou a Max a conversa que escutara.

Para sua surpresa, o primo já ouvira falar em narnianos, ressaltando que acreditava que fora um povo muito antigo que morara em Nárnia.

Suzana ouvira tudo atentamente e não pode esconder o desapontamento quando Max lhe garantiu que era tudo o que sabia sobre eles.

Ambos concordaram que eram curiosos demais para deixarem um assunto desses morrer em suas imaginações.

Max jurou fazer uma breve pesquisa no escritório do pai quando o mesmo não estivesse por perto. Qualquer notícia que tivesse ele correria até Suzana para lhe contar.

Ficou decretado que Victória não deveria ficar sabendo, nenhum dos dois gostaria de pôr a mesma em maus lençóis caso se metessem em confusão.

Antes de Suzana seguir para casa Max pediu que ela esperasse um segundo e sumiu entre algumas árvores.

Quando voltou seus braços estavam entulhados de maçãs suculentas.

—Pra quê isso?_perguntou Suzana rindo.

Max despejou tudo no cesto que Suzana trazia consigo.

—Para sua mãe não questionar o porquê do cesto vazio._disse dando de ombros.

A menina sorriu para o primo e voltou a seguir seu caminho, enquanto o mesmo retornava para casa, dessa vez com um missão de importância tamanha que nem ele tinha consciência dela.

***

Três anos haviam se passado desde o dia em que Max e Suzana descobriram, enquanto pesquisavam sutilmente o escritório do pai do mesmo, Victor, livros sobre algo a ver com narnianos e centauros.

Não fora surpresa os livros estarem tão bem escondidos numa sessão totalmente ocultada por dezenas de outros livros sem importância.

No total haviam cinco livros que relatavam Nárnia e as criaturas que nela viviam.

Suzana e Max descobriram, juntos, a fantástica história coberta de aventuras dos três irmãos, filhos e filha de Adão, que se tornaram Reis e Rainha de Nárnia. Também se embrenharam na grandiosidade de Aslam, o Grande Leão, que comandava tudo e todos com sabedoria.

Tudo, exatamente cada detalhe, prendera ambos desde o início da leitura até o fim da mesma.

Agora, ambos já um pouco mais velhos, cultivavam a crença que Aslam era real, que existia de verdade e guiava, mesmo que a distância, aqueles que nele confiavam.

Max, já com quinze anos de idade, estava sendo recrutado pelo exército do rei para se habilitar como soldado. O pai, Victor, estava orgulhoso do filho, mas o menino não parecia tão contente com a ideia de se tornar um soldado do palácio.

—Eles vão lhe ensinar a lutar. Isso vai ser fantástico!_dizia Suzana tentando animar o primo, enquanto ambos repousavam embaixo de um velho carvalho a alguns quilômetros de distância da casa da menina.

Max encarava fixamente um ponto à sua frente, mas estava claro que seus pensamentos sobrevoavam outros mundos.

—Eu já sei lutar, Suzana. Não preciso que outros soldados me ensinem._reclamou.

—Você não deveria ficar chateado. Pelo menos você tem opções._disse Suzana o encarando com firmeza, os olhos azuis envoltos em tristeza.

—Do que está falando?

Suzana levantou-se e andou alguns passos, ficando a poucos metros de um penhasco que acabava dentro de uma enorme cachoeira.

Suzana sentou-se em um pedregulho já deformado pelo tempo e, de costas para o primo, desabafou suas preocupações.

—Ouvi meus pais conversarem sobre arranjar-me casamento.

Sentado no chão Max arregalou os dois grandes olhos escuros.

—Mas você só tem doze anos!

Suzana não olhou, mas sabia que o primo já estava de pé, provavelmente as mãos fechadas em punhos, enquanto a raiva se abatia sobre ele.

—E isso importa? Eles só querem garantir que eu esteja arranjada para que, daqui uns três ou quatro anos, eles possam agir como se tivessem feito sua parte em minha criação.

Max engoliu em seco.

Ele conhecia os tios e sabia que, embora não fossem de todo o mal, ainda assim eram bastante rígidos quanto a filha.

Victória, por outro lado, levava vantagem sobre isso, uma vez que a mãe de Max jamais aceitaria de prontidão a ideia da filha se casar com qualquer um.

—Não se preocupe, Sú._disse o menino andando até a prima e repousando suas mãos nos ombros da mesma._Vamos garantir que eles não façam nada disso._assegurou.

Suzana queria acreditar em Max, na verdade, ela daria tudo para acreditar nas palavras do primo. Mas Suzana era racional o suficiente para saber que se um pretendente chegasse em sua porta, sendo velho ou novo, seus pais não hesitariam em entregar a garota para quem quer que fosse.

Suzana levou uma das mãos até a de Max e repousou a mesma sobre a do primo.

—Você não vai me abandonar, não é? Mesmo no castelo você vai continuar ao meu lado, certo?

Suzana olhava para a água colidindo com as pedras abaixo do penhasco, não viu quando Max olhou-a com firmeza, seus olhos comprometendo-se com sua escolha.

—Continuarei do seu lado. Mesmo que nos afastemos eu sempre vou estar com você. E quando chegar a hora, o destino nos unirá_concluiu com veracidade.

Suzana, mesmo sufocada em sua própria tristeza, levantou-se e abraçou o primo, enterrando seu rosto no ombro do mesmo.

—Obrigada, Max.

Max, mesmo confuso, sentiu o aperto no peito e o identificou como algo bom, apesar da dor sufocante.

Naquele dia Suzana retornou para a casa normalmente, apenas com o peso de um casamento arranjado lhe recaindo sobre os ombros.

Max, por outro lado, voltou para a casa perdido em pensamentos. Seu futuro como soldado o amedrontava, a ideia de alguém descobrir sua fé sobre o Grande Leão era algo que lhe dava arrepios, mas, ainda assim, não era tão apavorante quanto a ideia de se afastar da prima.

A pouca idade fez Max se contradizer por dias, semanas, meses e anos, depois daquele noite.

Ele tornou-se um soldado e não conseguira mais se aproximar de Suzana.

Aos poucos a menina foi se esquecendo do primo.

Com Max longe a fé de Suzana se depositara total e unicamente em Aslam, sua força era ele e seu caminho seguia os designos do Grande Leão.

Max, mesmo em campo telmarino, sobre as ordens de um Rei tirano, nunca se esquecera de Aslam, sempre o carregou consigo como a verdade e a luz em meio a um caminho de trevas.

O garoto, embora conhecesse cada vez mais pessoas e se tornasse um soldado melhor a cada dia, jamais deixou sua mente saltar para outra garota que não fosse Suzana.

Ambos nunca voltaram a se ver.

Mas isso mudaria aos dezoito anos de Max, quando o pai, um homem que não escondia a felicidade pelas conquistas do filho já homem, garantiu que faria uma grande festa para comemorar o aniversário do rapaz.

Certa manhã, enquanto esfregava algumas peças de roupas em uma tina de água, a mãe de Suzana veio do interior da casa gritando de felicidade.

Emanoela não era de demonstrar muito entusiasmo por qualquer coisa que fosse, mas, naquela manhã, a carta que recebera a deixara em êxtase.

—Sabe o que é isso?_perguntou a uma Suzana totalmente curiosa.

—Um convite?_arriscou a menina enxugando as mãos no avental de seu vestido.

—Exatamente!

Suzana estranhou o comportamento exagerado de Emanoela.

—Deve ser algo importante para você estar tão alegre.

Emanoela caminhou até a filha e lhe estendeu a carta em papel de festa, timbrada com um selo simples, mas sofisticado o suficiente para eles.

Abrindo a carta com cuidado Suzana leu o conteúdo da mesma rapidamente.

Um sorriso se abriu em seu rosto ao fim da carta.

—O aniversário de Max!_mal pode controlar a adrenalina que correu sobre o seu corpo.

Fazia anos que os dois não se encontravam e Suzana se sentiu, ao mesmo tempo, feliz e preocupada, afinal, ela não sabia dizer se o Max de três anos atrás ainda seria o mesmo Max que conheceu, junto à ela, as histórias de Nárnia e do grande Aslam.

—Essa festa será muito oportuna!_comemorou a mãe pegando o convite da mão de Suzana.

—Oportuna?

—Sim! É a ocasião perfeita para inserir você num meio mais influente, afinal seu tio tem ótimos contatos!_Emanoela estava no auge de sua felicidade e Suzana logo entendera o porquê.

—Mãe eu não quero me casar!_esclareceu a menina, o desespero tomando-lhe a voz.

Emanoela estagnou no lugar onde estava.

Seu sorriso foi sumindo aos poucos, enquanto as palavras de Suzana ecoavam em seus ouvidos.

—Escute aqui, mocinha._Suzana recuou alguns passos quando a mãe, movida por uma raiva repentina, se aproximou perto o suficiente para se fazer ser enfatizada._Não vou permitir que você estrague o seu futuro. O que acha que há de melhor do que um marido bem sucedido que lhe satisfaça como mulher?_os olhos da mãe eram verdadeiras fendas, enquanto seu andar se assemelhava a uma cobra partindo para dar-lhe o bote.

—Eu posso me cuidar e, além do mais...

—Não diga mais nenhuma palavra!_gritou a mãe, as mãos ameaçadoras perto do rosto da filha._Você fará o que eu e seu pai acharmos certo e não dirá mais nenhuma palavra quanto a isso. Está entendendo?

Suzana, naquele momento, queria ter tido força para dizer que não. Ter tido coragem o suficiente para revidar e tomar as rédeas de sua própria vida, mas, naquele momento, sobre o olhar violento da mãe, só conseguira assentir e voltar a se concentrar na tina de roupas sujas.

...

—Que imensa felicidade um pai pode ter ao ver seu primogênito um homem de caráter!_exclamou Victor ao se aproximar do filho, que havia acabado de chegar, e envolvê-lo em um abraço.

—Obrigada, meu pai._agradeceu Max se afastando do pai e o olhando de cima, uma vez que o menino estava vários centímetros mais alto que o velho homem.

Victor assentiu e logo puxou Max para perto dos convidados, oferecendo-lhe vinho e lhe dando pequenos tapinhas de congratulações em suas costas.

Max não teve tempo para focalizar a decoração da casa ou mesmo os rostos dos convidados. Tudo estava sendo muito automático e o garoto quase teve vontade de gritar para que todos se calassem e o deixassem se posicionar em meio a confusão de vozes e rostos.

—Max está pronto para o combate, Victor. Eu falei que ele daria um grande homem!_falou Richard, um dos amigos mais antigos da família.

Max sorria educado em meio à todas as afirmações e parabenizações, sem nem ao menos ouvi-las direito.

O menino conseguiu fugir por alguns segundos da roda de homens que o circundavam e deu de cara com Victória, trajada com um vestido rosa claro, e quase teve um treco achando que se tratava da prima, Suzana.

—Céus, Victória! Como você está parecida com a Suzana!_exclamou passando a mão no rosto, tentando se livrar do incômodo que era olhar para a irmã e visualizar o retrato da prima mais nova.

Victória riu com vontade.

—Está na cara que você não vê Suzana há anos, querido irmãozinho.

—O que quer dizer com isso?_perguntou Max preocupado.

—Meus olhos e cabelos podem ser idênticos ao de Suzana, mas, ainda assim, me dói admitir que nossa prima têm uma porcentagem de beleza única que a faz sobressair à mim.

—O que isso significa?_perguntou Max coçando a nuca.

—Espere e você verá ao que me refiro._e falando isso Victória lhe deu às costas indo ao encontro de Leo, um rapaz na casa dos dezessete anos que tinha fama de mulherengo e patife.

Max trincou os dentes ao perceber a sensualidade que a irmã, com apenas quinze anos, fazia questão de exibir à todos os homens presentes.

O rapaz pensou em ir ao encontro de Victória e puxá-la consigo, quem sabe fazê-la passar vergonha, mas sabia que isso apenas atrairia olhares e acabaria deixando o pai nervoso.

Tentando acalmar os nervos, Max voltou para junto da roda de amigos do pai e se viu introduzido em milhões de conversas sem importância. Debates sobre política, estratégia e guerras foram postos na roda, fazendo com que Max tivesse de se esforçar ao máximo para não rolar os olhos e gritar em frustração.

—Eu prevejo que Max será um sucesso na linha de frente do Rei Miraz!_salientou Hebbie.

—Não importa! O rapaz têm um futuro brilhante em qualquer que for sua especialidade!_insinuou Ross.

—Meu filho nasceu para guerrear e é isso que fará!_declarou Victor feliz, sem se quer notar o olhar de soslaio que Max lançou.

—De qualquer modo, você está pronto para tudo Max, até mesmo para o casamento._observou Richard com um sorriso ocultado por um gigantesco bigode.

Max tomou um gole de vinho e nada disse.

—Já têm em vista alguma dama, Max?_perguntou Hebbie, sua barriga saliente sacudindo enquanto ria de forma aberta.

Victor não esperou para que o filho respondesse:

—Eu e minha esposa temos alguns palpites de damas exemplares para Max, basta ele concordar com nossos gostos._brincou Victor.

Max percebeu que aquela era uma boa hora para pedir licença e ir buscar outra taça de vinho, mas não pode fazê-lo, pois, no mesmo segundo, seu tio Liam se aproximava com os braços esticados.

—Meus parabéns, Max._falou lhe apertando os ombros.

Max agradeceu de qualquer modo, sem nem sequer dar muita atenção ao tio, pois, naquele segundo, sabia que ela estava lá também.

O garoto não havia visto Suzana, mas Liam estava lá! O que significava que a prima estaria em algum espaço de dentro daquele cômodo.

—Se junte à nós, meu amigo Liam!_saudou Richard trocando um aperto de mão com o homem mais velho.

Max tentava se concentrar nas conversas dos cinco homens à sua volta, mas tudo que conseguia fazer era se dispersar e procurar, com olhos ansiosos, o rosto de Suzana em meio à multidão.

—Ter filhos é uma benção. Ainda mais se forem homens!_declarou Ross com orgulho, inflado por seu filho Louis que estava em algum lugar da pequena festa.

—Sim, eu sei como você se sente, Ross. Eu amo muito Victória, minha garotinha afinal, mas não posso dizer que me orgulho mais dela do que meu filho homem aqui!_confessou Victor batendo nas costas de Max, o qual se sentiu ligeiramente envergonhado pela exaltação.

—Eu não posso dizer o mesmo, infelizmente. Penelope está crescida e, logo, encontrará um pretendente. Mas não é com amabilidade que digo que preferia que ela tivesse nascido homem. Penelope terá o marido, afinal, e não poderá assumir meus negócios. Gostaria que tudo tivesse sido diferente._disse Hebbie com um suspiro pesado, as mãos se escondendo dentro dos bolsos da calça.

—Eu lhe entendo, Hebbie. Suzana está crescida também. Terá que se virar com um marido. E um filho homem seria a solução dos meus problemas._se queixou Liam, o semblante enrugado.

Max abriu a boca para revidar o que Liam e Hebbie falavam, mas foi detido pela música que a orquestra começara a tocar.

—Odeio essas malditas danças!_queixou-se Richard. Seu bigode levantado por culpa da careta que fazia.

Hebbie gargalhou.

—Meu amigo, não deve se sentir encorajado em participar da dança. Acredite: tal formalidade serve apenas para uma coisa: arranjar casamento! Veja você mesmo: todos os jovens e moças estão se aproximando do meio do salão. E...

—Como já somos velhos e casados isso nos coloca confortavelmente apenas como meros expectadores._terminou Ross recebendo um sorriso de Hebbie.

—Mas há um problema na fala de vocês, meus caros._salientou Richard olhando de forma zombeteira para Max, o qual estava inexpressivo.

—E seria?_perguntou Liam, os braços cruzados em frente ao peito.

—Nosso jovem Max está a caça de uma esposa, o que não o coloca como um expectador._respondeu Richard com um sorriso tranquilo, a taça de vinho brincando em uma das mãos.

Max sentiu todos os olhos se voltando para ele.

—Ele está certo, meu filho. Hora oportuna de ir a caça de uma esposa, não acha?_perguntou Victor com um sorriso caloroso, depositando muitas fichas em Max.

O garoto assentiu, com a mesma máscara inexpressiva que usara toda à noite.

—Boa sorte, garoto!_emendou Richard com um sorriso fraco ao rapaz.

Max sabia que, apesar de estar tentando fugir do grupo desde o começo da noite, ainda assim não esperava ter de fugir de homens de meia idade para se enroscar com algumas damas em êxtase.

Mas Max tinha perfeita consciência de quando uma batalha havia sido perdida e, naquele instante, Richard era o vencedor.

—Com a licença dos senhores._se despediu Max voltando-se para a multidão de rostos jovens que pareciam apreensivos em busca de um parceiro de dança.

O rapaz, conforme caminhava ao redor do salão, procurava uma dama qualquer para satisfazer os olhos curiosos dos amigos e do pai que o seguiam desde que deixara o círculo de debate. Em algum ponto mais a frente, Max reconheceu a filha de Richard, Rosie, e pareceu-lhe bastante adequado tirá-la para dançar, embora ele soubesse o quanto isso poderia afetar os sentimentos da menina que, desde os últimos cinco minutos, não parava de lançar olhares apreensivos para Max.

Rosie era jovem, deveria ter quinze ou dezesseis anos, no máximo. Seus cabelos eram loiros e brilhavam em contraste com seus olhos verdes. Era uma bela moça, Max tinha de concordar, mas isso não significava que fosse a moça ideal para Max.

—Senhorita, Green, me daria o prazer dessa dança?_falou esticando a mão da garota e beijando-lhe as costas da mesma.

Rosie parecia alarmada, surpresa, amedrontada e em um estado de felicidade genuíno.

—Sr. Withllay, nada me seria mais agradável._falou melodiosamente.

Max espiou por cima das cabeças que enchiam o salão e vislumbrou a roda de amigos de Victor e, por um breve segundo, viu um sorriso no rosto do pai e de Richard que, rapidamente, disfarçaram e voltaram a debater assuntos corriqueiros.

Rosie era tão pequena e frágil que Max teve certeza que se a girasse um pouco mais forte provavelmente a quebraria.

—Fico feliz que tenha aceitado meu pedido para dançar._falou Max, os olhos acompanhando as emoções no rosto de Rosie.

—Eu não poderia negá-lo jamais! Tenho muita estima pelo senhor._falou com doçura, suas faces alvas adquirindo um rubor febril.

Max achou o gesto encantador, mas continuo com sua face inexpressiva. Ele odiava se expor aos outros. Odiava saber que os outros sabiam o que ele estava pensando. Sua única forma de se trancar e se fazer oculto era agindo de forma automática, tão indiferente quanto podia.

Depois de alguns segundos em total silêncio, Rosie perguntou:

—Está gostando da festa, Sr. Withllay?

—Muito, de fato._respondeu Max, utilizando de monossílabas para entreter sua acompanhante.

Rosie pareceu em êxtase para lhe fazer tantas perguntas quanto sua mente conseguisse formular, mas não teve tempo.

A garota percebeu quando o tão centrado e controlado Max pareceu enrijecer por questão de milésimos de segundos. O rapaz parecia absorto em pensamentos. Uma surpresa estranha transpassava-lhe a face, mas logo ele se recompôs e apenas seus olhos pareciam observar o que quer que lhe havia chamado atenção.

Rosie fez mais tentativas de puxar assunto com Max, mas em todas ele respondia com um "sim" ou um "não", sem de fator parecer entender os questionamentos.

Quando a música, enfim, terminou, Max agradeceu a dança e se afastou de Rosie de forma sutil, deixando-a curiosa e desapontada.

O rapaz, depois de muito procurar, encontrou novamente o rosto que lhe fizera estagnar por segundos. Lá estava Suzana, trajada com um vestido azul simples, nada tão elegante quanto o de Rosie ou tão vulgar quanto o de Victória, mas ideal para realçar a beleza da jovem.

Suzana estava dançando com Louis, filho de Ross, um rapaz cujo o currículo era excepcional! Um pretendente e tanto para a prima. Mas Max, embora não visse Suzana há exatos três anos, ainda assim pode ver o quão desinteressada ela estava em Louis e em seu porte alto e másculo.

Como se influenciada, Suzana desviou os olhos do rosto de Louis, o qual a olhava com profunda admiração, e esbarrou nos olhos negros do primo.

Suzana não era igual à Max e não foi nada surpreendente quando ela, alegre por rever o primo, sorriu de forma calorosa para o mesmo.

Max, embora sempre escondesse suas emoções muito bem, naquele momento não conseguiu não sorrir para a prima. Foi algo automático e real. Algo verdadeiro e definido.

Louis, vendo Suzana desviar a atenção de sua pessoa para a de Max, ficou bastante incrédulo.

—Conhece aquele rapaz?_perguntou sério, a voz grossa alarmando Suzana.

—Oh, desculpe-me, Louis!_falou Suzana com um sorriso afetado_Aquele é Max, meu primo que eu não vejo há anos. Perdoe-me.

Louis pareceu relaxar.

Um primo não era obstáculo, mesmo que a agitação crescente de Suzana fosse um empecilho enorme para a aproximação do rapaz.

Suzana esperou decentemente a música terminar.

Nos curtos períodos que Louis desviava o olhar a menina seguia os seus para onde Max estava, imóvel. Os olhos compenetrados em seguir a figura da prima.

Max respirou aliviado quando, enfim, a música terminou e Suzana se afastou de Louis com um sorriso, enquanto seguia na direção de Max.

O rapaz não era de demonstrar emoções, mas não pode evitar andar em direção à prima também.

Olhos curiosos seguiam as duas figuras que ostentavam um sorriso genuíno na face e, quando enfim se encontraram, Max e Suzana se encaixaram num perfeito abraço, digno de testemunhas.

Max estava tão alto e forte que Suzana teve de ficar na ponta dos pés para alcançar seus ombros. A menina sorria de olhos fechados, enquanto inalava o cheiro cítrico dos cabelos negros de Max.

Já Max parecia não se caber em si.

Ele sabia que, ao certo, haviam milhões de olhos grudados em suas costas, principalmente o do pai e de Liam, mas não conseguia soltar Suzana de seus braços. Era quase doloroso imaginar a menina se afastar.

Mas Max, mesmo inebriado pelo aroma de lírios da prima, ainda assim se viu no dever de quebrar o abraço e voltar a postura ereta de antes.

O rapaz largou Suzana e teve de se esforçar para soltar suas mãos da cintura da mesma.

—Suzana, é tão bom vê-la._falou com veracidade.

Suzana sorriu e seus olhos pareciam alcançar a alma de Max e, naquele instante, o rapaz entendeu a beleza natural à qual Victoria se referira.

—Não posso medir em palavras a felicidade em revê-lo, Max._falou Suzana com os olhos marejados.

Algo dentro de Max se apertou e ele tentou reprimir o sentimento de forma insistente.

Ela era sua prima.

Cresceram juntos.

Desvendaram Nárnia juntos.

Era ridículo pensar em Suzana a não ser como um fruto proibido, afinal.

Mas Suzana também era mulher.

A mulher que incomodava os sonhos de Max e o fazia rever todos os sentimentos que lhe afloravam a pele.

Como três anos não foram capazes de apagar a centelha que crescia toda vez que Max olhava nos olhos de Suzana?

—Vejo que seu acompanhante não ficou muito satisfeito em tê-la tido roubada._anunciou Max estreitando os olhos para Louis, que parecia decidido a ir ao encontro dos dois e arrastar Suzana para mais uma dança.

Suzana deu de ombros.

—Se ele soubesse o quanto me entedia não ousaria a voltar falar comigo._falou com um sorriso, fazendo com que Max sorrisse junto.

—Você está...linda._declarou o rapaz de forma metódica, tentando ocultar as emoções que transpassavam-lhe o corpo.

Suzana pareceu se inflar de felicidade ao elogio do primo.

—Obrigada..., mas saiba que ainda sou a mesma. Se quisesse lhe quebrar o braço eu faria com a mesma eficiência._declarou com as mãos na cintura, uma postura de rebeldia que deixava Max ainda mais atraído.

—Continua me ameaçando? Mesmo depois de três anos?_perguntou rindo, os braços cruzando-se em frente ao corpo.

Suzana empinou o rosto e sorriu de forma bastante irônica.

—Poderia se passar o tempo que fosse, ainda assim eu acabaria com você num duelo.

Max soltou uma gargalhada, o que fez Suzana sorrir mais ainda e pares curiosos de olhos se espantarem a súbita mudança de postura de Max.

—Estou vendo que continua com a mesma modéstia, mas devo alertá-la que não fiz outra coisa nesses três últimos anos a não ser duelar. Posso estar, provavelmente, muito mais apto do que você neste quesito.

Suzana mordeu o lábio interior, enquanto arqueava uma das sobrancelhas.

—Muito impressionante. Mas deixe-me lembrá-lo que também passei três anos aperfeiçoando minha mira e meus golpes, posso muito bem derrotar você. Não me subestime.

—Eu não faria isso._falou Max com sinceridade, olhando de forma profunda para Suzana.

A menina percebeu a mudança no semblante de Max, enquanto o mesmo parecia focalizar em algum ponto atrás do ombro de Suzana.

—Gostaria de dançar, milady?_falou fazendo graça, enquanto beijava a mão de Suzana.

—Está tentando ser formal?_perguntou ela, um sorriso abafado contendo o que seria uma gargalhada estrondosa.

—Estou conseguindo?

Suzana sorriu, enquanto negava com a cabeça.

—Ótimo, formal pode ser muito...entediante._ironizou Max.

Suzana acompanhou o sorriso de Max, enquanto o mesmo a rodopiava sem rodeios no meio dos casais que dançavam de forma estática e coreografada.

A garota percebeu que Louis os olhava, a cara fechada denunciava sua aversão à Max, e Suzana logo soube o porquê.

—Ele ia me convidar para dançar de novo, não é?_perguntou ao primo, enquanto tentava não rir.

Max fez uma careta.

—Digamos que eu fiz um favor para você._argumentou em sua defesa.

Suzana poderia tê-lo repreendido ou coisa parecida, mas a única coisa que conseguiu falar foi:

—Obrigada, você sempre me salva nas horas mais precisas.

E como se sentindo a paz novamente, Suzana acomodou sua cabeça no peito de Max, fechando os olhos e sendo embalada por uma dança tranquila.

Max apoiou o rosto no topo da cabeça de Suzana e tentou reprimir seus batimentos cardíacos ao máximo, pois, naquele momento, ele havia regredido alguns anos e se sentia como um garotinho.

Suzana tinha o poder de deixa-lo fraco, de sugar todas as suas forças e agora, mais do que nunca, ele se sentia desprotegido, pois estava em casa.

Sua casa era Suzana.

***

Fazia anos que Max não sentia-se tão bem. A noite anterior havia sido mais significativa do que o rapaz poderia pôr em palavras. Ter Suzana ao seu lado foi como um bálsamo para sua alma, um anestésico para todas as noites que passara acordado imaginando se ela estava bem e o que estaria fazendo.

Victor não precisou se empenhar para perceber o bom humor do filho, Max irradiava felicidade, expondo todas as fileiras de dentes enquanto sorria por nada.

—Ok. Já chega._Victor se levantou da mesa de forma brusca, fazendo com que a esposa e os filhos o encarassem alarmados._Quero você no meu escritório agora._grunhiu ele na direção de Max, enquanto o mesmo franzia o cenho em confusão.

Victor saiu pisando firme, enquanto Mary e Victória assistiam-no sumir com Max em seu encalço.

Max percebeu sua paz interior se esvair no instante que se sentou no escritório do pai e viu o mesmo fuzilá-lo com os olhos.

—O que pensa que está fazendo?_rosnou Victor, incapaz de refrear a fúria que lhe corroía.

—Não entendo o que senhor quer dizer._garantiu o filho, tão sereno quanto podia.

—Não se faça de idiota, Max! Eu observei você a noite inteira e, devo dizer, não estou nem um pouco feliz com o que constatei.

Max ponderou suas ações na noite anterior.

Ele havia agido conforme ditava as regras. Dançou com, praticamente, todas as damas do recinto; conversou com os cavalheiros e cumprimentou cada senhora.

Embora tivesse desejado passar cada segundo ao lado de Suzana, ainda assim se conteve. Apenas em momentos oportunos ele conseguia capturá-la para mais uma dança, tentando sorver daqueles míseros momentos todas as incontáveis horas que ficaram afastados.

—O senhor terá de ser mais específico._pediu o rapaz com seriedade.

Victor parecia que iria partir para cima do filho a qualquer segundo, mas seus bons modos iam contra essa vontade insana.

—Me refiro à você e sua prima! Acha mesmo que conseguiu enganar à todos?

O queixo de Max pendeu um pouco. O pai ter identificado que seu sentimento pela prima ia além de mera amabilidade entre parentes não o preocupava, o fato de Victor se opor ao mesmo é o que lhe incomodava.

—Não estava tentando enganar ninguém, pelo muito contrário: fico feliz que meus sentimentos por Suzana tenham ficado tão explícitos._argumentou Max sem nenhum vestígio de vergonha. Amar Suzana era errado, ele sabia; mas, ao todo, não era o maior empecilho, não se o sentimento fosse recíproco.

Victor se levantou da cadeira, os olhos inflamados em perplexidade.

—Como ousa falar isso com tamanha naturalidade, Max?! Eu o proíbo de manter qualquer tipo de relacionamento amoroso com aquela garota!

Max se pôs de pé também, a face tão contorcida em fúria quanto a do próprio pai.

—Você não tem esse direito sobre mim! O que você tem contra o que eu sinto e o que eu deixo de sentir por ela?

—Não é óbvio?! Uma garota como ela não serve para você!

A mesquinhez do pai fez Max recuar dois passos, não por medo, mas por vergonha alheia. Vergonha do que o pai havia se tornado ao longo dos anos bem diante de Max.

Era como se Victor houvesse mantido oculta sua essência durante todas aqueles anos e, agora, a liberasse sem qualquer vestígio de remorso.

—Como pode inferiorizá-la dessa forma?_as palavras foram apenas sussurros, mas foram o suficiente para Victor ouvi-las.

—Apenas estou expondo fatos. Pessoas como ela não se casam com pessoas como nós, isso é bastante claro à todos._falou pragmático, como se os sentimentos de seu primogênito não estivessem em jogo.

—Suzana é mais superior do que qualquer um aqui nessa casa, não ouse rebaixá-la pelo tamanho de sua riqueza!_defendeu-a Max, tão espantado com as palavras do pai que não conseguiu manter o equilíbrio na voz.

—Chega!_o grito de Victor pareceu ressoar por toda a casa, mas não amedrontou Max. Ele já era um homem feito, seu pai parecia não perceber que estava diante de um soldado muito bem treinado e não do garoto de três anos atrás._Não quero você se encontrando com ela! Espero ter sido bastante claro!

As palavras de Victor feriram Max mais do que o pai podia imaginar. A oposição dele à Suzana tornava tudo mais doloroso, mas, ainda assim, não impossível. Na noite anterior, enquanto os olhos de Suzana o faziam vagar pelos melhores dos sentimentos, Max soube que nenhuma outra mulher conseguiria intrometer-se em sua vida e tomar o lugar que era de Suzana por direito. Mesmo agora, enquanto encarava o pai, Max sabia que isso não aconteceria.

—Você pode falar o que bem quiser. Apenas Suzana pode me fazer desistir dela._as palavras de Max tiveram o efeito esperado em Victor: seus olhos se arregalaram e seu queixo pendeu momentaneamente.

—Não me faça ter que tomar providências, Max._alertou o pai.

Max encarou o chão e abriu a porta. Antes de sair do cômodo, porém, se voltou para o pai e aconselhou:

—Para o nosso próprio bem, pai, não se meta. Isso não lhe diz respeito.

Max nunca havia faltado com o respeito à Victor, mas não pode não fazê-lo. Sua vida era revestida de escolhas. Suzana era a melhor das escolhas e, até que ela desistisse de fazer parte de sua vida, Max a manteria junto a si, sempre. Não seria a fúria do pai ou a oposição dos tios que o fariam desistir de um futuro ao lado dela. Nada o faria.

Notas finais
Desculpem qualquer erro... Deixem comentários sejam eles para parabenizar ou para criticar, todos são bem-vindos. Bjs...